Sensualidade para dar e vender! (da série mulheres que me fizeram feliz)

Por Pablo Ramos

Você não pode deixar de ver o vídeo no final deste post!

Elas são ousadas, sensuais, inteligentes, espertas, sagazes, gostosas, desinibidas, santas, malandras, lindíssimas, bem resolvidas, dominadoras, nômades, conquistadoras de homens e de mundos; fazem o que querem, e quando há contratempo saem-se sempre o mellhor possível dentro de suas limitações, são cativantes, insinuantes guerreiras, pernas boas, olhos sinceros. São tudo isso e mais: são LIVRES!

Não, não estou falando das amazonas, nerd incauto. Tirem as crianças da sala porque estão entrando em cena as fêmeas mais fêmeas da nona arte. Vivem em regime de poliamori com seu autor, Milo Manara, e frequentam fantasias de marmanjos, moleques e moçoilas.

Poucos conseguiram homenagear as mulheres com tamanha ousadia e intimidade como fez Milo Manara, italiano de mil novecentos e vovó gatinha, que deu à luz dezenas de personagens extremamente femininas, sensuais e, acima de tudo, LIVRES.

Tive a sorte de conhecer a obra deste gênio da melhor maneira possível: num banheiro. Quase sem-querer passei pelo exemplar do CLICK. Não havia nada ali que eu não conhecesse de cor, não era criança, mas tudo era apressentado de uma forma tão… familiar!

A capa faz parecer mais explícito do que realmente é: Manara economiza nos órgãos em pinceladas sensualíssimasi

Manara tem a ousadia de Nelson Rodrigues, a profundidade do Chico Buarque e a libido de um adolescente, além de muito talento no desenho e a influência da produção italiana. Isso só podia dar em boa coisa!

Os italianos, aliás, não fazem os melhores cinema e quadrinhos eróticos do mundo, já que é lá, tão perto do Papa, que o fogo latino se juntou com o imaginário europeu.

Em sua história mais conhecida, O CICK, Manara nos apresnta Cláudia, ecatada esposa de milhonário, que é vítima de uma experiência mórbida e tem instalado em seu cérebro um chip capaz de estimular sua libido instantaneamente, uma vez ligado. O controle remoto desta engenhalho do caroca está nas mãos do cirurgião que a instalou, e daí já se pode imaginar que esta história dá látex pra manga…

Cláudia passa angustiantes páginas lutando consigo mesma enquanto o safado vai atrás, num misto de espião e algoz, ligando a maquininha nos lugares mais inadequados ou quando ela está na presença de padres, coisa do tipo. E que ele faz isso porque é apaixonado por Cláudia e tem raiva por ela ser um furacão e se fazer de santa para a sociedade. Mas ele NUNCA usa a máquina para comer a moça, e sim para expo-la em público, na cabine da loja com o vendedor, no cinema com um estranho na frente do marido, na praia com um “novinho”, na estação de esqui… A vingança do homem dá mais tesão nele do que possuí-la.

Mas a história tem outros meandros e o vilão sempre deixa dicas de que a maquininha instalada na cabeça de Cláudia apenas elimina as barreiras da pessoa, não aumentando sua libido, e sim liberando-a. Sacaram? O que salva Cláudia, no final das contas, é que ela é mesmo aquela cachorra, e não o fato de estar dominada por alguém, possuída por um demônio, controlada telepaticamente… Cláudia não é um skrull, é ela mesma e pronto – ela é aquela máquina de sexo…

Tanto que na última página, a máquina já quebrada, ela começa a se excitar de novo e pede para quem estiver controlando… ligar no máximo!

Ui. Que calor! Perai que eu já volto…

...aguarde um instante... sua ligação é muito importante para nós

Aonde eu estava mesmo? Ah, sim…

Manara faz um verdadeiro tour pela psiquê proibida dos fetiches e fantasias, somente do CLICK há pinceladas de cuckolding, voyerismo, pedofilia, sadismo,  masoquismo e vários tabus… Ufa!

Com seu desenho limpo e detalhado, cheio de referências e influências do cinema, da literatura e da pintura, Manara consegue dar status de arte ao que nunca devia ter deixado de sê-lo.

Já ouço os gritos: HEREGE! HEREGE! PORNOGRAFIA NÃO É ARTE! Claro que não! Estamos falando, aqui, de arte ERÓTICA . O erotismo sugere, enquanto o pornográfico exibe. Sem se concentrar na periferia, ou seja, nos membros, o erotismo vai no centro do prazer para etivar a libido, busca referências para combinar as coisas numa fórmula que atrai como o canto das sereias. Parafraseando Edgar Allan Poe, quando define o terror, o erótico não é o que excita em si, mas uma certa combinação de elementos que causa um certo distúrbio mental, um estado de proibido e atraente que tira o sujeito do eixo… Falei bonito?

E não é só: enquanto o moralismo tenta cobrir a psiquê com a peneira, há quem diga que a obra de Milo Manara, assim como o erotismo, a pornografia e o escambau… agora atenção, vou falar bonito denovo… DENIGREM A IMAGEM DA MULHER!

Se em 1950 alguém sugerisse mulheres queimando sutiãs nas ruas, isso seria considerado, também, altamente pornográfico – um verdadeiro atentado à dignidade feminina. Lamento muito, mas mulher e libido têm tudo a ver (não, na verdade não lamento).

Manara mostra a mulher solta e dona de seus desejos – mesmo Cláudia tem seu final feliz de pernas abertas, depois de parecer um caso de frigidez perdido. Milo Manara recria, em cada nova mulher, a libertação DA mulher. Nas habilidosas mãos deste italiano a mulher devassa, tão comum quanto necessária em qualquer tempo e lugar, é alçada ao pedestal máximo do imaginário de suas vítimas, nós, homens, essas crianças opacas.

Como diria Clarisse Lispector, com palavras bem melhores que essas:

Aqui entre nõs, acho que o Manara se inspirou nela hein… que gata!

Em parceirias com cineastas, entre eles Federico Felini, levou para os quadrinhos obras primas como Viagem a Tulum, com roteiro que ninguém menos que Federico Felinni! Quem procurar, nesta obra, um enredo com começo, meio e fim, vai se depcepcionar. A imaginação é liberada do começo ao fim, num cenário de realismo fantástico comparável ãs paisagens de Moebius.

Na série Os Bórgia, desnuda a devassidão da roma de 1492, quando da assunção de Rodrigo Borgia, pai de Lucrécia Borgia, ao papado. Manara tem uma capacidade incrível de representar figurino e ambientação histórica, o que torna a história, além de excitantemente esclarecedora, muito verossímil. Infelizmente, no Brasil o lançamento de Bórgia foi confuso: os dois primeiros números saíram em seqência, mas o terceiro veio muito tempo depois, sem divulgação (muitos já achavam que não sairia mais) e em menos pontos de venda. Mas não desanime, baixe o scan dos três volumes: clique na imagem ou aqui: http://ebooksgratis.com.br/tag/milo-manara/#ixzz1lBivH3Wi

As mulheres de Manara nunca se desculpam. Correm pelas ruas, nuas, enquanto desvendam mistérios e são perseguidas, observadas, sequestradas. Mas sempre se libertam, aprendem e seguem em frente. Isso quando não são super-heroínas, como no caso da publicação de X-WOMEN, com roteiro de Chris Claremont. É, nerdada, pensam que o homem brinca em serviço? Tempestade, Vampira, Gean Grey, Psylock e compania estão de férias na grécia, nas mãos do maior delineador de quadris provocantes da história! Ouvi rumores de que o roteiro não é lá essas coisas, mas vale conferir Kitty Pride atravessando as paredes de um iate com o jet-sky intangível e o popô empinadinho, derrubando homens de susto e paixão instantânea…

Manara é isso, uma força indomável  em busca permanente pela beleza, sem rédeas e muito menos travas. Ele consegue trazer à tona, de maneira lúdica e às vezes inocente, a sensualidade nossa de cada dia, aquela que fica guardada a sete chaves. Ele trasz para o kardim ensolarado o monstro que prendemos no sótão, para vermos se ele é tão grande quanto pensamos. Quando vemos, ele é inofensivo sem deixar de ser enorme… Porque afinal, tamanho É documento.

Este é o video que vc tem que assistir:

Wikipedia - http://pt.wikipedia.org/wiki/Milo_manara

Site Oficial: http://www.milomanara.it/

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Minha vida é um livro aberto cujas páginas o vento leva My life is an open book whicht pages are taken by the wind

Publicado em 06/02/2012, em BAR DA BARDA e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. 11 Comentários.

  1. Se pornografia não é arte, tanto pior pra arte.

  2. Libertino, devasso, libidinoso, transgressor, audacioso, lindo, excitante, provocante… livre.

    Puro Santuário.

  3. Allan, que o diga Carlos Zefiro, que sem instito criativo ALGUM entrava no imaginário coletivo como ninguém! Sem falar na nova geração que está arrebentando nas grandes editoras americanas… É nóis!

    Lucas, Manara tem um efeito progressivo: Quanto mais vamos perdendo a inocência, mais mudam as historias! Sério, as histórias mudam…………. Ler o click hoje é OUTRA COISA BEM DIFERENTE do que eu li pela primeira vez….. Não sei como ela faz isso, mas FAZ !

    Janaina, obrigado pelo entusiasmo! É bom ver vozes femininas ao lado dos verdadeiros homens-sensíveis-heteros-bem-resolvidos :-)

    Bianca, meu bem… se vc quiser eu levo as revistas ai e lemos juntos…

    Fred, disse TUDO! Há um pouco delas em cada mulher no mundo! É incrivel, mas axo que o Manara tem hipersensibilidade às vibrações oníricas da psicosfera feminina!!!!!

    Jason, seja lá quem for…. pára com isso, tá me assustando !!!!! Ai meu deus, cade o emoticon do medo????? Oh não! Nãààooo…………

    Se nosso herói sobreviver, fica a idéia: Próximo post: CARLOS ZÉFIRO

  4. Allan B. Oliveira

    Manara é muito bom! Os europeus dão banho nos americanos em quadrinhos. Mas nós brasileiros ganhamos de ambos!

  5. Ótima matéria parabéns.
    Eu, puritano que sou, não consegui me sentir agredido nem pelas passagens do Manara nem pelo texto da matéria kkk
    Excelente.

  6. Arrazou! As vezes tenho a impressão que o machismo parte muito mais das mulheres do que dos proprios homens, a mulher, julga mais e crucifica muuuito mais o comportamento da outra.
    Clarice diva! Adorei a citacão dela incluida no texto.
    Parabens, vc se superando cada vez mais! Talento, talento, talento.
    Bjssss!

  7. Fred Bastos

    ” Elas são ousadas, sensuais, inteligentes, espertas, sagazes, gostosas, desinibidas, santas, malandras, lindíssimas, bem resolvidas, dominadoras, nômades, conquistadoras de homens e de mundos; fazem o que querem, e quando há contratempo saem-se sempre o mellhor possível dentro de suas limitações, são cativantes, insinuantes guerreiras, pernas boas, olhos sinceros. São tudo isso e mais: são LIVRES! ” Elas são as mulheres da minha vida, estão em minha esposa, em aspectos de minha mãe e na moça do cafezinho do restaurante que como durante a semana, essas heroínas de Manara! Parabéns! Também tive o PRAZER de conhecer Manara atravéz do O Click.

  8. Gostei! …………………………………………………………

  9. Entendo a estética e crítica que Manara faz com sua obra, considero ele um dos últimos grandes mestres da arte sequencial ainda vivo ( Moebius ainda está?). agora fiquei com vontade de ter algumas coisas dele na estante…Mercado Livre está aí pra isso! kkkkkkkkkkkk

  10. Leticia "Nimphadora" Fiuza

    Eu já li algumas coisas dele, em casa de amigas; Elas chegaram a vê-lo quando veio ao Rio.

    Confesso que não curto muito, mas não dá pra negar que são muito bem feitas.

    E o texto também está ótimo =)

  11. Uma das melhores entrevistas que vi no Programa do Jô Soares nesses últimos 2 anos, onde dificilmente algum entrevistado consegue falar sob pena mortal de embaçar o brilho do entrevistador , foi a do Manara, e esse cara deu show. Que bom que desde moleque eu tinha sido apresentado a obra do cara e pude curtir e sorver ao máximo o barato que foram esses 17 minutos mágicos. Infelizmente não pude ver ao vivo aqui no Rio, nessa mesma oportunidade.

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