BLADE RUNNER, Os androides sonham com ovelhas eletrônicas???

Por Venerável Victor “TRATADOR IMPLICANTE”  Vaughan

E se você assim como Rachel, descobrisse um belo dia que todas suas memórias não são verdadeiras? Que tudo o que você acreditava como real e concreto não passava de experiências vividas por uma outra pessoa, algo que foi implantado em sua mente para que você acreditasse ter vivido muito mais do que realmente viveu e te desse a sensação de pertencer a sociedade, de ter vínculos e laços com uma humanidade que o criou e teme seu potencial, o escraviza e não te compreende mas no fundo é exatamente igual à você, vive a angústia de não saber de seu criador quanto tempo ainda lhe resta, viver com medo, também é ser escravo e isso nos faz iguais, andróides ou humanos.

A ficção científica tem um dos maiores desafios entre os gêneros do cinema. Não só por lidar com universos paralelos ou previsões de futuro, mas criar uma narrativa atraente na relação entre os elementos apresentados – alguns que só existem na imaginação do roteirista. Além disso, a visão do presente nesses filmes pode levar à reflexão do futuro real – nessa categoria, Blade Runner – O Caçador de Andróides de 1982 é um clássico e maior exemplo prático dessas idéias.

Hoje não se discute o fato desse filme ser um dos maiores marcos da história da ficção científica. Mas nem sempre foi assim. O filme de Ridley Scott foi uma das grandes expectativas de sucesso de bilheteria de seu ano de lançamento, mas o clima pesado e deprimente do filme, aliado à trama filosófica e hiperrealista, marcou um enorme ponto de interrogação nas cabeças dos poucos que foram assistir ao filme nos cinemas e perderam a trilha sonora espetacular composta pelo  grupo Vangelis. principalmente uma das maiores músicas de amor de todos os tempos. O Tema de amor de Rachel e o caçador de andróides.

Mas se alguém já havia percebido o potencial de Blade Runner, este alguém era o autor da obra que havia inspirado o filme. O livro O Caçador de Andróides (ou, em inglês, Do Android Dream of Electric Sheep? – Andróides sonham com ovelhas elétricas?), de Philip K. Dick, foi a primeira adaptação da obra do clássico autor de ficção científica para o cinema, apresentado pela primeira vez a seu universo de dúvidas existencialistas e questões filosóficas disfarçadas de historinhas de robôs, alienígenas e drogas sintéticas.

A história se passa na cidade de Los Angeles, no ano de 2019. Em uma breve introdução é contextualizada a relação entre a humanidade e os chamados “Replicantes”. Estes últimos eram andróides idênticos aos seres humanos, porém, mais rápidos, fortes e espertos que seus criadores. Eles eram utilizados como escravos para a exploração espacial, um serviço pesado e perigoso. Houve então uma revolta em uma colônia de Replicantes. Estes andróides foram considerados ilegais na Terra, sob pena de morte. Assim, para o controle da situação, entrou em cena a brigada especial Blade Runner, uma espécie de unidade policial com ordem para eliminar qualquer Replicante quando identificado. “Isso não se chamava execução, mas sim afastamento”, como explica o texto inicial.

Uma cidade tomada por prédios com mais de cem andares e carros voadores é o cenário apresentado, onde Deckard (Harrison Ford) é incumbido de eliminar quadro “bonecos”, da série Nexus 6 – como são chamados preconceituosamente os replicantes entre os policiais  –  recém chegados ao planeta. O que começa como uma história de gato e rato logo ganha contornos épicos sobre a natureza da consciência e o que faz de cada um de nós humanos. Nessa busca, o caçador percorre a versão futurista de muitos ambientes comuns do dia-a-dia e, em muitos deles, nem o avanço tecnológico conseguiu acabar com a pobreza e miséria. O que nós chamamos de DISTOPIA e já foi falado no Santuário, caro Devoto, em outra resenha “vaughaniana” de filme, aqui.

Na caracterização do filme, aspectos como o envolvimento da mocinha, que no caso é uma Replicante, com o protagonista e o clima noir remetem imediatamente à histórias de detetive. Diferente das outras películas do gênero, Blade Runner apresenta uma sociedade sem muitas extravagâncias, a não ser por cenas nas ruas em que, talvez como reflexo do ápice da globalização, é possível perceber Judeus, Krishnas e Islâmicos se esbarrando amigavelmente na multidão.

Mesmo com a falta de efeitos especiais sofisticados, o diretor Ridley Scott e sua equipe de produção conseguiram criar um conto em que cada personagem tem suas motivações, seja do caçador que se envolve com uma de suas caças ou dos bonecos que só querem um pouco mais de vida, assim como seus criadores.

Blade Runner agora está restrito às prateleiras mais baixas da seção dos filmes baratos nas locadoras e na grade da madrugada da televisão, mas sempre seus genes servirão de base para os clones cinematográficos da ficção científica. Vale conferir uma história envolvente e se espantar com as perspectivas de futuro daquele tempo – como o mandarim fluente nas ruas de Los Angeles – e que hoje se tornam tão presentes agora em nossa realidade com a ascendência de países como a China e o Japão no resto do mundo.

K. Dick, que morreria no mesmo ano de estréia do filme, sem conseguir assistir à sua versão final, assistiu a um trecho dos bastidores em um programa de TV e escreveu , a seguinte carta ao produtor do filme Jeff Walker que pode ser encontrada no site que a família do autor mantém sobre sua obra:

11 de outubro de 1981

Caro Jeff: Assisti ao programa Hooray for Hollywood, que passou hoje à noite no canal 7, com uma matéria sobre BLADE RUNNER (bem, para ser honesto, eu não assisto a esse programa; alguém me avisou que iriam fazer uma matéria sobre BLADE RUNNER e que seria bom se eu assistisse). Jeff, depois de assistir – e especialmente depois de ouvir Harrison Ford discutir o filme -, cheguei à conclusão que isso não é ficção científica; e que não é fantasia; isso é exatamente aquilo que Harrison disse: futurismo. O impacto de BLADE RUNNER será simplesmente surpreendente, tanto no público quanto nas pessoas criativas – e, eu acredito, na ficção científica como um todo. Desde que comecei a escrever e a vender obras de ficção científica há trinta anos que isso é algo importante para mim. Devo dizer com toda franqueza que esta área gradualmente e permanentemente vem se deteriorando nos últimos anos. Nada que fizemos, individualmente ou coletivamente, chega aos pés de BLADE RUNNER. Não é escapismo; é super-realismo, tão realista e detalhado e autêntico e convicnente que, bem, depois de assistir ao programa eu reencontrei pálida, por comparação, a minha “realidade” atual. O que quero dizer é que todos vocês podem ter criado coletivamente uma forma única de expressão artística e gráfica que nunca foi vista. E, eu acho, BLADE RUNNER pode revolucionar nossos conceitos sobre o que é a ficção científica e, mais, o que ela pode ser. Deixe-me resumir desta forma. A ficção científica preparou lenta e inevitavelmente uma morte monótona para si mesma: tornou-se senso comum, derivativa, rasa. De repente, vocês aparecem, alguns dos melhores talentos que existem hoje em dia, e agora temos uma nova vida, um novo começo. E sobre o meu papel no projeto BLADE RUNNER, só posso dizer que nunca havia imaginado que um trabalho meu – ou um conjunto de ideias minhas – poderia ser elevado a dimensões tão inacreditáveis. Minha vida e meu trabalho criativo estão justificados e completos graças à BLADE RUNNER. Obrigado… e será um tremendo sucesso comercial. Provará-se invencível.

Cordialmente, Philip K. Dick

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EU SOU A FONTE!

Publicado em 15/08/2012, em Sem categoria e marcado como , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 45 Comentários.

  1. Cara, baita texto como sempre.
    E este filme é muito bom. Tenho ele na coleção e ainda me lembro a primeira vez que vi com meu pai quando era bem pequeno hehe
    Recomendo a leitura do conto que deu origem e a posterior quadrinização que sai no EUA em uma maxisérie. Lendo isso se tem uma visão mais completa do que o autor do quis passar. Muito legal.
    Deu vontatde de ver o filme de novo hehe Este fim de semana vai ser bem nerd hehe Tô com vontade de jogar Star Fox e ver Blade Runner agora, vou pegar minha quadrilogia de Alien junto e fazer a festa hehehe
    Valeu meu, grande abraço.

    http://www.palitosnerds.blogspot.com

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  2. Puta filme! Tenho ele e não empresto nem f*.
    Confesso que ao ler o comeco da materia pensei, hmmm… descreveu o transtorno bipolar.
    Muto bom.Bj.

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  3. Uma obra incomparável esse clássico que não envelhece!

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  4. Bom texto Victor.
    Li o livro há muitos anos, mesmo antes do filme sair… eu era adolescente na altura e fã do K. Dick. Eu e o meu irmão tínhamos TODOS os livros dele, e este Blade Runner nem sequer é o melhor.
    O filme é considerado de culto, toda a gente o devia ver pelo menos uma vez que fosse. A cena do final do replicant interpretado pelo Rutger Hauer é emocionante no filme…

    Abraço

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  5. Filme foda, texto idem!

    Essa filme é iconográfico, mesmo que seja superado em algum momento, apenas o fato de ter sido feito é história.

    =D

    Poderia rolar uma lista dos mais mais nesse gênero, Sr Símio ^^

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  6. muto bom Victor! Filmaço! Lembro na época do lançamento não pude assistir no cinema. assisti bem mais tarde na teve e depois comprei a fita de vídeo e hoje tenho um dvd com a versão do diretor que ficou muito mais sinistra!Um clássico. Valeu mais uma vez!

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  7. Todos as dezenas de contos do K. Dick que foram adaptados para o cinema, muito pouco foram fiéis ao original, ao romance, talvez O HOMEM DUPLO, seja a exceção da regra, que aliás amei também. Já no caso do Blade Runner, que bom que apenas foi inspirado no original, pois é tão maior, tão mais fantástico! :)

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  8. Belo texto, Victor!
    Um excelente filme! Um clássico da ficção científica. O que surpreende bastante é a criatividade, as sacadas e a profundidade da obra.

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  9. Belo texto!
    Um ótimo filme de ficção científica, que se tornou referência do estilo.

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  10. Um grande filme de Ridley Scott,baseado no excelente livro de Phillip K. Dick.Um futuro caotico,o homem brincando de ser Deus(criando outras formas de vida),e a pergunta,nas entrelinhas:O detetive Deckard é um Replicante ou não?!Mais uma otima resenha “vaughaniana”!

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  11. Tenho a versão do diretor aqui em casa, se não me engano, o primeiro DVD lançado no mercado…e quando o Scott finalmente admitiu que o caçador também era um replicante (fato que por anos eu acreditava) eu disse: “yes!!!”

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  12. Blade Runner é Cult, clássico, ciber punk e tem estilo, ele é único… uma crônica da busca do homem em se tornar Deus imortal, em criar vida e de punir suas criações.

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  13. O filme mudou minha concepção de cinema e forjou meu imaginário de futurólogo de plantão – e a trilha… bem, a trilha me mostrou o que é realmente música. Uma obra épica, histórica, inesquecível, uau….

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  14. marcos vasconcellos

    Blade Runner é um clássico não só para quem gosta de ficção científica, mas para quem gosta de cinema. Foi passado e repassado milhões de vezes na televisão devido ao seu megasucesso e por isso o desgaste de sua execução. A trilha é genial e maravilhosa como todo o filme, que acabou lançando ao estrelato, como cineasta de arte, Ridley Scott que executa aqui sua obra prima prematuramente. Hoje em dia, temos tido vários exemplares de ficção cientifica, mas que jamais chegam ao nível de obra de arte como esse – parece que a tecnologia não tem mais a sedução que havia antigamente, pois liga-se ao capitalismo devastador e a morte das utopias, o fim de uma idéia que a tecnologia salvaria o planeta que retirou a magia dela e entregou o seus louros para o presente, o qual não conseguimos dar conta, com tudo de efêmero que acontece e o vazio que reside em cada mente sem expectativas de salvação. Mas, a reverência que foi dada à grande obra que é Blade Runner, é devida e oportuna – que saudade das ilusões de um futuro mágico! Parabéns! Marcos Vasconcellos

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  15. 2019 já está tão perto e ultimamente o único andróide que eu vi foi na novela das 7…kkkk

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  16. O texto é ótimo mas devo confessar…..

    Detesto filmes de ficção científica e detesto o Harrison ford :P

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  17. Allan Botino

    Melhor filme cult da época e os americanos (o povinho) nem curtiram muito…só muitos anos depois se ligaram da qualidade da obra…

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  18. Um dos melhores livros que já li.

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  19. Victor, esta foda! Sou fã alucinada do Phillip K. Dick e a transcrição de Blade Runner para o cinema foi simplesmente perfeita! Nem tenho o que dizer…

    Bjus

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  20. Muito foda… o filme e o post. Putz, esse filme me influenciou muuuito…

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  21. Nilson Andrade

    Metrópolis foi visionário. Flash Gordon trtatou do lado humano, mas o primeiro a unir os dois extremos e realmente “prever” o futuro foi Blade Runner.

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    • Pois é Nilson, Blade Runner foi realmente visionário, quase um filme divinatório e é importante dizer que foi o PRIMEIRO a receber a alcunha de “filme cult”, aí sim muitos outros anteriores também foram para essa categoria de “cultuados”. A dobradinha F.K. Dirk e Ridley Scott deu muito certo, êta casamentinho bom!

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