Por Rodrigo “Abissal” Broilo
Dias atrás nosso irmão de fé Henry Garrit nos trouxe a resenha da recente edição de Liga da Justiça e levantou uma importante questão, a qual quero trazer novamente a tona (senão para debate, apenas para exposição), sob a macieira da vida.
Na dita resenha, levanta-se a questão sobre Superman matar vilões, ao que nosso amigo providencialmente acrescenta: “Nada mais é sagrado?”. Com base nos nossos conhecimentos super-heróicos, pressupostos filosóficos sobre moral, justiça e amor ao próximo, quero propor algumas questões para ser respondidas no íntimo de nós mesmos, já que são as perguntas, e não as respostas, que movem o mundo e que a Verdade é relativa.
Pode um Super-homem, um herói normal, ou um vigilante matar um inimigo? Muitos irão responder “Depende!”. E realmente depende. Do lugar, da ocasião, dos envolvidos, mas principalmente do conceito. Para esse herói (ou sejamos mais diretos: para nós) toda e qualquer vida é importante e deve ser preservada? Ou, se for pra salvar dezenas, centenas, milhares ou milhões de vidas, uma ou mais podem perecer? O primeiro conceito é facilmente reconhecido, pois sempre foi o norte de muitos heróis de quadrinhos, e se encontra, inclusive, em muitas correntes filosófico-religiosas. Já a segunda é o utilitarismo clássico dos Vigilantes (Watchmen) de Alan Moore.
Quantas vezes a dúvida não perpassou a mente de Bruce Wayne a cerca das vidas que ele teria salvado se tivesse matado o Coringa? Que tipo de super-herói é aquele que deixa um terrorista ou um assassino em condições de voltar a cometer seus erros? Entre matar ou não matar um inimigo, há uma intrincada e imprevisível cadeia de conseqüências, para o herói e para quem ele salvou ou deixou de salvar.
Independente de se condenar ou salvaguardar a posição de um herói que mata pelo bem maior (ou que seja em legítima defesa, como nos assegura a lei humana), deixar que um herói ou vigilante decida sobre a vida de outrem é dar a ele um poder maior que invulnerabilidade, intangibilidade, estratégia ou visão de calor. É permitir que ele seja juiz, júri e executor. É dar a ele a liberdade de escolher quem vive e quem morre e incorremos em projetar o próprio a sua queda. Alan Moore usou como epítome de sua obra, Watchmen, um dos dizeres de Friedrich Nietzsche: “Quem luta contra monstros deve tomar cuidado para que, durante o processo, não se torne um monstro também. (…) quando você olha para o fundo do abismo, o abismo também olha para você”. Não são Clark e Lex o observador e o abismo? Não seria o Batman e o Coringa faces de uma mesma moeda? Um que tem o poder e outro que o quer? O que freia a loucura e o que deixa a insanidade correr solta? Dar poder de decisão aos heróis e vigilantes é deixar que eles caminhem para serem Lordes da Justiça, como no desenho animado da Liga da Justiça. Dar aos super-heróis o comando de nossas vidas é fazer o que fazemos em nossa realidade com a política e a religião: abdicamos de nossa escolha, ou por julgar que outros o podem melhor ou para não incorrermos em erros de nossa própria culpa. Mas “quem vigia os vigilantes?”

Para um filho, um pai que rouba ou trafica, mas que trás comida a sua casa e o dá amor e carinho, é um vilão ou um herói? Para nós ele é o que? A vilania e o heroísmo batem a nossa porta e a porta do vizinnho da mesma maneira? O que é bom e justo pra mim, é para todos? Pode o Superman definir isso por mim? Albert Einstein nos diria que “tudo é relativo”. De fato.
Já Isaac Newton vai nos dizer que “toda ação gera uma reação de igual intensidade, mas em sentido contrário”, um dos postulados que revolucionou a física ao seu tempo e é a mecânica por trás do universo como o conhecemos e de muitas filosofias e/ou religiões.
Tudo o que fazemos ou deixamos de fazer, gera uma conseqüência. Batman não matou o Coringa, mas ele matou, e até aleijou Barbara Gordon. Peter Parker não deteve o ladrão, mas o ladrão matou seu tio. Superboy morreu, mas não deteve para sempre o Primordial. Superman não matou algum vilão, mas esse matou um pai de família que deixou órfãos e viúva. Quais são as conseqüências de atos heróicos? O menino que é espancado por ajudar um mendigo é um herói ou um cumpridor do seu dever?
No campo de batalha da vida, pensar nas conseqüências de nossos atos pode ser ainda mais difícil, mas a questão é que, dada uma ou outra decisão, a reação será irremediavelmente encarada. Mesmo a omissão tem repercussão. Debater, discutir e ser auto-crítico não é de nossas maiores virtudes, admitamos. Muitos podem o ser, mas não é consenso geral. E atribuímos ações e reações a divindades.
“Deus sabe o que faz”, ou “entrega pra Jesus”, ou “Deus não mata, mas achata” são só algumas das expressões que caracterizam o quanto a sociedade, especialmente a ocidental latino-americana, acredita que há conseqüências em seus atos, mas que cabem ao Divino, e não a elas próprias. Se você comete um crime, você pode ou não pagar em vida (mesmo que aqueles que sofreram com isso queiram justiça – ou mais comumente vingança), mas a religião e a crença na pós-vida dizem que você vai arcar, seja ardendo no inferno, seja expiando em outra existência, seja reencarnando como um sapo. Tudo que vai, volta. É newtoniano, é cármico.
Qual a carga cármica de um super-herói que mata? Quantas expiações um vigilante terá? Mas o que ele fez não foi com boas intenções? A Mulher Maravilha vai pro céu?
Aqui nós chegamos a outro impasse, muito mais profundo, que é a crença em Algo Superior. Não vou discutir esses termos (religião, junto com sexualidade e futebol, é alguns dos temas que eu não me pauto a discutir). Mas aqui cabe relembrar o teorema de Blaise Pascal, grande matemático, cientista e filósofo do século XVII, sobre a fé e a conduta. Usando a figura de um cavaleiro ateu e um camponês temente a Deus, ele formula uma equação em duas variáveis, que é (1) a existência ou não de Deus e de uma vida ou compensação futura, e (2) a forma como conduzimos nossa vida na terra. Se eu acredito no, digamos, “depois” e viver dignamente, como um ser justo e moral, e estiver certo sobre o “depois” (ou seja, ele existe, a vida não acaba com a morte) meus atos de bondade em vida, podem ser recompensados. Se eu estiver errado sobre o “depois”, eu ainda assim terei sido feliz por ter sido um bom cidadão e serei lembrado pelas duas gerações seguintes como um homem de bem. Não acreditando no “depois” e vivendo sem pensar em conseqüências e como se só a minha satisfação importasse, se eu estiver certo sobre o “depois” vou apenas ter vivido como um fanfarrão e para muitos terei ido tarde, mas se eu estiver errado e o “depois” existir, ferrou! Pascal quis defender a crença na existência do depois? Não. Pascal quis defender o raciocínio lógico em meio a um século de empirismos sobre a existência de Deus, e exortar a vivencia de maneira digna e justa, independente da existência de céus e infernos, ou de uma divindade julgadora.

Creio que, chegando aos “finalmente” deste pequeno discurso, não trouxe nada de novo, e tampouco alguma resposta. É dever (ou direito?) de cada um interpretar e responder, em seu íntimo, a essas questões. Existe UMA verdade? Vai saber?! O que podemos arbitrar é que cada um tem sua noção de verdade. Pode o Superman escolher quem deve morrer? Pode que a escolha dele gere mortes impensadas? Pode o Batman ser responsável pelos atos do Coringa? Peter Paker matou o tio Ben? Heróis e vilões vão para o céu? São ambos monstros? Quem é o observador e quem é o observado? Onde eu me encaixo nessa viagem mental? O que é justiça e moral, e o que isso tem haver com a minha vida, agora ou depois?
Pensem, ou não. Comentem. Respeitem. Posicionem. Ou deixem tudo pra depois do Big Brother.
PS.: Quem tiver a oportunidade, se achegue da obra “Super-heróis e a filosofia: Verdade, Justiça e o Caminho Socrático” da editora Madras. Algumas das ponderações aqui apresentadas se encontram também nesse livro, de diferentes pontos de vista.