
Por Venerável Victor ”o homem que tem todos os macacos” Vaughan
Hoje vamos a fundo de uma história sem spoilers, novidades ou crises globais. O argumento básico é conhecido, e nem por isso menos surpreendente e cativante: Super-Homem, o último filho de Kripton, mimguém menos que o onipotente Kal-El, recebe um… presente de aniversário! Que por sinal é um parasita mental, que suga o ser do hospedeiro enquanto o encarcera numa realidade sugestionada que é tão somente… o maior sonho da pessoa! E qual seria o maior sonho do Super-Homem, o homem que tem tudo? Alan Moore trabalha esse tema de maneira sublime, criando uma emoção ímpar no leitor ao descobrirmos o real sonho do alienígena e depois a raiva do mesmo ao ser obrigado a renunciar a esse sonho.
Super-Homem: Levante-se verme! Você percebe o que fez comigo?
Mongul: Perfeitamente! Eu elaborei uma prisão que você não poderia abandonar sem abrir mão de seu maior desejo. Escapar dela deve ter sido como arrancar o próprio braço…

O “Passado”
Entre 1980 e 1984, Alan Moore se tornou uma presença recorrente nos créditos das revistas em quadrinhos publicadas na Inglaterra, tanto que a divisão britânica da Marvel e outras editoras do país contrataram-no para roteirizar histórias publicadas em suas revistas.
O início da década de 80 é apontado por estudiosos como um período marcado pelo aumento da popularidade dos quadrinhos no Reino Unido. Um público cada vez menos infantil estava consumindo as revistas e Moore era o escritor mais produtivo e conceituado dessa época. Em mais de uma oportunidade seria Dave Gibbons quem desenharia suas histórias, numa parceria que vinha agradando ambos.

Alam Moore & Dave Gibbons
O talento de Gibbons chamou a atenção da DC ainda em 1982, e já naquele ano o lendário Len Wein o contratou para desenhar a revista Green Lantern Corps. No ano seguinte seria a vez de Moore ser contratado por Wein, que buscava um escritor que pudesse assumir a função de roteirista da revista Swamp Thing, que vinha enfrentando baixas vendas. Moore não apenas faria o título voltar a ter bons resultados de vendas, como seria o responsável, ao lado de outros artistas, por reinventar o personagem Monstro do Pântano, introduzindo em suas tramas uma temática até então inédita, tratando de forma experimental questões sociais e ambientais. Moore assumiu a revista em 1984 e seus roteiros logo atraíram a atenção de público e crítica, impulsionando a editora a contratar outros roteiristas europeus, como Grant Morrison, Peter Milligan e Neil Gaiman, para escreverem outras séries de apelo similar que posteriormente marcariam o início do selo Vertigo de quadrinhos adultos.
Publicada originalmente em Superman Annual 11 de 1985, e recentemente aqui em Grandes Clássicos DC, “Para o Homem que tem tudo” é uma das histórias do britânico que, sempre à frente de seu tempo, também esteve à frente do Homem de Aço.
Considerada uma obra-prima e certamente uma das melhores histórias em quadrinhos já publicada (assim como A Piada Mortal), foi magistralmente ilustrada por Dave Gibbons, o mesmo de Watchmen, parceiro recorrente de Moore.
Tanto antes quanto enquanto trabalhava com o Monstro do Pântano, Moore submeteu à editora inúmeras propostas, buscando trabalhar com personagens como o Caçador de Marte e os Desafiadores do Desconhecido , uma das criações de Jack kirby para a DC, mas todas acabavam rejeitadas por já estarem sendo desenvolvidos projetos com outros escritores envolvendo esses personagens. Pouco depois, o editor Julius Schwartz questionou Gibbons sobre a possibilidade de desenhar uma história de Super-Homem. Gibbons declarou-se disponível, mas perguntou a Schwartz quem ele colocaria para roteirizar a história. Quando lhe foi dito que ele poderia escolher quem escreveria , imediatamente apontou Moore, e rapidamente For the Man Who Has Everything começou a ganhar forma.
Essa história faz parte da cronologia pré-Crise nas Infinitas Terras e prova o argumento de Moore de que o problema da DC não era a cronologia zoada e nem o Multi-verso, e sim a falta de criatividade . For the Man Who Has Everything é vista como uma obra representativa na ”Era de Bronze” dos quadrinhos - entre 1970 a 1986 – por sua abordagem e ineditismo, vindo a ser quase vinte anos após a sua publicação, adaptada pelo também genial escritor J. M. DeMatteis para a série de animação Liga da Justiça Sem Limites.
Participam da história Batman, Robin – aqui o insuportável Jason Todd que substituía Dick Grayson – e a Mulher-Maravilha, todos em suas encarnações pré-crise, ou seja, não espere um Batman sombrio, no entanto esse Batman funciona maravilhosamente, como Dennis O’Neal e Neal Adams tinha mostrado em Contos do Demônio, é um Batman mais detetivesco, como o que Grant Morrison tenta recuperar nos quadrinhos atuais
Repleto de cenas memoráveis, diálogos sublimes, como de praxe nas obras de Alan Moore, além da arte fenomenal de Gibbons, essa é uma leitura obrigatória para qualquer fã de quadrinhos, pois se configura como uma das maiores obras-primas do gênero. E se isso não o convenceu a ler, um último argumento: Moore deve ser o único roteirista a utilizar Jason Todd de maneira inteligente antes da morte do pivete.
O “Presente”
Em 29 de fevereiro, no Círculo Polar Ártico, Batman e Jason Todd, o novo Robin, encontram-se com a Mulher-Maravilha na frente da Fortaleza da Solidão. Batman apresenta Jason a Mulher-Maravilha. Ao entrarem no local, deparam-se com Super-Homem num estado vegetativo e com uma grande planta alienígena presa ao seu peito, com tentáculos em volta de seu corpo.

Paralelamente, é retratado o que passa no interior da mente de Super-Homem… como “Kal-El”, ele vive feliz em um planeta Krypton que jamais foi destruído. Casado com a ex-atriz Lyra Lellol e pai de duas crianças, Van e Orna. Kal-El trabalha no Instituto de Geologia da cidade. Para seu aniversário, seus entes queridos lhe fazem uma festa surpresa, no qual estão presentes sua prima Kara Zor-El, e quase todos os seus familiares, mas não seu pai, Jor-El. No dia seguinte, Kal vai ao trabalho de seu pai, e o encontra em reunião com Lor-Em, líder de uma seita nomeada “Espada de Rao” e Dax-Ar, major do exército kryptoniano. Jor-El pretende se aproveitar do prestígio dos dois para obter maior poder político. Pai e filho começam a discutir, e enquanto Kal tenta expor que se associar com grupos extremistas pode ser ainda mais prejudicial para a já debilitada carreira de Jor-El, este começa a reclamar da deteriorização dos valores em Krypton, com o aumento do tráfico de drogas e o surgimento de problemas raciais com os imigrantes da Ilha Vathlo. É revelado que Lara, a mãe de Jor-El, havia falecido anos antes e que Jor-El havia sido expulso do Conselho de Ciência de Krypton após sua previsão de que o planeta iria explodir se mostrar uma inverdade.

Na Fortaleza da Solidão, Batman analisa a situação, e presume que o embrulho com o “presente” deve ter chegado pelo Canal de teletransporte, enviado por um dos muitos mundos agradecidos pela ajuda de Super-Homem, que não devia saber dos efeitos da planta. Nesse instante, Mongul surge, e revela-se o responsável pelo envio do presente, cuja nome é “Clemência Negra”. Ele explica que a Clemência atraca-se à sua vítima de forma simbiótica, alimentando-se de sua aura e, em contrapartida, provocando um transe que havia colocando o kryptoniano num estado comatoso, vivendo um sonho extremamente realista e plausível com base em seu “desejo do coração”. Mongul, então, ironiza os três heróis, perguntando para Batman qual deles deveria morrer primeiro: “Sei que sua sociedade faz distinções com base em gênero e idade. Talvez, então, devam me orientar sobre qual de vocês a etiqueta pede que morra primeiro!“. Batman e Mulher-Maravilha se entreolham, e ela avança contra o monstro. Enquanto a Mulher-Maravilha tenta conter o vilão, Batman e Robin buscam uma forma de remover a Clemência de Super-Homem

Em seu sonho, “Kal” vê-se parte de uma sociedade kryptoniana cada vez mais polarizada, vítima de forte agitação política. Enquanto Jor-El tornou-se líder de um movimento reacionário extremista, buscando um retorno ao Krypton “nobre e imaculado” do passado, um grupo rival, contrário à existência da Zona Fantasma - a dimensão paralela que serve de sistema prisional perpétuo para os condenados kryptonianos – agride brutalmente Kara Zor-El e começa a manifestar-se cada vez mais contra “o clã dos El”. O momento em que Batman consegue remover a Clemência do peito de Super-Homem coincide com o instante em que o sonho de “Kal” se dissolve: durante uma visita à cratera de Kandor, um pressentimento lhe faz questionar se seu filho, Van-El, era mesmo real.

A Clemência solta o corpo de Super-Homem, agarrando-se ao de Batman, que começa a viver o seu “desejo do coração”: Quando criança, ao invés de ver seus pais serem assassinatos na sua frente durante um assalto, o jovem Bruce Wayne apenas presencia seu pai desarmar o assaltante, e a partir daí passa a viver uma vida relativamente normal, chegando a se casar e ter uma filha. Clark pergunta para Robin quem foi o responsável pelo ataque. Enfurecido ao saber quem havia enviado o “presente”, ele voa através da Fortaleza, avançando contra o vilão enquanto Jason usa o equipamento esquecido por Mongul para retirar de Batman a Clemência que o controlava.

Super-Homem esmurra o rival buscando vingar-se pelo que havia passado, numa emblemática sequência. Conforme os dois trocam ataques tão fortes que interferem em sismógrafos, Mongul detalha a perversidade de seu plano. O combate entre os dois persiste, destruindo largas porções da Fortaleza da Solidão, mas como ambos são virtualmente indestrutíveis, o embate se torna frustrante para os dois.

Por um segundo, Super-Homem fraqueja, ao lembrar de Krypton e nesse instante Mongul tenta matá-lo, mas é então surpreendido por Robin, que solta sobre o corpo do vilão a Clemência Negra.

Enquanto Mongul, dominado pela planta, começa a viver o seu sonho de conquistar o universo, Super-Homem joga-o num buraco negro e Batman e Mulher-Maravilha enfim entregam seus presentes.

O presente de Batman – uma rosa produzida em laboratório chamada “Krypton” – havia sido destruído durante o combate, e o da Mulher-Maravilha – uma réplica da cidade miniaturizada de Kandor, feita pelas “projetistas de joias” da Ilha Paraíso para lembrar Super-Homem da verdadeira, que havia sido ampliada e enviada para outra dimensão nessa época da cronologia . No entanto era algo que Clark Kent já tinha. Sem que ninguém perceba, ele, fazendo uso de sua super-velocidade, esconde a réplica que já possuía e gentilmente agradece o presente, afirmando ser aquilo “o que sempre quis”. O “homem que tem tudo”, então, abraça seus amigos e diz: “Alguém prepara café enquanto eu dou um jeito na casa?“


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