O que aconteceu com o homem mais rápido do mundo?

Por Rodrigo Garrit

Em um mundo dominado pelos egos, pela constante competição e pela imensa necessidade de atenção que as pessoas veem adquirindo em todos os níveis de família/amizade/trabalho/relacionamentos, enfim leio depois algum tempo, uma genuína história do herói altruísta e capaz de se doar pelo próximo incondicionalmente, sabendo que além de não ganhar nada em troca, certamente perderá algo valiosíssimo. E esse herói não pode ser encontrado nas páginas de nenhuma revista da Marvel ou DC. Eu estou falando de Bobby Doyle, o homem mais rápido do mundo.

Publicada no Brasil pela Gal Editora, essa história saiu originalmente no Reino Unido, e conforme é explicado na edição brasileira, foi publicada pela Accent UK, uma espécie de “cooperativa”, onde quadrinhistas independentes se reúnem para produzir suas próprias histórias.

O texto é de Dave West, com arte de Marleen Lowe. A edição brasileira (editada por Maurício Muniz) é caprichada, e contém, além da história principal de Bobby, um “one shot”, (para quem não sabe, o termo é usado para descrever uma história fechada) e também uma outra HQ inédita que serve de prelúdio para a mesma, que nunca foi impressa na Inglaterra, tendo sido apenas divulgada na forma de uma webcomics. A revista também traz diversos textos explicativos e extras, o que enriquece ainda mais a edição. Muito legal a descrição de como foram os bastidores da publicação aqui no Brasil, desde o primeiro contato com o autor da obra até a finalização e a constatação da amizade selada entre ele e o editor da revista.

Texto e arte se fundem em graciosa harmonia, conduzindo o enredo com fluidez e velocidade… exceto quando parei propositalmente para admirar os cenários, ou mesmo retroceder algumas cenas antes de continuar. Falar sobre a história em si é complicado, pois posso revelar detalhes importantes que estragariam a surpresa. Mas digo que é uma HQ maravilhosa, instigante, que realmente prende a atenção do começo ao fim, fazendo com que nos coloquemos na pele de Bobby Doyle, e nos perguntemos se na realidade, seríamos capazes de tamanho ato de altruísmo.

É uma lição de vida, algo que me fez pensar muito sobre o modo como às vezes encaramos as dificuldades do dia a dia, e sobre as coisas que realmente são importantes e pelas quais valem a pena lutar.

O que aconteceu com o homem mais rápido do mundo? Tem 64 páginas, miolo em preto e branco e custa R$ 22,00. Leitura recomendadíssima.

Vejam o trailer oficial da HQ disponibilizado pela Gal Editora:

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AZUL PROFUNDO: “O mundo não deveria ser assim”.

Resenha da minissérie “Azul Profundo” (Dark Blue) de Warren Ellis (roteiro) e Jacen Burrows (arte).

Contém spoiles revelações sobre a história.

Por Rodrigo Garrit

O policial Frank Christchurch está obcecado em prender um serial killer que vem cometendo assassinatos bárbaros com requintes de crueldade. Mas toda a cidade vive tempos de violência extrema, e as drogas contaminam tudo o que existe. Os métodos de Frank estão ficando cada vez mais brutais, e ele se aproxima do limite entre o cumprimento da lei e a total banalização dos conceitos de civilidade. Em sua busca frenética, a solução desse caso parece ser o que dá seu sentido ao seu mundo, e quando o assassino começa a exibir habilidades inexplicáveis, a própria realidade desaba sobre ele, fazendo-o questionar o sentido de sua cruzada e o quanto será preciso sacrificar para obter êxito em seu propósito.

Essa história foi escrita por Warren Ellis para a editora Avatar Press e publicada em meados do ano 2000, depois do lançamento do filme “Matrix” que estreou em 1999, mas Ellis conta no posfácio da edição que teve a ideia cerca de dez anos antes, lendo um artigo sobre certas substâncias alucinógenas shamânicas utilizadas em alguns círculos hippies, e que curiosamente, “transportavam” o usuário da droga para o mesmo delírio… é como se a tal substância tivesse uma codificação em sua estrutura que levasse indivíduos diferentes em suas mentes anestesiadas para a mesma viagem… no mesmo lugar! Ellis admitiu ter usado drogas nesse período, mas para quem acha que isso o ajudou a ser um escritor melhor, ele explica: “Na Inglaterra, no final dos anos oitenta e início dos noventa, todos nós usávamos drogas mesmo quando não estávamos dançando…” “… (Leia acima sobre querer apenas ingerir um monte de Ecstasy e dançar a noite inteira num campo ao lado de uma rodovia. E depois ficar estropiado numa cama por três dias resmungando que não tem mais fluído em sua espinha dorsal). (Eu tenho saudades do final dos anos oitenta e início dos noventa da mesma forma que outras pessoas têm saudades do câncer)”.

O tal artigo sobre a experiência  de uma “realidade narcótica compartilhada”, chamada por Ellis de “Narcoespaço”, foi então a semente do que viria a se tornar “Azul profundo”, dez anos depois. O Narcoespaço é o equivalente da realidade virtual apresentada no filme Matrix, embora as semelhanças terminem por aí. Mesmo que tenha havido alguma influência de uma obra sobre a outra, vale dizer que ambas têm suas características próprias e não invalidam sua qualidade mútua. Claro, existe a polêmica envolvendo o filme Matrix com a HQ “Os Invisíveis” da Vertigo, criada por Grant Morrison… há quem diga que o filme usa descaradamente os conceitos apresentados na HQ… mas isso é uma outra história…

Warren Ellis, mesmo há dez anos (ou talvez por causa disso) já era habilidoso e vanguardista. (“Vanguardista” é uma palavra que remete a modernidade, mas me soa como algo antigo, algo que meu bisavô diria… enfim…).

A Avatar Press tem sua reputação de conceder liberdade criativa total e nenhum pudor aos seus autores. Essa história não foge à regra e embora não traga cenas tão bizarras e repulsivas com as da HQ “Estranho Beijo”, também de Ellis, tem lá a sua cota de momentos “Ok, isso foi nojento”.

A minissérie foi publicada no Brasil na íntegra em um especial pela Pandora Books, e trata-se de uma história acima da média em comparação a maioria das coisas que são feitas atualmente, porém nada tão impactante como “Planetary”, que na minha opinião é o melhor trabalho da carreira de Ellis e uma das melhores HQs de todos os tempos. É possível que na época, “Azul Profundo” tenha causado muito mais alarde, mas hoje em dia o conceito “Matrix” de realidade secundária não impressiona tanto. Dito isto, é uma boa história de ação, com o selo Warren Ellis de qualidade. E isso já vale muito!

Infelizmente ela foi desenhada por Jacen Burrows… e eu gostaria de explicar isso com muita cautela: ele não é um desenhista ruim. O problema dele é simplesmente a falta de personalidade. Ele não está imitando o estilo de nenhum outro artista… simplesmente não há estilo. Sua arte é composta por um traço padrão, muito bem feito, com técnica e ótimas noções de perspectiva e anatomia humana. Só que suas histórias parecem manuais de como desenhar quadrinhos, sem nenhuma faísca de ousadia. É uma pena que com o tempo, isso não tenha mudado… cerca de dez anos depois ele desenharia a minissérie “Neonomicon” de Alan Moore, também para a Avatar…  com a mesma técnica precisa, porém ainda com ausência de uma alma nos olhos de seus personagens.

Mesmo sendo Warren Ellis, tinha minhas reservas quanto a essa história, mas por fim, o saldo acabou sendo positivo.

TOM STRONG: A INVASÃO DAS FORMIGAS GIGANTES!

Resenha do encadernado “Tom Strong: A invasão das formigas gigantes”, com roteiro de Alan Moore, desenhos de Chris Sproug e arte-final de Karl Story.

Publicado no Brasil pela Pixel, esse especial trouxe também material adicional de Howard Chaykin, Shaw MCManus e Leah Moore.

Por Rodrigo Garrit

Criado por Alan Moore e Chris Sprouse para o selo America´s Best Comics, foi um sucesso imediato e conquistou vários prémios, inclusive o Eisner, considerado um dos mais importantes dos quadrinhos.

Mas quem é Tom Strong?

Ele nasceu de uma união que já planejava o seu grandioso futuro. Seu pai cientista e a mãe liberal, viajaram em busca da lendária ilha de Attabar Teru. Durante uma tempestade, eles sobrevivem ao naufrágio e encontram o mítico lugar. Antes que o navio afundasse completamente, o cientista conseguiu retirar seus equipamentos de seu interior, com os quais construiu máquinas muito a frente de seu tempo, inclusive um autômato chamado Pneuman, e juntos ergueram uma pequena fortaleza tecnológica no centro de um vulcão adormecido.

Ao dar a luz, a mulher estava ciente de que não teria uma relação normal com seu filho. Ele foi criado dentro de um câmara com gravidade cinco vezes maior que a normal.  O contato humano foi muito breve, pois para interagirem, seus pais precisavam usar roupas pressurizadas. O fato de ter crescido nesse ambiente artificial fez com que ele adquirisse força e resistência sobre-humanas, e desde cedo foi alimentado com raiz de Goloka, existente apenas nessa ilha e utilizada há várias gerações pela civilização local, o povo Ozu. Essa raiz contém propriedades extraordinárias… ela retarda consideravelmente o envelhecimento, concede força e vigor e também amplia a capacidade mental de seu usuário.

Desde o início, o intento do cientista Sinclair Strong e sua esposa Susan era realizar o experimento máximo de suas vidas… criar um ser humano aprimorado, que superasse todos os limites e expectativas. Seu filho.

Assim nasceu Tom Strong.

Tom Strong é considerado o maior herói da cidade Millennium City, e usa toda a sua perícia e conhecimentos científicos em prol da humanidade, ao lado de sua esposa Dhalua, sua filha Tesla (também beneficiadas pelos efeitos da raiz de Goloka), Pneuman, o velho autômato criado por seu pai, Rei Salomão, um gorila super inteligente, e o atual namorado de Tesla, Val Var Garm, vindo de uma civilização subterrânea e capaz de entrar em combustão e controlar o fogo. Com cerca de cem anos de idade, Tom não aparenta mais do que quarenta e está em plena forma. Sua rotina envolve viagens através do tempo e Terras paralelas, incursões ocasionais à Vênus e muitas outras situações que beiram o impossível.

Na primeira história “Toque de Incêndio”, desenhada por Chris Sprouse, vemos uma invasão a residência de Tom Strong, e o sequestro de sua filha por um povo subterrâneo que mantém uma cultura rudimentar numa cidade escondida próximo ao centro da Terra. Esse povo possui propriedades de adaptação impressionantes, tendo a habilidade de suportar altas temperaturas e controlar o fogo. Nessa aventura Tesla conhece o jovem Val Var Garm, e depois do primeiro impacto do conflito cultural, descobre que suas intenções não são exatamente hostis.

O grande destaque do encadernado fica com a história “O ataque das formigas gigantes”, e apesar da premissa absurda, não deve ser subestimado. Quando Coleman Gray, um cowboy espacial chega para avisá-lo sobre a iminente invasão de uma raça de formigas gigantes do espaço à bordo de uma frota de naves do tamanho de continentes, Tom decide procurar velhos amigos e inimigos, e cobrar alguns favores na tentativa de preparar a Terra contra esse ataque. Alan Moore não deixa o leitor parar para respirar nem por um quadrinho. Tudo é uma ação que leva a uma reação, que gerará consequências a qualquer segundo. O tom da HQ é exagerado, propositalmente, pois o personagem é uma homenagem aos antigos “Pulps” americanos, histórias repletas de ação do começo ao fim que precederam os super-heróis, estrelados por alguns aventureiros como Doc Savage, O Sombra, The Bat e etc. E ele cumpre com maestria essa missão, escrevendo um roteiro dinâmico e inteligente, que apesar dos temas inverossímeis, nos fazem embarcar junto com os personagens nessa viagem ensandecida.

Como é de se esperar de Moore, existe aprofundamento, subtexto e referências incontáveis ao mundo da cultura pop, desde o Pulps até mesmo aos “comics”.

Chris Sprouse desenha lindamente, têm um estilo próprio, imprime personalidade nas páginas… ao contrário do artista Jacen Burrows que trabalhou com Moore na série “Neonomicon” da Avatar Press… Burrows é um desenhista correto, mas é só.  Já Sprouse cria uma dinâmica, seu traço é firme, limpo, seguro. Ele sabe o que está fazendo e o faz muito bem.

Na HQ curta “A Eletrizante Terra das Mulheres”, desenhada pelo veterano e competentíssimo Howard Chaykin, a mensagem sobre misoginia fica clara, embora mostre de forma a nos fazer imaginar como seria um mundo dominado pelas mulheres, em que os homens seriam tratados com desdém.

Shawn MCManus desenha a história “Mau para os ossos” (acho que deveria ter sido traduzido como “Mau até os ossos“, mas deixa pra lá..) sobre Paul Saveen, um dos inimigos mais constantes de Tom Strong, que busca incessantemente pela imortalidade, não se importando com a pilha de corpos que deixa em seu caminho. Essa história foi escrita pela filha de Moore, Leah, e é correto dizer que ela aprendeu bem a lição com o papai. A história é bem estruturada, guarda as informações que só devem ser reveladas na hora certa e tem um tom perturbador típico das HQs do mago barbudo. Se ela um dia será uma escritora do mesmo nível dele, não sei (quem tem esse nível?), mas para uma primeira impressão (nunca tinha lido nada dela) confesso que fiquei positivamente impressionado.

Fechando o encadernado, mais um HQ curta, “O Estoque de Heróis de Horatio Hogg!“, também desenhada por Chris Sprouse, onde Tom e sua filha são aprisionados dentro de um… gibi! Bem, tecnicamente, a explicação é que se trata de uma “prisão bidimensional disfarçada de quadrinhos”… mas na prática, o que vemos são eles sendo encolhidos e sugados para dentro da revista, onde interagem com outros heróis que vivem lá… e podem manipular os recordatórios e legendas do gibi… a HQ mais surreal da edição (e ele tinha acabado de topar com formigas gigantes…) é também a mais descompromissada e divertida. Alan Moore diz que não importa o quanto uma história seja improvável, ela tem que ser escrita como se tivesse acontecido de verdade… tendo sucesso ou não, é preciso sempre ter isso em mente.

Tom Strong é uma leitura diferente de seus trabalhos mais famosos, como Watchmen e Monstro do Pântano… com certeza bem mais leve e descontraída, mas nem por isso deixa de ser uma excelente HQ, que mostra a versatilidade de Moore ao transitar através de vários temas distintos com a mesma qualidade.

Asterios Polyp: “Porque toda lembrança é uma recriação, não uma reprodução”.

Uma das resenhas que eu mais gostei de fazer.

Por Rodrigo Garrit

Ao completar cinquenta anos de idade, a vida de um homem acaba para em seguida recomeçar. E então acompanhamos a trajetória de Asterios, o egocêntrico e interessantíssimo personagem criado por David Mazzucchelli – sim, o mesmo de “Batman ano um” – , mas que aqui nos apresenta uma obra totalmente original e diversa do que estamos acostumados a ver nos quadrinhos americanos.

Como as forças da natureza podem alterar os rumos da nossa vida? Como o pensamento humano é capaz de criar ou destruir nossos círculos sociais, nos elevar ao status de um gênio respeitado ou ao de um reles Zé Ninguém? Essas são algumas das questões abordadas no livro, que se utiliza maravilhosamente de todos os recursos disponíveis na concepção de uma história em quadrinhos; é um verdadeiro espetáculo visual, amarrado numa história fascinante que emociona e nos faz parar um tempo para refletir. E nos provar que com simplicidade é possível contar uma história memorável, ao mesmo tempo em que aborda assuntos mais complexos.

Tudo começa com um raio que causa um incêndio no apartamento de Asterios, cuja vida já se encontrava fragmentada. A partir daí temos flashbacks que elucidam sua ascensão e queda, e sua jornada em busca da redenção. Após viver (propositalmente) sob todos os holofotes, ele precisa rever suas prioridades e restabelecer o que realmente é importante na sua vida. Uma jornada sem os clichês do gênero, deliciosamente inteligente e livre dos esteriótipos que massificaram a indústria quadrinhística. Durante a leitura, somos brindados com várias questões filosóficas e científicas, mas elas são mostradas de forma natural e descompromissada, o que garante que o leitor não caia no tédio. É muito bom ler sobre assuntos relevantes, os quais geram longas discussões amigáveis e também a curiosidade de pesquisar e nos aprofundar em outros dos temas apresentados. Asterios Polyp é enriquecedor em todos os sentidos.

Esse é o tipo de material que me faz ter orgulho de ser fã de quadrinhos, e que deveria ser lido por todos os apreciadores dessa arte, independente do seu estilo preferido, e também por aquelas pessoas que não costumam ou não gostam de quadrinhos, ou que talvez nunca tenham lido… esse seria o começo ideal. É mais uma daquelas obras que vem confirmar que quadrinhos não são apenas para crianças, e que através deles é possível conceber histórias que beiram a genialidade. Trata-se de um presente para o leitor habitual, e uma aula para os profissionais envolvidos na criação de HQs.

Asterios é tão envolvente que li suas 344 páginas de uma só vez; e a história me convenceu tanto, que quando terminei achei a realidade estranha.

Asterios Polyp, tem roteiro e arte de David Mazzucchelli e ganhou os prêmios Eisner e Harvey em 2009, na categoria melhor Graphic Novel. Foi publicada no Brasil pela Companhia das Letras, em sua divisão Quadrinhos na Cia.

O mundo mágico de JACK KIRBY

Personagens de Jack Kirby no traço de Jonh Byrne.

Por Rodrigo “O aprendiz” Garrit

Com certeza ninguém notou, mas esse site é “levemente” inspirado pelas criações desse artista… e não é à toa, porque nós do Santuário somos muito fãs do cara mesmo. E por isso, nada mais justo do que falar um pouquinho sobre sua vida e obra… com vocês: O REI.

Nascido Jacob Kurtzberg, essa lenda viva da nona arte veio ao mundo em 28 de agosto de 1917 e até hoje continua sendo um dos mais influentes artistas de história em quadrinhos de todos os tempos. Natural na cidade de Nova Iorque, filho de imigrantes austríacos, desde menino sentiu um chamado para a arte. Grande fã dos “Pulps” (antigos livretos de aventuras fantásticas, impressos em papel barato, que faziam a alegria da garotada na época), além de outras obras como “Terry e os Piratas”, “Príncipe Valente” e “Flash Gordon”. Tudo que influenciaria sua futura carreira, em proporções literalmente cósmicas.

Carreira esta iniciada em 1935 nos Estúdios Fleischer (o mesmo que produziu uma memorável série do Superman), onde trabalhou na animação do personagem “Popeye”. Depois disso ele juntou-se ao “Lincoln Newspaper Syndicate” em 1936, trabalhando ali até a falência do mesmo.  Foi quando conheceu Joe Simon, que já fazia trabalhos freelance de quadrinhos para diversas editoras. Não demorou para Kirby e Simon começarem a produzir e vender suas próprias HQs, até que juntos criaram o Capitão América para a Timely Comics, que mais tarde se tornaria a Marvel Comics.

Também com Joe Simon, ele criou obras famosas para a DC Comics, como Sandman na revista “Adventure Comics”; Boy Commandos, Legião Jovem e Caçador. Voltando a Marvel, juntou-se a Stan Lee para desenvolver novos heróis. Kirby foi então co-criador de grande parte dos personagens da Marvel nos anos seguintes: Thor, Hulk, X-Men, Surfista Prateado, Os Vingadores, Doutor Destino, Galactus, Quarteto Fantástico, Magneto, Os Inumanos e sua cidade perdida de “Attilan” e Pantera Negra – o primeiro super-herói negro dos quadrinhos, além da nação africana de “Wakanda”.

Em 1970, numa surpreendente decisão, ele deixou o sucesso e fama na Marvel, voltando para a DC, onde empreendeu um verdadeiro reboot: lançou inovadores personagens que forjariam seu próprio universo: Os Novos Deuses, Senhor Milagre, O Povo da Eternidade e as histórias do título ” Superman’s Pal Jimmy Olsen.”. Juntos, estes títulos compunham o novíssimo “Quarto Mundo de Jack Kirby“. (Denominação que só aconteceria anos depois). Munido de total liberdade criativa, (era escritor, desenhista e editor desses títulos) ele concebeu uma série de míticos seres, oriundos dos planetas Nova Gênese e Apokolips, seres com a arrogância de se auto intitularem deuses, embora com todos os defeitos e paixões dos mortais. (Tais como os deuses do Olimpo e de Asgard, afinal…) Eles faziam parte de uma saga que, como as capas gritavam, eram um épico para os nossos tempos. E quem pode afirmar o contrário?

Infelizmente, porém, as vendas não corresponderam ao esperado, poisera algo muito à frente de seu tempo, e as mesmas foram canceladas. Somente em 1984, Kirby criaria uma história do desfecho da batalha final entre Órion e Darkseid. Muitos acreditam que ele buscou inspiração no livro “Eram os Deuses Astronautas?” de Erich von Däniken.

Mas não foram só os Novos Deuses a serem introduzidos por ele na editora.  Ainda na DC, Kirby criou novas séries, como OMAC, (One-Man Army Corps), onde contava as aventuras do guerreiro Buddy Blank, que com o auxílio do satélite Irmão-Olho, lutava contra as mais terríveis ameaças como um exército de um homem só;  Kamandi, que durou 59 edições, narrando os dramas do “último menino da Terra” num mundo pós-apocalíptico dominado por animais falantes; o demônio Etrigan, misturando mitologia celta com a figura super-heróica,  e uma nova encarnação de Sandman, numa última parceria com Joe Simon. Todos estes personagens seriam de fundamental importância na mitologia da DC, alguns reinventados, e outros quase sem nenhuma alteração, em especial Darkseid, provavelmente o legado mais sombrio deixado pelo artista à editora.

Em 1975, Kirby procurou Stan Lee, que o acolheu mais uma vez na Marvel, produzindo os títulos Homem-Máquina, Devil Dinosaur e Os Eternos – apontado por alguns como uma espécie de “continuação” de seu trabalho nos Novos Deuses.  Nessa época ele produziu também uma versão em quadrinhos do filme “2001, Uma Odisseia no Espaço” e escreveu as histórias do Capitão América.

Com o tempo, Kirby passou a trabalhar com animação, mas isso não o impediu o “Rei” de contribuir com editoras de menor escalão, como a Pacific Comics, criando o Capitão Victory  – onde mais uma vez a influência do seu Quarto Mundo aparece forte – o personagem soa como o “filho de Órion” na imaginação dos fãs mais sentimentais.

Entre as animações mais conhecidas em que trabalhou, destacam-se os desenhos “Turbo Teen” e “Thundarr the Barbarian”, (esse eu assistia na infância, antes de sonhar em saber quem era seu autor).

Jack “o Rei” Kirby se juntou à Fonte em 06 de fevereiro de 1994, aos 76 anos, mas seu legado permanece forte nas novas gerações… e sua inegável influência em diversos novos artistas, como por exemplo Bruce Timm, criador da série animada do Batman e outras, só pra citar um exemplo.

“O mundo é mágico.
As pessoas não morrem, ficam encantadas”.

João Guimarães Rosa

 

O MYSTERIO DA GARRA CINZENTA

Por Rodrigo Garrit

Este é um momento muito especial, pois não é todo dia que se pode falar sobre aquela que é considerada a primeira HQ de terror do Brasil. Uma coleção de histórias que ficaram na história.

Esse mysterioso personagem já deu as caras aqui no Santuário, numa das mais terrificantes Sextas Malditas já publicadas. Se quiser conferir, benza-se e clique aqui.

Publicada originalmente na Gazetinha (que também foi a primeira casa de personagens como Superman e Fantasma no Brasil), era um complemento do jornal A Gazeta e tinha o formato de uma história semanal de apenas uma página, o que já era muito comparado as tiras de três ou quatro quadrinhos costumeiros. Teve forte influência dos “pulp” americanos e segundo estudiosos no assunto,  influenciou a publicação de outros personagens estrangeiros na Itália (Kriminal e Satanik) e nos EUA, o Blazing Skull (Caveira Flamejante) da Marvel Comics. Era o inconsciente coletivo viajando pela linha invisível da imaginação e tocando as mentes criativas ao redor do mundo no mesmo período de tempo, sem limites ou fronteiras. Mas esse é apenas um exemplo de uma teoria lançada por Alan Moore no documentário “The Mindscape of Alan Moore”, que não vem ao caso agora.

Teria o “Caveira Flamejante” da Marvel sido influenciado pelo Garra Cinzenta?

Com roteiros de Francisco Armond e arte de Renato Silva, “Garra Cinzenta”, além de uma leitura deliciosa é uma preciosidade imensurável. Um dos grandes mysterios fica por conta do autor, Francisco Armond. Sabe-se que usava esse nome como pseudônimo, e nunca revelou-se ao grande público. Existe uma suspeita que nunca foi de fato confirmada. Especula-se que tratava-se da jornalista e poeta Helena Ferrz de Abreu, ocultando-se para evitar o preconceito existente na época contra uma mulher escrevendo quadrinhos, e pior, de terror!

Não me aprofundarei aqui na fascinante história dessa história, isso pode ser encontrado pelo leitor na caprichada edição de capa dura publicada pela Conrad, com texto fantástico de Worney Almeida de Souza, um verdadeiro documento histórico de valor incalculável das raízes quadrinhisticas brasileiras. Uma viagem inspiradora ao passado, numa semana em mergulhei de cabeça em vários filmes de Mazzaropi (que completaria 100 anos de idade este ano) e Charles Chaplin, dois mestres distintos e unidos pela genialidade imortalizada nas projeções de cinema e sonhos que semearam em suas carreiras. E tudo isso ao som de Dalva de Oliveira, num “intercâmbio” cultural e atemporal inesquecível entre minha avó e eu.

Renato Silva (1904-1981), desenhista de A Garra Cinzenta publicou o manual “A Arte de Desenhar Histórias em Quadrinhos”. Na imagem podemos ver os comparsas do Garra, Flag e a Dama de Negro.

A Garra Cinzenta é um sinal de morte. Aqueles que recebem seu cartão, estão com os dias contados. Uma série de crimes e assassinatos assombra todo o país, fazendo desse criminoso um verdadeiro mito urbano. Cabe ao Inspector Higgins desvendar o mysterio e dar um fim aos actos do facínora.

E não penses que por tratar-se de uma história publicada entre 1937 e 1939 seu enredo será ingênuo ou pueril; o mysterio sobre a identidade e o motivo dos crimes da Garra Cinzenta não são meramente lançados ao acaso, eles têm consistência e uma razão de existir e funcionar em favor da história.

Confesso que fui narcotizado ao entregar-me a essa leitura, mas sou duro de roer, meu velho. Em alguns momentos dessa experiência surpreendi-me com a desfaçatez desse velhaco, cujas barbaridades rivalizam com as de vilões que nasceriam décadas depois. A maldade, pelo que pude constatar, não envelhece.

“Será dono do mundo quem tiver a chave”. Mas não queira ter a chave do sombrio laboratório secreto de torturas e ciências ocultas da Garra Cinzenta. Um lugar que ele apelidou de “Mansão da vida e da morte”, repleto de passagens secretas que levam a labirintos ocultos em enormes galerias sob a cidade, onde armadilhas mortais são encontradas e podem ser a última coisa que um bisbilhoteiro incauto pode descobrir. Mas se sobreviver a eles e insistir em percorrer os sinistros corredores infectos de puro mal, poderão vislumbrar algumas celas da verdadeira fábrica de monstros mantida pelo “Homem-Caveira”, como alguns também se referem ao Garra. Então, não será surpresa esbarrar em múmias e autômatos assassinos de puro aço e maldade, frutos de uma distorcida e maculada alchimia medieval e de suas terrificantes experiências.

A “Fábrica de Monstros” incluí um feroz espécime gigante de “Homem-Macaco” e uma combinação maligna de robótica com engenharia genética, que gerou seu perturbado ajudante chamado “Flag”, que não pode falar ou exprimir sentimentos… apenas enterra-los dentro de si e libera-los na forma de sua fúria assassina e incontrolável… além de outras surpresas bizarras.

Gênio do mal, Garra Cinzenta usa todo seu intelecto de brilhante cientista experimentando mutações dolorosas em seres humanos…. e não poupa requintes de crueldade contra seus inimigos e todos aqueles que obstruírem seus planos.

O objetivo máximo desse maquiavélico criminoso é reproduzir e aperfeiçoar a fórmula do “Licor da Vida” de Nostradamus… o segredo mais bem guardado e nunca revelado dos grandes alchimistas, e até mesmo negado por eles: o dom de reverter a morte. Um objetivo que pode estar bem próximo de ser alcançado na figura de sua mysteriosa Dama de Negro… e que ele não vai parar de tentar obter, não importa quantos mais tenham que morrer, não importa quantos cadáveres mais ele tenha que roubar…

Durante toda a narrativa somos iluminados com a sensatez e proeza do Inspector Higgins, que além de grande detetive, parece não ter medo da morte ou de dar sua vida em troca da solução desse mysterio.

Terias essa coragem?

 

Zombie World – Quando Surgem os Monstros.

Resenha de “Zombie World – O Campeão dos Vermes” da Dark Horse Comics, publicado no Brasil pela Editora Pixel.  Mike Mignola assina o roteiro e Pat McEown a arte.

Por Rodrigo Garrit

No spoilers

Apague as estrelas e pinte a Terra de preto. Eu só permitirei uma luz brilhante no meu império de morte… minha rainha“.

Azzul Gotha

Um feiticeiro adorador dos deuses vermes que viveu cerca de 42 mil anos atrás e quase provocou o apocalipse ao trazer os mortos de volta a vida foi trancafiado vivo em uma tumba por misteriosos místicos atuando em favor da humanidade. Nos tempos atuais, sua tumba é encontrada e levada a um museu, onde esse terrível feiticeiro, Azzul Gotha, tem finalmente a oportunidade de terminar o que começou eras atrás.

É uma época pré-Hellboy para Mike Mignola, mas ele já tinha todos os esquemas de terror montados na sua cabeça. Com uma grande influência Lovecraftiana e seu próprio toque pessoal, concebeu um conto de terror que deu início ao assim chamado “Mundo Zumbi”, e que explica o motivo da existência dos mortos-vivos nessa série, dando margem a publicação posterior da mesma linha. O que Mignola fez foi dar o grande pontapé inicial que originou uma série de histórias que mais tarde seria tocada por vários artistas diferentes e teria vida curta dentro da editora Dark Horse.

Pat McEown é um grande artista, mas não para histórias de terror. Seus desenhos cartunescos são muito bons, mas não combinam com a história… funcionaria bem numa HQ mais leve, e embora o roteiro de Mignola para essa história não seja dos mais assustadores, perdeu ainda mais credibilidade com sua arte infantilizada (“tintinesca” como Mignola diz no posfácio da edição, em alusão personagem francês Tintin). O fato das capas e algumas artes internas terem sido desenhadas por Mignola, nos mostram o que essa HQ poderia ter sido, e que talvez ele devesse ter considerado desenhá-la de fato.

Mignola mostra um de seus trabalhos mais fracos, mas ainda assim, consegue prender a atenção e concede ritmo e agilidade para a história e seus personagens. A equipe de “especialistas” contratada pelo museu para investigar os estranhos acontecimentos funciona muito bem e renderia uma boa equipe de investigadores do sobrenatural  com direito a um título próprio se fosse aproveitada posteriormente por Mignola ou outro escritor de qualidade, o que infelizmente não foi o caso.

Quando falo em influência Lovecraftiana no roteiro, estou cometendo o eufemismo do ano. Todos os monstros são claramente alusões as criaturas de H.P. Lovecraft… até mesmo a coroa ritualística de Azzul Gotha possui uma escultura muitíssimo similar as descrições de Cthullu, provavelmente o mais famoso dos “Antigos” de Lovecraft, embora Mignola tenha preferido não mencionar isso na história.  E não digo isso de forma pejorativa… por mim, ele deveria adaptar toda a obra de Lovecraft, eles têm tudo a ver e Mignola É O CARA. Mas no caso de Zombie World as semelhanças terminam por aí. A história não tem nem de longe a profundidade da obra de Lovecraft ou a preocupação de tentar tornar crível sua mitologia assustadora. Quem adquiriu essa edição acreditando se tratar de uma história fechada, pode se decepcionar, em termos. Ela é o estopim do que viria acontecer depois, e ao contrário de outra grande HQ de zumbis, The Walking Dead, que faz um grande mistério sobre a razão dos mortos terem se levantado, Zombie World já explica tudo logo de cara, e não é um dos motivos mais originais ou interessantes do mundo. Nenhum das sequencias dessa história chegou a ser publicada no Brasil, e considerando sua vida breve nos EUA, dificilmente será.

O grande problema a meu ver, foi que a história não aconteceu porque Mignola tinha uma grande ideia, ou mesmo o desejo profundo de fazê-la. Ela foi feita apenas para tentar criar uma linha de publicações zumbi dentro da editora… e o próprio Mignola, admitiu não ser muito entusiasta do tema.

Valeu a tentativa.

NEONOMICON – Uma orgia para Cthulhu

AVISO: desaconselhável para menores de 18 anos. Contém cenas de violência, mutilações, linguajar inapropriado, nu frontal e sexo explícito.

Resenha de Neonomicon, encadernado especial publicado no Brasil pela Panini, reunindo as edições 1 e 2 da minissérie “The Courtyard” adaptação do conto “O Pátio” de Alan Moore, feita por Antony Johnston e os quatro números da minissérie “Neonomicon”, da Avatar Press, com roteiros de Moore com arte de Jacen Burrows.

Por Rodrigo “Henry” Garrit

No Spoilers.

ANTES DE NEONOMICON

Direto da literatura sombria do cultuado H.P. Lovecraft, criaturas repletas de tentáculos se levantam do mar e ajudam Alan Moore a quitar suas dívidas.

Espera…

Vamos começar de novo.

É importante dizer que eu não li Neonomicon… ainda. Estou me preparando para começar a fazer isso daqui a alguns instantes, mas faço questão de deixar registrada a minha expectativa antes mesmo de virar a primeira página. Afinal, é Alan Moore, o mago, o escritor de quadrinhos mais brilhante de que já se teve notícias. O mesmo que hoje renega a indústria de quadrinhos com todas as suas forças. Mas suas razões, sejam elas justas ou não, não serão motivo de debate neste artigo, que pretende simplesmente resenhar a citada obra.

Repito: até este exato momento ainda não li Neonomicon. Mas já li muitos outros trabalhos anteriores de Moore, o bastante para conhecer a proporção de onde ele pode nos levar, fazendo a leitura ficar maior do que nós mesmos.

E também li H.P. Lovecraft, autor de O Chamado de Cthulhu  e tantas outras obras que nos presentearam (ou amaldiçoaram?) com elementos sinistros e desconcertantes, principalmente o “Necronomicon”, que é a referência óbvia usado por Moore para nomear sua história.

Não existem medidas concebíveis pela mente humana capazes de descrever o universo Lovecraftiano. Então, Alan Moore (e não consigo imaginar ninguém melhor do que ele) aparentemente vai escrever sobre a mitologia deixada por H.P. Lovecraft… e eu me pergunto… aonde isso pode nos levar.

Estou prestes a virar a primeira página.

DEPOIS DE NEONOMICON

Yh´nghai tsathogua, dho-na h´rith y´golonac.

Nnh´gtep chaugnar faugn, e´hucunechh ygg ygg yr wza-y´ei, ep yh´nghai hrr rhan tegoth.

Na história “O Pátio”, o agente do FBI Aldo Sax se encarrega de investigar uma série de assassinatos rituais e envolve-se profundamente com uma suposta seita que aguarda o surgimento de uma nova ordem mundial. Mas a própria realidade se distorce ao redor do agente, fazendo-o ganhar uma nova percepção sobre o assunto.

Em “Neonomicon”, os também agentes do FBI Gordon Lamper e Merril Brears retomam a investigação de Aldo, infiltrando-se no que aparentemente é o covil da seita, e fazendo-se passar por simpatizantes dela, aceitam participar de um estranho ritual. A partir desse momento, uma série de eventos insanos conduzem os agentes a um desfecho inesperado e irremediavelmente traumático.

E o que esperar de Neonomicon de Alan Moore? É sabido que ele aceitou esse trabalho para pagar suas dívidas com imposto de renda. Então, isso diminui a obra? Faz dela algo meramente comercial, sem nenhum valor artístico, coisa tão criticada pelo autor?

Não.

Quem nunca leu nada relacionado a obra de H.P. Lovecraft vai perder muitas referências deliciosas, inseridas magistralmente por Alan Moore, mas ainda assim, terá em mãos uma HQ de terror de primeira, com uma boa dose de suspense e investigação. Algumas pessoas podem se impacientar com o ritmo e a forma como a história é conduzida, pois Alan Moore não é apenas um escritor excelente, mas também um autoproclamado bruxo, e não perde a oportunidade de discorrer sobre seus próprios conhecimentos e possivelmente experiências pessoais com a magia, relacionando tudo à mitologia Lovecraftiana, de modo a costurar velhos ritos ao universo ficcional (?) criado pelo cultuado autor. E isso é muito bom para a história, enriquece o roteiro,  mas não está preocupado em seguir a cartilha do mocinho e bandido, tampouco a “jornada do herói”. Os caminhos tortuosos e perturbadores escolhidos por ele certamente não agradarão a um público habituado com os corriqueiros e previsíveis métodos narrativos que se proliferam em abundância pelo cinema, literatura e histórias em quadrinhos, salvo raras exceções.

H.P. Lovecraft tinha uma escrita rebuscada, e suas histórias eram dotadas de uma profundidade tão verdadeira que era quase palpável… não é a toa que o mito se mistura frequentemente com a realidade, e muitas pessoas afirmam convictas que ele teve de fato contato com os seres ancestrais e seus livros seriam relatos de seus estudos e experiências. Moore brinca com isso, transporta Lovecraft para a história e faz dele uma espécie de “profeta” para a grande revolução que virá.

O sexo é usado indiscriminadamente, mas não gratuitamente. Moore continua provando que a sexualidade pode e deve ser utilizada em toda forma de arte, como expressão de força, rebeldia, amor ou destruição… não importa, desde que a venda autoimposta pelas pessoas seja substituída pela naturalidade com que o sexo deve ser encarado.

A arte de Jacen Burrows convence o leitor sobre o sofrimento dos personagens. Dito isto, ele junto com o colorista Juanmar, criou algumas texturas impressionantes, belíssimas e outras simplesmente asquerosas e repugnantes. Do que jeito que devia ser.

Não é a primeira vez que me envolvo com a obra de Howard Phillips Lovecraft. Da última vez que isso aconteceu, escrevi um livro chamado “O Nome do Livro ou o Livro do Nome”. E ficção se misturou com a realidade. Há algo de assustadoramente crível na obra dele. Desesperadamente envolvente.

A Avatar Press já utilizou o universo Lovecraftiano em suas HQs. Warren Ellis já havia dado sua versão do tema com a série “Estranho Beijo”, cuja resenha você pode ler clicando AQUI!

PALAVRAS DO MAGO , retiradas do documentário “The mindscape of Alan Moore”:

“O trabalho do artista não é dar ao público o que ele quer. Se o público soubesse o que quer, não seria o público, seria o artista. O trabalho do artista é dar ao público o que ele precisa”.

“É importante que uma história soe real a nível humano, mesmo que ela nunca tenha acontecido”.

“Quando nós cumprimos a vontade do nosso verdadeiro ‘eu’ estamos inevitavelmente cumprindo com a vontade do universo. Na magia, ambas as coisas são indistinguíveis. Cada alma humana é, de fato, UMA alma humana. É a alma do universo inteiro. E enquanto você cumprir a vontade do universo é impossível fazer qualquer coisa errada”.

“O único lugar onde os deuses e demônios existem indiscutivelmente, é na mente humana, onde são reais em toda a sua grandiosidade e monstruosidade”.

“Tudo o que vemos são as nossas percepções, e as confundimos com a realidade”.

“Houve um tempo em que os bardos eram mais temidos do que os magos. Um mago poderia lhe amaldiçoar, é verdade, mas se um bardo fizesse uma sátira sobre a sua vida, poderia desacreditar você perante seus amigos, sua família e até você mesmo. E se fosse uma sátira brilhante, muitos anos após a sua morte, as pessoas ainda zombariam de você…”

Obergeist – O inferno nazista de Steinholt

Resenha de “Obergeist: estrada para o apocalipse”, de Dan Jolley (roteiro) e Tony Harris (desenhos).

Por Rodrigo Garrit

No Spoilers

Essa é a história do Dr. Steinholt, médico nazista que torturava cruelmente os prisioneiros de guerra, até o dia em que se deparou com a mais improvável odisseia sobrenatural que alguém poderia imaginar ou apenas a pura insanidade provocada pela culpa de seus atos…

…pois se eu disser que são as desventuras de um nazista zumbi com poderes infernais deslocado no tempo vocês podem achar que é piada.

Considerando todo o mote sobrenatural da história, e já sabendo de antemão que esse será o recurso utilizado como fio condutor, é claro que o leitor abre sua mente e se prepara para uma narrativa nonsense onde a realidade é o fator menos importante. Mas mesmo nesses casos, algumas explicações se fazem necessárias para saciar a curiosidade do leitor, mantendo seu interesse pela história e seguindo por uma linha racional mesmo que escrita com letras irracionais. Quando se trata de magia, não existem perguntas no sentido de “como” as coisas acontecem… é magia, são passes de mágica, simples. Mas alguns “porquês” são muito bem-vindos. Em determinado momento da história, e visto já estar inclusive cativado pela jornada do protagonista, bate uma sensação de desconforto… e a busca do motivo de tudo aquilo estar acontecendo. É um grande “Porquê”, e ele nos impulsiona através da trama, instigando-nos a tentar descobrir quem está por trás de tudo, e qual sua finalidade.

A história segue. Muitos momentos interessantes acontecem, mas ela faz com que os leitores compartilhem da ignorância e por que não dizer do tormento do protagonista, alternando momentos profundos contando o passado de Steinholt, seu envolvimento com a guerra e seus dramas familiares com cenas de pura ficção no melhor estilo super-herói, o que deixa as coisas um tanto indefinidas… quem é o publico alvo dessa história? Leitores mais maduros ou a galera mais jovem? Os dois? Nenhum…?

A arte de Tony Harris é primorosa, já vale o “ingresso”! Ele dá um show como sempre, desenhando estilos diferentes de acordo com a cena apresentada: nos flashbacks da segunda guerra, sua arte é sóbria, realista, preocupada em passar emoção. Os personagens parecem tirados de filmes antigos. Belo e sutil. Já nas cenas de cunho mais fictício ele exagera, propositalmente eu creio, separando nitidamente o real do imaginário.

Existe um lugar… onde estão depositadas todas as grandes ideias da humanidade. Mas ideias são apenas fagulhas. Não basta contê-las, é preciso alimentá-las, desenvolvê-las. Escrever uma história é alimentar essa fagulha e transformá-la em um incêndio de proporções épicas. É um trabalho árduo, ferrenho… as vezes se tem sucesso, as vezes se consegue chegar perto disso. E outras vezes a fagulha simplesmente se apaga.

Obergeist foi publicado no Brasil pela Panini, em um especial  de 180 páginas reunindo a coletânea americana “Obergeist: The Director’s Cut” da Top Cow, com a história completa. Leiam e tirem suas próprias conclusões.

Liga da Justiça Dark # 9 – Conexões Sombrias!

Resenha de Liga da Justiça Dark # 9, com roteiro de Jeff Lemire e desenhos de Mike Janin.

Por Rodrigo Garrit

ATENÇÃO: ETSE OGITRA MÉTNOC !SRELIOPS

Capa de Ryan Sook

Steve Trevor, porta voz da Liga da Justiça, procura John Constantine e o recruta para uma missão na Floresta Amazônica, envolvendo um resgate e a apreensão de um poderoso artefato místico de posse do bruxo maligno Félix Fausto. Como recompensa, ele oferece a John dez minutos dentro da “sala negra”, um local onde é armazenado os maiores artigos mágicos do mundo. Para tanto, Constantine recorre a seus antigos “companheiros de equipe”, mas apenas o Desafiador e Zatanna aceitam a empreitada, não por acaso após algumas das habituais manipulações do mago, o que inclui a participação do vampiro Andrew Bennet, a quem o mago inglês faz questão de cobrar um favor. Steve Trevor enviou também a meta-humana conhecida como Cabeça de Repolho Roxo Orquídea Negra para garantir que Constantine andasse na linha. Com essa equipe formada eles partem em sua missão, encarando o culto de Felix Fausto numa improvável pirâmide perdida na fronteira do Brasil com o Peru, mas as coisas não saem exatamente como planejado, afinal, eles carregam um talismã de má sorte junto deles: John Constantine.

Jeff Lemire assume o roteiro da revista lhe concedendo um novo começo e abrindo novas possibilidades. Ele brinca com a possibilidade desses personagens atuando como uma clássica equipe de super-heróis, mas trata-se de uma grande ironia e revela a verdadeira natureza da história e de seus personagens sombrios.  Aliás, ironias e muitos jogos de palavras ligando essa história ao velho universo não faltam nessa história.

Os desenhos de Mikel Janín são competentes, expressivos… passam credibilidade. isso é importante para uma história que tenta tratar de forma séria o sobrenatural. Assim como as edições anteriores, essa revista é bem colorida… são incontáveis “efeitos especiais mágicos” saltando à vista do leitor… é claro, afinal ela trata de magia, mas ao mesmo tempo é sombria… mas ao mesmo tempo não é a velha Vertigo… mas ao mesmo tempo está criando um precedente dentro do universo dos super-heróis, onde o ocultismo raramente apareceu com seus requintes de crueldade  e dentes invisíveis… ou será o lado negro que baixou a guarda e deixou os heroicos e coloridos personagens do universo tradicional da DC entrarem?

Uma verdadeira visão do inferno? Pior, é o quarto do Constantine…

Conexão é a palavra que define essa edição. Steve Trevor é a ligação deles com a Liga da Justiça de Superman e cia. John Constantine ainda é uma peça chave, tudo se monta ao redor dele. Zatanna e Desafiador são elementos importantes deixados nas histórias pelos roteiristas anteriores do título. Andrew Bennet vem a somar, provando que o crossover “A Ascensão dos Vampiros” onde atuaram juntos gerou uma união bem sucedida. E temos a entrada da personagem Orquídea Negra, ainda uma incógnita nessa versão apresentada, mas os fãs da Vertigo vão lembrar que a personagem foi um marco em sua interpretação de Neil Gaiman e Dave McKean. A meu ver, Lemire está abrindo caminho para que esses personagens interajam e se estreitem ainda mais suas relações… não é difícil imaginar a participação de Frankenstein, Homem Animal e Monstro do Pântano unindo-se a essa Liga da Justiça Dark contra o Podre… sem falar no novo Shazam, remodelado agora como um personagem mais mágico do que nunca… mas estou me adiantando. Afinal, não havia nenhum motivo para que esses personagens continuassem atuando juntos após essa missão, sendo ou não bem sucedida… a não ser que um novo elemento surgisse e os colocasse nos mesmos trilhos.

O universo Vertigo está fortemente presente nas páginas dessa revista… as bases místicas que sustentam o universo… os Livros da Magia…

E o que vem depois? A Casa dos Mistérios? Tim Hunter? Sandman?

“E o que vem depois”?

Essa é a mágica.

Resenha anterior? Clique AQUI!

Capitão Átomo # 8 – Os Fantasmas dos Natais Apocalípticos!

Resenha de Capitão Átomo # 8, de J.T. Krul (roteiro), Freddie Williams II (desenhos) e Jose Villarrubia (cores).

Por Rodrigo Garrit

No spoilers.

Uma versão futura do Capitão Átomo o sequestra, levando-o ao fluxo do tempo, onde existem diversas variáveis do herói, mas apenas um destino para a Terra: a destruição. Seus sósias atômicos revelam ser incapazes de impedir o fim do mundo, mas podem orientar o Capitão a fazer isso a partir de sua própria linha do tempo. Com isso ele é arremessado vinte anos no seu futuro, exatamente um dia antes do apocalipse. Impedir que isso aconteça pode parecer uma tarefa quase impossível… e é mesmo.

Essa edição dá uma reviravolta em tudo que vinha sido feito até aqui. Talvez, (e esse é um grande “talvez”, pura especulação minha) a essa altura, o roteirista J.T. Krull já tivesse sido informado que a série seria descontinuada depois da edição zero seguida do décimo segundo número da revista. Se foi o caso, ele finalmente colocou as manguinhas de fora e jogou seus trunfos na mesa. Eventos climáticos que possivelmente seriam inseridos com conta-gotas na história, são derramados como uma enxurrada no leitor desprevenido, que vinha pacientemente acompanhando as aventuras do herói atômico. Não temos questionamentos éticos intermináveis, crises existenciais, e definitivamente, não vemos mais a “jornada em busca de si mesmo”.

É o fim do mundo. E agora é tudo ou nada.

Por mais que o tema pareça batido… e é mesmo… o resultado ficou… como posso explicar em termos técnicos? Hmn… Ficou legal pra caramba!

Os desenhos de Freddie Williams II mantém o padrão das edições anteriores… pessoalmente, acho que seu estilo apesar de bonito peca pela falta de realismo das formas humanas, seria interessante ler essa mesma história desenhada em um traço que tivesse o desafio de colocar o homem de energia pura caminhando entre pessoas normais. Ficaria mais próximo do conceito da paródia criada por Alan Moore com seu Dr. Manhattan em Watchmen. E afinal, não foi essa a ideia para o Capitão Átomo da “nova geração”?

Mas embora não retrate as pessoas com realismo fotográfico, ele desenha cenários incríveis que condizem exatamente com o contexto da série e de modo geral, os painéis agradam bastante. Williams faz o que lhe é pedido, e dentro de sua interpretação do assunto nos leva a uma viagem através do fluxo do tempo visualmente muito bonita, e engrandecida pelas cores maravilhosas de Jose Villarrubia que faz miséria quando o assunto é lirismo visual.

É estranho acompanhar uma revista que sabidamente será descontinuada. Então fica a pergunta: por que se dar ao trabalho? Bem, vou oferecer uma possível resposta. O cancelamento foi a melhor coisa que poderia acontecer para esse título. Agora, ao invés de uma mensal arrastada, temos uma espécie de séria fechada com começo, meio e contagem regressiva para o fim. E eu posso imaginar que tenha ocorrido a J.T. Krull o pensamento de que “se é pra acabar, vamos terminar em grande estilo”. Ele está ousando mais, se soltando mais, e permitindo-se usar seus trunfos sem a obrigação de criar ganchos para novos arcos. Não haverão novos arcos, então, seria ótimo pra carreira dele fazer o melhor possível dentro do que ele tem. Será ele vai fazer um “Cavaleiro das Trevas”? Não, provavelmente não vai, mas escrever algo que mantenha o interesse dos fãs pelo personagem, pra dizer o mínimo… me parece algo bem provável.

Espero que o Capitão continue tendo destaque mesmo após o cancelamento da revista, seria interessante vê-lo atuando em alguma versão da Liga Internacional, por exemplo.

Até lá, vamos continuar na expectativa do Capitão Átomo conseguir salvar o mundo da destruição… e J.T.Krul de salvar sua reputação e seu emprego quando a poeira baixar…

O relógio está correndo.

Curta a linda capa dessa edição, desenhada por Mike Choi!

Resenhas anteriores? Clique AQUI!

Homem Aranha: The Arachknights Returns!

Muitas pessoas o odeiam… acreditam que ele seja uma péssima influência… ele é perseguido pela mídia, mas de uma forma ou de outra, está apenas tentando fazer aquilo que acha certo… pois com grandes talentos, vem grandes responsabilidades… embora alguns digam que seus talentos na verdade sejam uma maldição. É um cara azarado, já fez grandes coisas na vida, é verdade, mas se pensar bem acaba quase sempre se dando mal. Tem uma trajetória de lutas, com muitas vitórias e derrotas. Ele tenta ser o amigão da vizinhança, mas por mais que tente, acaba fazendo mais inimigos do que amigos… vocês já sabem de quem estou falando não é?

Sim, isso mesmo. Todd Mcfarlane.

Com um traço caricato, estranho, diferente e original, ele começou a chamar a atenção, quando assumiu os desenhos do Homem Aranha, época em que o sucesso veio de forma definitiva. A primeira edição de “Spider Man” produzida por ele vendeu mais de 1 milhão de exemplares… o que foi o suficiente para que ele, tempos depois, achasse que deveria ter sua própria editora e ganhar dinheiro com seus próprios personagens. E ele estava certo. Não que Spawn seja a obra prima máxima da nona arte, mas não é disso que vou falar aqui…e sim da saga “Tormento”, justamente a referida história que vendeu mais de 1 milhão de exemplares… Essa saga tem grande importância, pois estabeleceu algumas mudanças visuais no personagem e causou grande impacto na época de seu lançamento, fazendo dessa história uma das mais bem vendidas do mercado americano de quadrinhos.

Santa resenha Bátema! Ou melhor… Aranha! Uma verdadeira viagem pela teia do tempo através de trocadilhos horrorosos, desenhos espalhafatosos e muito anos 80! Tudo isso produzido pelo roteiro, desenhos e cores de Todd McFarlane… um cara que desenha melhor que o Rob Liefeld!

Se você odeia, ama, ou não está nem aí… não importa.

Essa é para os fãs do cinquentão cabeça de teia.

Este artigo contém Spiders.

(Também publicado no Santuário dos Enx.. Baile dos Enxutos)!

Por Rodrigo Garrit

O espetacular Homem Aranha segue sua rotina, patrulhando as ruas e prendendo alguns bandidos menores. Ele é um herói consagrado, já enfrentou o Dr. Destino, Mephisto, Galactus além de outras ameaças cósmicas e sobreviveu. Isso faz com que ele exceda sua confiança e se torne uma presa no ataque repentino e violento do Dr. Curt Connors, o Lagarto, controlado das sombras por outra figura que busca vingança contra o herói aracnídeo.

O roteiro em si não é uma obra prima, mas apesar de simples, sabe fazer o lê, lê, lê consegue prender a atenção do leitor, que procura pistas e os motivos dos ataques ao Homem Aranha. As sequencias de luta são repletas de adrenalina, e a ação frenética não deixa o leitor parar pra respirar. Vemos então um Homem Aranha quebrado, envenenado e indefeso diante de seus inimigos, lutando com todas as forças para sobreviver… só pensando em voltar para casa e para sua esposa.

Enquanto isso, Mary Jane, a esposa, está na balada, pulando de festa em festa enquanto seu marido arrisca a vida. Ela tem muita confiança de que ele sempre vai voltar pra casa são e salvo. Ou quer mais é viver uma vida louca, o resto que se dane. Um pouco das duas coisas.

É possível encontrar referências a Watchmen nessa história, como por exemplo em alguns enquadramentos e em uma cena em especial onde temos a aproximação de geleia de morango respingando num jornal ao mesmo tempo em que outro personagem faz menção a sangue derramado em um ritual macabro; mas embora exista essa influência clara, ela não prejudica e nem privilegia a trama, que segue seu ritmo médio do começo ao fim.  Também existe algo de “Cavaleiro das Trevas” de Frank Miller… não que alcance o mesmo nível, mas Todd McFarlane usa a mesma técnica narrativa nos recordatórios do herói caído, com direito até a retrospectiva da origem do personagem.

Diferente da maioria dos vilões que adora contar seus planos para o herói antes de tentar mata-lo, a bruxa que controla o lagarto mal fala com ele. Em nenhum momento revela seus motivos e nem mesmo seu nome, o que aumenta ainda mais o tormento do Aranha. Mas sua história é contada aos leitores na forma de flashbacks, onde temos uma ideia de quem é ela e de onde veio… uma desvairada que busca vingança pela morte de Kraven, o caçador, que havia se suicidado tempos atrás na essa sim épica história “A Última Caçada de Kraven”.

O traço de McFarlane não incomoda, desde que você encarne o espírito cartunesco com que ele desenha, muito embora algumas cenas com close no rosto dos personagens pareçam grosseiramente deformadas. Alguns personagens parecem estar sempre com a cara inchada, como quem acaba de acordar. E Mary Jane é forçada demais, em algumas cenas ela parece uma manequim viva, com aquele cabelão de Barbie e os lábios enormes… quase uma boneca inflável. Não sei se com o tempo ele melhorou seu traço no que se refere a traços de expressões faciais (pelo pouco que li de Spawn, continuava na mesma), mas é como eu disse antes, desde que não se espere mesmo ler algo extremamente fiel a realidade, fica tudo em casa. Por outro lado, ele desenha belos painéis da cidade e seus becos escuros… o lado cartunesco tem a vantagem de tornar os vilões exageradamente ameaçadores, com dentes enormes e afiados… as cenas de luta também são privilegiadas, embora o contorcionismo do cabeça de teia seja provavelmente mais um super poder embutido…  ninguém se move daquele jeito sem ficar tetraplégico! (Só a Mulher Gato…).

Mas mesmo assim, o estilo que ele imprimiu no Homem Aranha resiste até hoje, e o modo como ele desenhava as teias “espaguete”, e fazia Peter em movimentos e poses inspiradas em aranhas reais são pontos extremamente positivos deixados por McDonald McFarlane.

Houve sim a coisa do impacto visual e a bagagem referencial que Todd McFarlane trouxe de tudo que fazia a cabeça dos fãs de quadrinhos na época. Ao ler a mesma história hoje, obviamente não tem o mesmo impacto, mas ainda assim é uma grande história do Homem Aranha e diversão garantida para antigos e novos leitores do personagem.

Mas eu ainda prefiro o Batman.

Viva o Aranha!!!!

GOSTOU? Então comenta…

Frankenstein: Agente da S.O.M.B.R.A. # 8: “Pai, a Minha Sombra és Tu”.

Continuando a série de resenhas do título produzido por Jeff Lemire (roteiro), Alberto Ponticelli (arte) e Jose Villarrubia (cores).

Por Rodrigo Garrit

Contém spoilers

Frankenstein e sua ex-esposa são os melhores agentes da organização secreta S.O.M.B.R.A. Durante décadas eles tem enfrentado todo o tipo de ameaça sobrenatural, e como recompensa, receberam um enorme presente de casamento, que tragicamente se transformou no motivo de sua irremediável separação.

Os cientistas da organização produziram um “filho” combinando o DNA de ambos.

Não poderia ser mais desastroso.

Jeff Lemire mergulha nossas cabeças na neve gelada da Alemanha, presenteando-nos com uma visita ao ilustre Castelo Frankenstein… local onde o Dr. Victor Frankenstein desafiaria as leis divinas, e desencadearia sua própria ruína.

As coisas não ficam muito claras ainda, mas algo impensável e maligno foi libertado naquele dia, e embora muitos acreditem que esse mal seja o próprio monstro Frankenstein, a verdade é que ele é apenas uma fagulha, a ponta do iceberg de algo muito mais calamitoso… e tomou para si a missão de remediar os pecados do pai, em suas próprias palavras “Frankenstein não descansará enquanto o mal caminhar pela Terra”.

Parece que ele está fadado a nunca descansar.

Um mistério que vinha se mantendo desde a época que Grant Morrison escreveu a minissérie do Frankenstein para seu projeto “Os Sete Soldados da Vitória”, é finalmente revelado: Por que Lady Frankenstein abandonou seu marido? Os eventos ocorridos durante o “nascimento” de seu filho foram decisivos para isso. O coração do velho Frank foi quebrado, juntando-se a mais um dos incontáveis remendos do seu corpo, enquanto sua ex-esposa, a extraordinária guerreira, tornou-se apenas uma colega de equipe, uma eventual companheira de missões. E ele conheceu outros níveis de morte em vida.

Após o recente ataque dos humanitas, muitas celas de contenção de monstros e outras experiências que não deram certo no decorrer dos anos foram abertas… e de uma delas, quase esquecida, libertou-se a cria de Frankenstein… seu filho amaldiçoado.

Uma edição recheada de diálogos afiados e rápidos, verdadeiros golpes de esgrima. E é nisso que reside a beleza dessa série: um gibi de monstros, protagonizado por uma das criaturas mais famosas da literatura mundial, e que apesar de ser um gibi de monstros, encaixa discretamente entre uma ou outra cena de mutilação, traços de leveza, e por que não dizer, até mesmo poesia!

O jogo de mentiras e manipulações da S.O.M.B.R.A. chega a um momento crítico, o que desperta a revolta de Ray Palmer (o que pode comprometer a sanção da ONU para a agência), além de outras deserções. O futuro da S.O.M.B.R.A. como organização é incerto, mas a missão de Frankenstein em combater o mal é incessante, mesmo que tenha que cumpri-la com o coração mais partido do que nunca.

Eu preciso ressaltar a versatilidade do desenhista Alberto Ponticelli. É como se ele quisesse nos dizer: “Ok, vocês já viram o que eu posso fazer. Agora vou mostrar que também sei outros truques”. Seu traço está mudado, melhorado, como que absorvendo o roteiro e as emoções dos personagens. Eu fui um dos primeiros a criticar sua arte suja das primeiras edições, mas agora fui completamente conquistado pela sua narrativa visual. Seus traços não são simétricos, não têm preocupações estéticas refinadas e nem estão preocupados em retratar a realidade. Ele quer sim, esfregar na nossa cara o lado feio do mundo trágico de Frankenstein imaginado pelos autores… essa combinação alquímica de roteiro + arte, tenta  nos dizer que a monstruosidade tem várias faces, e nem todas são deformadas.

Para dar o toque final nesse caldeirão, as cores do mago Jose Villarrubia dão seu toque arrebatador, destacando detalhes nas cenas de forma lúdica e inteligente. Ele mostra a diferença entre uma pessoa que usa uma paleta de cores eletrônica e um artista que manipula essa ferramenta. O que mais eu poderia dizer de uma colorização que faz parecer que Frankenstein está chorando numa cena tensa, quando na verdade, ele não está chorando? É como se ele imprimisse um raio x da alma do monstro na página.

As ruínas do castelo “Von Frankenstein”, na Alemanha.

Frankenstein: Agente da S.O.M.B.R.A. se consolida para mim como uma das mais satisfatórias HQs de terror e aventura dos últimos tempos. Teve seus altos e baixos, mas ainda consegue surpreender e promete ainda manter o fôlego para muitos números.

Na próxima edição, Frankenstein bate de frente com o PODRE, e cruzará seu caminho com o Homem Animal, personagem também escrito por Jeff Lemire.

A resenha desse encontro você confere em breve aqui no Santuário!

Para ler a resenha anterior, clique aqui.

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Pai, a Minha Sombra és Tu

a cadeira está vazia, um corpo ausente
não aquece a madeira que lhe dá forma

e não ouço o recado que me quiseste dar
nem a tua voz forte que grita meninos
na hora de acordar
ouço o teu abraço, no corredor em gaia
e os olhos molhados pela inusitada despedida

o sol foge
mas o crepúsculo desenha a sombra que
tenho colada aos pés
ou o espelho, coberto com a tua face

pai, digo-te
a minha sombra és tu

Jorge Reis-Sá, em “A Palavra no Cimo das Águas”

F.D.P. – Se não morrer ninguém não é notícia!

Resenha de “F.D.P.” e bate papo com o roteirista Leonardo Santana!

Por Rodrigo Garrit

Parem as prensas!

Conheça Fernando Drummond Pessoa… um jornalista que não é exatamente bem visto pelas pessoas à sua volta… na verdade, o fato de parecer estar sempre envolvido em alguma encrenca não o ajuda muito a socializar, e não é raro que seja dado um outro sentido para as iniciais do seu nome: FILHO DA PUTA!

Mas apesar de tudo ele é um adorável canalha, e busca trazer a verdade à tona com suas matérias, mesmo que seus métodos não sejam dos mais ortodoxos. Ele trabalha para mídia impressa de um grande jornal metropolitano e por causa de seu estilo “porralouca”, suas reportagens o colocam nas situações mais estressantes e perigosas que se possa imaginar… da máfia à seres sobrenaturais… mas esse F.D.P. sempre consegue um jeito de se sair bem… pelo menos até agora!

Nessa sua primeira aparição, somos apresentados ao universo do personagem, e sua rotina nada tranquila. Fernando vive cheio de hematomas, e rodeado por reclamações e gritaria, mas não foge da raia pra conseguir uma história… se bem que muitas vezes é colocado em situações de risco contra sua vontade…

Não espere “lugar comum”, ele não é o típico super-herói ao estilo americano, não tem poderes e tampouco uniforme colorido… e nem suas histórias se propõem a isso. Mas apesar de ser um roteiro “pé no chão”, o elemento sobrenatural e por que não dizer a ficção científica, também estão presentes, deixando claro o tom pelo qual será levada a história, (reparem a notícia estampada no jornal jogado no chão na primeira página da HQ) o que complica ainda mais a vida do protagonista, um homem comum colocado de frente com poderes além da compreensão… ou ele tem um ás na manga? Em se tratando do F.D.P., nunca se sabe.

A arte de J. Henrique é perfeita para o clima da história, e funciona muito bem ao retratar um canalha com o qual acabamos por simpatizar. A edição é caprichada, impressa em papel de qualidade e totalmente colorida. Vale destacar o belo trabalho de colorização de Téo Pinheiro, o que abrilhantou ainda mais essa edição.

Uma HQ divertida e descompromissada… excelente opção para quem quer ler algo de qualidade produzido no Brasil!

O autor recomenda que a leitura seja feita ao som de “A Little Less Conversation” do Elvis.

SANTUÁRIO: Quando você deixou de ser um leitor, e descobriu que era um autor, que queria escrever suas próprias histórias? Houve essa transição ou você sempre se viu como criador?

LEONARDO SANTANA: Desde a adolescência, sempre me vi desenhando. Acho que todo mundo que gosta realmente de histórias em quadrinhos, mais cedo ou mais tarde acaba se aventurando nessa arte. Os que sentem que tem algum talento, continuam (Muitos não), os outros acabam se contentando em apenas consumir passivamente as histórias. Quando cheguei ao fim de minha adolescência, me vi jogado no mundo adulto e tendo que trabalhar, formar família, etc. Isto me afastou dos quadrinhos como um todo (Tanto leitura quanto produção). Após alguns anos, com uma pequena mas certa estabilidade, resolvi me aventurar novamente na produção de quadrinhos. Logo percebi que sentar direto e desenhar a história sem ter um script pronto era improdutivo pois precisava sempre voltar e corrigir mudanças na trama. Acabei tomando gosto pela arte de escrever. Isso e a percepção de que meus desenhos sempre foram amadores, me fizeram focar apenas na parte que se refere aos roteiros, deixando a arte para pessoas mais talentosas.

S: Como foi sua trajetória como roteirista, desde o começo até hoje… quais trabalhos mais te deixaram feliz?  Fale um pouco sobre cada um dos seus prêmios que recebeu.

LS: Comecei participando de listas de quadrinhos e oferecendo meus préstimos na arte do roteiro para quem solicitava ou precisava. E como ninguém me conhecia, eu focava em duas coisas: rapidez e qualidade. Quando alguém precisava de um roteiro de, digamos, até 8 páginas, eu conseguia fazer  em 3 a 7 dias. Como os roteiros feitos nessa época agradavam aos que os liam, acabei me destacando e sendo chamado para alguns projetos. O mais importante desses foi a revista BRADO RETUMBANTE no qual participei escrevendo uma personagem de terceiros, Cabala, e, posteriormente, acabei trabalhando como editor da revista. Esse trabalho foi tão bem aceito que eu acabei ganhando o prêmio DB artes como melhor roteirista. A revista também me abriu portas para novas parcerias como, por exemplo, a P.A.D.A.. Para a P.A.D.A., através de sua revista Prismarte, publiquei vários trabalhos como colaborador o que me rendeu vários prêmios concedidos pela P.A.D.A. e intitulados, então, de OS MELHORES DA PRISMARTE. E foi um dos trabalhos publicados na Prismarte que rendeu o Trofeu Alfaitaria de Fanzines como melhor roteirista. Trata-se da História “Cláudia encontra a felicidade”, da série “Metrópoles”. Vários trabalhos que fiz me deixaram feliz. São como filhos, difícil escolher um só. Acho que, partindo da receptividade que certas histórias e personagens receberam, eu poderia listar o F.D.P., Renegado 3000, As novas amazonas e Andrômeda.

S: Como é sua relação de trabalho com os desenhistas? Vocês mantém um contato próximo, discutem o roteiro detalhadamente ou você prefere passar uma ideia geral e deixar o artista trabalhar em cima dela?

LS: Eu gosto de pensar que minha relação com os desenhistas é honesta e aberta. O contato que mantemos não é tão próximo quanto eu gostaria mas ele com certeza se estreita durante a produção de uma HQ. Meu método de trabalho é, normalmente, o seguinte: Eu escrevo um roteiro no estilo Full Script com todas as descrições de cada quadro o mais minuciosamente que seja necessário. Depois disso, passo para o desenhista que tem liberdade total para fazer o que tem no script (Tanto que não chego a aprovar cada página que vai ficando pronta). O que tento evitar é que o desenhista mude a história sem a gente bater um papo antes.  Como a história é minha, gosto de ter a palavra final sobre aquilo que vai ter o meu nome nos créditos. Mas, na maioria dos casos, a mudança que os desenhistas propõem fazer são menos traumáticas para a história e acabam melhorando o resultado final de modo que, normalmente, não temos problemas quanto a isso.

S: Falando mais especificamente do F.D.P., conte mais sobre o processo de criação do personagem… existe alguma coisa nele “emprestada” da sua personalidade ou de alguém próximo, ou ali é tudo 100% ficção?

LS: O F.D.P. é um projeto muito antigo. Acho que foi um dos primeiros personagens que criei. Ele já se chamou BASTARDO, SAFADO e outros nomes antes de eu fechar com o F.D.P.. Eu gosto de brincar dizendo que as histórias do F.D.P. são uma mistura de Charles Bukowski com Arquivo X. Quanto a personalidade do F.D.P., ela é totalmente ficcional. Eu diria que ela representa o meu lado negativo (Tudo o que eu não sou ou penso).

S: Quais outros criadores brasileiros ainda desconhecidos do grande público você apontaria como grandes apostas pro futuro? O que você está lendo atualmente em matéria de quadrinhos nacionais?

LS: Essa é o tipo de pergunta que eu normalmente faço aos outros. Eu acho que temos bons nomes despontando no cenário nacional e, embora eles façam até um certo sucesso, não chegam a ser conhecidos do grande público por que não existe um trabalho midiático e editorial por trás deles. Quero dizer, alguns deles até tem editoras por trás mas elas normalmente apenas imprimem o trabalho e o lançam sem suporte publicitário algum.  Mas eu poderia citar, mesmo nem todos sendo totalmente desconhecidos, Will, Daniel Esteves, Luciano Félix e Téo Pinheiro (Ambos da P.A.D.A.), Rom Freire, Marcos Caldas e por aí vai.

Atualmente estou lendo alguns títulos da DC (Mulher maravilha, Frankestein, Monstro do Pântano, etc), relendo a série de Hellblazer (Por que percebo que deixei passar muitos números por causa da zona que foi a publicação do título no Brasil), Walking Dead, 100 balas (Fantástica!!!!) , Sandman Mystery Theather e a fabulosa X-Force.

S: E de modo geral, que tipo de quadrinhos, livros ou filmes você tem curtido recentemente?

LS: Eu gosto de quadrinhos bem escritos e com boas tramas. Nesse meio, destacam-se 100 balas e the walking dead. O restante do que leio é o que é suficiente para não me deixar entediado e me manter minimamente atualizado.  De livros, comecei a ler Ulisses de James Joyce mas parei porque senti a necessidade de ler primeiro o livro A Odisséia de Homero para poder entender melhor as similaridades e diferenças sutis que existem entre os dois. No momento estou relendo FREE, O FUTURO DOS PREÇOS de Chris Anderson, autor do livro A Cauda Longa que explica o mercado virtual de sucesso voltado para nichos específicos. Também li A LEITURA DOS QUADRINHOS de Paulo Ramos. De filmes, tenho tido cada vez menos paciência para ficar duas horas assistindo a uma única história. Mas, do cinema, gostei muito dos Vingadores. Em casa, os últimos filmes que assisti que me deixaram com um frisson no corpo foram Drive e Projeto X.

S: Em sua opinião, existe chance de surgir um mercado editorial rentável de quadrinhos nacionais, além da franquia da Turma da Mônica? Ou isso deve acontecer somente num futuro distante? 

LS: Digamos que existe um ambiente totalmente favorável para isso. Infelizmente, as editoras não querem arriscar um centavo sequer. Preferem continuar apostando nos mesmos cavalos. Existem algumas iniciativas saindo um pouco dessa linha mas ainda são muito tímidas para dizer que estão estimulando o mercado e não apenas poucos artistas individuais. Eu diria que uma editora que estimule o mercado (de artistas) e tenha uma possibilidade (Não certeza) de almejar um patamar como o de Maurício de Sousa só teria sucesso se dependesse de alguém que juntasse a paixão pelos quadrinhos com um suporte financeiro mais uma competentíssima equipe editorial. É a famosa história do gado que só engorda perto da vista do dono. Mas eu acredito que estamos perto de ter uma editora, senão com esse modelo patriarcal, com essa mentalidade honesta de produzir material nacional para o público brasileiro e estimular a produção baseada na qualidade artística de cada um independente de o artista já ter feito seu nome ou não.

S: Um exercício de imaginação: Se você fosse o dono de uma editora e tivesse o poder de editar quadrinhos nacionais da forma que quisesse, podendo chamar qualquer escritor e artista atuando hoje no mercado brasileiro, quem você contrataria? E que personagens mereceriam revistas mensais na sua editora?

LS: Roteiristas: Com certeza absoluta Gian Danton, Abs Moraes, Daniel Esteves, José Salles, Marcelo Marat,Alexandre Lobão e JJ Marreiro. Deve ter mais mas de bate e pronto foram esses que me vieram a cabeça.

Desenhistas: Allan Goldman, Daniel Brandão, Luciano Félix, Téo Pinheiro, Nestablo ramos, Danilo Beyruth, Jean Okada, Eduardo Schloesser, Rom Freire, Marcos Caldas, Rosendo Caetano. Desenhista tem tantos que fica difícil citar todos os que eu poderia ou gostaria de colocar.

Personagens: Eu gosto de pensar em revistas voltadas para nichos. Então, teríamos uma revista de terror, uma policial e uma de super-heróis. E cada personagem se encaixaria em uma dessas revistas. Mas poderia citar o F.D.P., Renegado 3000, Andrômeda, As Novas Amazonas, Couto (de Abs Moraes), Os exploradores do Desconhecido (Gian Danton e Jean Okada), Zé gatão (Eduardo Schloesser), Comando V (Allan Goldman), Chico Spencer (José Salles), Zoo (Nestablo Ramos), Necronauta (Danilo Beyruth), etc.

Arte de Carlos Brandino

S: Voltando ao mundo real, quais os seus planos futuros? Pretende continuar estendendo o universo de seus personagens, criar novos universos, escrever no de outros…?

LS: Eu estou aberto a qualquer uma dessas possibilidades. Na verdade, eu mantenho minhas metas flexíveis para poder entrar em qualquer projeto que pareça mais promissor no momento. No momento estou trabalhando em roteiros para os outros (Mesmo por que já tenho muitos roteiros meus esperando desenhistas).

S: Deixe suas considerações finais para os leitores do Santuário!

LS: Bom, eu gostaria de agradecer pela oportunidade de falar sobre mim e meu trabalho. É um espaço muito importante que dá a possibilidade do leitor de conhecer coisas novas. Gostaria de avisar que a segunda HQ do F.D.P. está sendo publicada semanalmente gratuitamente on-line no meu blog (http://roteiristaleo.wordpress.com/). Gostaria de avisar também que quem se interessou pelos meus trabalhos (F.D.P., Space Opera, Brado Retumbante, Prismarte e outros), pode adquirir as edições na minha loja virtual de quadrinhos nacionais independentes, a Bodega do Leo (http://www.bodegadoleo.com/). Por fim, gostaria de deixar também o blog da P.A.D.A. (http://www.prismarte.com.br/pada/), grupo que já há algum tempo faço parte que tem as novidades do que estamos fazendo em matéria de quadrinhos aqui em Pernambuco. Acho que é só, pessoal. Um grande abraço a todos e nos vemos por aí.

Uma última lição antes de partir

Por Rodrigo Garrit

“Seu coração será devorado pelas minhas flechas…”

… disse o guerreiro da tribo de Nhanga. E agora, vejam só, suas armas viraram peças de museu. Não parecem tão ameaçadoras agora. Mas estou divagando. Claro que prefiro essa flecha envenenada pendurada numa parede para apreciação pública do que fincada no meu peito.

- Lembra-se das larvas cintilantes da realidade ficcional que criamos sem querer?  Foi sorte elas terem evoluído para borboletas metafóricas e se converterem em centenas de letras de punk rock alternativo. – diz uma voz metálica que surge de repente, ao dobrar o corredor de acesso do museu vazio e me encarar fixamente. É incrível que ele tenha conseguido me surpreender, mesmo numa cadeira de rodas, continua o mesmo furtivo de sempre.

- Ou seja, perderam-se para sempre. – respondo, com um enorme sorriso no rosto. Há tempos não encontrava pessoalmente o meu amigo.

- Veio para uma revanche, Diego?

- Você deu sorte da última vez… mas não vai me vencer de novo no xadrez holográfico, Chris!

- Vou sim, e você sabe. Mas não foi por isso que o chamei. Ando meio nostálgico. Quis lembrar um pouco o passado.

- Não me leve a mal… mas pra quem costumava se arriscar entre uma brecha e outra na realidade, “lembrar os velhos tempos” não parece muito…

- Grande parte do acervo desse museu está aqui por doação de um “benfeitor desconhecido”, sabe?

- É. Ouvi dizer.

- Alguns itens têm valor inestimável… valeriam milhões no mercado negro… mas nos foram todos doados.

- Generoso seu benfeitor. Alguma ideia de quem seja?

- Ele é rico e altruísta. Esperto ou sortudo o bastante pra sobreviver aos riscos necessários pra adquirir esses itens. Conhece alguém assim?

- Chris… não preciso de mais publicidade. Se foi por isso que me chamou…

- Já fui como você, Diego. Nem sempre fui um inválido dirigindo um museu. Tive meus tempos de aventura… droga, nós tivemos algumas aventuras juntos… antes do… acidente. Foram bons tempos.

- Eu sempre me espelhei no meu pai, Chris… mas foram as suas aventuras que me inspiraram a ser o que sou hoje! Eu devo tudo a voc…

- Tenho acompanhado seus feitos de longe. Nunca pensei que alguém seria louco o bastante pra tentar… os perigos e medos que enfrentou…. mas não foi só por isso escolhi você.

- Me escolheu…?

- Para levar meu trabalho adiante quando eu me for.

- Mas você…

- As pessoas precisam ser inspiradas, Diego. É preciso que haja exemplos positivos de altruísmo, dignidade, justiça… e principalmente… esperança!

- Você ainda tem muito…

- Tempo? Eu não me iludo. Acha mesmo que sou tão forte quanto pareço? A minha vida… depois do acidente, tornou-se um fardo… acha que nunca pensei em desistir?

- Você é e sempre será o meu herói, Chris. E, um dia você vai sair dessa cadeira!

- He, he, he… isso é verdade… de uma maneira ou de outra… bem, obrigado Diego… mas eu estou cansado.

- Eu não sei o que dizer… não sei o que quer…

- Quero lhe fazer um pedido.

- Estou ouvindo.

- Muitas vezes, será mais pesado do que você pode aguentar. A dor vai te estraçalhar por dentro. Você vai desejar desistir. Nunca ter começado. Prometa que quando essa hora chegar… você não vai deixar de acreditar.

- Isso parece uma desped…

- Obrigado por ter vindo, Diego. Agora eu preciso passar por alguns… procedimentos médicos… nos falamos outra hora, ok?

- …despedida…?

- Quem sabe, meu jovem amigo? Quem sabe quando tudo o que temos pode desaparecer de uma hora para outra? Quem sabe quando vamos nos dar conta da dádiva maravilhosa que é viver… mas a grande questão… não é a morte. Ela é inevitável, uma amiga que nos espera para embalar nosso sono final. A grande questão, meu caríssimo amigo… é se o mundo vai estar melhor ou pior depois que formos. Sem falar na terrível hipótese, de nossa passagem não ter mudado nada. Nós somos o que fazemos, Diego. Somos o que deixamos.

Eu queria abraça-lo. Queria falar sobre a diferença que ele fez no MEU mundo. E no quanto eu gostaria de ser ao menos infimamente parecido com ele… significar pra outras pessoas o que ele significou pra mim. Mas em vez disso eu apenas contenho as lágrimas. Forço um sorriso. E falo, tentando disfarçar o embargo na voz: – Hmn… A propósito… algo me diz que além do museu, a fundação também receberá uma nova doação… em breve. Eu acredito muito nos resultados obtidos com a pesquisa das células-tronco…

E ele sorri, me encarando com seus profundos olhos azuis. Então dá meia volta com a cadeira e parte…

- Que bom saber disso, Diego… fico contente. Adeus…  Monte Castelo.

- Até breve, Christiano.

No começo, muitos de nossos sonhos parecem impossíveis, para logo tornarem-se apenas improváveis e, no final – quando usamos plenamente nossa vontade – os tornamos inevitáveis. (Christopher Reeve)

 Acesse www.christopherreeve.org e saiba como contribuir com a Christopher & Dana Reeve Paralysys Foundation, entidade criada pelo ator em prol do avanço das pesquisas com células-tronco para novos tratamentos e a eventual cura da paralisia resultante de lesões na medula e outras doenças que atacam o sistema nervoso central.