Ou: “Supercaligrafilisticexpialidocious”
Por Rodrigo Henry Garrit
Existe um beco escuro de uma cidade qualquer onde as sombras se aquietam e se abraçam lentamente, e então lançam seus tentáculos sobre nós. A vida quer nos matar. A morte nos espera viver. E a grande cartada, a grande sacada, o grande truque, vem de sempre estar pronto, sempre estar preparado, sempre vigiar.
O nosso mundo é construído diariamente por nossos tijolos imaginários. Temos o poder de criar e destruir nossa realidade. Lutar e vencer as sombras. A chave da saída está em nossas mãos e ela brilha como um farol. Não tenha medo. Basta usar.
Eu tive um sonho, onde encontrava uma biblioteca secreta, com corredores infinitos que levavam a um labirinto em espiral. Me senti tonto por um momento, mas quando firmei meus pés no chão, agarrei a borda de uma estante de livros que caiu sobre mim, cobrindo meu corpo. Os livros então me vestiram e se amontoaram sobre mim, quase me sufocando, mas lutei assustado e entorpecido, me livrando deles. Olhei para alguns deles abertos no chão; uns tinhas caracteres incompreensíveis, outros eram ilustrados por figuras de pesadelos, alguns tinham todas as palavras ao contrário, e vi ainda livros cujas páginas estavam completamente em branco. Um bibliotecário se aproximou e recolheu os livros, colocando-os em seus devidos lugares. Ele disse algo sobre ter cautela com esses livros nunca escritos.
Continuei andando sem rumo, e quando achei que nunca deixaria de andar em círculos, notei uma porta que não estava lá nas três vezes anteriores que passei por esse caminho. Atravessei-a e me vi num bar onde um atendente servia um drink de onde brotavam tentáculos vermelhos. Olhei em volta e os clientes do bar não eram pessoas comuns… vi astronautas, poetas, carrascos, estilistas, esgrimistas, arquitetos e coveiros. E vi homens com olhos de dragão e mulheres bidimensionais. Alguém me pediu para contar uma história, ou não poderia consumir nenhuma bebida. Nesse momento um corvo pousou no meu braço e gralhou no me ouvido, quase me matando de susto. Com sua asa direita me apontou uma direção, uma calha de carvão coberta por uma grade enferrujada. Cheguei a duas conclusões. Primeira: aquele corvo queria que eu entrasse naquela calha. Segunda: de forma alguma eu entraria naquela calha. Então um dos clientes do bar estava dando seu ultimo gole numa taça rubra, e se refastelou ao sorver o conteúdo dela até a ultima gota. Ele usava óculos escuros e começou e me encarar de forma estranha. Eu pensei em perguntar a ele se conhecia uma saída daquele lugar, mas temi que isso só acelerasse os problemas eminentes. Quando um bando de aranhas passou rasteiras pelos meus pés, decidi me mover e quando me dei conta estava sentado ao lado dele. Eu tentei indagar sobre a saída, mas só consegui grunhir palavras ininteligíveis. Ele tirou os óculos e riu de mim. Mas de uma forma totalmente aterradora. No lugar dos olhos ele tinha dentes…
Então, das paredes brotaram braços de madeira cravados de raízes, e corri deles, mas a única porta que encontrei me levou para um reino onde tudo era Verde… eu vi os anciões de madeira e eles sorriram para mim. Uma orquídea negra se desprendeu deles e me perdi na vastidão de sua beleza. Espetei meu dedo num espinho, e meu sangue preencheu todo o lugar. Num segundo tudo ficou Vermelho, e por um momento infinito eu vi o mundo através dos olhos de todos os animais vivos da Terra. E sua inocência e pureza prevaleceram sobre seu instinto selvagem. Os animais então falavam comigo, como nos contos de fadas, mas essas eram fábulas reais. Então todas as fábulas sonhadas giravam em volta de mim como magia, e vi um homem com sotaque britânico que conversava com fadas e anjos e todo o inverso disso. Mas eles não gostavam dele.
Ele acendeu um cigarro e apontou para a mesma calha de carvão que o corvo havia me indicado antes.
Eu fiquei sem ação, e num passe de tragédia, eu era o último homem vivo do mundo, embora ainda houvessem mulheres. Uma delas usava cartola e se aproximou de mim com olhos pesados de tristeza, mas havia esperança nas palavras dela, porém sua esperança era toda ao contrário. Ou seriam suas palavras? Ela também apontou para uma direção onde podia-se ver a mesma calha de antes. Mas, mais uma vez eu segui em frente, ignorando seu pedido.
No meu sonho, eu achava que devia consertar o mundo, mas o mundo preferiu não ser consertado. Então tudo mudou e quando me dei conta, eu caminhava por uma rua da Inglaterra onde nunca estive, e senti o gosto de uma nicotina que nunca provei. Num passo em falso tudo virou do avesso e senti um hálito quente e vivo, uma maldade sem precedentes, e me vi descendo as escadarias do inferno, onde uma cabeça decepada zombou de mim, e um demônio amarelo me deu boas vindas em rimas. Eu vi uma menina loira com olhar singelo… ela acenava para mim, mas só tinha um de seus braços. Sobre minha cabeça, ouvi o som rasante como de asas de grandes pássaros guerreando, mas não ousei olhar para cima. Antes que enlouquecesse, percebi que havia uma chave estranha jogada no chão. Com ela em mãos, todos os loucos e horrendos habitantes do lugar se afastaram de mim. Eles estavam tão ocupados se automutilando que nunca perceberam a chave do inferno bem aos pés deles? Eu caminhei com a chave até uma porta feita de ossos. No topo havia um crânio com dentes afiados e olhos flamejantes me encarando. Torci a chave na fechadura de sua caixa torácica e a porta se abriu. E porque isso era um sonho, e nos sonhos as coisas impossíveis acontecem o tempo todo, a porta era a mesma calha de carvão que o corvo, a mulher de cartola e o homem inglês haviam me indicado antes. Desta vez eu tomei coragem e passei por ela.
E do outro lado, me vi num enorme campo verde e infindável, e ao longe podia ouvir sons de violinos. Caminhei mais um pouco e encontrei uma casa. Uma Mansão. Seria a mesma mansão do bar que eu estivera antes? Em meu intimo eu sabia que estava sonhando, e que logo tudo passaria, eu acordaria e tudo ficaria bem. Porque, caso contrário, eu estaria irremediavelmente louco. Desde que esse sonho fosse mesmo meu, e não o sonho de outra pessoa. Poderia alguém sonhar comigo de forma tão vívida a ponto de me conceder consciência? Não importa, era um sonho sim, e continuei minha caminhada por horas ou séculos, porque nos sonhos, o tempo não existe.
Mas e se nada fosse real? E se eu fosse um personagem, uma história sendo contada por alguém? Escrito em livros velhos, sendo lido e relido até a exaustão… não são reais os sonhos?
Em certo momento, meu sonho desabou sobre mim. Sorvi-o inteiro em minha alma e contemplei sua verdadeira natureza. E o sonho era alguém. Um ser vivo e perpétuo. E eu me lembrei que, esse tempo todo, EU estava tentando fugir de mim mesmo.
Mas o sonho me acolheu.
E nesse sonho vertiginoso, onde a Morte é uma amiga e o anjo caído abriu um bar, tudo o que deveria acontecer acontece. Tudo o que é impossível é possível. E descobri que os sonhos não são um reflexo do mundo. O mundo é que é um reflexo dos sonhos…
Aqui eu encontrei o meu lugar. Entre monstros de lodo e animais telepáticos. Um lugar onde não raro encontro um manticore, um pastor ou um anjo. Por esse lúdico caminho encontrei o meu refúgio, onde não era mais preciso fugir nem ter medo. Onde aprendi que a força para vencer sempre esteve dentro de mim, e sempre estará, não importa o quanto as pobres e infelizes pessoas tentem me convencer do contrário.
Dentro mim, existe esse refúgio, onde recobro minhas forças e descanso o sono dos justos, para voltar revigorado e pleno. Em meus sonhos eu encontrei mais que um lar. Encontrei meu Santuário.
Assim foi o sonho que eu tive.
E não acordei.
Pois ao despertar, o sonho veio comigo. E as sombras não se aproximaram mais de mim… elas não me alcançam mais… a não ser que em minha fraqueza eu permita…
“Que milagre é o homem?
Que sonho, que sombra?
Mas existe o homem”?
Carlos Drummond de Andrade









