Eu era um lobisomem juvenil

Por Venerável Victor  “Bicho do Mato”  Vaughan

Muito antes de descobrir que amor rima com dor eu era apenas um Lobinho do mar esperando completar a idade certa pra me tornar escoteiro; aos 12 anos conheci Rosângela, uma menina que eu via como mulher e que viria a se tornar peça importante no conjunto de coisas que, anos mais tarde, me fariam participar do Santuário… ela e a música de Renato Russo.

“Luz e sentido e palavra, palavra é que o coração não pensa”

     Sabe aquelas memórias que permanecem perfeitas independente de quanto tempo tenha passado? Lembro nitidamente do recreio nublado em que Rosângela, com seus longos cabelos castanhos desgrenhados e corpo esguio, recostada sobre o muro, lia uma revista em quadrinhos enquanto a turma se ocupava em agitações que não a atingiam.

     Eu morava quase ao lado da escola mas todos os dias andava dez quarteirões pra pegar o mesmo ônibus que ela, só pra desfrutar de Rosângela pelos mesmos dez quarteirões. Então, que melhor momento eu teria pra puxar assunto com minha primeira paixão? Foi nesse dia, ao perguntar o que ela estava lendo, que fui apresentado ao que viria a se tornar a minha maior ferramenta de libertação dessa realidade que não costuma ser gentil conosco. Por mais que hoje saibamos que existem meninas que leem quadrinhos, quantas realmente chegamos a conhecer?

“O que você me falou me fez rir e pensar , porque estou tão preocupado… por estar tão preocupado assim…”

     Como os lobisomens juvenis sofrem… Às vezes me pergunto se o compositor dessa música, artista que tanto admiro, poderia ter tido outro desfecho em sua vida se, assim como eu, em sua juventude tivesse conhecido Rosângela e se permitido descobrir mundos onde heróis superam o insuperável e, mesmo com seus poderes maravilhosos, se destacam de nós apenas por acreditar que podem vencer gigantes ou moinhos de vento.

“se o mundo é mesmo parecido com o que vejo, prefiro acreditar no mundo do meu jeito”

No mundo real nós, como bons adolescentes, passávamos por infinitas crises; e nos quadrinhos uma crise nas infinitas Terras sacudia o universo; Na edição do Super-Homem que meu primeiro amor lia, John Byrne apresentava o Senhor Milagre – que se tornaria meu personagem preferido da DC – e sua esposa a  Grande Barda; O que repousava nas mãos de Rosângela era um momento histórico dos quadrinhos, além de meu coração por inteiro.

“O que sinto muitas vezes faz sentido e outras vezes não”

     Para mim, a menina que lia quadrinhos era a mulher mais interessante do mundo. Talvez influenciado pelo desejo de criar afinidade eu tenha me permitido embarcar também nesse universo novo e vir a conhecer o que seria minha segunda paixão (que ao contrário dela, estaria comigo nos anos seguintes, apaziguando conflitos e formando o caráter de um confuso lobinho). A partir de então todo o dinheiro que chegava em minhas mãos era pra comprar as revistas que lia com prazer e trocava com Rosângela. Conheci jovens e nobres heróis, com conflitos como os meus, que se reuniam numa torre em formato de “T”; outros, também jovens, que defendiam um mundo que os odiava e temia apenas por terem nascidos diferentes; um samurai que cruzava o Japão feudal com seu filho de colo e nunca se desviava de seus princípios… ela era um Lobo Solitário mas eu nunca mais seria: tinha encontrado minha matilha.

“E daí, de hoje em diante, todo dia vai ser o dia mais importante…”

     As revistas que Rosângela me apresentou, assim como Renato Russo, me fizeram cogitar se eu seria mocinho ou bandido, vítima ou herói. O que iria responder se um dia fosse questionado sobre qual semente havia plantado? O ano letivo acabou, minha família mudou de bairro e eu mudei de escola. Foi com dor que perdi contato com Rosângela, mas ela me deixou de herança a chave de muitos universos, em troca da chave do meu coração.

“Se você quiser alguém pra ser só seu é só não se esquecer estarei aqui”

Comunidade do Santuário no FACE

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