A dança das cadeiras de GAME OF THRONES

Por Pablo, o Ramos

“When you play the game of thrones, you win or you die. There is no middle ground.”

Antes de qualquer coisa, que fique claro: POP não presta! Um amontoado de clichês reduzidos a mercadoria que não podem ser chamados de cultura. Não existe cultura POP porque POP não chega a ser cultura. Existe cultura, e existe POP. Mas como não se deve generalizar NADA (isso não seria uma generalização?), admito de bom grado que algumas vezes brotam neste solo infértil algumas obras memoráveis; Não, Andy Warhol não é memorável e não passa de um auto-bajulador tão bajulado quanto afetado, que teve uma bela sacação ao misturar Coca-cola, Marlyn Monroe e produção em série… mas foi só isso, uma bela sacação. Se ele é um ícone da “cultura POP” é porque cada cultura tem o ícone que merece. Obras memoráveis são as que, mesmo movidas pelo motor do lucro e guiadas pela bússola do mercado, conseguem TOCAR ao invés de anestesiar consciências.

 

O final feliz do mocinho
Dos quadrinhos aos sucessos de bilheteria há muitas obras deste tipo, e há as que vem de onde menos se espera, como é o caso de Game of Thrones, minissérie da HAGÁ BÊ Ó que teve sua primeira temporada produzida em 2010 e estreou este ano. Baseada na série de livros “A Song of Ice and Fire”, escritos por George R. R. Martin, a história tinha tudo para ser repetição de uma velha fórmula, afinal em 1954 já fora lançada a primeira edição de “O Senhor dos Anéis”, que inaugurou a literatura de fantasia-épica-comercial. O Senhor dos Anéis tem elementos que são requentados e copiados até hoje, e que garantem sucesso a outras sagas como Harry Potter, Caverna do Dragão e quem sabe até Xou da Xuxa. Seja no ambiente medieval fantasioso, no clima de guerra iminente ou no tamanho avantajado da história, a comparação entre O Senhor dos Anéis e Game of Thrones é inevitável. Mas a tradição de abordagens ácidas e caprichosas da HBO falou mais alto e o resultado final foi uma produção primorosa, impactante, atual, deliciosa.

Enquanto que em O Senhor dos Anéis o protagonista é um ingênuo e puro lavrador de uma raça pacífica e provinciana, em Game of Thrones o personagem principal é… NINGUÉM. Muitos podem pensar que seja um ou outro, mas no fundo o verdadeiro protagonista é o PODER. Todos tentam, das formas mais sádicas, bárbaras e mesquinhas, se destacar da multidão para conquistar o título, a posição, o reconhecimento, a ascensão; um trono em que possam sentar-se para serem mais do que todos à sua volta.

Matando a fome de boas produções com um coração de cavalo fresquinho

Mas no começo há uma promessa de clichê que deixa o espectador bem à vontade – o primeiro personagem a ser apresentado é um chefe de família que transborda ternura no olhar, além de ser o único que segue de coração algum conceito de honra e justiça. Somos levados a simpatizar com Ned Stark nas primeiras cenas, para vê-lo, logo em seguida, cortar a cabeça de um pobre rapaz assustado que não tinha feito nada senão fugir da morte certa. O bondoso Ned decepa o jovem de um só golpe em nome de um juramento de honra e seu filho de nove anos, levado à execução pelo pai para ver a coisa toda, é instruído a não tirar os olhos. Esses são os mocinhos.

As principais belezas e méritos desta série são:

01 – Origem e fidelidade: Ter nascido de uma obra literária que não sofria pressão por audiência, e ter sido reproduzida fielmente na TV, que tanto pasteuriza as idéias, fez toda a diferença.

02 – Ousadia narrativa: O mocinho decepando um inocente assustado é apenas a primeira vez em que se quebra as expectativas; sempre que pensamos “bem, agora é a hora de acontecer isso” – aí sim é que não acontece isso nem aquilo, mas aquilo outro que muda todo o contexto. Não se trata de uma história do bem contra o mal e nem cria justificativas morais para as bizarrices que desvenda.

03 – Competência técnica: gastar rios de dinheiro qualquer um (com dinheiro) gastaç difícil é fazer com que estes rios deságuem em oceanos que valham a pena navegar.

04 – Ambientação: Uma das coisas que faz com que o mundo fique crível é o nível de detalhamento mesmo nos elementos que mal aparecem em cena, inclusive em coisas que não vão aparecer. Como num desenho, em que detalhes de imperfeição fazem mais pela imagem do que muitos destaques ou mesmo o tema. Assim como para “O Senhor dos Anéis” Tolken desenvolveu toda a língua dos elfos, foi contratado um lingüista para elaborar uma das línguas faladas na história. Palavras que nunca foram ditas por personagem algum tiveram grafia e pronúncia definidas a bem da complexidade do mundo. Isso dá ao espectador a sensação de que, querendo dar uma escapulida das cenas para ver como está o resto do mundo, ele efetivamente vai encontrar um mundo à sua espera, não o final do cenário maravilhoso como a cúpula de O Show de Trumman.

05 – Competência narrativa: Distribuída entre inúmeros núcleos de maneira habilidosa, a trama revela várias facetas de um cenário complexo e intrincado sem deixar pontas soltas. E ainda consegue deixar no ar uma grande tensão para a próxima temporada SEM A SENSAÇÃO DE QUE NADA SE EXPLICOU (porque será que llembrei agora de “Sonífera Ilha“…?)

Elenco e personagens: Trabalho magistral dos principais, coadjuvantes, dos figurantes e até das cópias digitais dos figurantes! Grandes atores, em momentos inspirados, que representam personagens complexos e muitas vezes imprevisíveis, ambíguos e intrigantes. Um belo retrato do humano executado pelo autor. Destaques especiais para:

– Sean Bean, como Ned Stark, o mocinho decaptador de meninos que se enrosca na teia da politicagem medieval e termina na maior e definitiva solidão: a morte (aliás, no fim da temporada Ned morre exatamente como o garoto que ele mesmo decapitara no começo).
– Lena Headay, como a Rainha Cersei Lennister, manipuladora, incestuosa e profunda na sua introspecção maquiavélica. A aparente falta de expressões da atriz vai se mostrando, ao longo dos capítulos, uma máscara impecável de mulher que teve que aprender a viver num mundo de homens. Bravo!

– Peter Dinklage como o impagável anão Tyrion Lennister – uma rica e sarcástica aberração que viaja pelo mundo tentando extrair o melhor dele, sempre jogando na cara do próprio mundo, e dos espectadores, o que todos têm de pior.

– Mark Addy, como o Rei Robert Baretheon – também um dos mocinhos, ainda que alcoólatra, irresponsável, desrespeitoso, sacana e sanguinário. O ator consegue transformar, aos poucos, um rei virtuoso em alguém que beira as rias da loucura – e quando vemos estamos temendo por todo o reino…

Game of Thrones, ou “O jogo dos tronos”, é de arrebatar nas primeiras cenas e não perde o fôlego ao longo dos dez capítulos que contam a história do primeiro livro da série. O nome, aliás, foi muito bem escolhido, uma vez que traduz bem a ânsia de todos, que  se digladiam para conseguir o poder do “trono de ferro” como na corrida insana pelo último assento de um jogo das cadeiras.

Comunidade do Santuário no FACE

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10 comentários sobre “A dança das cadeiras de GAME OF THRONES

  1. Uau, tomei uma bronca pra vier ver o que estava acontecendo por aqui e eis que…. tem um povo falando!!! Obrigado a todos pelos comentários, em especial o da Thais – realmente a obra original é mais ousada – ousadia em questão aqui é de trazer esta obra para a TV sem transformá-la em leite pasteurizado.

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  2. Eu fui realmente entender um dos grandes méritos dessa obra, agora falando do livro, quando entrei em uma livraria há uns 2 meses e enquanto olhava os lançamentos escutava uma moça de uns 17 anos e uma senhora de seus lá vai 67, discutindo e trocando figurinhas sobre os livros de GOT. Total magia…

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  3. OOOHHH!!! Essa cena da decapitação do Ned Stark é padão HBO de qualidade, eu li os livros, parabéns pela resenha e parabéns ao canal por trazer essa série, Cada hora que entro aqui me surpreendo um pouco mais com a diversidade dos temas, queremos Marvel também! rsrsrsrsrs louco, louco pela segunda temporada dessa maravilha aí…

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  4. As mulheres nuas não são criatividade narrativa porque estão também descritas dessa forma (ou pior) nos livros. Na verdade a HBO pegou leve (pela primeira vez) em uma série, já que o sexo e o escatológico são mais densos e chocantes nos livros.

    Achei a série muito bem orquestrada, mas ela suaviza traços dos personagens fazendo com que você os odeie menos… ou ame mais.

    Vale a pena ressaltar que a inspiração do autor na Guerra das Rosas é nítica e clara, como ele mesmo admitiu, e tirando mundo da fantasia, a série nada mais é que a história da nobreza europeia se degladiando por alguma coroa (na maioria das vezes inglesa ou francesa) resumida. Btw, o Tyrion Lennister é o Ricardo III bem humorado 🙂

    Bjus

    Ptah

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    1. To ligado que o livro é bem descritivo…tava pegando no pé do Pablo hehehe
      Só assisti a primeira temporada e dei uma folheada no primeiro livro, não sei se quero saber mais a respeito do que vai acontecer, mas pelo que tive de contato até agora vejo que muitos elementos da história (a muralha de gelo, “os outros”) e a minúcia das descrições, inclusive das cenas de sexo (as vzs romantico, as vzs o oposto disso), são muito parecidos com uma série de livro pela qual eu era fanático no começo da minha adolescencia chamada “Earth’s Children” . Link pra wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/Earth%27s_Children
      Claro que pode ser totalmente viagem minha, idiossincrasia pura, e os elementos que vejo como coincidentes são apenas parte do caldo cultural em que vivemos, elementos que se repentem em diferentes narrativas em diferentes tipos de mídia, sendo re-aarranjados de forma mais ou menos original e conformando o que chamamos de “originalidade criativa”….mas realmente algumas coisas em Games of Thrones me soam familar pra além de Senhor dos Aneis, etc. Se houver neanderthais no futuro da história ou “os outros” forem humanóides a lá neanders então…
      Quem vive na ilusão de haver sido um dia totalmente criativo simultâneamente em forma e conteúdo que atire a primeira pedra no Martin!! hehe

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