Um Novo Dia para Peter Parker – Parte 1

Por Lucas  “Cabeça de Teia” Assis

Os próximos posts giram principalmente em torno das edições # 545 e #546 da revista The Amazing Spider-Man publicadas em dezembro de 2007 e fevereiro de 2008, cujas histórias já foram lançadas aqui no Brasil e inauguram uma nova fase do aracnídeo nos quadrinhos chamada “Brand New Day”, após os eventos ocorridos na saga “One More Day”- portanto há spoilers de leve neste primeiro post específicamente, mas não há nada que não tenha sido mega comentado por aí e que não foi publicado aqui e lá fora há tempos.

O objetivo aqui, nesta Parte 1, é comentar, muito por alto, episódios relevantes da trajetória do personagem desde o casamento de Peter Parker e Mary Jane, pensar sobre o longo processo que levou ao “Brand New Day” e o potencial dessa nova fase, que tem um elemento que talvez desagrade aqueles que gostam da nossa querida Mary Jane Watson Parker.

Pois é, senta aí na poltrona do Muquifo, aracnofã ansioso. Agora eu sou o Vigia e retrocederemos no tempo.

Do Éden ao Caos

Bem, no começo dos tempos havia Stan Lee e Ele criou um homem que chamou Parker, Peter Parker. Depois criou uma aranha radioativa que em vez de morder a maçã, mordeu o Parker. Eles viviam no Éden e muitos roteiristas e desenhistas entravam e saiam do Éden sem muitos problemas. Na verdade, era um grande sucesso quase sempre, e o Homem-Aranha tinha uma cronologia agitada, mas bem acertadinha, muito coerente, coesa.

Tudo parecia ir bem no paraíso: o Homem e a Aranha, a Aranha e o Homem. Mas eis que surge um anel e uma pequena controvérsia se instala entre os aficionados. Haveria espaço para Homem, Aranha, uma ruiva e seu anel? Além da novidade do anel, natural em se tratando de um casamento, o que não podemos negar é que para alguns agora havia aranhas demais nessa história.

Ouviu-se, então, naquele paraíso impresso em quadrinhos, um ameaçador trovão ao longe. Peter Parker descobre que um antigo desafeto chamado Chacal havia feito clones seus. Depois ele descobre que não é o Homem-Aranha original, sendo ele mesmo um clone, já que um dos supostos clones, chamado Ben Reilly, era o Homem-Aranha verdadeiro.  Ou vice-versa, três vezes. Alguns clones mal feitos vagam por aí causando problemas, com dramas existenciais insólitos e personalidades e corpos desfigurados. Ben Reilly assume a identidade mascarada de Scarlet-Spider, mas depois passa a ser o Homem- Aranha, já que o Peter e MJ teriam um filho.  Mas depois ele morre. Quem morre, o bebê ou Ben Reilly? Os dois. Esqueci de dizer que antes disso Peter havia sido preso por crimes cometido por um de seus clones. No meio dessa confusão a Tia May morre na edição #400 da The Amazing Spider-Man que teve o grave título de “A Death in the Family”. Drama total. Mas… pegadinha do Vigia-Malandro! Não era a Tia May de verdade!

Quase te peguei, heim?

Essa confusão de clones durou uns dois anos e depois chegou a vez de MJ morrer. Sim, claro que ela voltou- dã.

Tem uma história que me dá repulsa só de lembrar que é a aparição dos filhos gêmeos da Gwen Stacy a partir da The Amazing Spider-Man #509, em 2004. É revelado que ela teve um affair em Paris (chic!) com Norman Osborn (eca!), dando à luz na Europa,

Tempos depois, numa bela manhã ensolarada em Manhattan, o Homem-Aranha, agora membro permanente dos Vingadores e morador da Stark Tower (assim como Tia May e MJ, numa espécie de “Big Brother Avengers” com direito a Tia May e Jarvis fazendo estripulias no edredon), é brutalmente espancado e tem um dos olhos arrancado e devorado por um sujeito chamado Morlun – tive medo que mudassem o nome do personagem para Pirata-Aranha, certamente venderia muitos bonequinhos com tapa-olho. Em seguida o Aranha se vinga e aparentemente morre, mas antes do funeral ele entra num casulo nojentão e volta tendo aceitado sua “aranha totêmica”, o que lhe conferiu alguns novos poderes, como conseguir grudar coisas nas costas (me privo de tecer comentários a respeito) entre outras coisas esquisitas- dá a impressão que ele “digivolveu”. 

Bem, em 2006, durante a minisérie Civil War, a identidade secreta do Aranha se torna pública. Tony “manipulador de sentimentos filiais” Stark e o roteirista Mark Millar botam uma pilha fraquíssima, mas o suficiente para fazer o Aranha tirar a máscara em rede nacional e declarar: “I’ve been Spider-Man since I was fifteen years old” (na hora que li isso pensei: eu também)… as consequências disso para a vida da família Parker e a reação do público leitor são negativas- dã [2].

Deixando o Vigia e seu documentário sobre o passado do nosso amigão de lado, citei essas coisas para ilustrar como aspectos estruturais do personagem foram modificados drasticamente – profanados! hehe-, ao longo de mais ou menos 15 anos.  Que tipo de histórias viveria agora aquele Peter Parker, criminoso público procurado, com uma tia e uma esposa para tomar conta, enquanto se esconde de agentes da SHIELD? Com certeza essas histórias não envolveriam tirar fotos para o Clarim Diário e nem chegar atrasado para aquele jantar com a Tia May combinado desde a semana passada.

PP e MJ com Michelinie são "VIP"

A Marvel havia se afastado muito da fórmula mágica- que era basicamente: por baixo daquela máscara quase poderia estar eu ou você- que havia tornado o Homem-Aranha um dos seus carros-chefes por décadas, um ícone que havia, inclusive, saltado com habilidade espetacular para várias outras mídias (trocadilhozinho sacana). Para mim, o personagem vivia uma espécie de fundo do poço nos quadrinhos inversamente proporcional à sua popularidade “mídias afora”. Cá comigo, pensava: “fazer o que, quadrinhos nos EUA são, afinal, uma indústria como qualquer outra, a competição e as cifras comandam. E nesse mercado específico, a Marvel é gigante, uma das duas empresas mais fortes que existem”. Pensava também que era melhor, então, deixar de lado esse Frankestein-Aranha e curtir a nostalgia das histórias antigas- na verdade fiquei muitos anos sem ler nada do personagem e quando tentava achava tudo uma grande m… porcaria.

Na minha maneira de ver as coisas, as “sementinhas do mal” da descaracterização do personagem foram plantadas com o casamento de Peter Parker e MJ (como já apontei) na época em que o excelente David Michelinie roteirizou o Aranha, além disso, e talvez extrapolando, o contexto ideológico nos EUA final da década de 1980 e década de 1990 tenha uma influência grande no início disso tudo.

O Aranha só recebe em cash

Para mim, faziam muito sentido as mudanças, afinal achava que o personagem amadurecia, terminava a faculdade, fazia uma pós-graduação, lançava um livro de fotografias, ficava mais “osso-duro-de-roer” na porradaria com os inimigos e ganhava uma graninha eventualmente como mercenário para a Silver Sable. Afinal, já não havia ocorrido mudanças importantes, como a morte de Gwen Stacy e o uniforme negro que haviam dado certo?

Ledo engano. Eu era um garoto da década de 90 e achava natural, por exemplo, o Aranha ganhar um dinheiro da Sable para combater terroristas internacionais, afinal a MJ havia se tornado uma modelo super famosa e o Peter, coitado, tinha que se virar, como dava, né? Além disso, depois de publicar tantas fotos do Aranha, era mais do que justo ele lançar um livro de fotos chamado “Webs” e fazer uma pequena turnê de lançamento pelo país. Se tudo fosse desenhado por McFarlane, talvez eu achasse quase qualquer coisa agradável- pra ter uma noção, eu amei de paixão a saga “Tormento”, que hoje acho que não teve sentido algum, nada além de uma sucessão de desenhos do McFarlane- mas que desenhos! O Eric Larsen, artista seguinte a desenhar o título principal do Aranha, me parecia uma cópia de segunda do McFarlane, já que a influencia deste sobre o trabalho de Larsen era inegável- e dos que viriam depois- mas, claro, “não era a mesma coisa”. Talvez isso fosse um mau sinal, mas eu estava a miiiilhas de distância de pensar sobre esse tipo de coisa.

Aquelas escolhas de roteiro que superficialmente faziam sentido, eram um tiro no pé: onde estava, pra começo de conversa, a máxima, já presente na primeira história, “com grande poderes vêm grandes responsabilidades”? No contexto do surgimento do personagem, aquilo era basicamente um voto de pobreza e altruísmo: ao utilizar suas habilidades para ganhar dinheiro no “show business”, não assumindo uma espécie de dever de solidariedade para com toda a humanidade, Peter é punido com a morte de seu tio. Essa é a lição moral que nos tenta passar Stan Lee, algo totalmente avesso à ideia tão cara à mentalidade americana de que todos têm o direito- ou o dever- de utilizar suas habilidades para trabalhar e construir sua felicidade individual- esse ponto mereceria por si só um post inteiro sobre spider-ideology.

Porém, na década de 1990 até mesmo o altruísmo de PP teve limites mais estreitos. O livro “Webs” do fotógrafo, além de render mais uma vez uma importante graninha, o alça a um status de semi-celebridade, afinal de contas ele já era casado com a top-model Mary Jane- ela também, sempre havia sido uma atriz fracassada, de repente tem o mesmo cachê da contemporânea Claudia Schiffer e pode bancar um apartamento de luxo em Nova Yorque. A identidade secreta sempre havia sido uma obsessão para Peter e em pelo menos uma história que eu lembro, um inimigo viu o rosto de Peter Parker, mas de nada adiantou posto que Peter era um total anônimo. Mas agora o rosto dele estava na TV, era isso mesmo!?

Existia outra novidade interessante: David Michelinie fazia referências explícitas de sexo entre o casal. A aranha radioativa mordeu Peter em 1962, mas somente agora alguém viria a morder de fato a maçã naquelas até então quase imaculadas páginas, e esse alguém foi a ruivíssima Mary Jane. Se esse conteúdo mais adulto provocou alguma reação na época, não sei, mas destoou do que havia antes disso com certeza. O DeFalco fazia referências mais sutis entre o Aranha e a Gata Nega, já Michelinie definitivamente falava quando e onde as aranhas iriam brigar. Eu era um típico pré-adolescente e, claro, curtia QUALQUER referência ao assunto por mais remota que fosse.

A primeira aparição de MJ

Hoje, adulto, observando o material daquela época, vejo como era claro o movimento de aproximação dos Parkers de um modelo de casal jovem, bonito e bem-sucedido materialmente, modelo que bombava em todos as mídias sem a concorrência de modelos alternativos- claro que PP sempre teve um dom raro para a “pobreza altruísta”, mas a direção editorial escolhida me parece que foi essa. O “problema” é que, relendo o texto de Michelinie, percebo que era muito bom mesmo: inteligente, engraçado sem ser infantil, ritmo perfeito. Foi uma época maravilhosa, agora entendo porque cai nas graças do personagem de cara e porque aquela época imprimiu uma marca indelével.

A dupla Michelinie e McFarlane revolucionou o personagem no final da década de 1980, deu o tom para quem seguiria nos anos seguintes. Porém, a qualidade e a natureza de seu trabalho seria também uma espécie de maldição. O trabalho revolucionário talvez tenha colocado mais uma sombra além daquela do mito Stan Lee sobre aqueles responsáveis pelo aracnídeo, somando-se a isso, o exemplo de sucesso estava dado: era preciso ser revolucionário para ser respeitado.  A partir daí as concessões e transformações teriam se expandido, os limites já não eram mais claros. A lógica comercial da empresa e a vaidade dos roteiristas ávidos pelo mérito de imprimir grandes mudanças em um personagem do calibre do Aranha transformariam o “Éden” num caos. O exemplo maior desse caos talvez seja a Saga dos Clones, mas, infelizmente, há controvérsias a esse respeito- a história dos filhos da Gwen foi bizarra.

Em 2008, mais uma mudança editorial radical foi tomada. Uma alternativa que tinha tudo para dar errado e decepcionar mais uma vez os fãs.

Mary Jane, a melhor parceira que Peter Parker já teve

Comunidade do Santuário no FACE

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8 comentários sobre “Um Novo Dia para Peter Parker – Parte 1

  1. Caraca!!!!!! Esse post tá muito bom cara !!!!! Eu não sabia que vc escrevia assim !!!!! To sem palavras !!!!!

    E vou ficar anonimo soh pra provocar um certo Vaughan HUAHUAHUAHUAHUA

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  2. AH! Que bom que você voltou cara, aqui definitivamente é a casa do Aranha também! Eu particularmente gostei do One More Day, o JMS é um escritor curioso…pode produzir uma obra mamorável ou a maior das porcarias, nesse caso, é evidente que ele teve uma encomenda editorial, para poder simplificar a vida de Peter Parker, que tava muito ireconhecível depois te tantos anos, mesmo. Achei que foi uma medida acertada. Nâo para, não para, não para não!

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    1. Tenho a mesma opinião sobre ele, Fred… o cara é bom, mas faz cada cagada…e a relacao JMS e Quesada ficou complicada… um empurra pro outro a culpa sobre a história da Gwen ter tido um caso com o Osborn, por exemplo… tiveram problemas com o final de One More Day tb, e JMS, claro, não faz parte do atual “braintrust”do Aranha… to bolado com umas declarações do Quesada, vou falar mais dissso no proximo post.
      Pode aguarda que vem mais Aranha por aí!:)

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  3. Com quatro revistas e décadas e décadas de cronologia, muito acerto e muita burrada já foi feita com o “amigão da vizinhança”. Concordo que a MJ é a melhor parceira que o Aranha já teve (como mulher/amiga/porto seguro) mas mulher bonita ao invés de todo o resto, nunca faltou na vida de Peter Parker, pelo menos isso, né teioso?

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