Um Novo Dia para Peter Parker – Parte 2

Por Lucas Assis

Estamos aqui de volta ao Muquifo, aracnofã, continuando nosso papo sobre “Brand New Day”.  Recapitulando: há uns quinze anos a vida do aracnídeo mais famoso do universo anda uma bagunça. Vários clones do Aranha apareceram, personagens morreram mas foram ressuscitados, os filhos da Gwen com Norman Osborn apareceram, Peter Parker revelou sua identidade para o público, etc. Para mais informações, leia o primeiro post desta série aqui.

No post anterior prometi falar sobre o potencial de “Brand New Day” e sobre uma mudança muito importante com relação à Mary Jane, mas faltou espaço. Cumpro a missão neste post. Antes de falar sobre a nova fase da vida do Amigão da Vizinhança, temos que dar uma passadinha pela história onde as mudanças ocorrem, a saga “One More Day”.

O último dia de Peter e Mary Jane

“One More Day” foi publicada na The Amazing Spider-Man #544, Friendly Neiborhood Spider-Man #24, The Sensational Spider-Man #41 e foi concluída na The Amazing Spider-Man #545. É um material excelente, o roteiro de J. Michael Straczynski (JMS) e a arte de Joe Quesada estão ótimos nos quatro capítulos. Nos bastidores, no entanto, as coisas não foram nada tranqüilas. O terceiro e quarto capítulos atrasaram por conta da dupla atribuição de Quesada como desenhista e editor-chefe da Marvel, além disso, ele e JMS divergiram sobre o desfecho da história, ao ponto de o último publicizar em um fórum na internet a desavença interna- o que gerou mais publicidade e expectativa para o último capítulo da história publicada na The Amazing Spider-Man #545. O roteiro original de JMS terminou sendo modificado, o que o levou a pedir para não ter seu nome colocado na parte final da obra, mas voltou atrás e os créditos do roteiro foram divididos entre ele, Tom Brevoort, Alex Alonso e o próprio Quesada.

A história se passa após Civil War, quando o Homem-Aranha revelou em rede nacional de televisão que é Peter Parker. Por conta disso, a Tia May é baleada por um pau-mandado de Wilson Fisk, o Rei do Crime. Com a tia à beira da morte no hospital e corroído pelo sentimento de culpa, Peter está disposto a fazer quase qualquer coisa para salvar a doce senhora. Após uma série de incidentes, surge o capeta em pessoa, que no Universo Marvel é mais conhecido pelo nome de Mefisto (cruz credo, Quesada!). A proposta do tinhoso é simples: a vida da Tia May em troca do amor de PP e MJ. Após o sofrimento de ter de tomar uma decisão como esta, eles terminam por aceitar a proposta. Pronto, Tia May está viva, o casamento nunca existiu e a identidade de PP nunca foi revelada- na verdade foi revelada, mas ninguém “lembra”-, todo o resto de suas memórias continua lá, como se apenas esses elementos tivessem sido cirurgicamente extirpados da memória de todos do Universo Marvel. Mefisto, após o acordo estar firmado, revela, para o desespero do casal, um custo inesperado: uma menininha ruiva que jamais viria a nascer. Mefisto se regojiza.*

Existem lacunas deliberadamente plantadas na narrativa, perguntas a serem respondidas no futuro. A história é sombria, com cores escuras, densa em sentimentos. Especialmente na última parte, Quesada se esforçou para transmitir, com realismo, simultaneamente uma sensação de angustia frente à perda iminente e de maturidade do casal. Na parte final da história, Peter acorda para um novo dia, sem ter consciência que desperta para uma nova vida. Ele está no Queens, na casa da Tia May, e parece haver certa magia no ar. As cores são mais claras, o clima é leve, quase superficial, como num sonho. Somos então levados a uma festa onde estão antigos e novos personagens da vida de Peter Parker. Ele e Mary Jane não falam um com o outro. Harry Osborn está radiante, após chegar de uma clínica de reabilitação na Europa, cheio de planos para o futuro. Flash Thompson continua extrovertido e meio ingênuo. No brinde da última página, transbordante de otimismo, Peter, apesar de sorrir, é o único personagem que está com o cálice vazio.

*Caros devotos do Santuário, especialmente os que freqüentam a Sexta Maldita, sinto ser importante salientar que, caso recebam propostas desse tipo, não aceitem jamais. O demo sempre arranja um jeito de f… se dar bem.

“Brand new day” pode dar certo?

Acho que essa revolução deu muito certo e o potencial é enorme. A conseqüência da saga “One More Day” é uma espécie de recomeço do personagem, mas não é exatamente isso. A premissa básica da história tem cara de apelação, talvez seja- e rendeu acusação de “saída preguiçosa” da parte de muitos fãs-, mas acho que foi bem escrita e a intenção, colocando prós e contras na balança, eu aprovo. Através de “One More Day”, em uma tacada só o Homem-Aranha volta à essência das histórias da década de 1970 e início da década de 1980- ou seja, não é revolução editorial, é uma contra-revolução, um movimento de busca de um status quo anterior. Talvez eu esteja exagerando mas se não é exatamente isso é por aí.

Infelizmente, concordo com Joe Quesada em apontar o casamento de PP e MJ como um ponto de inflexão que precisou ser “consertado”. Que fique claro, no entanto, que concordo com o remédio utilizado, porém tenho um diagnóstico um pouco diferente para o problema. Quesada sempre disse ser contra o casamento de PP e MJ e seu principal argumento para isso faz parte de uma imagem, que acho muito criticável, do (super-) herói como um eterno adolescente que não pode casar nem ter filhos. Ele confunde “manter o personagem jovem (“fresh” em inglês) para o público” com impedir que o personagem amadureça. Não gosto de pensar no Universo Marvel como a Terra do Nunca. Questão de gosto e o pessoal que curte Marvel se divide sobre este ponto.

Outro argumento para além da transmissão da imagem de “velhice” seria que supostamente as situações sociais que um homem casado vive são bem menos agitadas e emocionantes que as de um homem solteiro. As histórias do Homem-Aranha sempre foram baseadas na vida de Peter Parker, com tramas envolvendo um vasto elenco de apoio, com personagens elaborados e com dilemas próprios, quase como uma novela em que Peter tenta conter os danos causados por sua vida de vigilante mascarado. As interações sociais possíveis a um homem casado limitariam as possibilidades narrativas. Nesse ponto concordo parcialmente. Do jeito que penso, as coisas começaram a sair do eixo não por causa do casamento em si, mas de forma mais difusa pela fase que David Michelinie escreveu as histórias do Aranha- quem leu o primeiro post dessa série sabe que adoro o Michielinie, mas acho que ele estabeleceu um novo padrão aos roteiristas que se mostrou deletério à longo prazo para o personagem. Culpar o Michelinie é até injustiça, pelo contexto em que estava, não só de imposição muito forte de certos modelos sociais, mas também por conta de uma onda de revoluções em vários personagens clássicos dos quadrinhos que acontecia na época. A insistência de Quesada sobre a questão casamento em si talvez se baseie muito em uma idealização da própria vida dele de solteiro- ele coloca sua própria vida como exemplo em uma longa entrevista que li- quase fazendo-nos esquecer que a destruição generalizada que o elenco de apoio sofreu ao longo dos anos também contribuiu muito para a mudança no clima das histórias. É ótimo ver o Harry Osborn de volta, por exemplo.

Considero-me um conservador nessa coisa toda de mudanças em personagens icônicos. Gosto desses personagens pelas suas essências, pelos conceitos básicos do que são e me dá arrepios certas liberdades narrativas- ou melhor, a falta de responsabilidade ao tomar caminhos sem volta em nome de lucros instantâneos. Tendo isso em mente, o que me fascina em “Brand New Day” é que houve duas alterações estruturais importantes- relativas ao casamento e à identidade de PP- mas elas não seriam nada se não houvesse uma mudança radical da atmosfera das histórias. O clima voltou ser o antigo: Parker é fotógrafo free-lancer do Clarim Diário, divide um apartamento de onde tem que entrar e sair discretamente e se virar pra pagar o aluguel, seus amigos (novos e antigos) e namoradas (novas e antigas) são um elenco de apoio muito interessante, as histórias misturam dilemas pessoais de Peter, máfia, super-vilões, ladrões baratos, política municipal, problemas com os lançadores de teia… a sensação é que the ol’spidey is back in the neighborhood! Ponto para Quesada e Cia. , gostei muito.

O único título do aracnídeo agora é a revista The Amazing Spider-Man, que sai três por mês. Ou seja, praticamente tudo que acontece com o personagem está naquele título, uma novidade bem-vinda aos leitores e que implica uma nova forma de produção artística, com vários números sendo produzidos simultaneamente numa agenda apertada. Produção industrial. Dessa forma, Quesada fica afastado da arte da revista, prometendo voltar para fazer capas e em eventos importantes. O Homem-Aranha está sob responsabilidade de um “braintrust” que inclui, logicamente Quesada, mais um time muito bom: Dan Slott, Marc Gugenheim, ZebWells e Bob Gale. Outros artistas e roteiristas se revezam na nova fase, entre os quais destaco os desenhistas Steve McNiven e Phil Jimenez- gosto muito do Homem-Aranha desse último.

As coisas estão bem, mas o que me preocupa é que o pessoal da Marvel, principalmente o Joe Quesada- deu pra perceber que tenho relação de amor e ódio com ele?-, dá mostras de não haver aprendido uma lição básica, que é algo como “em time que nasceu pra ganhar não precisa mexer muito”, e vai voltar a fazer escolhas de roteiro que são “tiros no pé”. Não há necessidade distorcer as características essenciais da personalidade do Aranha por interesses comerciais num longo prazo. Afinal de contas, não é naturalmente o destino de Peter Parker ser um pé-rapado enquanto outros ficam ricos se aproveitando de seu trabalho? JJ Jameson e Stan Lee que o digam;)

Fato é que não tardou a eles darem o tal tiro no pé narrativo já na nova fase, um erro que tem a cara do Quesada e sua visão do personagem como incapaz de amadurecer… mas não acho que seja o suficiente para estragar o conjunto da obra- quem leu algo da nova fase talvez saiba do que estou falando, é relativo ao tipo de fotos que PP passa a tirar, moralmente questionável e com certeza muito fora do padrão moral de Peter, mas enfim… a verdade é que é muito difícil fazer mudanças que agradem à todos em todos os detalhes e cada um tem sua própria interpretação meio monopolística do que é o personagem.

Nosso encontro de hoje no Muquifo está chegando ao fim, mas vocês não precisam se preocupar que eu lavo a louça e dou uma geral na sala;) Pessoal, lembrem-se sempre: o Muquifo é de Vocês! (transmutei para Capitão Planeta pra me despedir). Critiquem, discordem, comentem… abração!!

Comunidade do Santuário no FACE

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17 comentários sobre “Um Novo Dia para Peter Parker – Parte 2

  1. Quero dizer que eu não vejo o personagem do PP como o personagem “clark kent – o super-homem” por exemplo. vejo ele evoluindo com o trabalho de fotografo sempre nas ruas e não atras de uma mesa de escritório esperando algo acontecer.

    Beijos!!

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  2. concordo com que disse, manter a essência dele é essencial para manter as características do personagem, não vejo PP com uma vida de cotidiano normal e de herói ao mesmo tempo, mas acho que amadurecer o personagem também faz parte da história. ótima resenha…

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  3. Discordo completamente de que o casamento era um problema para o aranha. Honestamente, para mim isso é simplesmente uma desculpa que o JQ criou para justificar sua incompetência em conseguir fazer o personagem emplacar. Aí, ele fez a mesma coisa da qual alguns “marvetes hardcore” vivem usando como razão para criticar a DC: apelou para o “era pratismo”, que nada mais é que bajular o status de um período passado.

    Honestamente, o aranha rende boas histórias mesmo casado. O problema sempre foi a execução. Considerando que muitos leitores cresceram com o personagem, os roteiristas poderiam abordar as dificuldades da vida de um homem em início da fase adulta onde tem de lidar com as responsabilidades de cuidar de sua família. Ele poderia muito bem continuar sendo meio pé-rapado e que tem que arregaçar as mangas para ajudar dentro de casa. Ele serviria até de exemplo para os mais jovens que poderiam, através dele, começar a entender as dificuldades pelas quais a vida com a pessoa amada por vezes proporciona.

    Mas como dito acima, o problema é execução. Pura e simples. Fazem a MJ virar super famosa, Aranha virar pau mandado do Stark, etc. Aí não tinha como ele render mesmo.

    Sinceramente, nem tomo tantas dores por terem acabado com o casamento (do qual sou fã), mas a saída adotada foi simplesmente cretina. Ao invés de darem ao assim chamado “mais humanos dos super heróis” uma solução humana (aquela coisinha, quase desconhecida, que chamamos de “divórcio”), apelam para aquela que considero a ideia mais ignóbil que já vi na minha vida. Sério, aguento reboots, crises, retcons. Lancem todas essas tralhas que é capaz de eu aceitar (aprendi a enxergar certas situações sob a perspectiva empresarial e a encarar gibi como diversão descompromissada), mas pacto com o coisa-ruim?

    Desculpe, mas o que essa história me diz é que um super herói, quando lançado no mais fundo do poço, acaba dizendo “dane-se” a seus ideias e passa a usar a saída dos vilões. Foi, IMHO, um dano irreparável ao ideal do heroísmo e a forma como eu vejo o personagem. E isso eu não aceito.

    Outra: se o problema era o Aranha não sendo mais o jovem solteiro e ferrado, não seria mais negócio substituir Peter Parker no manto do personagem? Ora, deu certo com o Flash (até recentemente) e o Mahr-Vell.Novos personagens no manto de um herói não é a coisa mais sobrenatural e impossível do mundo das HQs, pois já aconteceu algumas vezes e como exemplificado, essas vezes até que deram certo.

    Sem dizer que depois do OMD a Marvel substitui o Peter do Universo Ultimate (outra decisão burra, pois esse rendia mais que o tradicional IMHO). Ora, seria mais negócio ter feito isso no 616! Afinal, na pior das hipóteses, onde tudo dava errado, era só matar o novo carinha e trazer o Peter de volta. Não é como se isso nunca tivesse acontecido.

    Enfim, nada contra quem gostou. Respeito vocês que tenham achado interessante, mas nessa parede de texto, estou expressando minha opinião e mostrando os motivos pelos quais detestei. Sinto muito se parece meio ranzinza, mas sempre que esse assunto vem tenho um ataque de recalque hehe

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    1. Spider-Phoenix, se ler o texto com atenção, verá que concordo com muita coisa que vc diz. No entanto em alguns pontos, como a substituição Aranha por alguem que não seja o Peter, sou radicalmente contra.
      A saída humana natural, o divórcio, tb acho que seria a melhor alternativa após a decisão de fim do casamento. Acontece que a Marvel no final das contas é super conservadora, e eles não compraram o barulho de um Homem-Aranha com status civil “divorciado”. Se vc leu “A Moment in a Time”, quando as lacunas de “One More Day” são preenchidas fica muito claro que a caretice impera e o problema não era nem tanto a vida de casal… mas o próprio título de “casado”. Aí sim, concordo com as críticas mais severas ao Quesada, as atitudes que o Peter tomou não são do Peter, não são nem de longe as attitudes do herói que conhecemos e gostamos. Ele não assumiu nenhuma responsabilidade… nem quando divulgou sua identidade, nem quando vieram as consequencias disso e tem muito mais, porém não quero gerar spoilers desnecessários hehe
      Reitero que gostei muito de “One More Day” em si, mas, como dizem, o diabo (ou o Mefisto) mora nos detalhes…e os detalhes ficaram para ser apresentados depois. Aí sim minhas críticas são mais severas.
      Enfim, meu amigo, obrigado pelo comentário, o espaço é pra isso mesmo, pra escrever um bocado, fica a vontade. Nós vamos voltar a esse assunto em novos posts, não tenha medo de parecer razinza hehehe Meu sangue borbulha quando mexem com o aracnídeo também! Abração!!

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  4. “To contigo JMS !!!”
    peloamordedeus não credite esse lixo que o Quesada fez com o aranha ao JMS.
    ele mesmo ficou tão envergonhado da barbaridade que pediu para tirarem o nome dele e hoje está na DC fazendo histórias incríveis.
    marvel morreu já faz uns bons 10 anos. perdeu todos os bons roteiristas e artistas para a DC e hj tem q ser virar com o q tem. (romita jr desenhando, argh)

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    1. Fabio, ” One More Day” em si nao foi consenso, mas, como eu disse, pesando pos e contras, gostei. Uma grande oportunidade pro personagem e pros fas antigos e novos. O problematico foi “A Moment In a Time”, que vem pra preencher as lacunas de “One more…” , ali o Quesada meteu os pes pelas maos bonito…mas isso eh assunto pra um novo post.

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  5. Sacolé???, Homem-aranha casado, bem empregado, identidade pública (daqui a pouco com ninhada) não rola, definitivamente, foi um mal pro bem.

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