Jukebox da Barda: Julieta Venegas

Por Rodrigo “Muy lento” Broilo

Em tempos de Jogos Panamericanos, onde os olhares da multidão estão voltados para o México (ou para o quanto a RECORD é ruim transmitindo), eu acabo lembrando de música boa de verdade.

Tudo começou nos idos de 2006, com um Latin Grammy, onde sem RBD isso (talvez) nunca tivesse sido possível. Explico… Em pleno namoro de 3 anos, onde uma das partes é viciada em algo, é impossível você não compartilhar, ou no mínimo conviver amigavelmente, com algo que a dita parte ‘a-do-ra’. E no tumulto da adolescente “rebeldemania”, eu conheci ela.

Ainda lembro. Grammy Latino de 2006. Categoria “Mejor vídeo musical versión curta”. “Y los nominados son…”. Bastaram alguns míseros segundos. Alguns míseros segundo do que eu consideraria minha “melhor musica dos últimos tempos da ultima semana” pelos anos seguintes. E olha que ela nem levou o prêmio. “Me voy” seria a trilha sonora da minha peregrinação pela música latina pelos próximos 3 a 4 anos. E Julieta Venegas, minha fada madrinha.

Julieta Venegas é uma cantora mexicana (embora pelos registros ela tenha nascido em Long Beach, Califórnia) viveu e cresceu na cidade de Tijuana, no Mexico, onde começou sua relação com a música. Afirma-se mexicana, latina e por isso não precisa, e nem pretende, cantar em inglês, embora arranhe alguns clássicos em seus shows.

Juli (“Huli”) é filha dos fotógrafos Julia Edith Percevault e José Luis Venegas, tem quatro irmãos e uma irmã gêmea. Começou sua carreira profissional aos 22 anos (embora tenha tocado muito antes) quando foi para a Cidade do México, e cantou e tocou, primeiro com a banda chamada Lula, posteriormente com La Milagrosa e, por fim, já como Julieta Venegas.

“Aprendo de mis pasos
entiendo en mi caminhar”

Seu primeiro álbum como solista data de 1997 e reúne 5 anos de trabalho, chamado “Aquí”. Neste primeiro álbum Julieta tinha uma vertente muito mais rock, como em “De mis passos”, uma das poucas músicas dessa fase que fazem parte de seu repertório atualmente.

“Si sólo tuviera un lugar
Para expresar mi necesidad”

Em 2000, chega até nós seu segundo álbum chamado “Bueninvento” com a produção de Gustavo Santaolalla (vencedor de dois Oscar de trilha sonora, um deles pela trilha de “O Segredo de Brockback Mountain” e “Babel”, é músico do grupo de eletro-tango responsável pela música de abertura da novela brasileira “A Favorita”, “Pa’ bailar” cuja versão com vocais, fica a cargo da própria Julieta).

“Esto está bueno pa’ bailar”

Em 2003, Julieta se projeta ao sucesso com o álbum “Sí”, um dos mais bem sucedidos de sua carreira, com o qual ganhou vários prêmios, tanto com o álbum como com seus singles “Andar Conmigo” e “Algo Está Cambiando”.

“No te asustes en decirme la verdad,
Eso nunca puede estar así tan mal,
Yo tambien tengo secretos para darte,
Y que sepas que ya no me sirven más”


Em 2005 foi nomeada para o Grammy Latino de melhor álbum de rock latino, embora já demostrasse ser bem menos rock que seu primeiro albúm, e ganhou o prêmio latino Revelação da Academia de Música da Espanha. Com três trabalhos discográficos solos no mercado (em 2005), “Aquí”, “Bueninvento” e “Sí”, Venegas estabeleceu uma estreita relação com a Espanha e colaborou com músicos deste país.

“Yo te quiero con limón y sal,
yo te quiero tal y como estás,
no hace falta cambiarte nada.”

Em 2006, lança o seu quarto (e na minha modesta opinião, o melhor) CD de sua carreira chamado “Limón y Sal”, publicado na América Latina, Estados Unidos e Espanha, bem como na Itália, Suíça, Portugal, Áustria, Brasil (porque não somos latinos, certo?!) e Bélgica. Esse álbum, além da música “Me voy”, que me faz cair de amores por ela, conta com outro single de muito sucesso que é a música tema “Límon y sal”. Era Julieta Venegas trazendo o tempero mais básico do México (o limão e o sal, só faltando a tequila) para seu reconhecimento mundial. Neste mesmo ano, o brasileiro Lenine convidava e trazia Juli para seu “Acústico MTV”, onde ambos cantaram a ótima “Miedo”. “Limón y sal” rendeu a Julieta muitos frutos até 2008.

“No voy a llorar y decir que no merezco esto
Porque es probable que lo merezco
Pero no lo quiero
Por eso

 Me voy”

Em 2008 ele gravou, na Cidade do México, o primeiro “Unplugged MTV” fora dos Estados Unidos. Para essa obra memorável Julieta reuniu artistas como La Mala Rodriguez (“Eres para mi”), Juan Son (“De mis passos”), Gustavo Santaolalla (“Algún dia”), Natalia Lafourcade (todas, já que ela fez parte da equipe de músicos instrumentistas) e Jaques Morelenbaum (além da direção, em “Cómo sé”). Mas o ápice deste DVD foi a música “Ilusión”, com ninguém menos que a amiga de Anderson Silva e baita cantora, Marisa Monte. Não se sabia quem brilhava mais!

“Uma vez eu tive uma ilusão
E não soube o que fazer
Não soube o que fazer
Com ela
Não soube o que fazer
E ela se foi
Porque eu a deixei
Por que eu a deixei?
Não sei
Eu só sei que ela se foi”


Em “MTV Unplugged”, além de tirar o projeto de terras yankes, Julieta Venegas mostrou, não só sua exímia habilidade de ‘cantautora’ (cantora e autora de suas músicas), como sua excelente e extraordinária versatilidade para com os instrumentos musicais. Julieta não apenas canta, como toca violão, piano (!), violoncelo (!!) e acordeón (!!!). Além disso ela investe em sonoridade, já que até serrote (isso mesmo, “ce-ró-te”, daqueles de cortar madeira) foi tocado (e muito bem, por Natalia Lafoucade) durante o espetáculo.

“Si esta bien? Agradezco y te corresponderé
Si esta mal? Como nunca lloraré
Mientras tanto apuesto todo por saber”

Passados dois anos, Julieta Venegas nos trouxe “Outra cosa”, seu quinto álbum de estúdio, tão bom e tão rico musicalmente quando os outros. Além da música que dá título ao projeto, o CD conta com o single “Bien o Mal”, e as ótimas “Amores Platónicos”, “Debajo de mi lengua”, “Revolución” e “Un lugar”. E claro, a melhor música para terminar bem um namoro de todos os tempos (não exatamente nessa ordem), “Despedida”.

“Vamos a decirnos adiós,
Como se debe,
Sin rencor y sin duda de que,
Es lo mejor.”

Mas o que faz de Julieta uma cantora/autora/musicista tão boa? Falta de padrões! Julieta não baseia sua obra em suas influencia. Ela tem o que gosta de escrever, e o que gosta de escutar. E faz musica, pela musica, simplesmente, sem qualquer pretensão de “estourar nas paradas” ou de “gerar entropia no sistema” (vulgo “causar”).

Além de Lenine e Marisa Monte, Julieta já fez parcerias com os brasileiros Otto e Érika Martins (ex-“Penélope”), esta com a versão em português do clássico de Julieta, “Lento” (cujo clipe conta com a participação de sua irmã gêmea, gravado no Japão).

Julieta Venegas também emprestou sua musicidade para as musicas de filmes como “Quemar las naves” (Música “Mi principio) e a série mexicana da HBO (Música “Algo fué mio” ) “Capadócia”, a história de uma prisão feminina mexicana privada.

Tive “el gran honor” de assistir a seu magnífico show em Porto Alegre, no meu estado natal, em maio deste ano. E foi uma experiência única, pois você olhar para aquela mulher de baixa estatura, com traços mexicanos e uma voz que, falando, não te passa a de uma grande cantora, mas que ela é, e ver dela sair as músicas que embalaram um “Theatro São Pedro” lotado até a tampa de gente de todas (eu disse todas!) as idades, é barato pelo preço do ingresso.

Agora você pode pular todos os vídeos que postei, e voltar a sua vida normal, com seus astros de sempre. Mas se você deixar essa pequena elfa musical entrar no seu set-list, você pode ter uma boa surpresa, ou não.

“Mientras tanto vamos todos en el mismo tren…”

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7 comentários sobre “Jukebox da Barda: Julieta Venegas

  1. Eu A-D-O-R-E-I o seu artigo! E quanto à pessoa da qual se fala! Com toda sua essência, nem tenho palavras para descrevê-la! S-E-M P-A-L-A-V-R-A-S mesmo! Admiro tanto o seu talento que perco a noção das coisas! É como se me transportasse para outra atmosfera! =)

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  2. Quando se deixa os pré-conceitos para trás é possível descobrir muita coisa interessante. Já conhecia o 1° trabalho dela (e que voz poderosa!), mas pelo seu distanciamento com meu gosto principal acabei me distanciando. Só fui reencontrá-la no trabalho com Lenine. Prá quem diz que o México não tem rock de verdade (aliás salve Mana) é uma ótima surpresa.

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  3. Texto, muito bom!

    Vou ouvir mais para depois dar minha opinião, mas como tenho um pézinho nesse tipo de música, acho que vou gostar sim, pelo menos dessas que colocou aqui, já gostei de duas… =D
    Ilusion e Lento =D

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