O que é Especial?

Por Rodrigo Broilo

Quando eu era criança, morava em um condomínio de prédios. Naturalmente havia muitas crianças e muitas ‘panelinhas’ lá. Brincava com alguns, tinha medo e sofria bullying de outros e de uns, ainda, minha mãe nem me deixava chegar perto.

Mas lá havia uma menina, a “Fernanda” (não lembro se é esse mesmo o nome dela, mas por preservação de qualquer fato real, fica sendo esse). A Fernanda era diferente de todos. Ela tinha uma série de deficiências, físicas, motoras, de fala. Ela andava de um jeito diferente, não sabia falar, mas gritava algumas coisas que ninguém entendia. E ninguém, ou quase ninguém brincava com ela. Eu, infelizmente, era um desses. Não dava para entendê-la e mesmo que a gente tentasse brincar ou interagir com ela, ela ficava lá só gritando.

Fernanda causava em mim, nem pena, nem qualquer coisa, só incômodo. Eu não sabia como lidar com ela. Minha mãe tentava, outras mães tentavam, mas acho que nem a mãe dela conseguia. E eu sequer tentava.

Fernanda tinha um irmão mais novo e que não possuía nenhuma ‘limitação’. Ele não aparentava ser uma criança muito feliz, como sua mãe. E eu tampouco tinha contato com ele, pois era alguns anos mais novo que eu, ou seja, “muito criança”. Mas certa feita eu conversei com ele, de quem não lembro o nome, e acabamos falando sobre a Fernanda. Ele disse “Minha mãe diz que ela é especial”. Eu o “corrigi”, em minha santa ignorância. “Você quer dizer excepcional” (afinal, era o nome que estava na sigla de APAE). Ele disse “Não, é especial”. Em minha cabeça uma pergunta não verbalizada se fez. “O que tem de especial em ser deficiente?”.

***

Ontem encontrei nas bancas uma revista que não pude não comprar. O “Almanaque Temático Turma da Mônica n.º 20” trazia o tema “Amigos Especiais”. Na capa? O quarteto principal da Turminha junto com Luca, Dorinha e Humberto, de quem eu já falei anteriormente, os personagens com limitações físicas da MSP.

Todas as histórias dessa revista de 164 páginas, são centradas no cadeirante Luca, conhecido como “Da Roda”, na deficiente visual Dorinha mostrando seus aguçados outros sentidos e seu labrador cão-guia Radar e o mudo Humberto que se comunica por “Hum”s, sinais e é um excelente assobiador.

Embora Humberto e Dorinha apareçam muito mais que Luca, as histórias mostram o quanto eles são crianças, se não normais, especiais já que se vivem em um mundo que não está adaptado para eles. Você pensa que uma escada é um problema só para cadeirantes? Não, deficientes visuais também podem ter problemas com elas. Buracos e problemas no chão são os únicos empecilhos para uma deficiente visual? Não, existem as placas baixas. Talvez você não precise, mas a linguagem de sinais é um dos melhores meios de se comunicar com uma pessoa com dificuldades de fala. Um deficiente físico não pode praticar esportes? Hunf, vide os para-jogos (olímpicos ou pan-americanos).

Histórias assim mostram que crianças com limitações não são crianças normais, são especiais!

***

Especiais… Foi impossível não me lembrar de Fernanda. Ela era especial sim, conseguia andar, a sua maneira, viver, conviver com uma série muito grande de limitações, dar alguns sorrisos. Nem sei onde Fernanda vive atualmente (tampouco se vive), já que ela se mudou do condomínio há anos, muito antes de eu sair de lá em 2008.

Eu que sempre me julguei uma pessoa aberta à “diversidade”, vi que cometi minha boa dose de preconceito. “Ah, mas você era uma criança, Rodrigo!”. Pode ser. Mas o que eu fiz pra tornar o mundo de pessoas como Fernanda, Luca, Humberto, Dorinha e Tati melhores desde então? Tolerância e respeito por quem é diferente de mim, e ver que o mundo é lindo exatamente por as pessoas serem diferentes é o suficiente? Não é chegada a hora de não só falar, de fato evoluir como um ser “humano”?

Fico aqui pensando e decidindo como fazer o mundo melhor, não só pra mim. Afinal, o que é ser Santuário senão isso?

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4 comentários sobre “O que é Especial?

  1. Rodrigo, excelente texto e acho que muitos de nós já passamos por algo semelhante, ou até mesmo tivemos essa mesma ignorância de criança, se pudéssemos mudar algumas coisas, não?

    Parabéns!

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  2. Rodrigo, eu cresci com um primo especial, mas mesmo na época que eu não sabia porque ele não andava e não conseguia falar, não achava estranho e considerava normal brincar com ele (ele também gritava quando queria falar, e apontava para dizer o que queria). Meu tio até fez um carrinho para acoplarmos nas bicicletas e ele poder sair conosco (ou subir morros com os mais velhos puxando).

    Crianças são inocentes e não entendem preconceito, se são acompanhadas de adultos que tratam tudo com naturalidade e diálogo, acabam achando normal a convivência com uma criança especial. E foi o que aconteceu conosco, quando fui ter real consciência que meu primo era diferente já éramos todos adolescentes, e já entendia as limitações dele e considerava fantástico tudo o que ele podia fazer.

    Adorei a premissa da ed. da Turma da Mônica, e já achava um grande passo na conscientização de futuras gerações o que o Mauricio escrevia sobre o tema. Só me deixa triste o pouco alcance que esse tipo de informação tem, mesmo depois de anos de Turma da Mônica com um personagem mudo ainda ouço gente agindo com preconceito.

    Enfim, cabe a nós ajudar a próxima geração (filhos, sobrinhos, afilhados) a não terem preconceito, e nisso eu incluo crianças especiais, homossexuais, negros (ou qualquer outra raça/ povo) e até mesmo tribos comportamentais.

    E espero que quadrinhos como esse nos ajudem, e ajudem aqueles que não tiverem em casa uma família consciente da diversidade.

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  3. Concordo totalmente, Broilo, é preciso parar de dar tanta importancia para nossa propria vaidade e tentar entender nosso próximo sem pré julgamentos!

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