O Homem-Aranha e a Revolução Cubana

Por Lucas “Guevara” Assis

Quando, como foi criado e quem criou o Homem-Aranha? Por que o personagem fez sucesso imediato?

Amazing Fantasy # 15. Arte de Jack Kirby.

Essas são questões interessantes , pois são controversas. Minha interpretação, sem pretensão de originalidade total, do sucesso imediato de personagens da Marvel (Quarteto Fantástico, Hulk, Homem-Aranha) no início da década de 1960 relaciona certos elementos de suas histórias com o projeto ideológico que estava em marcha na época em que foram concebidas e publicadas .

E o que tudo isso tem a ver com a Revolução Cubana especificamente?

Simples: são as aranhas que dizem o que é a História e não as moscas.

Não, não estou maluco. Sentem aí na poltrona e acendam o que quiserem, porque o Muquifo do Aranha é “legalise” e a viagem é bacaninha.

“Bem, no começo dos tempos havia Stan Lee e Ele criou um homem que chamou Parker, Peter Parker. Depois criou uma aranha radioativa que em vez de morder a maçã, mordeu o Parker. Eles viviam no Éden e muitos roteiristas e desenhistas entravam e saiam daquele paraíso sem muitos problemas.”

Página 1 da The Amazing Spider-Man #1. Arte de Steve Ditko.

Simples assim mesmo? Eu escrevi isso em um post antigo, propositadamente corroborando com o mito da criação do personagem mais popular da Marvel Comics, que em nossa limitada e descolorida realidade é uma máquina de fazer fortunas e recordes de bilheteria. A simplicidade dessa versão da origem do Aranha foi posta em questão quando os herdeiros de ninguém menos que Jack Kirby incluíram, alguns anos atrás, o aracnídeo na lista de personagens da Marvel sobre os quais reivindicavam direitos autorais.

Ops, e agora Stan Lee?

Bem, cabe aqui um rapidíssimo esclarecimento sobre quem são os protagonistas do lado de cá dessa história, isto é, editores, roteiristas e desenhistas. Para quem não está muito por dentro de HQs, todos esses caras são verdadeiras lendas da indústria de quadrinhos norte-americana: Jack Kirby, Joe Simon, Stan Lee e Steve Ditko. Joe Simon em parceria com Kirby, desenhista, criou em 1941 o bem-sucedido Capitão América. Essa parceria durou muitos anos e é uma das principais referências da chamada “Era de Ouro dos Quadrinhos”.  Na década de 1960, agora em parceria com o roteirista Stan Lee, Kirby foi co-criador do Quarteto Fantástico, Hulk e X-Men, todos ícones da “Era de Prata dos Quadrinhos”. Interessante notar a ausência do Aranha nesta lista, não é? Mais interessante ainda se lembrarmos que a revista Amazing Fantasy #15, onde pela primeira vez o personagem aparece, tem uma capa desenhada pelo próprio Kirby! Ele não é considerado oficialmente o co-autor, mas a primeira capa da primeira aparição do personagem é dele. Hum…

Stan Lee, velhinho sagaz.

Stan Lee gosta de repetir essa história: era 1962, ele já havia criado o Quarteto e o Hulk e estava procurando ideias para um novo personagem. Eis que uma mosca pousa na parede de seu escritório e ele tem a espetacular ideia de um adolescente com problemas de adolescente que ganha habilidades proporcionais as de uma aranha. A primeira pergunta seria: o que esse tal de Stan Lee tomava? Mas como ele não era dessas coisas, isso nos deixa com uma mosca atrás da orelha. Sim, uma mosca. Guarda essa mosquinha aí que depois a explicarei.

Segundo Stan Lee, numa entrevista do vídeo “Stan Lee’s Mutants, Monsters and Marvels”, após conceber o Homem-Aranha, ele pediu a Kirby para que o desenhasse. Ele não gostou do resultado, o cara estava grande demais, musculoso demais, heróico demais- poderíamos dizer “Capitão América” demais? Stan Lee disse que não era o que ele imaginava para o personagem e Kirby teria concordado sem problemas. O roteirista foi, então, até o discreto Steve Ditko, que, segundo Stan, “desenhava gente como as que encontramos nas ruas, sabe?”.  Esse sim conseguiu agradar- e não seria só a Stan Lee.

Quarteto Fantástico.

Em “Steve Ditko- A Portrait of the Master”, em COMIC FAN #2, Ditko conta que Stan Lee veio com a ideia e ele (Ditko) desenvolveu o uniforme, inclusive o símbolo de aranha no peito do personagem, bem como os clássicos e engenhosos lançadores de teia nos pulsos. Stan reconhece Ditko como co-autor.  Em 1999, em uma carta aberta, declarou: “Sempre considerei Steve Ditko co-autor do Homem-Aranha. Sua versão de Peter Parker/Homem-Aranha e seu elenco de apoio eram mais convincentes e dramáticos do que eu jamais havia ousado sonhar. Além disso, o desenho do uniforme de Steve foi uma obra-prima da imaginação”. A participação de Ditko é mais fundamental ainda. Em várias fontes, li que Stan Lee não fazia propriamente roteiros para Ditko, mas algo mais parecido com “sinopses”, ficando ao artista a incumbência de criar os roteiros propriamente ditos.

Tudo certo, né? Basicamente, Stan Lee imaginou e Steve Ditko concretizou.

“Pô, mas e o Kirby?”

The Incredible Hulk #1.

Vamos então buscar aquela mosca que você guardou pra mim. No livro “The Comic Book Makers”, Joe Simon afirma que em 1953 (portanto nove anos antes de Stan Lee alegadamente ter visto uma mosca pousar na parede de seu escritório) trabalhava com Jack Olleck no roteiro de um personagem chamado… Spiderman! Notem que o personagem de Stan Lee se chama Spider-Man, com hífen. Mais tarde, por sugestão de Olleck, que era seu cunhado, Simon mudou o nome do personagem para Silver Spider (uou). Essa aranha prateada seria desenhada por C.C. Beck, para ser publicada pela editora Harvey Comics, mas parece que as coisas não deram certo. Depois Simon foi até Kirby com suas ideias. Provavelmente para evitar problemas com direitos autorais, o personagem se chamaria agora… The Fly (A Mosca), e seria publicado pela Archie Comic Publications a partir de 1959.

Stan Lee e Lou Ferrigno, que interpretou o Hulk na série de TV

Agora vou deixar as coisas mais complicadas. Ainda em seu livro, Joe Simon afirma que Kirby ficou com a logo do Spiderman. Em 1962, Stan Lee teria perguntando a Kirby se havia por aí algum personagem que não tivesse sido utilizado, eis que então Kirby teria lhe apresentado Spiderman. Difícil não pensar que Stan Lee por ato falho ou numa grande piada interna ou mesmo deboche, conta da criação do Homem-Aranha a partir de uma mosca que pousa na parede de sua sala… na verdade, “O Mosca”, estava por aí, talvez um conceito mal utilizado, esperando para ser reaproveitado e transformado num grande sucesso. Ah, Stan Lee… ele estava decidido a se transformar numa “aranha” da indústria dos quadrinhos: uma das grandes figuras que ditam os contornos do que é possível ou não em determinado campo, aqueles que constroem as teias onde mosquinhas e outros insetos apetitosos se contorcem em vão, constrangidos pelo que é considerado “bom”, “possível”, etc.. “The Fly”, personagem que serve como ponto de partida da nossa metáfora, ficou naquela parte da História que são apenas escombros…

Capa da "Adventures of The Fly" #1

Bem, e como era esse personagem-Mosca? “The Fly” era um garoto, o órfão Tommy Troy, que acha um anel mágico em uma teia de aranha. É o sonho de todo garoto: magicamente ele se transforma num homem, com super poderes e tudo mais, porém pode voltar a ser menino quando quiser. Já Stan Lee insistia na ideia de um personagem adolescente e protagonista, diferente dos bobocas sidekicks- como o Robin do Batman ou Bucky do Capitão América- capazes de gerar uma identificação com o público juvenil, mas as soluções já utilizadas e que levaram a “The Fly” não o agradavam.

Ditko resolve tudo sem anel mágico: o uniforme do Homem-Aranha é inovador, uma máscara completa, fechada, que esconde o rosto e o corpo do garoto que se transforma num super-herói, num adulto. Esta sim foi uma mágica de tirar o chapéu.

Página 1 da "Adventures of The Fly"#1

Quem inventou o personagem então? Nas sábias e modestas palavras de Ditko: “Ninguém pode reivindicar ser o único criador. Nenhuma mente ou mão criou o Homem-Aranha publicado pela Marvel”.  Sem dúvida o personagem foi criado por várias mãos e mentes que estiveram responsáveis por ele ao longo dos anos. Seu sucesso contribuiu para que Stan Lee se tornasse uma “aranha”, que chegou a ser presidente da Marvel, e pudesse contar a história da criação do personagem do jeito que lhe apetecesse. E “The Fly”? Ficou no ostracismo… o quão tributário “The Fly” é do Homem-Aranha é difícil de avaliar com precisão, mas como já disse, infelizmente as moscas não dizem como foi a história.

E a Revolução Cubana? Bem, enquanto The Fly era publicado nos Estados Unidos no final da década de 1950, Fidel Castro estava com seus guerrilheiros em Sierra Maestra enfrentando cobras e mosquitos- e outros animais mais urbanos e peçonhentos-, decidido, assim como Stan Lee, a não ser apenas uma mosca. Ele também queria ser uma “aranha”, tecer sua própria teia, ditar as regras do jogo. Em 1959 ele consegue.

Aspecto recorrentemente citado para explicar o sucesso dos novos personagens da Marvel Comics no início da década de 1960 é o investimento nas personalidades multidimensionais dos heróis. Eles eram primeiramente humanos, que recebiam super-poderes e tinham que lidar com as conseqüências disso. No entanto, está muito longe de ser somente isso. Quase se esquece o grande projeto ideológico no qual a editora , assim como toda a sociedade americana, estava envolvida. Era Guerra Fria e todos esses novos personagens eram soldados daquela guerra. O Quarteto Fantástico é referência à corrida espacial entre Estados Unidos e União Soviética: uma prodigiosa família americana de astronautas (hehe) que é bombardeada por “raios cósmicos” e recebe poderes que se complementam de maneira muito funcional. Viva ao “American Way of Life”! O Hulk? Bruce Banner, físico nuclear, estava envolvido com testes nucleares no deserto. Para salvar garota durante o teste de uma bomba construída por ele mesmo, é exposto à radiação gama se transformando numa fera destrutiva que representa a libertação de sua própria ira reprimida (dá-lhe Freud!). E o Homem-Aranha? Peter Parker é, entre mil outras coisas que fogem ao objetivo deste post, um nerd anti-social e brilhante. É a potencialidade de ser tanto o astronauta ou o cientista que devotará sua vida à nação de alguma forma. Se ele peca ao ser apenas um potencial a ser realizado como soldado da Guerra Fria, ele compensa ao envergar um uniforme vermelho e azul somente igualado pelo Capitão América- personagem antigo que é resgatado e recebe posição de destaque nessa nova fase da editora.

Rapadura é doce, mas num é mole não.

Em 1961, os EUA sofriam por estar atrás dos soviéticos na corrida espacial. O Quarteto é mais uma voz de incentivo e esperança naquele contexto. Capitão América e Caveira Vermelha trocam sopapos mundo a fora numa alegoria engraçada de tão óbvia. Em outubro de 1962, logo após o Hulk começar a destruir tanques no deserto gritando “HULK ESMAGA!” e certo aracnídeo radioativo picar um garoto em New York, o premier soviético Nikita Krushev em acordo com seu mais novo aliado, Fidel Castro, decide colocar mísseis nucleares em Cuba- capazes de mandar pelos ares toda a costa Leste americana. A “Crise dos Mísseis” durou trezes dias, o mundo esteve à beira de uma hecatombe nuclear e os americanos sentiram que tudo poderia acabar num piscar de olhos por conta de um poder quase inimaginável, mas muito real. As maiores aranhas de então, Kennedy e Krushev, tecem em conjunto uma paz tensa.

Krushev, eu também quero ser "aranha"!

Naquela época, após comerciais de cereais matinais ou de carros enormes que bebiam uns 10 litros de gasolina para andar um quilômetro, passavam informativos sobre como proceder em caso de ataque nuclear “pelo inimigo”. Energia nuclear estava na ordem do dia, o Norte ideológico era claro e os modelos de herói oferecidos aos jovens pela Marvel eram igualmente claros: astronautas, militares, cientistas. Seus super poderes quase camuflavam que aqueles personagens eram mais do que simplesmente “realistas”, eram, na verdade, uma amostra da realidade, uma forma daquela sociedade se auto-representar de maneira arquetípica. A Crise dos Mísseis, mais fantástica do que qualquer obra de ficção científica, foi um presente no colo de Stan Lee e seus colegas, agora inseridos mais do que nunca no maior empreendimento ideológico da História. Paralelamente, Fidel Castro se consolidou como ator ativo, mais uma aranha, no grande jogo internacional e está por aí até hoje…

Bem, amiguinhos, estamos terminando. Qual a lição que aprendemos hoje? Bem, já estava no começo, lá em cima, não perceberam? Quem conta a História são as aranhas e não as moscas, e  para haver aranha é preciso muitas moscas devoradas- tadinhas! Também vimos como a Marvel teve senso de oportunidade- pra dizer o mínimo- ao lançar seus personagens muito contextualizados com o que ocorria no “mundo real”. Porém, o mais importante talvez seja a interpretação de que a Guerra Fria foi apenas uma grande briga de aranhas que nunca aconteceu! Olha que frustração sexual…

Para concluir, talvez o Homem-Aranha nos pareça tão bacana porque consegue ser Aranha e Mosca ao mesmo tempo. Consigo até mesmo imaginar o jovem Peter Parker em 1959, antes de receber seus poderes, comprando uma revista “The Fly” na banca de jornal, enquanto a manchete do Clarim Diário informa: “GUERRILHEIROS TOMAM HAVANA”. O editorial está inflamado em protesto ao ocorrido… parece que J.J. Jameson sempre odiou aranhas.

Os aranhas
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12 comentários sobre “O Homem-Aranha e a Revolução Cubana

  1. Ta aí uma parte da história que não conhecia, Legal….Homem aranha está começando a subir no meu conceito…kakakaka….. ótima resenha, aguardo a próxima…bjs

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  2. O Aranha sempre será meu personagem favorito!
    O texto esta muito interessante, me mostrou coisa que eu não sabia e refrescou minha
    memoria.
    No que tange a Guerra Fira não creio que foi uma frustração deles não ter ocorrido
    uma guerra. Claro que para alguns militares de ambos os lados foi sim, mas acredito que
    num todo não.
    E isso se deve ao fato de eles saberem que isso seria o fim para todos, pois se fosse apenas o fim para o “inimigo” não tenho dúvidas que isso teria ocorrido. Kennedy foi fundamental
    para que isso não ocorresse.

    As analogias dos heróis com perfis estimulados na sociedade americana forma bem feitos.
    Poderia ter falado do Thor e sua aproximação com o Metal que despontava no mundo.
    Para quem não entendeu leia as letras do Led Zeplin e depois leiam Thor, o guerreiro
    mitológico cabeludo da Marvel.

    Quanto as tramoias do tio Stan parece ser meio que consenso ou coincidência
    que a principal concorrente da Marvel fez coisas similares não apenas uma vez!

    Ou vocês acham que esse Rebout ai foi criado porque???
    Quem não souber procure se informar sobre os direitos do personagem Superman
    a briga com a DC e uma nova alternativa para isso. Palhaçada pouca é bobagem…

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    1. Aquela parte que vc cita da Guerra Fria foi mais uma brincadeira com “briga de aranhas”…existem interpretações sobre o que ela significou que agradam todos os matizes ideológicos…preferi guardar a minha! hehehe
      Cabral, fico feliz por ter ajudado a reavivar sua memória! muito bacana ter você por aqui!!Grande abraço!!

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  3. Como eu já disse, Homem Aranha é o meu 2º personagem favorito da Marvel, ou dos heróis em si e adorei ler o artigo. Claro que eu não sabia nada disso aqui, né? Pois é, Santuário é cultura, ou culto, meus fiéis!
    Tá ótimo!

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