Heróis que matam, o abismo de Nietzsch, a mecânica clássica de Newton e o teorema do pós-vida de Pascal: Verdade, Justiça e o Jeito Humano de Vida

Por Rodrigo “Abissal” Broilo

Dias atrás nosso irmão de fé Rodrigo Garrit nos trouxe a resenha da recente edição de Liga da Justiça e levantou uma importante questão, a qual quero trazer novamente a tona (senão para debate, apenas para exposição), sob a macieira da vida.

Na dita resenha, levanta-se a questão sobre Superman matar vilões, ao que nosso amigo providencialmente acrescenta: “Nada mais é sagrado?”. Com base nos nossos conhecimentos super-heróicos, pressupostos filosóficos sobre moral, justiça e amor ao próximo, quero propor algumas questões para ser respondidas no íntimo de nós mesmos, já que são as perguntas, e não as respostas, que movem o mundo e que a Verdade é relativa.

Pode um Super-homem, um herói normal, ou um vigilante matar um inimigo? Muitos irão responder “Depende!”. E realmente depende. Do lugar, da ocasião, dos envolvidos, mas principalmente do conceito. Para esse herói (ou sejamos mais diretos: para nós) toda e qualquer vida é importante e deve ser preservada? Ou, se for pra salvar dezenas, centenas, milhares ou milhões de vidas, uma ou mais podem perecer? O primeiro conceito é facilmente reconhecido, pois sempre foi o norte de muitos heróis de quadrinhos, e se encontra, inclusive, em muitas correntes filosófico-religiosas. Já a segunda é o utilitarismo clássico dos Vigilantes (Watchmen) de Alan Moore.

Quantas vezes a dúvida não perpassou a mente de Bruce Wayne a cerca das vidas que ele teria salvado se tivesse matado o Coringa? Que tipo de super-herói é aquele que deixa um terrorista ou um assassino em condições de voltar a cometer seus erros? Entre matar ou não matar um inimigo, há uma intrincada e imprevisível cadeia de conseqüências, para o herói e para quem ele salvou ou deixou de salvar.

Independente de se condenar ou salvaguardar a posição de um herói que mata pelo bem maior (ou que seja em legítima defesa, como nos assegura a lei humana), deixar que um herói ou vigilante decida sobre a vida de outrem é dar a ele um poder maior que invulnerabilidade, intangibilidade, estratégia ou visão de calor. É permitir que ele seja juiz, júri e executor. É dar a ele a liberdade de escolher quem vive e quem morre e incorremos em projetar o próprio a sua queda. Alan Moore usou como epítome de sua obra, Watchmen, um dos dizeres de Friedrich Nietzsche: “Quem luta contra monstros deve tomar cuidado para que, durante o processo, não se torne um monstro também. (…) quando você olha para o fundo do abismo, o abismo também olha para você”. Não são Clark e Lex o observador e o abismo? Não seria o Batman e o Coringa faces de uma mesma moeda? Um que tem o poder e outro que o quer? O que freia a loucura e o que deixa a insanidade correr solta? Dar poder de decisão aos heróis e vigilantes é deixar que eles caminhem para serem Lordes da Justiça, como no desenho animado da Liga da Justiça. Dar aos super-heróis o comando de nossas vidas é fazer o que fazemos em nossa realidade com a política e a religião: abdicamos de nossa escolha, ou por julgar que outros o podem melhor ou para não incorrermos em erros de nossa própria culpa. Mas “quem vigia os vigilantes?”

Para um filho, um pai que rouba ou trafica, mas que trás comida a sua casa e o dá amor e carinho, é um vilão ou um herói? Para nós ele é o que? A vilania e o heroísmo batem a nossa porta e a porta do vizinnho da mesma maneira? O que é bom e justo pra mim, é para todos? Pode o Superman definir isso por mim? Albert Einstein nos diria que “tudo é relativo”. De fato.

Já Isaac Newton vai nos dizer que “toda ação gera uma reação de igual intensidade, mas em sentido contrário”, um dos postulados que revolucionou a física ao seu tempo e é a mecânica por trás do universo como o conhecemos e de muitas filosofias e/ou religiões.

Tudo o que fazemos ou deixamos de fazer, gera uma conseqüência. Batman não matou o Coringa, mas ele matou, e até aleijou Barbara Gordon. Peter Parker não deteve o ladrão, mas o ladrão matou seu tio. Superboy morreu, mas não deteve para sempre o Primordial. Superman não matou algum vilão, mas esse matou um pai de família que deixou órfãos e viúva. Quais são as conseqüências de atos heróicos? O menino que é espancado por ajudar um mendigo é um herói ou um cumpridor do seu dever?

No campo de batalha da vida, pensar nas conseqüências de nossos atos pode ser ainda mais difícil, mas a questão é que, dada uma ou outra decisão, a reação será irremediavelmente encarada. Mesmo a omissão tem repercussão. Debater, discutir e ser auto-crítico não é de nossas maiores virtudes, admitamos. Muitos podem o ser, mas não é consenso geral. E atribuímos ações e reações a divindades.

“Deus sabe o que faz”, ou “entrega pra Jesus”, ou “Deus não mata, mas achata” são só algumas das expressões que caracterizam o quanto a sociedade, especialmente a ocidental latino-americana, acredita que há conseqüências em seus atos, mas que cabem ao Divino, e não a elas próprias. Se você comete um crime, você pode ou não pagar em vida (mesmo que aqueles que sofreram com isso queiram justiça – ou mais comumente vingança), mas a religião e a crença na pós-vida dizem que você vai arcar, seja ardendo no inferno, seja expiando em outra existência, seja reencarnando como um sapo. Tudo que vai, volta. É newtoniano, é cármico.

Qual a carga cármica de um super-herói que mata? Quantas expiações um vigilante terá? Mas o que ele fez não foi com boas intenções? A Mulher Maravilha vai pro céu?

Aqui nós chegamos a outro impasse, muito mais profundo, que é a crença em Algo Superior. Não vou discutir esses termos (religião, junto com sexualidade e futebol, é alguns dos temas que eu não me pauto a discutir). Mas aqui cabe relembrar o teorema de Blaise Pascal, grande matemático, cientista e filósofo do século XVII, sobre a fé e a conduta. Usando a figura de um cavaleiro ateu e um camponês temente a Deus, ele formula uma equação em duas variáveis, que é (1) a existência ou não de Deus e de uma vida ou compensação futura, e (2) a forma como conduzimos nossa vida na terra. Se eu acredito no, digamos, “depois” e viver dignamente, como um ser justo e moral, e estiver certo sobre o “depois” (ou seja, ele existe, a vida não acaba com a morte) meus atos de bondade em vida, podem ser recompensados. Se eu estiver errado sobre o “depois”,  eu ainda assim terei sido feliz por ter sido um bom cidadão e serei lembrado pelas duas gerações seguintes como um homem de bem. Não acreditando no “depois” e vivendo sem pensar em conseqüências e como se só a minha satisfação importasse, se eu estiver certo sobre o “depois” vou apenas ter vivido como um fanfarrão e para muitos terei ido tarde, mas se eu estiver errado e o “depois” existir, ferrou! Pascal quis defender a crença na existência do depois? Não. Pascal quis defender o raciocínio lógico em meio a um século de empirismos sobre a existência de Deus, e exortar a vivencia de maneira digna e justa, independente da existência de céus e infernos, ou de uma divindade julgadora.

Creio que, chegando aos “finalmente” deste pequeno discurso, não trouxe nada de novo, e tampouco alguma resposta. É dever (ou direito?) de cada um interpretar e responder, em seu íntimo, a essas questões. Existe UMA verdade? Vai saber?! O que podemos arbitrar é que cada um tem sua noção de verdade. Pode o Superman escolher quem deve morrer? Pode que a escolha dele gere mortes impensadas? Pode o Batman ser responsável pelos atos do Coringa? Peter Paker matou o tio Ben? Heróis e vilões vão para o céu? São ambos monstros? Quem é o observador e quem é o observado? Onde eu me encaixo nessa viagem mental? O que é justiça e moral, e o que isso tem haver com a minha vida, agora ou depois?

Pensem, ou não. Comentem. Respeitem. Posicionem. Ou deixem tudo pra depois do Big Brother.

PS.: Quem tiver a oportunidade, se achegue da obra “Super-heróis e a filosofia: Verdade, Justiça e o Caminho Socrático” da editora Madras. Algumas das ponderações aqui apresentadas se encontram também nesse livro, de diferentes pontos de vista.

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4 comentários sobre “Heróis que matam, o abismo de Nietzsch, a mecânica clássica de Newton e o teorema do pós-vida de Pascal: Verdade, Justiça e o Jeito Humano de Vida

  1. Olha, sobre a questão da religião e da fé, não concordo com algumas coisas mas ainda assim respeito a sua opinião.

    De resto concordo que é difícil estabelecer uma verdade nesse tipo de dilema ético. Afinal, o conceito de ética que desenvolvemos foi criada com base nas experiências que nossos antepassados tiveram e toda a evolução da raça humana.

    Mas do meu ponto de vista, super heróis não deveriam matar. Eles são o tipo de modelo que mostra que podemos ser melhores se quisermos. Que podemos fazer a coisa certa mesmo tendo sido jogados no fundo do poço. Isso para mim é o que coloca o super heroísmo acima dos heroísmo comum.

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  2. Parabens pelo texto, ficou muito bom.
    Alem de ajudar muitos a pensar em suas narrativas, criações, faz com que cada um tenhamos nossa propria resposta e busque ao maximo entender a resposta e a opinião do outro. O trabalho a ser mostrado (HQ, romance, conto, etc.) depende de que cada autor deseja mostrar.

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  3. Gostei bastante do artigo. Como eu postei lá na comunidade no Facebook, acho importante trazer esse tipo de conduta dos supers lá fora para nossa realidade aqui no Brasil, ainda que com certeza os autores sejam taxados de “polêmicos” por falar de assuntos que se bobear já são uns verdadeiros tabus.

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  4. Parabéns pelo ótimo texto… matou a pau! (Embora matar seja errado… hehe). Falando sério, adorei a forma como abordou esse assunto tão complexo e nos propôs uma resposta, uma resposta pessoal, uma vez que talvez não haja mesmo uma verdade a ser dita sobre isso. Também gostei muito de como encaixou os pensadores, filósofos e cientistas do passado na questão. Enfim, esse artigo é puro Santuário, deveria ser lido por todos nossos bons devotos!

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