Batman # 6: A Seita das Corujas Malditas

Ou: “Onde as corujas dormem”?

Uma resenha de Batman #6, escrita por Scott Snyder, com desenhos de Greg Capullo e arte final de Jonathan Glapion.

Leia também a resenha anterior.

Por Rodrigo Garrit

Este artigo evita spoilers.

Pouco se sabe sobre a Corte das Corujas, uma aparente seita com séculos de tradição, que vem causando estragos em Gotham praticamente desde que foi fundada. Ao investigar mais de perto essa “seita”, Batman acabou capturado e preso em um labirinto surreal, um verdadeiro pesadelo, onde enfrenta velhos fantasmas e se vê imerso em total descontrole, que o deixa à beira a loucura. Não bastasse isso, descobre outros prisioneiros que ao que tudo indica são mantidos há anos no local, com requintes de crueldade, incluindo seu ancestral direto, Alan Wayne, que envelheceu e morreu nesse cárcere. Ou seria tudo uma grande farsa?  E como se esse ataque psicológico já não fosse o bastante, Batman também sofre um terrível espancamento nas mãos do Garra, o assassino da corte.

Hoje eu fui perguntado sobre onde as corujas dormem. O responsável pela questão, Gustavo de nove anos. “Nas árvores”? Eu respondi meio sem ter tanta certeza assim. Me dei conta de que nunca tinha pensado a respeito. “Mas por que você quer saber onde as corujas dormem”? Eu devolvi a ele, como se eu tivesse nove anos. Então ele me explicou que apareceu uma coruja numa árvore na beira de um córrego próximo a sala de aula dele, e todas as crianças fizeram um alvoroço por causa disso, amontoando-se nas janelas para ver a visitante. Ele até mesmo me mostrou uma foto da tal coruja que ele tirou com seu celular (sim, ele tem nove anos e já usa celular), mas digamos que a definição da foto e a distância de que foi tirada não ajudaram muito, então poderia mesmo ser uma coruja ali naquela imagem ou qualquer outra coisa com penas. O fato é que a professora dele ensinou que as corujas são animais noturnos, pois dormem durante o dia e à noite saem para caçar, o que ele achou muito legal. Imaginem o fascínio dele quando eu contei que as corujas são predadores naturais dos morcegos. “Coruja come morcego”? Ele arregalou dois olhos enormes. “Mas morcegos bebem sangue”!

“É mesmo”, eu falei. “E quando eles estão bem gordinhos depois de beber tanto sangue, as corujas vão lá e CRÉU”!

Ele riu.

Eu disse ao Gustavo que as corujas dormem em árvores, mas a verdade é que até onde eu sei, elas podem fazer seus ninhos e dormirem onde quiserem. Corujas são imponentes por natureza e donas de um fascínio surreal.

E surreal é a palavra que melhor pode descrever essa história do Batman, mas em seu sentido magnífico, e não pejorativo. Scott Snyder vem se firmando como um dos melhores roteiristas da atualidade, tendo em seu currículo “Vampiro Americano” e “Monstro do Pântano”, onde transita habilmente pelos recantos do terror. Em Batman, ele tem feito bonito também, com elogiadas histórias detetivescas explorando com propriedade o universo do morcego e seus coadjuvantes, proporcionando aos leitores mais exigentes uma ótima caracterização dos personagens.

Mas para essa sexta edição de Batman, esqueça tudo isso. Todo o ótimo trabalho de caracterização é desconstruído e Bruce Wayne se perdeu de si, está num castelo de cartas mental prestes a desmoronar, e tudo o que pode dar errado para o herói com certeza dá errado. Essa história não foi escrita por Scott Snyder, o fã do Batman. Essa história foi escrita por Scott Snyder, a mente doentia que mergulha nossas cabeças no mais espesso terror de Vampiro Americano e Monstro do Pântano. Mas tem um detalhe: Ele faz isso de forma magnífica, e não pejorativa.

É raro ver o Batman fora de si, e mais raro ainda isso acontecer numa história realmente digna de nota. Por falta de uma memória melhor, eu cito aqui “Batman: O Messias” de Jim Starlin e “Descanse em Paz” de Grant Morrison. Nesses dois casos, vimos o personagem que sempre tem o controle de tudo desmoronar e cair no mais completo devaneio. E mesmo assim, de uma forma quase que instintiva, retomar as rédeas da situação, mesmo sem recuperar a sanidade. O Batman de “Zur En Arrh” (ou “Zorro no Arkham”), proposto por Morrison é um ótimo exemplo disso, e em ambos os casos, o personagem torna-se apto para internação em qualquer hospício, mas ainda temos o Batman, sufocado por toneladas de tinta alucinógenas puxando as cordinhas lá do fundo e virando a maré a seu favor. Porque o verdadeiro Batman sempre tem um plano, não importa o quanto as coisas estejam ruins. Ele é o Cavaleiro das Trevas e sempre vence. E assim é retratado por Scott Snyder nesta edição.

Mas… e se, só desta vez… o plano não funcionar?

Dizem que quando se chega ao fundo do poço,  a única opção é escalar de volta. Mas o que acontece se o poço estiver lacrado por uma barreira de vidro intransponível?

Essa é a sensação claustrofóbica deixada ao ler a última página dessa edição.

Nota: 10

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12 comentários sobre “Batman # 6: A Seita das Corujas Malditas

  1. (Não sou grande fã do personagem) Eu não estou acompanhando a revista (ate agora) e você resenhou uma história sem falar sobre ela, sem contar o final, rs e deixa a gente com água na boca. Legal.

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  2. Então, Batman é o herói definitivo (e para a DC, muitas vezes o único digno de investimentos, apesar que foi Frank Miller que abriu os olhos da editora para ele). E agora temos Scott Snyder que é um jovem roteirista com todas as possibilidades de fazer bonito como seus mestres e autores que visivelmente o inspiram. agora estou com vergonha de não ter colocado essa revista na lista que me foi pedido de títulos DC que indicaria para um amigo fã da editora, ainda está em tempo de voltar no post que escrevi para ele numa rede social.

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    1. Concordo Victor, e digo mais existem dois Batmen atualmente na DC (esqueça a corporação do Wayne), são o Batman do Grant Morrison e o Batman do Scott Snyder. Os dois não têm nada a ver um com o outro, mas ambos são muito bons e fazem jus ao manto do personagem.

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  3. Não estou acompanhando essa série, infelizmente. Mas sua resenha me deixou curioso Henry! Parabéns pela maestria com as palavras! Adoro sua maneira de escrever, sempre explícito e poético, literato mesmo! Isso é o mais interessante no Terço Secreto: a caracterização específica de cada um na hora de transpor a idéia pro texto!

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    1. Obrigado Weber, fico feliz que tenha gostado, a intenção é essa mesmo, deixar nossos devotos sempre satisfeitos! Quanto a essa série do Batman, está valendo muito a pena acompanhar, os fãs do Batman pira! rs

      Abração!

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