Gen – Pés descalços… sobre a terra queimada

Por Rodrigo Broilo

Semana retrasada, ao trazer a vocês um pequeno apanhado de Stormwatch #7, onde resaltei a aparição dos avatares de Hiroshima e Nagasaki, auxiliando o avatar de Pripyat (cidade onde esteve instalada a usina de Chernobyl, na Ucrânia) em sua agonia, entre outros textos que teria que trazer a vocês, lembrei de escrever esse, sobre uma das mais importantes obras da arte sequencial japonesa: Hadashi no Gen. Para nós, “Gen – Pés Descalços”.

Publicada inicialmente entre 1972 e 1973, na famosa revista mensal Shonen Jump, este mangá é uma autobiografia de Keiji Nakazawa. Keiji contava com seis a sete anos quando a bomba atômica atingiu a cidade de Hiroshima. Sobrevivente dessa irracionalidade, Keiji se tornou um dos mais aclamados artistas japoneses, sendo essa sua obra máxima.

Gen (cuja pronúncia é “Guem”), significa algo como raiz, ou fonte. E era isso que Keiji almejava para seu personagem, que ele fosse fonte para uma nova humanidade. Segundo ele mesmo descreve sobre o personagem, “batizei meu personagem principal de Gen na esperança de que ele se tornasse raiz ou fonte de força para uma nova geração da humanidade – aquele que consegue pisar descalço o solo queimado de Hiroshima e sentir a terra sob seus pés, e que tem a coragem de dizer ‘não’ às armas nucleares… Eu mesmo gostaria de viver com a força de Gen – é o meu ideal, e continuarei buscando-o através de meu trabalho” (extraído da introdução da versão brasileira, Editora Conrad, 1999).

Keiji conta através de Gen, todo o horror da Segunda Guerra Mundial, ao qual sobreviveu. Ler “Gen – Pés Descalços” é ver o quanto a humanidade pode ser desumana. É ver que o pior para muitas dessas pessoas não foi morrer com a explosão da bomba, ou com os efeitos colaterais imediatos (como o pai, a irmã e o irmão mais novo de Gen), e sim sobreviver a todas as consequências de longo prazo.

Momentos de extremo terror e dor nos perpassam ao lermos os quatro tomos dessa obra ímpar da nona arte. Vimos o desespero na impotência de Keiji e sua mãe, ao ver metade da família morrer sobre os escombros da casa que veio abaixo com o impacto da explosão. Ver a as relações políticas envolvidas no falta de informação, especialmente aos irmãos mais velhos de Gen. Ver as pessoas enlouquecendo, como a senhora que acreditava que as moscas ao redor do corpo putrefato de seu filho, eram algo como seu espírito. Ver o nascimento e morte de Tomoko, a pequena filha que a mãe de Gen esperava quando da queda da bomba. A falta de comida. As pessoas se decompondo. A tentativa de distração dos soldados americanos com a cantoria de “Please don’t take my sunshine away”, para roubar comida. Irônico não?

Gen, seja em “Uma história de Hiroshima”, “O dia seguinte”, “A vida após a bomba” ou “O recomeço”, são histórias de comover e embrulhar o estômago. Tudo por que são “reais”. E se vocês pensam que “O Recomeço” é um final feliz, não é. Bom, perto de tudo o que aconteceu, até é. Mas muito ainda faltava.

Eu estou com os meus volumes na mão, pronto para devorá-los novamente, já que se passaram 8 anos que li a história pela primeira vez. E tem histórias das quais não lembramos certos detalhes, mas nunca as esquecemos.Gen virou desenho animado, filme e até ópera e é uma das maiores e melhores obras da literatura em quadrinhos. É aquele tipo de livro que todos deviam ler e passar para filhos e netos antes de morrerem.

 

Mas aí você pode se perguntar: “Por que um cara vai escrever sobre uma obra tão triste como essa em pleno aniversário?”. Bom, num dia de gratidão como esse, nada melhor que recomendar uma boa história. Uma que seja a fonte de uma nova humanidade.

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5 comentários sobre “Gen – Pés descalços… sobre a terra queimada

  1. Manga não é só “olhinhos grandes” e “gotas na testa”. Possuo mangas de grande teor emocional, profundidade e enredos bem adultos e complexos.
    Não conheço este título mas pela interessante review que foi feita vai para a folha dos livros a investigar, antes de uma possível compra!
    😉

    Abraço

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  2. Garanto que se os “educadores” passasem a leitura desse comic como licao de casa 100% dos estudantes iam entender o final da 2 Guerra Mundial e todo um drama que pairou sobre a geracao da Guerra Fria/Corrida Nuclear.

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