O SENHOR DA RAZÃO – É a estréia da coluna de contos apresentada pela Garota Santuário!

Um conto de drama-ficção pelo mestre do delírio infrutífero,Pablo Ramos.

Ele tinha uns onze anos quando aconteceu, pode-se dizer que foi naquele dia que deixou de ser criança. Brincava sozinho no parquinho do clube, matando o tempo a seu jeito, quando o homem grande se aproximou. Logo que a silhueta tapou o sol, o menino sentiu um mal-estar como se o astro morresse um pouco por trás da figura sinistra. Ele, o homem grande, se aproximou num momento em que ninguém olhava, mirou o menino e veio. Ninguém viu.

Ele segurou o menino pelo braço, que sem reação limitou-se a olhar bem em seus olhos – e o mal-estar piorou como se fossem olhos proibidos num espelho embaçado pelo tempo. O homem pegou o menino pelo braço e disse:

– Pedrinho, eu não tenho muito tempo. Olha, eu sou você mesmo, eu vim do futuro e tenho que te dizer um negócio! Preste muita atenção….

Mas Pedrinho não acreditava, queria se livrar daquela figura repugnante.

– Pedrinho, sou eu! Olha, ano passado seu amigo caiu da lage e você estava junto. Até hoje de vez em quando você chora de noite, escondido, uma ou duas lágrimas silenciosas de culpa antes de dormir. Só você sabe disso, Pedrinho. Está vendo isso aqui? Nossa marca de nascença. Sou eu, Pedrinho… Você!

O garoto, sem palavras, via o homem que tinha o mesmo tique de olho e o mesmo nariz, apesar de quase não ter cabelo. Ele vinha do futuro e tinha um presente. Por um erro de cálculo tinha parado muitos anos antes do que pretendia, tendo que se encontrar com ele mesmo ainda muito pequeno; e, só tendo como viajar no tempo uma única vez, insistia para que Pedrinho acreditasse que o que tinha ali era uma tecnologia chamada tôtiscrim, ou algo assim. O homem dizia que aquilo seria um sucesso absoluto e que bastava que Pedrinho, na data certa, registrasse a tecnologia como sua

– Isso aqui – mostrava o caderninho e o estranho objeto metálico, redondo – isso é tudo que você precisa para ficar rico, entendeu? RICO! No futuro cada pessoa vai ter um telefone que nem o do James Bond, e vamos passar os dedos nas telas para fazer tudo com os aparelhos. Você precisa registrar a ideia como sua, na data certa, nem antes nem depois – já está tudo pensado, Pedrinho. Aí tem todas as instruções. Vamos ficar ricos! O tempo está acabando, me repita o que você tem que fazer!

Para um moleque de onze anos, fâ de ficção científica, foi como um sonho. Repetiu as instruções e pegou a encomenda do futuro. O homem afastou-se e sumiu no relance de uma curva. Pedrinho só o viu de novo muitos anos mais tarde, através de um espelho embaçado pelo tempo.

E o tempo, senhor da razão, passou, como sempre faz, com ou sem razão: Pedrinho cresceu e aos vinte e um viu chegar a data de registrar a sua “invenção”. Já haviam celulares por toda parte, como o homem tinha dito; tirou o velho caderno e o DVD empoeirado da gaveta e cumpriu todos os trâmites. A tecnologia toutch-screen era toda SUA!

Doze anos depois, Pedro está pobre, desempregado, acima do peso e com séculos de frustração nos olhos. Recostado com deslexo no sofá velho, cerveja quente na mão, assiste à reprise requentada de um documentário que foi parar na TV aberta como se fosse novidade. Imagens da história recente da tecnologia se revezavam ao som exageradamente importante do narrador:

– A volta por cima da Apple se deu há cinco anos atrás, quando Jobs mostrou ao mundo a revolucionária tecnologia Blow-Touch, que permite acessar interfaces com um simples sopro. O que era coisa de cinema, em poucos anos virou mania e hoje milhões de aparelhos saem de fábrica prontos para serem soprados!

Usuários satisfeitos manipulam suas telas; a fábrica dos I-wind; Steve Jobs apresentando o clique por sopro em uma conferência. E o narrador dá a palavra ao criador do blow-touch:

– Nós recebemos algumas propostas parecidas para toque com os dedos, com o nariz e com a orelha (sem falar na língua, que recusamos por motivos óbvios rs) – mas quer saber? Existe um conceito de liberdade por trás do vento!

Congela a imagem no milhonário realizado.

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36 comentários sobre “O SENHOR DA RAZÃO – É a estréia da coluna de contos apresentada pela Garota Santuário!

  1. Poderia se chamar “Tá rindo de quê ?”, de tão cáusticamente talentoso e incomodante.
    Mas não me surpreendeu tanto porque sempre soube que vc seria muito melhor do que todos nós juntos. E o que me emocionou mais foi a revelação de que Pedrinho só o viu de novo muitos anos mais tarde, através de um espelho embaçado pelo tempo. Isso acontece comigo, e certamente contigo, o tempo todo.
    A merda de fazer algo muito bom, como esse texto por exemplo, é que a gente perde o direito de fazer merda depois. Mas tudo bem, sei que vc vai mandar outro melhor.
    Amo vc

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  2. Se me permitem tecerei uma pequena crítica que, creio,.seja construtiva. O Garoto registrou a tecnologia touch e “Do Nada” surgiu a tecnologia do “Sopro”. Entendo que pelo tamanho do conto talvez não fosse possível explicar isso, mas achei um tremendo “Deus Ex- Machina”. Quando o roteirista simplesmente quer que algo aconteça e o faz sem justificar isto dentro dos parâmetros da realidade que apresentou. Mais sobre o recurso “DEM”: http://ivancarlo.blogspot.com.br/2011/10/deus-ex-machina.html

    Espero que não leve a mal a crítica, Pablo, a idéia é que ela seja construtiva. Acho que vc deve levar em conta também que toda história vai provocar reações e opiniões diferentes nas pessoas, na medida que a literatura é uma arte e a arte estimula reações diferentes em pessoas distintas:) Ao contrário de um manual técnico que possui apenas uma interpretação seca e sem o brilho de uma trama.

    Curti sua história e o que escrevi aqui foi na intenção de colaborar com seu processo de evolução no ato de tecer narrativas, ok? Belíssimo trabalho! Por favor contiunue nos brindando com esse suas histórias e contos.

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    1. AI que alivio, Marreiro ERA ISSO QUE EU QUERIA OUVIR rsrs. Adoro criticas, fiquue a vontade – e da proxima vez pode gastar mais linhas criticando do que falando da critica rsrs.

      Bem, a questão é que isso NÃO É MESMO um roteiro, é mais um ensaio de ficção fantástica, se assim se pode chamar. E quanto às explicações que faltam, atendendo a pedidos, em breve o prelúdio de Senhor da Razão…. “O QUE PEDRO NUNCA SOUBE” !

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  3. … e o aparelho também funciona como bafômetro?

    Demais Pablo, eu prevejo um futuro onde teremos uma coluna fixa com seus mirabolantes textos… que não serão apenas palavras ao vento… (nem terão trocadilhos infames como este..)

    Se eu pudesse voltar no tempo, que conselho eu daria para mim mesmo?

    Parabéns!!!

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  4. Boa !!! Já temos uma sessão para desenhos agora outra para roteiristas! Parabéns!!!
    P.S. Cadê a Sexta Maldita????

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    1. Alan, chamar um pobre empilhador de palavras de roteirista é muita bondade da sua parte. E quanto à sexta maldita estamos em negociações com Jephisto, porque ele acertou conosco um valor para a primeira temporada e, agora que não podemos continuar sem ele e todos querem mais da maldita, está pedindo os olhos da cara (mais especificamente os MEUS olhos, além de um adendo com minha alma prometida, essas coisas). Sacanagem, eu sei, mas já devíamos esperar isso dele né……

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  5. Algo muito mais interessante (e provavelmente hilário) do que essa história seria descobrir como um sjeito tão “brilhante” como esse teve acesso a uma máquina para voltar no tempo.

    Com certeza, seria uma ótima história! 😀

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    1. Boa, Alex… vou pensar nisso haha – na verdade existe uma pergunta implícita, afinal vimos o cara crescer e ele não encontrou a possibilidade de voltar no tempo! O que teria acontecido? A viagem no tempo se daria depois do final desta história? Ou simplesmente o efeito borboleta fez com que, uma vez teno mudado seu futuro com o evento aos onze anos, ele NÃO MAIS chegou a ter a possibilidade de viajar no tempo! Idiota ele, com certeza, pois para viiajar no tempo ele estava em situação bem melhor do que a que se encontra agora haha

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  6. HAUDHAUDAUDHAUDHUADAUHDAUDHAUHDAUDHAUDHAUDHAUDH

    OMG!

    Também, com um amigo que cai da laje, o guri já mostrava sinais forte da sorte que o seguia XD

    Bom texto! Parabéns XD

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    1. Obrigado LÊ, mas fique sabendo que este detalhe do amigo cair da lage aconteceu comigo mesmo hahaha – eu só não chorava de culpa, mas fiquei mesmo ressentido tipo poxa eu podia ter feito alguma coisa e tal ….

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  7. Que legal! Eu ia voltar no tempo para mostrar uma foto das minhas celulites após 25 anos de muito refrigerante e pão! Rapidinho meu eu “Bianca” criança ia mudar de dieta! A gente emagrece, fica malhada mas elas continuam lá….25 anos de pão e refrigerante para uma mulher são piores que toda entropia do universo!!! Parabéns! Conta outra!!!

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    1. Pois é, na verdde eu passei por uma experiência de viagem no tempo muito frustrante, e queria compartilhá-la com o mundo para avisar dos perigos… Na próxima eu vou até o tempo dos dinossauros e mato uma borboleta pra ver o que acontece rs

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  8. Olha, a falta de ética do seu personagem só é proporcional a… falta de sorte!!! Ô rapaz cagado de pombo, AUAHAUAHUAHAUAH, da próxima vez que ele for tentar mexer com o tempo/espaço 9bom, voltar no tempo não pode mais né? afinal só poderia voltar uma única vez pelo que você contou aí) ele poderia buscar os conselhos do queridíssimo WALTER BISHOP de FRINGE (não confundir com o astrólogo luxuoso: Walter Mercado) , Bishop é sumidade em teorias e planos audaciosos, fora que pra fazer besteira, também tem PHD! parabéns macaco!!!

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  9. Isso o que dá tentar mexer com algo que está tão bem estruturado como o passado. Sorte do seu personagem não ter criado um paradoxo temporal de proporções inimagináveis… é meu caro, o fluxo temporal é uma entidade vida, cada vez que se tenta interferir no seu roteiro já apresentado e ratificado, ela nos dá uma rasteira e mostra quem é que manda!!! Parabéns pelo texto camarada e pela ” Santa Aquerupita!” (como diria a Coisa de olhos azuis mais amada da Marvel, Ben Grimm) que Garota Santuário …hummm.. digamos….hmmm…digna!!!! 🙂

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