TERRA DE GIGANTES – “Hei , mãe! Eu tenho uma guitarra elétrica!!!”


Por Venerável Victor “pequenino” Vaughan

Meu macaco preferido sempre foi o King Kong…

Fee Fi Fo Fum

Algumas culturas antigas e até mesmo teorias modernas apócrifas acreditam que muitas construções da antiguidade – como os Moais da Ilha de Páscoa entre diversas outras –  foram erguidas por uma raça de seres muitas vezes superior em dimensão corporal a humanidade e que em tal época viviam em harmonia com os homens comuns, no entanto talvez após uma grande crise planetária –  o grande dilúvio, uma peste ou uma era de fome – tenham os extinguido por completo.

Os gigantes sempre permearam o inconsciente coletivo das sociedades e culturas, pois o tamanho sempre foi um determinante de força e virilidade para os homens, portanto tais seres seriam os “super-homens” para os povos da antiguidade, muito antes do soro do supersoldado de Jack Kirby ou os mutantes de Stan Lee.

Esqueça essa ideia pré concebida de que gigantes são seres brutos e obtusos, debiloides gordos e lerdos vestidos em roupas de pele, que alguns tem um olho só e comem seres humanos como na mitologia grega e no romance Ilíada ou os exóticos gigantes de gelo da mitologia nórdica, que usam muito mais o olfato do que a visão para perseguir os infelizes humanos que adentram seu território. Talvez essa visão deles tenha sido implantada para torná-los muito mais ameaçadores na antiguidade, causar um estranhamento ou para compensar a vantagem física que tinham sobre a humanidade. A realidade é muito mais aterradora.

Eles são tão inteligentes e ágeis quanto nós, uma vez que você for percebido e estiver em seu campo de visão, dificilmente escapará como nos desenhos e fábulas, pois bastará alguns poucos passos ou o esticar de um braço para pegá-lo. E uma vez em seus mãos? Asta la vista, baby, dificilmente você conhecerá a liberdade outra vez. A única coisa que você verá antes de ser capturado ou morto / esmagado / engolido / destroçado / esmigalhado, será um pé gigante – não aquele pé sujo e com unhas imundas e mal cortadas – , mas um tênis ou sapato social imenso do tamanho de um ônibus ou os dedos de uma mão, com a grossura de troncos de árvore , cada um em seu campo – pequeno – de visão terão a aparência de tentáculos de um enorme polvo, que se fecharão em volta de seu corpo em um punho cerrado inescapável.

E o seu futuro dali por diante? Totalmente imprevisível, afinal gigantes no geral são apenas seres humanos de dimensões titânicas – iguais a nós, lógico – e para eles você que é a anomalia, uma criaturinha estranha e patética. E como todo ser humano, impossível prever suas atitudes tendo em vista suas tendências morais, ganâncias e desejos secretos, tais como a inclinação para o sadismo ou o embriagamento que o poder total sobre outro ser vivo inteligente pode causar na sua psiquê.

Ah! Mais uma coisa…não pense você que eles vivem no alto de uma nuvem, numa casa com uma arpa mágica e  uma galinha de ovos de ouro ou pior, que é só descer pelo pé de feijão que você escapará do pesadelo que é estar entre eles.

O Tamanho Importa!

Depois de produzir três séries de sucesso, Irwin Allen – diretor e produtor de Inferno na Torre –  começou a trabalhar naquele que considerava seu projeto mais ousado, a série: Terra de Gigantes. O excelente tema musical de abertura da série foi composto por John Williams (Superman, Star Wars…).

A história desta série lembra também muitas outras séries e filmes como As Viagens de Gulliver (Gulliver´s Travels) e A Ilha dos Birutas (Gilligan´s Island – 1964-1967).

Com um orçamento GIGANTESCO para a época: 250 mil dólares por episódio. Allen produziu diversos e enormes cenários, objetos imensos, nave espacial e uso de muitos outros artifícios para causar o efeito visual desejado. Alguns objetos devem ter custado uma fortuna, como por exemplo a criação de uma gigantesca mão mecânica que abraça  os personagens quando capturados.

No ano de 1983 (um futuro distante para quando o seriado foi produzido) o planeta Terra alcançou uma tecnologia onde as viagens de avião se transformaram em viagens sub-orbitais em pequenas espaçonaves que transportam pequenas quantidades de gente a bordo, isso leva a supor que uma passagem do Spindrift – a nave mais sofisticada da época – custasse muito caro, não justificando a sua viabilidade econômica para a empresa que operasse este tipo de vôo. Já a cabine dos pilotos era pequena e cheia de botões coloridos que piscavam bastante, como era de se esperar de um típico seriado desta época.

Numa dessas viagens nos Estados Unidos com destino a Londres, uma nuvem de material desconhecido – uma tempestade magnética –  envolve a espaçonave Spindrift em seu vôo de número 612 e misteriosamente transporta seus tripulantes para um outro planeta muito semelhante à Terra, a diferença é que neste planeta seus habitantes são enormes gigantes em relação a nossos “pequeninos” amigos na espaçonave, doze vezes maiores.

Os “náufragos” pequeninos

Os “pequeninos”, como os tripulantes do Spindrift são chamados pelos gigantes, passam a ser perseguidos por todos. Após caírem na Terra de Gigantes, Dan, o copiloto da nave, continua em sua função, ajudando o Capitão Steve Burton a organizar a defesa do grupo e tentar encontrar uma maneira de volta à Terra. Seu maior choque é com Alexander Fitzhugh, um covarde passageiro do Spindrift, que nunca está disposto a ajudar e que, na fatídica viagem, levava uma valise cheia de dinheiro de um golpe que havia executado. Até  dinheiro de banco imobiliário tem mais valor aqui nesse mundo!

Os pequeninos terrestres eram perseguidos também pela polícia política á lá KGB dos gigantes, o S.I.D. (Special Investigation Department)  liderado pelo sádico inspetor Kobick (Kevin Hagen). A presença do personagem era tão marcante que chegamos a estranhar o fato de o nome de Hagen não aparecer nos créditos iniciais da abertura do seriado. Kobick aparece apenas em oito episódios da série – que tem duas temporadas e 51 episódios – mas, graças ao talento de Hagen, e do bom nível dos roteiros, ele se tornou um dos vilões mais fortes da história da TV.

Os episódios se passam com os pequeninos tentando consertar sua nave para voltar para Terra enquanto tentam escapar dos gigantes que insistem em capturá-los; o grupo era formado pelo capitão Steve Burton (Gary Conway) e seu co-piloto Dan Erickson além dos tripulantes: Betty Hamilton, Mark Wilson, Valerie Scott, o garoto Barry Lockridge (que tinha um cãozinho de estimação) e o desprezível Alexander Fitzhugh. Fora os agentes do governo daquele planeta, que queria capturá-los para estudo – não era a primeira vez que uma nave da Terra tinha caído lá – havia também os oportunistas que queriam lucrar às custas de nossos heróis, além dos animais gigantes que os ameaçavam e as crianças que queriam usá-los como brinquedos. Enquanto procuravam uma maneira de consertar a nave e voltar para casa, eles acabavam encontrando algum gigante que se dispunha a ajudá-los a encontrar os materiais certos que poderiam auxiliar a Spindrift a voar novamente com seu motor nuclear.

Além do custo, esta série também exigiu atores em perfeitas condições físicas, usando dubles somente para determinadas cenas consideradas muito arriscadas e perigosas. Muitas delas exigiram dos atores grande esforço, além de enfrentarem um ou outro perigo relativamente pequenos e arranhões, pois tinham de subir usando ou descer utilizando enormes fios de telefones, transpor grandes objetos e coisas similares.

A série acabou se tornando outro grande sucesso de Allen – criador de Perdidos no Espaço,  O Túnel do Tempo e  Viagem ao fundo do mar – em parte graças a sua cenografia bem elaborada e o clima bizarro do seriado, mostrando um planeta de gigantes que era muito parecido com a Terra em alguns aspectos e diferente em outros.  Um grande espelho da humanidade.

Terra de Gigantes mostrou, em alguns de seus episódios, uma veia crítica que não se viu nas séries anteriores de Allen. Nos episódios “Os Guerrilheiros e “A Perseguição” há uma clara alusão aos movimentos políticos armados que procuravam lutar contra regimes opressores. Em “Lavagem Cerebral” são mostrados os métodos de tortura e o modus operandi de muitas ditaduras do então “terceiro-mundo” ou do antigo bloco comunista: fica claro que a censura brasileira “cochilou” quando Terra de Gigantes chegou ao Brasil, no começo dos anos 70 ou a verdade passou desapercebida pelos olhos imensos porém desatentos dos nossos gigantes.


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32 comentários sobre “TERRA DE GIGANTES – “Hei , mãe! Eu tenho uma guitarra elétrica!!!”

  1. Irwin Allen era sinônimo de aventura:) Os personagens se suas séries eram muito bem trabalhados, se não pelo lado de uma psique aprofundada, outrossim pela clareza de seus propósitos. Sempre havia o cara legal, o lado familiar, as mocinhas indefesas (coisa da época), o garoto genial e o encrenqueiro boa-praça.

    Os designs de naves e equipamentos eram fantásticos: Seaview, Minisub, Jupter II, a nave Spindrift. Os mundos fantásticos sempre “maquiados” e transformados em mundos novos e o fantástico conceito de “monstro da semana” 🙂

    OS monstros eram um caso à parte. Funcionavam muito bem nos anos 60, quando as crianças se envolviam emocionalmente com a TV a ponto de dar fá àquelas cabeças gigantes de cenoura ou de abóbora, ou monstros de musgo..tudo regado a uma trilha sonora envolvente e enervante. As temporadas produzidas em preto e branco ou mesmo as TVs preto em branco que não contemplavam o colorido original de algumas temporadas mais avançadas, acabavam por dar enfase a um lado sombrio nas séries. Lembro-me de Perdidos no ESpaço e Viagem ao Fundo do MAr em PB…parecia muito mais crível:) Por outro lado com a chegada das cores, os uniformes, luzes e cenários de Perdidos no Espaço, Viagem ao Fundo do MAr, Tunel do Tempo e TErra de Gigantes ganhavam um poder de fascínio hipnótico. Nos anos 60 não havia o que chamo hoje de “Medo da Cor”. Um fenomeno cultural imposto pela estética gótica ou cyberpunk. Os heróis do cinema para ganhar credibilidade trocam o vermelho por preto, o amarelo por preto, o azul por preto, as capas por jaquetas de couro preto ou sobretudos pretos. É a era do preto, onde tudo que possui cor é “menor”, ou infantil, tolo, ridículo. Uma era cínica de filmes cínicos e heróis mutiladores. Um tempo em que os heróis foram trocados por anti-heróis tão sujos e mal-caráteres quanto os vilões. É um tempo em que as crianças precisam do referencial paterno para filtrar o que é ou não é um herói. Um tempo em que os quadrinhos ficaram tão adultos que as crianças não mais lêem gibis.

    O universo de Irwin Allen era simplista, até bobos podem acusar alguns, entretanto era um universo claro, compreensível, de fácil percepção entre o bem e o mal e por isso mesmo não “educativo”, mas formativo.

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  2. Pois eu acho essa série o máximo, desde a maneira como foi filmada até as relações de poder que derivam da interação entre seres humanos de dimensões tão distintas. Se isso acontecesse hoje na terra os pobres pequeninos não teriam descanso. Todos já estariam na mídia, sofrendo todo e qualquer tipo de abuso.

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  3. EStranho. Deixei um mega comentário aqui e ele sumiu… 😦 Depois volto e deixo outro texto levantando os mesmos pontos, ok? 🙂 ….Muito estranho. Um caso para FRinge Division 🙂

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  4. Nunca tinha ouvido falar desta série, mas olha deu vontade de assistir.
    Mas lendo essa matéria me lembrei de um longa animado francês bastante interessante. Se chama La Planete Sauvage, se desenrolava em um mundo onde os humanos (Oms) eram tratados como insetos por uma raça de gigantes (Draags). É bem louco, mas é um ótimo filme.

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  5. Até uma série de meados da década de sessenta tem espaço na mídia hoje em dia (ouvi dizer que a FOX planeja lançar as duas temporadas remasterizadas) e eu…continuo não existindo!!!

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  6. VVV, das séries do Allen, esta era a minha favorita, embora gostasse de todas. Os efeitos eram lagais para a época. De certa forma, lembra um pouco a série do Surfista Prateado de Stan Lee e John Buscema, em relação a dificuldade de entendimento dos aliens com relação ao comportamento humano (nem muitas vezes tão humano assim… ). Lidamos com isto diariamente. Mas, fora esta parte séria, a série era engraçada também, com ótimos atores e personagens, principalmente o tripulante de perfil psicológico moralmente incorreto ( O Dr Smith da série, visto que, invariavelmente, os vilões são mais divertidos…).

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  7. Cara, não sou tão velho assim, mas olha esta série quando era pequeno e achava muito massa.
    E como o Venerável Victor escreveu Viagem ao Fundo do Mar ,Túnel do Tempo e Perdidos no Espaço são muito massa. Ainda olho quando vejo que estão passando. hehe

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  8. Engraçado que eu não gostava dessa série quando eu era mais novo… mas depois de ver as séries velhas de Doctor Who, e os filmes do Ray Harryhausen, eu fiquei com vontade de dar uma chance nova para Terra de Gigantes..

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  9. Não acompanhei essa série mas sei que na net ela passou pela vigésima vez pelo canal da Fox, pena que era sempre durante a semana e de madrugada. Ela só teve duas temporadas mas com 51 episódios, uau !!! Fazia sucesso mesmo!

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  10. Essa série não passou em Portugal, que eu saiba…
    Lembro-me do Perdidos no Espaço, mas desta… andei agora à procura de trailers ou pedaços de episódios mas não descobri nada no Youtube! Só videos de fotos da série…
    😦
    O conceito foi muito bom e garantidamente era fácil tirar ideias políticas ou sociológicas de uma série com esta base. Nós estamos habituados a esmagar, ou não, formigas conforme o nosso humor. Se estivermos bem humorados até somos capazes de ajudar uma formiga em dificuldades, mas por norma nem lhes ligamos… passamos por cima delas e já está! Isto para não falarmos dos momentos sádicos em que um humano é bem capaz de torturar uma pequena formiga…
    Fazia muita falta a certas pessoas sentirem-se pequenos assim para compreenderem melhor o mundo!
    Pena que nunca passou por aqui essa série…
    Bom texto Victor!
    🙂

    Abraço

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  11. Desconheco a serie, mas sou fã de mitologia. Serie incrivel, e depoi de ler seu texto meu “pequenino”, fiz uma comparacão interna com o nosso mundo real. Tem muito de realidade politica incutido nesse mundo de fantasia. Parabens pelos textos que nos dão asas a imaginacão.
    Bjs.

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  12. Essa infelizmente eu não acompanhei (hááá ieé glu glu! Derrubei a teoria que o Victor tem sobre a minha pessoa!!!!!) mas Perdidos e Túnel sim (não é por nada mas até hoje minha mãe tem uma tara pelo Dr. Smith!). Mais um petrardo primoroso deste tratador de macacos. Mandou bem demais muleke!!!!!!!!

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  13. Eu acho que dos colegas que comentaram aqui, sou o únco que assistiu Terra de Gigantes quando passou a primeira vez na TV na década de 70, e com orgulho! Apesar disso, era muito piá para entender certas conotações políticas e críticas que os roteiristas faziam aqui e ali. Aliás a figurado do gigante está “quase” sempre ligada a opressão e poder absoluto, não? Muito boa a lembrança Venerável, ela assim como Perdidos no Espaço eram as minhas preferidas, mas pensando bem, todas as quatro falavam de ficção científica (uma década prolíxa para isso) e essa era sim a mais politizada sem dúvida, apesar da Família Robson de Perdidos no Espaço ter um lugar de destaque no meu coração, ah! E essa nave, se não fosse laranja, seria mais bonitinha…

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  14. O Texto começou falando de alguns seres que gosto bastante, ou pelo menos mostrando imagens, que são os ciclopes, sou doida por mitologia e tanto eles qto os gigantes tem um lugar de destaque, então, claro que o assunto pegou de jeito, né?

    E se não bastasse o mote, o texto muito bem escrito claro.

    Confesso que não conhecia essa série, talvez não passasse nos confins que morei qdo era criança… Mas a ideia é assustadora, digo, imagina? Vc descobrir que é uma miniatura de um mundo seu que existe por ai?

    E ser colocado em base de estudo, como cobaias, por mais semelhante que seja com seu modelo em gg size? =)

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  15. Nem sei o que postar, nao tenho a coleção toda dos DVDs mas fico procurando no mercado livre.. e pra mim a melhor das séries e deveria ser “remeikada” com certeza, ainda mais com os efeitos especiais de hoje.. ia ser realmente incrível

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  16. Que demais! Não conhecia a série (lembro de comerciais e coisas assim…), mas deu água na boca. É triste ver a vontade de criar remakes hoje em dia: tal qual Fúria de Titãs: quem viu o primeiro (década de 70) não troca pelo último. Espero que ninguém do meio “se lembre” desta pérola.

    Um último detalhe: Parabens pela matéria. Porra, super bem construída e, como gran finale, terminar com uma escultura de Ron Mueck. SENSACIONAL.

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  17. Eu sou fã incondicional de Irwin Allen como produtor de séries, diretor de cinema e acima de tudo criador. Viagem ao Fundo do Mar é maravilhoso, Túnel do Tempo marcou história! (tem um trocadilho aí implícito), Perdidos no Espaço é algo muito forte até hoje na cultura pop, eu queria ter o Robô!!! “Danger Will Robson, Danger!!!!”…. mas o que foi Terra de Gigantes? Talvez a mais politizada e humanizada série que esse mestre da TV já nos brindou.

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