Monstro do Pântano # 6 – A Raiz de Todo o Mal

Ou: “Onde está o mal na mata”?

Resenha de Monstro do Pântano # 6 de Scott Snyder (roteiros) e Marco Rudy (desenhista convidado).

Por Rodrigo Garrit

SPOILERS – SPOILERS – SPOILERS – SPOILERS – SPOILERS – SPOILERS

Eu poderia falar sobre pessoas sendo cortadas ao meio com serras elétricas. Poderia falar sobre gente sendo estripada. Dominada por uma força maléfica. Virada do avesso. Virada do avesso e sendo dominada por uma força maléfica que usa serras elétricas para estripar pessoas. Poderia falar sobre grandes desilusões. Impotência diante de uma força maior e incontrolável. O fracasso dos justos. Pois tudo isso cabe nessa edição de Monstro do Pântano. Mas em vez disso, vou mudar o ângulo da câmera. Não vou olhar para os eventos principais. Vou observar alguns detalhes que estavam ocultos, alguns eventos que se ligam, e juntos fazem muito mais sentido vistos de uma outra perspectiva. Venham comigo para a periferia da história. Vamos nos agachar nos escombros do que restou da cidade e tentar entender como tudo pôde dar tão errado para a humanidade, numa das melhores HQs de horror da atualidade.

Tudo é uma questão de ponto de vista. O Podre é o penúltimo estágio do ciclo da vida. Decomposta, a matéria nutre a terra, que gera um novo ramo verde… que será devorado e decomposto novamente… até que a terra seque na mais profunda raiz de seu cerne e nada mais exista na vastidão árida além de pó de ossos. O equilíbrio da natureza estará quebrado, e uma velha guerra terá sido vencida. E o planeta apodrecerá em silêncio, não haverá mais a influência da vida, e com o tempo, nem mesmo em nível microscópico. E quando todo o planeta for apenas uma égide moribunda vagando solene pelo espaço, o Podre expandirá sua influência para outras esferas, rastreando a inconveniente existência da vida, não importa quão longe, não importa quanto tempo dure. Lentamente desfazendo a criação, e retornando ao caos silente e pacifico de onde veio.

Esse é o desejo do Podre, uma força da natureza (ou anti-natureza) que está além da percepção mundana que temos da vida; nascer, crescer, procriar, envelhecer, morrer… e nesse meio tempo ter feito alguma diferença para as próximas gerações. E para si mesmo.

O Podre não tolera mais ser usado no processo contínuo de manutenção da vida. Involuntariamente usado nesse ciclo, ele garante que dos restos podres, novas formas surjam, na metamorfose visceral que nos permite ocuparmos nosso lugar como seres vivos.

Essa guerra é antiga e não pode ser medida pelos parâmetros de tempo do homem. Onde havia trevas, houve luz. E então sugiram o Verde, o Vermelho, (os outros conceitos que não cabe mencionar aqui) e o Podre, que é o refugo do que sobrou da perfeição caótica que havia antes da luz.

Durante milênios, os elementais uniram sua essência com os seres viventes a fim de criar avatares que lutassem por eles numa guerra onde não poderiam atuar diretamente pelo simples fato da exata equivalência de poder entre as partes.

Então, durante muito tempo, houve diversos campeões que foram usados para agir de acordo com os interesses de seus mestres, e até mesmo o Podre aceitou se rebaixar e unir sua essência a seres vivos, gerando seus aberrantes avatares.

O processo não foi executado com a perfeição necessária no ato, foram preciso muitas e muitas experiências até que que se encontrasse a alquimia que equilibrasse de forma adequada o avatar e seu elemental.

E agora, depois de tempos imemoriais, finalmente esse nível de compatibilidade foi alcançado. Esta é a era em que o Verde gerará seu maior e mais poderoso avatar. E também o Vermelho. E o Podre.

(Embora aliados contra o Podre, Verde e Vermelho não são amistosos entre si. Uma vez que seu inimigo comum eventualmente caia, eles então se voltarão um contra o outro).

Maxine Baker foi escolhida para ser a representante máxima do Vermelho. Embora ainda esteja em seu processo de amadurecimento, já apresenta imenso poder, que deve ser elevado ao nível máximo quando chegar a idade adulta. É preciso que ela seja protegida até que o momento certo chegue. Por isso, os Totens do Vermelho elegeram o pai da menina para ser seu protetor e garantir que ela cumpra seu destino. Para tanto, eles lhe concederam poderes animais.

Alec Holland foi o homem escolhido pelo Parlamento das Arvores para ser o maior campeão do Verde que já caminhou pela Terra em todos os tempos. Um rei guerreiro, capaz de rechaçar seus inimigos e comandar um exército verde que conduzirá o planeta para um nova era regida pela flora. Alec era tão importante para ocupar esse papel, que mesmo após a sua morte, o Verde garantiu que um simulacro vegetal assimilasse sua essência e suas memórias, criando assim o poderoso Monstro do Pântano que caminhou imponente durante anos pela Terra. Uma simulação tão perfeita de homem que até mesmo conheceu o amor nos braços de Abigail Arcane, por quem foi capaz de mover os pilares do Céu e do Inferno em nome desse amor. Mas se apenas uma cópia improvisada e desesperada obteve resultados tão significativos, imagine o que o verdadeiro avatar poderia realizar? Com a ressurreição de Alec, essa opção se tornou novamente viável, mas ao ser abordado pelo Parlamento, ele recusou a oferta, optando por viver essa segunda chance de vida como um homem. Ele resistiu firmemente. Assim sendo, o Verde perdeu seu maior campeão. Mesmo que ele venha a mudar de ideia, já pode ser tarde demais.

O Podre, por outro lado, obteve êxito e assumiu a posse do avatar mais poderoso em toda a sua existência. O seu guerreiro invencível que mergulhará a vida em suas próprias entranhas retorcidas e viradas do avesso. E nunca se tratou de William. Sempre foi Abigail.

Sempre foi Abigail Arcane.

“O pulgão come a folha. A joaninha come o pulgão. O solo absorve a joaninha morta. A planta se alimenta do solo… O pulgão é mal? Será a joaninha? É perverso o solo? 

Onde está o mal na mata”?

Alan MooreSwamp Thing # 47

Leia a resenha anterior aqui.

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17 comentários sobre “Monstro do Pântano # 6 – A Raiz de Todo o Mal

  1. Massa cara. Será que quando isso começar a sair por aqui a Panini vai se coçar e relançar a saga do monstro do pântano do alan moore e a do homem animal do morrison? Bem que podiam né? O momento seria perfeito pra contextualizar o pessoal que não pode acompanhar.

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  2. Massa cara. Será que quando isso começar a sair por aqui a Panini vai se coçar e relançar a saga do monstro do pântano do alan moore e a do homem animal do morrison? Bem que podiam né? O momento seria perfeito pra contextualizar o pessoal que não pode aconpanhar.

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  3. Finalmente consegui postar meu comentário Garrit!!! Minha net tá o erro da vovó… Humpf…. Olha… vou ser enfadonho em dizer que ADORO seu jeito de escrever! É único na arte de envolver as palavras criando um clima de trailer pra história! Além que seus comentários engrandecem o título despertando, em mim pelo menos, o interesse em conhecer mais de cada obra! Parabéns cara!

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    1. É verdade Bianca, mas acho que essa história ainda tem muitas reviravoltas… quem sabe essa avatar do Podre seja só um monte de carniça que pensa que é a verdadeira Abby, enquanto a real está livre, leve e solta esperando para cair nos braços de seu repolhoso amor? Putz, se for isso mesmo foi o spoiler do ano! UAHUHAUHAHAUHAUHAU

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  4. Pobre Alec Holland…o cara é possivelmente o maior campeão da vida, mas ele e mesmo o Monstro do pântano anterior, o simulacro de vida dele, nunca tiveram sorte no amor, apesar de amarem incondicionalmente. Esse amor por Abgail sempre foi o motor que fizeram o cara mover literalmente céus, Terra e literalmente Inferno para vencer qualquer adversidade, esse golpe do Podre ter sido a jogada de mestre para tirar o equilíbrio de nosso herói ou ser o mair motivo para que Holland supere mais essa adversidade.

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  5. Lendo seus textos, Garrit, sinto vergonha de fazer posts no BdE!

    Mais uma vez, parabéns! Esperando seu review de Vingadores vs. X-Men #1! XD

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    1. Que isso Ckreed, você é inimitável e insuperável! Quanto a Vingadores vs. X-Men, será realizado do coliseu do Santuário uma batalha até a morte entre os clérigos para decidir quem a fará… “dois homens entram, um homem sai”, algo assim… =)

      Brigadão! Abraços!

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  6. Sair no Brasil????? Mas é claro! Se não seria muita burrice da Panini deixar de fora um material tão classe. E a resenha mais uma vez é muito mais que responsa!!!!

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  7. Estás a dar-lhe bem Garrit.
    Esta tua aproximação ao livro usando “o que está à volta de” ficou muito fixe!
    Esperando a compilação da DC, e espero que venha em HC! Merece!
    O Monstro do Pântano é um dos melhores novos títulos da DC!
    Hell Yeah!
    😀

    Abraço

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