Batman # 7 – Agora é pessoal!

Resenha de Batman # 7  de Scott Snyder (Roteiros), Greg Capullo (Desenhos) e Jonathan Glapion (Arte-Final).

Este artigo contém Spoilers.

 Por Rodrigo Garrit

Quem tem coragem de ir contra milhares de fãs e mostrar Batman como um garotinho assustado? De forma coesa, bem estruturada e convincente? Scott Snyder é essa pessoa. O Bruce Wayne que ele descreve ainda é em todos os sentidos, o maior detetive do mundo, o homem-morcego que todos conhecemos, capaz de salvar o mundo de forma brilhante no final do dia. Mas… é também um garotinho assustado debaixo da capa negra. Não me entendam mal; não estou falando de forma pejorativa… todos temos nossos medos, nossas fraquezas… nossos traumas. É isso que nos torna humanos e que também nos fortalece, ou nos ensina a sermos mais fortes. Batman é humano, e não foge dessa regra. Um humano muito mais complexo que a maioria. Ou talvez não, todos somos muito complexos. Mas ele é complexo numa fantasia de morcego. Essas pequenas fraquezas mostradas por Snyder foram aparecendo aos poucos durante a série, e tiveram seu clímax no último número. O que vemos nesta edição é um homem em frangalhos, literalmente recolhendo os caquinhos que restaram. Mexer com a cabeça do Batman, leva-lo a beira da loucura… não é algo novo. Mas da forma que é conduzida nesta história, nunca vi ser feita antes, com qualquer personagem que fosse.

Autor da atual série do Monstro do Pântano e de Vampiro Americano da Vertigo, Scott Snyder é inevitavelmente comparado a outros grandes autores do passado, como Alan Moore e Neil Gaiman. Mas eu digo que é hora de parar. Até porque Alan Moore e Neil Gaiman são incomparáveis. E Scott Snyder, um dos meus novos escritores favoritos, não precisa da comparação. Scott Snyder é Scott Snyder.

Greg Capullo vem apurando a sua arte, o que é visível desde o primeiro número desse título desenhado por ele. Discípulo de Todd McFarlane, com quem trabalhou por anos desenhando o personagem Spawn, Greg não tem muito compromisso com a realidade, seu traço é caricato, mas não cartunesco. Existe uma diferença, um meio termo. Pode ser impressão minha, mas em vários momentos notei grande semelhança do seu traço atual com o de Frank Miller em seus áureos tempos da saga “O Cavaleiro das Trevas”. Não é uma semelhança constante, nem mesmo uma imitação… é algo nos olhos dos personagens, principalmente quando estão em pânico. Me deu uma sensação familiar… pareceu certo ver o Batman desenhado assim. Confesso que essa sensação me deixou bem confortável.

Essa edição inteira é uma viagem sutil ao interior da mente de Bruce Wayne… uma viagem que acompanhamos pelo lado de fora, mas podemos claramente constatar seus efeitos através de seus atos.  Atos que podem ser descritos em apenas uma palavra: “Fragilidade”.

E se depois de consagrar-se o maior combatente vivo do crime em um mundo povoado de vigilantes superpoderosos, um dia ele descobrisse que suas vitórias foram apenas gotas no oceano, que na verdade não tiveram tanta importância… e que seu maior inimigo manipula a ele e sua família desde antes do seu nascimento?

A Corte das Corujas é uma lenda urbana, um mito espalhado pelos becos escuros da cidade, uma história para assustar crianças. E eles pretendem continuar assim. Pouco se sabe sobre a verdadeira natureza dessa seita, onde foi fundada ou quem é o seu líder. O que se sabe é que ela se prende na coluna vertebral de algumas das famílias mais ricas e influentes do mundo, e as devora de dentro para fora. Nada acontece sem que a Corte esteja ciente, nada foge ao seu conhecimento ou a sua vontade. Geração após geração.

“Você cometeu um erro ao subestimá-los… mas eles não são Gotham City, Bruce. E nem você.”

Dick Grayson

Quando criança, Bruce Wayne acreditou que a Corte esteve envolvida na morte de seus pais. Foi seu primeiro caso como detetive. Suas investigações, no entanto o levaram a… nada. O que o fez acreditar que a Corte de fato não existia, era apenas aquilo que todos lhe diziam que era: uma lenda urbana. Esse foi o seu primeiro erro. Um erro pelo qual ele viria a pagar amargamente anos depois.

Mesmo alheio a existência da Corte, ele iniciou sua investigação sobre suas ações, o que o colocou perto demais de descobrir a verdade. E quando a verdade ficou evidente demais para ser ocultada, ela simplesmente o devorou.

Ele foi levado ao extremo de suas forças. Foi testado como um rato de laboratório em um labirinto. Foi feito um brinquedo, não era considerado ameaça. E quando eles se cansaram dele, o quebraram.

Mas ele resistiu. Conseguiu fugir. FUGIR. Arrastando-se indefeso, sem forças. Mas escapar dessa armadilha ardilosa que o consumiu tanto física quanto mentalmente não significa que ele tenha saído ileso. Ele já se feriu antes… sim, muitas e muitas vezes. Ele já foi costurado e remendado tantas vezes que é impossível lembrar. Seu corpo foi preparado para o impacto, ele dedicou anos de sua vida para esse fim e sabe os limites que sua humanidade o permite alcançar. O corpo se cura. E sua mente é forte também. Provavelmente uma das mentes mais resistentes do planeta, o equilíbrio perfeito da inteligência apurada até sua mais elevada forma, esculpindo o brilhantismo do maior detetive do mundo, com a loucura de usar o traje de morcego e sair à noite para fazer o que ele faz. Não seria qualquer trauma que abalaria sua mente, até mesmo porque ele entende de traumas. Um trauma foi o que o forjou para ser o que é hoje. Mas não estamos falando aqui de qualquer trauma, mas sim de algo que remonta até aquele momento fatídico em que o menino vê os pais morrerem, abrangendo eventos anteriores e interligados, todos manipulados pela mesma mão. Ou garra. É como se aquele trauma que na verdade nunca foi superado de repente retornasse mil vezes mais devastador. É algo que o puxou do alto de sua arrogância e esfregou sua cara na lama. O homem que pensou ter a cidade sob controle, que imaginou ter uma relação simbiótica com ela…

Essa é minha cidade. Eu a protejo e ela me abriga. Eu a livro do mal e ela é minha melhor amiga. Ela sou eu. Eu sou Gotham.

Não, pequeno Bruce, Gotham nunca foi amiga de ninguém. Você está sozinho e indefeso nas garras do seu inimigo. Ele mantém você vivo apenas pela possibilidade de usá-lo em sua insana causa.

E esse foi o entendimento que você finalmente obteve após ser humilhado pela Corte das Corujas. Entregue-se ou corrija de uma vez aquele velho erro cometido na infância.

Encare a Corte de frente ou morra tentando.

Resenhas anteriores de Batman? Clique aqui.

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23 comentários sobre “Batman # 7 – Agora é pessoal!

  1. Muito legal, ótimo texto Garrit, não acompanho a revista, apenas aqui pelo satuário e olha que essa saga parece ser muito boa, a história é fantástica e o desenho de Greg Capullo é muito bonito.

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    1. Nem tudo que está sendo feito nesse reboot da DC são flores, mas o que é bom a gente precisa elogiar… e tenho ficado surpreso com a enorme qualidade de algumas coisas que ando lendo… não dá pra negar que esse reinício deu mesmo uma novo fôlego pra DC!

      Abraços!

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    1. É isso Fred… essa semelhança sutil com Miller realmente me pegou de surpresa, até então não tinha nem notado isso, apesar de estar presente lá desde a primeira edição… é o caso do artista que se inspira em um autor, mas imprime seu estilo próprio, sem copiar escancaradamente seu traço… gostei disso.

      Abraços!

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    1. Nenhuma previsão ainda John, mas a Panini já começou a divulgar os Novos 52 em suas revistas, então agora é só questão de tempo. Embora existam títulos que eventualmente não sejam publicados por aqui, Batman é mais do certo que será sim, certamente.

      Abs!

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  2. Esta fase de Batman eu ainda não conheço, não costumo comprar revistas, espero sempre pela compilação em TPB ou HC. Mas tens toda a razão numa coisa, Snyder é Snyder! Não há termo de comparação porque ele é grande no seu estilo de apresentar estórias!

    Abraço

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  3. Ótima analise sobre a revista. É muito bom ver outra grande historia do Batman após a passagem do genial Grant Morrison, inclusive, espero que Scott Snyder passe tanto tempo quanto o escocês passou e que alcance o mesmo sucesso. Tenho a impressão que essa é apenas a primeira etapa de uma grande saga que está por vir.

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    1. Concordo e torço pelo mesmo… assim como torço para Grant Morrison fazer o mesmo pela franquia do Superman, que embora não estive tão ruim (já passou por fases muito piores…) ainda tem muito a se desenvolver…

      Abs!

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  4. A Corte das Corujas é uma das melhores adições a mitologia do Batman desde Ra’s Al Ghul. E Scott Snyder é certamente um nome que figurará no panteão dos maiores escritores do Morcego, quiça dos quadrinhos de todos os tempos, um salve para esse cara!!! A participação do Dick Grayson não figura na sua resenha, até porque sua parte na trama se desenvolve em seu próprio título, mas com certeza também é antológica, essa é a melhor hora para se tornar fã da Bat família. Parabéns pela resenha!!!

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    1. Valeu amigo… concordo contigo, esse é um ótimo momento para novos bat-fãs surgirem.. nesse ponto, o reboot está sendo de grande valia, apresentando um universo menor e mais coeso, sem 900 edições de mitologia pra trás (as quais NÃO precisam e NEM DEVEM ser desconsideradas pelos fãs veteranos e pelos novos que surgirão).

      A participação de Grayson neste número envolve uma revelação com alto teor de spoiler… então não quis me aprofundar, apenas pontuei que ele esteve por ali…

      Abração!!!

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  5. Impressionante como você sente a história e consegue escrever tão bem sobre ela! Sinto-me relendo a revista e revivo as mesmas impressões ao ler suas resenhas.

    Sou teu fã, bebê!

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  6. Batman é Batman, sempre vou dizer isso, o meu herói favorito desde sempre. Na minha opinião, depois do reboot pouca coisa ficou boa, as melhores são as do Batman, Monstro do Pântano e Homem-animal, Batman por Scott Snyder e Greg Capullo, não poderia ter ficado melhor, está na mão de quem sabe fazer e espero que continue assim por muito tempo.

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      1. Demon Knights e Stormwatch também merecem destaque, estão entre as melhores… e
        I, Vampire e Frankenstein estão meio que sendo subestimadas mas acho que ainda podem render boas histórias… Batman sempre terá seu lugar ao sol (irônico isso, não?) e isso sem mencionar o título do maior icone dos quadrinhos de todos os tempos, o maior, o melhor de todos… Sup… AQUAMAN!!!

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