Conto exótico – uma história real e quase erótica

Por Pablo Ramos

Eu deitado rente à parede – o lençol branco dançando com nossos movimentos desordenados – ela segurava minha mão e o mundo girando enquanto, aos gritos, eu me perdia – não sabia quem era ou onde estava – sabia o que fazia e só – às vezes distinguia a luz, a cadeira e os olhos dela, mas perdia o mundo outra vez quando uma nova onda rompia as represas do meu corpo…

Mas para as coisas chegarem a este ponto não podem ter começado daí. Eu tinha resolvido que naquela noite a faria uma surpresa, um tratamento todo especial. Comecei por baixar as luzes, casa arrumada e aconchegante. Lá fora a chuva beijava a paisagem e dentro de casa o calor não via motivos para se dispersar. Coloquei uma música relaxante, fiz um carinho de leve em sua face, cheguei perto e com um beijo a convidei para o chuveiro. Entramos juntos.

Não tive pressa alguma: molhei todo o seu corpo, ensaboando-a com desejo. O Movimentos lentos e amplos da esponja macia faziam com que ela arrepiasse empinando de leve, olhos fechados num sorriso descansado e maroto. Ela adorou o carinho com que lavei cada parte de seu belo e esbelto corpinho de dançarina, o sabonete cremoso tornava cada contato entre nós uma delícia que prolongávamos com xamêgos e apertões. Passei shampoo, limpei seus pés, demorei-me ao ensaboar as coxas que se ofereciam ao carinho.

– Nossa, ninguém nunca me deu um banho assim… – ela disse em êxtase ao perceber que além da excitação havia um carinho legítimo – o que nos excitava mais ainda.

Levei-a no colo para a cama. Incenso, música, meia-luz, ela na cama de bruços com a toalha enrolada no corpo me olhando como quem pergunta “e agora?”. Uma vela acesa no chão, dentro de uma taça quebrada, dava o toque romântico e informal para que eu apreciasse suas negras e convidativas curvas. Ah, aquelas curvas… Peguei na gaveta um frasco, ela perguntou o que era. Mostrei o rótulo: óleo de massagem.

Eu me deliciava com as seguidas expressões de surpresa e deleite que ela fazia enquanto minhas mãos a acariciavam na pressão exata: pés, pernas, coxas, ombro, braços… A cada ameaça de mais ousadia dos meus dedos, uma resposta doce: ela empinava, torcia de leve os quadris, olhos fechados em expectativa e deleite. E eu brincando de adiar mais um pouco; tudo em nós pedia por mais.

Por fim desenrolei a toalha revelando os ângulos certeiros de suas costas que convergiam para o quadril calipígio; com apenas a toalha aberta entre sua nudez e a cama, ela era inteira um só convite silencioso, explícito. Levantei, vislumbrei mais uma vez aquela obra de arte em forma de mulher e fui ao computador baixar a música, voltando para a cama aonde era esperado.

Uma dor lancinante me rasgou de baixo a cima, berrei desesperadamente acordando oito vizinhos e o mendigo do outro lado da rua, não podia ficar de pé, corri para a poltrona urrando palavrões que ainda serão inventados – o sangue jorrava do meu pé direito de onde pendia o enorme pedaço da taça quebrada que servira de pedestal para a vela, que por sua vez queimava o taco rolando para perto da cortina… Ela levantou desesperada, ainda sem entender, correu para acudir e quase desmaiou com a visão do sangue em jatos vigorosos; quase queimou o pé na vela. Fui como um saci abatido para o banheiro, deixando a trilha vermelha pela casa.

Ela não sabia o que fazer, pedi calma e disse que ia arrancar o pedaço de vidro – ela gritou NÂO! mas eu já arrancava – o sangue avermelhou todo o chão do banheiro e a pia, um vermelho vivo, pulsante, urgente (foi uma artéria, pensei) – pedi que ela pegasse uma muda de roupa, dinheiro e minha carteira do plano de saúde – rasguei a camisa, amarrei fazendo pressão – ela repetia MeuDeusMeuDeusMeuDeus enquanto me ajudava a me vestir. Pedimos um táxi – previsão para chegada: 20 minutos – não podíamos esperar – dor, muita dor – descemos e fomos pegar um na rua – toca para a Policlínica, dor, muita dor, abre isso, dor, xiii… vai ter que levar ponto! Anestesia, dordordor, desinfeta, dor, calma meu filho, dor, vamos dar os pontos – o enfermeiro pacientemente aguentando meus lamentos na maca…

Eu deitado rente à parede – o lençol branco dançando com nossos movimentos desordenados – ela segurava minha mão e o mundo girando enquanto, aos gritos, eu me perdia – não sabia quem era ou onde estava – sabia o que fazia e só – às vezes distinguia a luz, a cadeira e os olhos dela, mas perdia o mundo outra vez quando uma nova onda rompia as represas do meu corpo… uma dor mais aguda que gilete na língua, mais profunda que desamor, mais inclemente que mísseis americanos no deserto do Paquistão. Anestesia? A anestesia tinha tomado o caminho errado e foi parar na mão, que acertava a parede de azulejos da enfermaria com a força e o ritmo de uma britadeira descontrolada.

Voltamos para casa de manhã. Eu havia perdido muito sangue e atingido um nervo delicado, fiquei três meses usando bengala e até hoje sinto reflexos no pé direito. Demos uma rapidinha sem jeito – dor, muita dor – e fomos dormir – exaustos, não saciados e felizes.

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28 comentários sobre “Conto exótico – uma história real e quase erótica

  1. que drama hein meu amigo, por um instante lembrei do niver da minha cunhada em que estavamos todos jantando e eu gesticulava pra contar uma estoria quando dei uma patada numa taça de vinho q era enorme e foi entrar logo na minha palma. O resto foi mais ou menos isso ai que vc ja sabe. Ate hj guardo com orgulho a cicatriz, rs.

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  2. Parabéns, Mestre!!!! É por situações como estas que nem me atrevo a tentar ser romântico… talvez acabasse colocando fogo na casa…

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  3. AUHAUAHAUA…. é, esse rapaz não teve a “carcada” cinematográfica que esperava nos moldes de “Nove e 1/2 semanas de amor” , por outro lado..foi um filme de terror ao estilo “Uma noite alucinante” !!!!

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  4. Muito legal! Quer dizer então que a matéria é verídica?
    Hmmmmmmm.
    Parabéns mais uma vez Pablo. Vc é muito talentoso.
    Forte abraço.

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  5. Sensacional, quem pode dizer que nunca teve uma noite de amor e prazer projetada com afinco e profissionalismo (como a sua foi) e algo não saiu errado…ou como no seu caso, muito errada? Parabéns pelo conto e pela coluna no Santuário!

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  6. Cara, vc não tem noção de como eu senti dor agora… Se eu tenho pavor é imaginar machucados assim!!!

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    1. Pois é, senhora ninfadora, saiba que isso aconteceu MESMO, só o que não aconteceu foi a noite de prazeres que eu tinha planejado hahahahahaha – obrigado por compartilhar da minha dor!

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