HOMEM ANIMAL # 9 – Olhos Sangrentos

Resenha de Homem Animal # 9 de Jeff Lemire (roteiro) e Steve Pugh (arte).

Por Rodrigo Garrit

! ESTE ARTIGO CONTÉM SPOILERS !

Já sentiu tanto ódio a ponto de enxergar tudo vermelho? Já viveu aquele momento em que uma fera toma conta do seu corpo e tudo o que você deseja é apenas sangue?

Alguma vez já foi mais ANIMAL do que HOMEM?

O Monstro do Pântano, o Homem Animal, e todas as coisas vivas têm um inimigo em comum: O PODRE.

Mas ele não é exatamente o que se pensa. Não é a encarnação da morte. O Podre não quer destruir a vida, ele precisa dela. Precisa que exista vida, para que ela MORRA, APODREÇA e lhe conceda poder. Ou até mesmo em forma apurada, apodreça em vida.

O Podre é uma das forças primordiais que regem o universo. Essas forças vivem em harmonia e isso é bom. É bom para nós, do nosso ponto de vista, é o que sustenta a nossa existência. Mas do ponto de vista elementar, o Verde prefere um planeta onde as plantas estejam no topo da cadeia alimentar, em confortável e inabalável posição. Já o Vermelho certamente gostaria de que os seres de carne prevalecessem, não necessariamente como acontece hoje, mas de forma totalmente independente de outras forças, que poderiam continuar existindo… apenas para servir.

Esse equilíbrio mantém a natureza funcionando de forma a privilegiar não tão lealmente todas as partes, já que algumas têm mais vantagens que outras, mas de forma geral, todas têm seu lugar e sua vez. Mas só isso não basta. Para nenhuma delas.

O Podre não deseja exterminar a vida, mas ele não está feliz da forma como o equilíbrio natural acontece. O Podre ama a vida. Mas em vez de um planeta repleto de coisas vivas, vermelhas, verdes ou de outras cores, que nascem ou brotam, crescem se desenvolvem, se reproduzem e morrem, para só então apodrecer, Sethe, o senhor do Podre, almeja uma desconstrução desse ciclo vital, substituindo o longo caminho do ciclo da vida até o apodrecimento por uma vida inteiramente podre… um planeta inteiro apodrecendo, mas ainda assim, onde eventualmente ocorra o milagre da vida… uma vida distorcida e miserável.

O Podre não deseja silenciar a vida. Ele quer ouvi-la gritar.

As hordas do Podre continuam seu avanço pela Terra. Seu maior objetivo é destruir Maxine Baker e Alec Holland, respectivamente os avatares do Vermelho e do Verde. Maxine tem quatro anos de idade e é filha de Buddy Baker, o herói conhecido como Homem Animal, que recentemente descobriu que recebeu seus poderes dos Totens do Vermelho com a finalidade de ser o protetor da jovem avatar. Papel que ele não tem tido muito sucesso em cumprir, apesar de seus esforços desesperados. Felizmente, a menina é tão poderosa que consegue não apenas se proteger como encarar os agentes do podre e causar grande preocupação em seus mestres.

Num ato de pânico, Buddy enfrentou sozinho uma cidade inteira de criaturas dominadas pelo Podre… centenas de animais semidecompostos possuídos. Ele lutou com todas as forças, mas por fim, acabou sendo derrotado e morto.

E morto, tornou-se uma marionete do podre.

Anos atrás, um certo “escocês magrelo e intenso”, vulgo Grant Morrison, teve a coragem (ou a cara de pau) de escrever algumas cenas surreais quando assumiu o título do Homem Animal, tornando-o o personagem cult e reverenciado que é hoje. Não fosse isso, até hoje ele estaria relegado aos confins sombrios do limbo do esquecimento dos leitores (que por sinal também foi abordado por Morrison, mas isso é outra história). A cartada final do escocês foi aparecer “em pessoa”, na frente de Buddy, e se apresentar como seu roteirista.

Com essa edição de Homem Animal, Jeff Lemire reverencia o trabalho de Morrison, e com muito cuidado, relembra esse momento, o que foi sabiamente evitado por todos os escritores que se seguiram. Afinal, conduzir essa situação de forma errada poderia descredenciar todo o mérito de Morrison e também soar como falso e artificial demais. Mas não foi o caso. Lemire retorna à fonte de onde Buddy Baker renasceu, para delírio dos fãs. Então, não tenha mais dúvidas… Buddy lembra-se de tudo o que houve, embora encare como um “sonho”. Considerando que ele poderia ter mudado tudo, Lemire incorpora o passado as suas histórias, e avança, criando uma nova mitologia tendo como base tudo que se passou.

E ao mesmo tempo… ele mudou tudo!

A história se passa em três momentos: num deles temos o conflito familiar de Ellen Baker, esposa de Buddy, a bordo de um trailer dirigido por sua mãe, que odeia o genro e tenta encontrar um lugar seguro para Maxine onde ela possa levar uma vida normal, longe de tantos eventos sobrenaturais e inexplicáveis. Porém, Senhor Meias, o gato falante da garotinha acredita que eles não terão sucesso nessa busca.

Temos então mais duas cenas revezando a narrativa: Buddy Baker morto e possuído pelo Podre, devorando entranhas de cachorro repletas de vermes, e a essência do verdadeiro Buddy Baker no plano espiritual… ou melhor, nos subúrbios do Vermelho, tentando uma audiência com os grandes Totens a fim de que possam oferecer alguma ajuda… porém, Buddy não é o avatar escolhido, apenas um “mero guardião” como tantos outros, e é tratado com indiferença, até encontrar o “Pastor” que havia guiado Maxine anteriormente e se propõe a ajuda-lo. Um detalhe interessante: impossível não deixar de notar as semelhanças dos Totens com os personagens de “Sweet Tooth”, premiada série da Vertigo, também escrita por Jeff Lemire.

E enquanto Buddy passa o diabo para tentar pedir ajuda a esses totens, o seu corpo “apodrecido” planeja se aproximar de Maxine, enganá-la e leva-la ao centro do reino do Podre, onde poderá ser morta…

Ou, mais uma vez, surpreender a todos.

Resenhas anteriores? Mergulhe no Vermelho clicando aqui! Mas, se sua cor é o Verde, então pule aqui

E para quebrar um pouco esse clima tenso, não deixe de assistir as divertidas vinhetas do Homem Animal produzidas pela DC Nation!

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20 comentários sobre “HOMEM ANIMAL # 9 – Olhos Sangrentos

    1. No final, Grant Morrison morde a orelha do Alan Moore, mas engasga na barba dele e baixa a guarda. Daí o Rob Liefeld dá um golpe baixo nele, mas é exorcizado pelo Moore, e nesse momento desenha um lindo painel mostrando o equilíbrio perfeito entre verde, vermelho e podre, mas a mão dele sofre uma paralisia permanente depois disso… Morrison então contempla o painel e morre de overdose. Moore entra em transe e é possuído pelo deus-cobra, morde a jugular de Liefeld, e morre envenenado.
      Liefeld sobrevive e faz uma cirurgia corretiva nas mãos, que deixa sequelas, mas permite que ele continue desenhando. Até um pouco melhor do que fazia antes.

      Ele consegue emprego na Marvel e desenha o capítulo final de Vingadores vs X-Men.

      Fim.

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  1. A resenha só para variar é tão fantástica como essa revista do Lemire e o personagem. Esse cartoon ao fim foi um presente a mais! QUE BOM QUE EXISTE ESSA REVISTA NAS NOSSAS VIDAS!!! Ela é T.N.V.D.U.P. !!! 🙂

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    1. Bom, o cartoon não é sério não…mas acho que a ideia é essa mesma! rsrs… Mas está sendo produzido seriamente pela DC Nation.

      Você está se referindo àquela série de tevê “Manimal”, onde o protagonista se transformava em animais? Pois então, não tem nada a ver com esse Homem Animal não… apesar das semelhanças, são personagens diferentes.

      Bjos!

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  2. Ando numa correria danada Garrit! Mas hoje tiro o atraso e me purifico no Santuário! rsrs

    Ótimo texto (sou fã assumido do seu estilo) e adorei a referência ao vermelho e verde nos links pras postagens anteriores!

    E mais! Como não amar o cartoon do Homem Animal???
    Falando em cartoon… não te enviei ainda aquele negócio pq passei a semana toda enrolado!

    Segura a postagem!

    Grande Abraço!!!

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    1. Seja bem vindo a nossa purificação profana, caro devoto! (Putz, será que ando jogando Diablo demais??)
      Obrigado amigo, com isso ganho mais uma alma satisfeita para a causa do Santuário. (É…MUITO Diablo…)
      O Cartoon do Homem Animal e dos outros personagens DC são, como diria o Venerável Victor, TNV – Tudo na vida das pessoas!

      Abração!

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  3. Muito boa resenha!
    Animal Man continua em alta! A referência a pormenores de Morrison foi feliz, e demonstra Lemire como um grande autor, mas ao mesmo tempo humilde!
    😉

    Abraço

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    1. É isso mesmo Nuno, nem todo escritor ou desenhista superstar precisa ser arrogante ou vaidoso demais… Jeff Lemire calçou as sandálias da humildade e cresceu ainda mais no meu conceito!

      Abraços!

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