Sequestro relâmpago – uma história (que ainda será) real

Por Pablo Ramos

I


Custou dez milhões trazê-lo de volta.

Ilustração feita pela Fátima Ventapane Lopes especialmente para este conto. Confira o trabalho dela no post que saiu em dobradinha com este, em https://osantuario.com/2012/06/04/fantasia-a-qualquer-custo/

Depois de visitar os canteiros de obra de Xangai, Lídice, São Paulo e Amsterdã, conferiu na tela paralela a agenda para amanhã: tudo em dia. Deu comandos para desligar monitores e desativar o projetor holográfico; Como de praxe, a imagem de Karen apareceu para fechar a agenda. Vestida de maneira sóbria e elegante Karen era um dos melhores aplicativos de gerenciamento pessoal; lembrou-se da época em que a programou para ficar mais… Interessante. E como ficou! Passaram meses se encontrando depois do expediente, mas logo a esposa descobriu tudo e ameaçou abandoná-lo, foi uma crise e tanto. Ele teve que destruir os brinquedinhos sensoriais, apagar a memória de Karen e mandar reprogramá-la totalmente; a projeção no meio do escritório não desconfiava que havia amado um dia. Mas a memória dele, a esposa não podia tirar. Desligou Karen para espantar estes pensamentos, colocou a cadeira de simulação para hibernar, sincronizou o banco de dados da empresa com sua memória remota e programou o tubo de transporte. O zumbido anunciava que logo estaria em casa. O clarão de um relâmpago – e ele já não estava mais ali.

O garoto brincava com o cinto anti gravitacional enquanto, no chão da sala, um dinossauro destruía a cidade. A mãe, quando passou a caminho da cozinha, quase foi atingida pelos raios dos Defensores; assustada, tropeçou no robô de limpeza.

— Menino, olha a bagunça, já falei pra desligar desse desenho! E desce daí que seu pai está chegando! Se quebrar o capacitor de fluxo outra vez, não vai pra casa da sua avó!

A voz avisava que a comida estava pronta quando o zumbido do tubo de transporte se fez ouvir na entrada. A tela paralela indicava “chegada em 3, 2, 1…”. Lá do fim do corredor veio o clarão de um relâmpago. Como o marido demorasse a aparecer ela foi recebê-lo, brincando:

— Não acredito que você enjoou de novo com essa coisa…

Mas o tubo de transporte estava vazio. Ela esperou um pouco e nada. Ligou para o escritório, quem atendeu foi a outra. Ele não estava lá. Ligou para o número pessoal, o móvel da empresa e o para o número de chamada universal, mas em nenhum ele atendia. Se ele estivesse aprontando de novo… Foi quando tocou o sinal de chamada recebida, identidade oculta.

Um garoto corpulento e vestido como marginal de videoclipe exibia o dedo como uma arma. Por baixo do capuz nenhum rosto, apenas um buraco sem imagem, por onde podia-se ver atrás.

— Aí, madama, a parada é a seguinte, tamo com teu marido aqui! Fica quietinha e ouve senão ele some! Se chamar a polícia ele some! Se falar alto comigo ele some! Entendeu, madama?!

Foi o desespero mais silencioso que ela sentiu em toda a vida.

II

Os dois detetives especializados pareciam suspeitar da bagunça deixada pelo garoto. De pé, repetiam as mesmas perguntas enquanto o pessoal da perícia procurava coisas invisíveis no tubo de transporte. Na parede, a imagem de um consultor da Transpeople nervoso, garantindo terem havido infindáveis testes de segurança na conexão molecular de seus tubos. O detetive Domani pediu que ela repassasse a ligação do seqüestrador. Logo, o rapaz reapareceu no centro da sala, com seu dedo-arma e o buraco dentro do capuz.

– Tá entendendo, madama??? Tamo com as molécula do teu maridinho arqui, ó, tudo desagregada, tá ligado? Queremo dez milhão! Dez milhão hoje, senão espalhamo o corno no ar!

O detetive Domani congelou a imagem e fez algumas anotações em sua tela paralela. Voltou a gravação alguns quadros e congelou outra vez, se aproximando da ameaça estática. Olhou bem perto do que seria o rosto do rapaz, através do buraco na imagem. Notou que o filho da vítima estava na porta da sala, assustado, e por um momento o rosto do menino encaixou no espaço aonde deveria estar o do meliante – um menininho assustado no corpo do seqüestrador. Desativou a tela paralela e voltou-se para a mulher, tentando tranqüilizá-la de alguma forma. Mas ela parecia não ouvir: a emoção deixava tudo muito distante, só percebia a luz dos carros lá fora rasgando o chão da sala.

III

Em cima da mesa havia restos de comida desidratada, folhas digitais, cerveja, uma pizza de ontem, quatro pistolas, um anulador de partículas e uma garrafa térmica. Chapéu estava impaciente no sofá, suando frio enquanto o outro, de capacete coberto, jogava S.H.O.T. com movimentos frenéticos, empunhando uma pistola invisível. Morreu. Ao ver GAME OVER na tela tirou o capacete e viu o colega.

— Qual foi, Xapéu? Tá boladão aí…

— Porra, cumpádi, são dois dia já, o Barão falou que ela pagava no mermo dia!

— Mas disse também que podia demorar… Qual é, Chapéu, o Barão é malandro. E tu mandou bem assustando ela. Porra, até eu fiquei com medo!

Os dois riram, e Chapéu logo ficou sério de novo:

— Quer saber? A vaca tá com os cana, mermão. Ela chamou a polícia. Foi o Barão mesmo que mandou a gente ser firme, não é? Eu tive uma idéia, vamo mostrar pra piranha que não tamo de brincadera…

O amigo parecia preocupado, toda vez que o Xapéu fazia aquela cara era confusão…

Horas mais tarde, Barão chegou com lanche e drogas. Encontrou os comparsas na sala, Xapéu se divertindo com uma stripper holográfica de péssima qualidade, que piscava mais do que dançava, e o outro de volta ao S.H.O.T, metido no capacete e distribuindo tiros ao redor.

— Alguma notícia do nosso dinheiro?

— Ainda não, Barão… Sai daqui, sua vaca! – a dançarina desapareceu – mas fica tranquilo que agora ela vai pagar…

— Como assim, Chapéu, que cara é essa?

— Quer saber, mermão? Tu falou que ela ia pagar no dia e nós tá mofando aqui. Tomei uma atitude, falei?

Barão parecia transtornado, largou os pacotes em cima da mesa e cresceu pra cima do moleque:

— Que foi que tu fez…???

Xapéu não tinha medo, explicou tudo olhando Barão nos olhos. O outro, de capacete, virou-se para eles e disparou uma rajada muda, gritando de emoção.

— Porra, moleque! Tu tá maluco?! Tu sabe a merda que fez?!

Barão voltou correndo para a mesa e pegou a garrafa térmica. Neste momento os vidros quebraram, a porta caiu num estrondo e uma granada de luz estourou, atordoando a todos. A equipe especial entrou rápido: capacetes, armas, gritos, lanternas. Barão correu para a cozinha seguido de dois agentes; Xapéu atirou-se no chão e foi preso, mas o outro, que de dentro do capacete não percebeu nada, recebeu a equipe especial como se atirasse neles e gritando para os inimigos do jogo – Morraaaaaaam! – foi atingido várias vezes e caiu sem ver GAME OVER na tela e sem chegar aos dezoito anos. Enquanto agentes invadiam o resto do apartamento e Xapéu suportava a ponta luminosa do cano do fuzil em sua têmpora, o grupo voltou da cozinha com Barão ferido e imobilizado por três homens, ainda resistindo. Logo atrás veio um recruta, capacete para trás e a garrafa térmica aberta em uma das mãos.

— Merda – disse o capitão baixando a guarda – matamos uma criança e perdemos o refém…

IV

As negociações já duravam dois dias e a  polícia não passava segurança alguma a ela que era a maior vítima do seqüestro. Sim, porque o marido, quando voltasse, não ia nem dar conta do tempo que passara, sequer fome ou angustia ele devia estar sentindo. Já ela varava noites desatando sofrimentos. Estava tomando uma dose de gim na sala com o oficial da escuta na cozinha quando recebeu a última ligação do seqüestrador. O oficial se encrespou para mostrar serviço e preparou os equipamentos.

— Madama, tu não se ligô na parada ainda, mas eu vou explicar… Tu tem quatro hora pra pagá a gente senão ele evapora. Tu vai ver que eu to falando sério é agora, sua vaca…

O oficial da escuta enrolava as mãos num pedido mudo para que ela fizesse o cara falar, mas a ligação foi cortada.

Antes que ela pudesse pensar sobre o que tinha acontecido a tela paralela anunciou uma chegada no tubo de transporte em 3,2,1… Com o clarão de um relâmpago apareceu, no chão do tubo, algo pequeno e indefinido. Quando chegou mais perto, antes de desmaiar, pôde perceber que era uma orelha.

Quando acordou, o detetive Domani estava em pé ao lado do sofá, com outros dois oficiais e um homem de armadura e capacete saído dos jogos de ação. Um enfermeiro aplicava emplastro neural em suas têmporas.

— Dona, fique calma. Sei que foi traumático o que fizeram, mas seu marido ainda está vivo. Conseguimos rastrear o cativeiro pelo tubo de transporte e uma equipe irá resgatá-lo agora.

— Traremos seu marido de volta, senhora! – interrompeu em tom militar o capitão armado. Então, colocou seu capacete, desligou e desapareceu.

Foram as duas horas mais demoradas de sua vida. Ela ficou o tempo todo na mesa da sala,  olhando para a caixa térmica que continha a orelha do marido. Não disse uma palavra ao pessoal da polícia que fez de sua casa a base da operação. Pelas telas flutuantes todos acompanhavam os pontos de vista dos soldados, a transmissão do satélite, as leituras térmicas e a análise psicosférica. No momento da ação ela não tirou os olhos da caixa térmica, não conseguia olhar para as imagens mas ouviu a ordem de invasão, gritos, alguém berrando “morraaaaaaamm!!!” (que horror!) e finalmente tiros, muitos tiros. Depois o silêncio. Confirmado, ok confirmado… Percebeu estavam todos olhando para ela com pesar. O Detetive Domani deu a notícia:

— Senhora, lamento muito. Os animais dispersaram as moléculas…

No dia seguinte ela ocupava o mesmo lugar na mesa da sala. Revisava a papelada, tendo à sua frente o rapaz de óculos e bem vestido que chegara logo cedo. Ele fazia seu trabalho:

— Em algumas semanas o entregaremos saudável e bem-humorado. O pacote inclui correções básicas e de programação biológica, que garantem mais longevidade e qualidade de vida…

— O importante é que meu marido esteja inteiro. O material realmente não é pouco?

— De forma alguma, senhora. Já utilizamos até unhas e verrugas. A senhora quer mesmo retirar todas as memórias no período indicado? Isso vai custar um adicional.

— Não há problema, pode fazer… – assinou tudo com um sorriso que só o marido reconheceria.

Custou dez milhões trazê-lo de volta.

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18 comentários sobre “Sequestro relâmpago – uma história (que ainda será) real

  1. Excelente! E com um cheiro de vinganca feminina.
    O texto me fez pensar…teria a mulher envolvimento nesse sequestro?
    Afinal tudo conspirou ao favor dela.
    Parabens! Apenas senti falta de um “Q” do nosso admiravel “Caligula Virtual”
    Abraco. 🙂

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  2. Saudações. caros devotos!

    Pablo, é um prazer tê-lo mais uma vez aqui no Santuário. E, dessa vez, com um final que levanta questionamentos, muito diferente do escrito passado.

    Tenho que confessar que desgostei de alguns pontos, como: algumas incoerências no campo da concordância verbal e nominal; e os malfeitores com essas gírias ultrapassadas, e fazendo uso de uma orelha, uma orelha como objeto de chantagem. O que é isso? fãs futuristas de Zezé de Camargo e Luciano ( HAHAHAHAHA).

    O final? O final? Esse foi sensacional! Viajando entre a ironia e dúvida, é capaz de levar o leitor a imaginar o que realmente aconteceu (acho que a “madama” o matou, por conta da pequena afetividade entre o marido e a secretária).

    Valeu, Pablo! Espero que volte a nos presentear com novas pérolas.

    Abraços!

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    1. Felipe, as gírias e a orelha foram propositais, elementos do presente dando roupagem para o futuro – incoerências para deixar a coisa mais esdrúxula e impossível ainda. Obrigado pela crítica e pela audiencia rs

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  3. O conto me soou o tempo todo com o roteiro de um filme, o que poderia ser um curta metragem ou o primeiro ato de algo maior… espetacular!
    Ah… “Se quebrar o capacitor de fluxo outra vez, não vai pra casa da sua avó” foi hilário….! 😉

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  4. Sou um tratador de macacos suspeito para falar justamente desse, no entanto, apesar de ter sido um dos primeiros a ler esse conto que foi precedido por dezenas de anteriores tão bons quanto, ainda não postados e muitos outros mais recentes do mesmo calibre, relê-lo agora , entreteve da mesma forma que da primeira vez, assim são os bons textos…é símio, Philip K. Dick que se cuide… 🙂

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