FAHRENHEIT 451 – Um tributo a genialidade de Ray Bradbury

Por Venerável Victor  “pinga-fogo”  Vaughan

Em 1949 George Orwell lançou o livro 1984, mostrando uma sociedade oprimida por um regime absolutamente autoritário. Quatro anos depois, em 1953, o imaginauta e nerd Ray Bradbury revolucionou a literatura com o romance distópico Fahrenheit 451.

A comparação entre as duas obras é inevitável, pois ambas foram escritas após o término da Segunda Guerra Mundial, sendo assim produzidas durante os primeiros anos da Guerra Fria. Com um texto que condena a opressão anti-intelectual nazista e o cenário dos anos 1950, o livro de Bradbury revela uma sociedade opressiva e comandada pelo autoritarismo do mundo pós-guerra. Entre os temas atribuídos para o romance, o que Bradbury chamou de “força destruidora de pensamentos” da censura nos anos 50, os incêndios de livros na Alemanha Nazista que começaram em 1933 e as horríveis consequências da explosão de uma arma nuclear.

A obra de Bradbury descreve um governo totalitário num futuro incerto mas próximo, que proíbe qualquer livro ou tipo de leitura; opiniões próprias são consideradas antissociais e hedonistas e o pensamento crítico é suprimido. Tudo para que o povo não possa se instruir ou refletir, numa espécie de ataque preventivo contra possíveis revoltas e contestações. Tudo é controlado e as pessoas só têm conhecimento dos fatos por aparelhos de TVs (instaladas em suas casas pelo governo) ou em praças ao ar livre.

” Fahrenheit 451″ Uma das cenas mais icônicas do cinema

Fahrenheit 451 é dividido em três partes: “A lareira e a salamandra”, “A peneira e a areia” e “O clarão resplandecente”. O livro conta a história de Guy Montag, que no início tem prazer com sua profissão de bombeiro, cuja função nessa sociedade imune a incêndios é queimar livros e tudo que diga respeito à leitura. O autor conta que todo o romance foi escrito nos porões da biblioteca Powell, na Universidade da Califórnia, em uma máquina de escrever alugada. Sua intenção original, ao escrever o romance, era mostrar seu grande amor por livros e bibliotecas, e frequentemente se refere a Montag como uma alusão a ele mesmo.

Quando Montag conhece Clarisse McClellan, uma menina de dezesseis anos, ele percebe o quanto tem sido infeliz no seu relacionamento com a esposa, Mildred que passa seus dias em casa; fortemente influênciada e mesmo dominada pela TV, é uma mulher alienada que reproduz os valores passados através da programação sem questioná-los. Montag passa a se sentir incomodado com sua profissão e descontente com a autoridade e com os cidadãos. A partir daí, o protagonista tenta mudar a sociedade e encontrar sua felicidade. O ponto de inflexão da trama é o encontro de Montag com Clarisse, jovem que instaura um espírito de indagação, reflexão, e curiosidade no bombeiro ao perguntar se ele alguma vez já havia lido um daqueles objetos que queima. A partir daí ele passa a ler escondido os livros que furta do trabalho.

Fahrenheit 451 tornou-se um clássico não só na literatura mas também no cinema. Em 1966 o diretor François Truffaut adaptou o livro e lançou o filme de mesmo nome estrelado por Oskar Werner e Julie Christie. Curiosamente o título do livro (451º F) se deve à temperatura, em graus Fahrenheit, em que o papel pega fogo, o que equivale a 232º Celsius.

Os argumentos utilizados para justificar a proibição aos livros são revelados na fala do Capitão à Montag quando encontram uma das maiores bibliotecas prestes a ser incendiada:

“Os livros são histórias tristes que causam infelicidade àqueles que as lêem, e tudo isso desnecessariamente, pois são inventadas, versando sobre pessoas e situações que nunca existiram”

“Os livros trazem de certa forma desigualdade entre os homens, pois instauram um universo de vaidades e arrogância entre eles. Dessa forma os livros são perseguidos, e devem ser banidos da sociedade”

A ameaça trazida pelo conteúdo literário à manutenção do status quo é transferida, sem justificativa e razão, para seu material, isto é, o objeto-livro, como nos mostra a cena em que Linda ao descobrir um livro que cai do seu esconderijo joga-o para longe, num gesto de medo e nojo.

O artista de ascendência sueca Ray Douglas Bradbury (1920-2012) é um escritor de contos de ficção científica, apesar de que nunca ficou à vontade com esse título e se referia como um autor de aventuras e contos fantásticos. Vale muito a pena conhecer o trabalho do autor em outro romance:  As Crônicas Marcianas.

“Eu quis dizer qualquer espécie de tirania, em qualquer parte do mundo, a qualquer hora, na direita, na esquerda ou no centro”

Fahrenheit 451 é por fim um filme/livro que recomendo não só pelo seu caráter político, mas principalmente por seu caráter poético na representação de um amor à literatura e à cultura do livro impresso, que perde cada vez mais seu espaço para outras formas de divulgação, em especial no meio digital.

Ao entrar em contato com o universo literário o protagonista descobre algo que havia se perdido na sua vida, considerada vazia, como se os livros resgatassem sentimentos e uma noção de humanidade até então esquecidos. Depois de presenciar a cena de uma mulher que prefere morrer queimada entre seus livros, Montag depara-se com a contraposição entre a paixão e os sentimentos envolvidos no universo literário e o vazio e a frieza da normalidade e mediocridade cotidianas. Essa contraposição transparece por exemplo quando ele lê o trecho de um livro para sua mulher e amigas, acusando-as de serem zumbis (“Vocês não vivem, apenas matam o tempo!”), ou quando traz a metáfora de que “por trás de cada livro há uma pessoa”, resgatando o sentido simbólico dos livros. Quer dizer, Montag reconhece nos livros uma humanidade que não encontra nas pessoas ao seu redor.

Essa foto poderia ter sido tirada pelo maravilhoso fotógrafo Pablo Ramos…mas não foi.

“Escrevendo Fahrenheit 451, eu pensei que estava descrevendo um mundo que talvez “aconteceria” em 4 ou 5 décadas. Mas a algumas semanas atrás, numa noite em Beverly Hills, um casal passou por mim caminhando com seu cachorro. Eu fiquei olhando para eles, absolutamente pasmo. A mulher segurava em uma mão um rádio, em forma e tamanho mais ou menos de um pacote de cigarro, com uma antena balançando. Dele saía um minúsculo cabo de cobre que terminava em um delicado fone em forma de cone ligado na sua orelha direita. E ela ia “voando”, sonâmbula, esquecida do homem e do cão, escutando à novela que tocava no rádio, guiada por seu marido que provavelmente não estava nem aí. Isso não era ficção” .

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49 comentários sobre “FAHRENHEIT 451 – Um tributo a genialidade de Ray Bradbury

  1. Meio atrasado, mas…
    Fiquei super triste com a notícia da morte dele. Eu estava pensando nele uns dias antes, sabe, aquele pensamento “será que ele ainda está vivo…?”
    Depois, pensei em reler os livros dele que tenho.
    Aí, fiquei sabendo da notícia.
    Corri assistir UMA SOMBRA PASSOU POR AQUI, filme baseado no livro dele, e AS CRÔNICAS MARCIANAS, mini série de 1979, também adaptação de livro dele.
    Estou pensando em reler O PAÍS DE OUTUBRO, afinal, como ele próprio já disse, “é bom renovar nossa capacidade de assombro”
    Ainda bem que, como disse o Dr McCoy em Star Trek 2: “Ele não estará morto, enquanto nos lembrarmos dele.”

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  2. Assisti o filme do Truffaut. Nunca li o Ray (uma das minhas falhas de caráter).O único livro que ele considera ficção científica é o Fahrenheit, curiosamante Bradbury classifica sua obra como fantasia pois ficção cientifica trataria de temas que poderiam acontecer.

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  3. Vivemos num mundo de alienados onde poucos tem um olhar crítico sobre as coisas e são taxados de invejosos/infiéis quando se mostra o lado triste dos objetos de adoração dos idiotas, sejam eles figuras políticas, religiosas, midiáticas… O pensamento crítico virou crime, pecado. A frase que mais vejo por aí é: SE VOCÊ NÃO TEM NADA DE BOM PRA DIZER (SOBRE ALGO), FIQUE QUIETO! SE NÃO GOSTOU, FAÇA MELHOR!

    Muitas pessoas perderam o bom senso e esqueceram como rir de si mesmos e das desgraças da vida. Quem não vai com a maioria é discriminado e sua própria presença já é uma ofensa!

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  4. Essa sociedade mostrada no livro/filme de Bradbury está cada vez mais actual. Nesta sociedade altamente “esmagada” pelos meios de comunicação social, as pessoas só sabem e só conhecem o que nos mostram nas imagens televisivas altamente truncadas da verdadeira realidade dos factos.
    Bradbury não sabia o quão perto estava de um dia esse seu pesadelo se tornar realidade, neste momento quase que só falta começarem a queimar livros mesmo…

    Abraço

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  5. O que dizer de Bradbury???? Que ele influenciou muita gente. Outros escritores, músicos e também nos quadrinhos!!!! Foi uma perda imensa e que com certeza ecoará durante toda a eternidade, mas o bom é saber que sua obra continua mais atual que nunca (ou seria ruim? Já que a situação de lá prá cá deveria ter evoluído e não foi bem assim……). Enquanto precisar de um chacoalhão as metáforas ácidas, fortes e rasgadas estarão aí invadindo nosso estado consciente e no sono também.

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  6. Eu lia Bradbury quando era mais criança/adolescente. Foi um dos bons hábitos que infelizmente perdi. Eu adorava seus contos, e a adaptação de seus contos. Salvo engano a Topps (editora de quadrinhos que era mais conhecida pelos cards) tinha um gibi excelente baseado na obra de Bradbury. Uma pérola dos anos 90 pouquissimo conhecida entre nós.

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  7. Interessante e atual.

    Até porque vivemos num mundo que não gosta que as pessoas pensem por si mesmas. Acabam dando fórmulas prontas para os outros viverem.

    A consequencia disso é que muita gente não sabe apoiar, ou criticar de uma forma justa, equilibrada e muitas vezes os dialogos possíveis se esvaziam pela falta de capacidade dos outros de se expressarem por si proprias.

    Que Deus nos ensine a viver direito e bem, para que os nossos sonhos não sejam abafados pela mediocridade dos outros.

    Um abraço.

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  8. Mil vivas a Orwell, mil vivas a Bradbury! Gente, vamos acordar e não deixar que o pensamento crítico vire coisa de ficção científica! Em plena abertura da Rio+20 lá vem o Santuário com mais este presente de cultura que, além de tudo, nos faz pensar no mudo que queremos. QUal mundo você quer?

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