Contagem regressiva

Um conto de Pablo Ramos, o defensor das calças impossíveis

Não tinha vergonha de ajudar: Toda tarde, com filha e genro na rua, Dona Tereza vinha e limpava, lavava, arrumava; dava um jeitinho, como gostava de dizer, porque de tarde estava sempre em casa e não custava nada mesmo. Parecia um bom rapaz, o Guto: bom pai para a menina, não bebia nem fumava. Muito cedo esse casamento, pensava Dona Tereza, mas melhor assim do que ver a filha se desdobrando para cuidar sozinha da pequenina. Dona Tereza só não gostava que a fizessem de boba e naquela tarde, quando viu brilhando no chão a moedinha, lembrou logo dos seus cinquenta reais. O genro devia achar que ela esquecera, nunca mais falou no assunto, mas ela esperava só que ele pedisse mais algum dinheiro para falar umas boas verdades. Mas o brilho da moedinha no chão… Dona Tereza abaixou para pegá-la, era de um real, novamente pensou nos seus cinquenta. E se ele não pedisse outra vez? Papel de boba! Embolsou a moeda e disse para si mesma num sussurro de justiça:

– Quarenta e nove…

Mais tarde a filha e o genro chegaram, não deram falta da moeda e Guto não falou da dívida, que nas semanas seguintes Dona Tereza tratou de cobrar na forma de trocados varridos ou encontrados nos bolsos das roupas para lavar; fechava o real no bolso e continuava a contagem:

– Quarenta e oito…
– Quarenta e sete…
– Quarenta e seis…

Em três semanas Dona Tereza já estava no vinte e sete, às vezes achava dois ou três reais de uma só vez; chegou a encontrar uma nota de cinco e não pestanejou: falassem eles alguma coisa e ela diria estar pegando o que era seu, dívida sabiamente esquecida pelo genro e que com paciência ela cobrava sem juros nem perturbações monetárias.

– Vinte e um…
– Vinte…
– Dezessete…

Olhava a cara mais deslavada do genro, que ainda almoçava todo fim de semana na sua casa, pedia para ela tomar conta da menina, deitava na sopa sem se importar com aqueles distantes cinquenta reais.

– Onze…
– Dez…
– Seis…

Era certo que a esperança de ela ter esquecido a grana tinha feito o Guto apagar a dívida da própria memória.

– Quatro…
– Dois…
– Um…

Enfim, no exato dia em que Dona Tereza pegou seu último real de volta, sem eles se apertarem para pagar nem ela fazer papel de boba, chegou em casa, radiante, o Guto:

– Finalmente, sogrinha! Saiu! Saiu!
– Saiu o que, homem de Deus?
– A grana, sogrinha! A que eu tanto esperava. E aqui está o que eu te devo. Me perdoe a demora, mas o sujeito não queria pagar…

Era um envelope pardo que Guto estendia como uma faca afiada. Entregou-o e entrou para o banho. Naquela noite Dona Tereza foi para a cama apertando o envelope contra o peito, que sangrava de remorso: Era afinal um bom garoto, e ela a lhe tomar merrecas enquanto fingia ajudar… Se não quisesse aceitar o dinheiro teria que contar tudo, e se aceitasse estaria roubando! Não conseguiu dormir direito e no dia seguinte tratou de consertar as coisas: enquanto lavava as roupas pegou uma das calças do genro, meteu uma moeda de um real no bolso e sussurrou:

– Quarenta e nove…

Anúncios

20 comentários sobre “Contagem regressiva

  1. Muito bom! Esse tipo de coisa acontece tanto!!! Na minha opinião foi um enorme erro o que ela fez. Com toda certeza ela devia ter sido sincera! Apesar disso, fiquei com pena da dona Tereza. Provavelmente ela se sentiu péssima no fim!

    Curtir

  2. Cara! Eu curti muito esse texto, muito louco! Quantos de nós não dos ferramos com julgamentos precipitados e a tentativa de fazermos justiça com as próprias mãos! Ri muito imaginando a cara da sogra! Até me senti vingado por uma história pessoal aqui…hehehehe

    Curtir

  3. Eu entendo totalmente essa senhora, já me vi em situação parecida, no entanto teria sido mil vezes mais prático e dito que dessa vez meu genro não precisava me pagar, que depositasse esse dinheiro na conta de minha neta… mas que se dane! Dessa forma ficou muito mais dramático!!! Quem não curte um drama? Há até quem viva disso e ganhe prêmios “Jabuti” ou se torne, imortal! 5 carinhas para você macaco dos infernos 😉 🙂 😉 😉 🙂

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s