Frankenstein: Agente da S.O.M.B.R.A. # 8: “Pai, a Minha Sombra és Tu”.

Continuando a série de resenhas do título produzido por Jeff Lemire (roteiro), Alberto Ponticelli (arte) e Jose Villarrubia (cores).

Por Rodrigo Garrit

Contém spoilers

Frankenstein e sua ex-esposa são os melhores agentes da organização secreta S.O.M.B.R.A. Durante décadas eles tem enfrentado todo o tipo de ameaça sobrenatural, e como recompensa, receberam um enorme presente de casamento, que tragicamente se transformou no motivo de sua irremediável separação.

Os cientistas da organização produziram um “filho” combinando o DNA de ambos.

Não poderia ser mais desastroso.

Jeff Lemire mergulha nossas cabeças na neve gelada da Alemanha, presenteando-nos com uma visita ao ilustre Castelo Frankenstein… local onde o Dr. Victor Frankenstein desafiaria as leis divinas, e desencadearia sua própria ruína.

As coisas não ficam muito claras ainda, mas algo impensável e maligno foi libertado naquele dia, e embora muitos acreditem que esse mal seja o próprio monstro Frankenstein, a verdade é que ele é apenas uma fagulha, a ponta do iceberg de algo muito mais calamitoso… e tomou para si a missão de remediar os pecados do pai, em suas próprias palavras “Frankenstein não descansará enquanto o mal caminhar pela Terra”.

Parece que ele está fadado a nunca descansar.

Um mistério que vinha se mantendo desde a época que Grant Morrison escreveu a minissérie do Frankenstein para seu projeto “Os Sete Soldados da Vitória”, é finalmente revelado: Por que Lady Frankenstein abandonou seu marido? Os eventos ocorridos durante o “nascimento” de seu filho foram decisivos para isso. O coração do velho Frank foi quebrado, juntando-se a mais um dos incontáveis remendos do seu corpo, enquanto sua ex-esposa, a extraordinária guerreira, tornou-se apenas uma colega de equipe, uma eventual companheira de missões. E ele conheceu outros níveis de morte em vida.

Após o recente ataque dos humanitas, muitas celas de contenção de monstros e outras experiências que não deram certo no decorrer dos anos foram abertas… e de uma delas, quase esquecida, libertou-se a cria de Frankenstein… seu filho amaldiçoado.

Uma edição recheada de diálogos afiados e rápidos, verdadeiros golpes de esgrima. E é nisso que reside a beleza dessa série: um gibi de monstros, protagonizado por uma das criaturas mais famosas da literatura mundial, e que apesar de ser um gibi de monstros, encaixa discretamente entre uma ou outra cena de mutilação, traços de leveza, e por que não dizer, até mesmo poesia!

O jogo de mentiras e manipulações da S.O.M.B.R.A. chega a um momento crítico, o que desperta a revolta de Ray Palmer (o que pode comprometer a sanção da ONU para a agência), além de outras deserções. O futuro da S.O.M.B.R.A. como organização é incerto, mas a missão de Frankenstein em combater o mal é incessante, mesmo que tenha que cumpri-la com o coração mais partido do que nunca.

Eu preciso ressaltar a versatilidade do desenhista Alberto Ponticelli. É como se ele quisesse nos dizer: “Ok, vocês já viram o que eu posso fazer. Agora vou mostrar que também sei outros truques”. Seu traço está mudado, melhorado, como que absorvendo o roteiro e as emoções dos personagens. Eu fui um dos primeiros a criticar sua arte suja das primeiras edições, mas agora fui completamente conquistado pela sua narrativa visual. Seus traços não são simétricos, não têm preocupações estéticas refinadas e nem estão preocupados em retratar a realidade. Ele quer sim, esfregar na nossa cara o lado feio do mundo trágico de Frankenstein imaginado pelos autores… essa combinação alquímica de roteiro + arte, tenta  nos dizer que a monstruosidade tem várias faces, e nem todas são deformadas.

Para dar o toque final nesse caldeirão, as cores do mago Jose Villarrubia dão seu toque arrebatador, destacando detalhes nas cenas de forma lúdica e inteligente. Ele mostra a diferença entre uma pessoa que usa uma paleta de cores eletrônica e um artista que manipula essa ferramenta. O que mais eu poderia dizer de uma colorização que faz parecer que Frankenstein está chorando numa cena tensa, quando na verdade, ele não está chorando? É como se ele imprimisse um raio x da alma do monstro na página.

As ruínas do castelo “Von Frankenstein”, na Alemanha.

Frankenstein: Agente da S.O.M.B.R.A. se consolida para mim como uma das mais satisfatórias HQs de terror e aventura dos últimos tempos. Teve seus altos e baixos, mas ainda consegue surpreender e promete ainda manter o fôlego para muitos números.

Na próxima edição, Frankenstein bate de frente com o PODRE, e cruzará seu caminho com o Homem Animal, personagem também escrito por Jeff Lemire.

A resenha desse encontro você confere em breve aqui no Santuário!

Para ler a resenha anterior, clique aqui.

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Pai, a Minha Sombra és Tu

a cadeira está vazia, um corpo ausente
não aquece a madeira que lhe dá forma

e não ouço o recado que me quiseste dar
nem a tua voz forte que grita meninos
na hora de acordar
ouço o teu abraço, no corredor em gaia
e os olhos molhados pela inusitada despedida

o sol foge
mas o crepúsculo desenha a sombra que
tenho colada aos pés
ou o espelho, coberto com a tua face

pai, digo-te
a minha sombra és tu

Jorge Reis-Sá, em “A Palavra no Cimo das Águas”

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8 comentários sobre “Frankenstein: Agente da S.O.M.B.R.A. # 8: “Pai, a Minha Sombra és Tu”.

  1. Eu via (e todos os demais devotos) que você se incomodava muito com os desenhos anteriores do Alberto Ponticelli, na verdade não achava um dos melhores dos novos desenhistas da DC, mas quer saber? Que bom que você sentiu a evolução do traço do cara e porque não dizer, o quanto ele agora está a vontade no título, porque é isso que sinto, que o Ponticelli agora mostra essas “novas facetas” , por estar muito mais “em casa”. Essa revista é muito, muito legal. A DC perdeu já o Morrison das mensais, ela que tome vergonha na cara e não perca o Lemire também.
    Viva a criatura mais famosa da Terra!!! 😉

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    1. O Morrison está precisando mesmo de férias, eu acredito que ainda teremos notícias dele no futuro. Quanto a Jeff Lemire, embora ele não permaneça na revista do Frankenstein, está assumindo outras frentes, incluindo a Liga Sombria, que poderá ter Frank como integrante. Sobre os desenhos do Ponticelli, eu só posso dizer que acho lindo perceber a evolução gradual de artista.

      Viva a criatura mais famosa da Terra!!!²

      Abraços!

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  2. Uma resenha lotada de spoillers (uhúúú!!) que nos mostra uma das séries mais emblemáticas desta investida da DC. E ainda com a junção e pesquisa dos versos (o tratador é expert em música e o Rodrigo tem a jugular poética) ilustram melhor todo o trabalho desenvolvido. Parabéns de coração e como diria Sergio Britto: Palavras!!!!

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    1. Muito obrigado, Nilson… gostou dos spoilers, né? Não tinha como resenhar essa história sem eles… ou melhor, tinha, mas ficaria tão frio e superficial e eu não poderia dizer várias coisas que tinha pra dizer sobre a história. Pode deixar que outros spoilers virão… mesmo que esteja meio que dando uma segurada nas surpresas.

      Abraços!

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  3. “Pai, minha sobra és tu.” Ótima escolha! Uma frase excepcional para dá início ao post, levando em consideração o histórico do personagem. A equipe criativa está de parabéns! Está fazendo um trabalho condizente com a proposta dos Novos 52. Alberto Ponticelli realmente está fazendo um ótimo trabalho, como foi citado, o seu desenho se adapta e ganha personalidade a cada edição. Ah, gostei muito dessa frase: “E ele conheceu outros níveis de morte em vida.” Abraços!

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    1. Obrigado pelas suas considerações Felipe, concordo que a equipe de Frankenstein tenha conseguido encarnar a proposta dos Novos 52 com qualidade, assim como vários outros títulos (infelizmente nem todos), mas aqueles que não estão se adequando estão sendo substituídos por ótimas opções como “Disque H” por exemplo… e tem mais coisas boas saindo lá fora.

      Abraços!

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