Aquela vaca

Da série “Estórias amorais para crianças amorosas”
Por Pablo Ramos, aquele cujo nome não deve ser pronunciado

Era uma vez um fazendeiro. Ele tinha cachorros, gansos, porcos, jumentos, cavalos e até uma galinha, que ia virar canja naquela noite, mas o fazendeiro estava sempre reclamando era da vaca; e durante aquela canja não foi diferente: Disse que ela até dava leite bom, mas que já não a aguentava mais… reclamou das conversas dela, dos hábitos, dos amigos, da rotina. Reclamou tanto que se engasgou com um osso da galinha e não conseguia respirar – e foi ficando roxo.

Tentava tossir mas não saía, tentava respirar mas não entrava – e foi ficando azul.

Queria chamar alguém mas não tinha voz, queria pensar no que fazer mas tinha pressa – e foi ficando vermelho, roxo e azul.

Foi quando a fada madrinha do fazendeiro apareceu, agarrou-o por trás, deu um puxão apertando em seu peito e o osso foi cuspido na parede (eca!).

O fazendeiro ainda se recuperava quando ela disse, muito braba:

– Veja o que você faz, homem! Tanto reclama e fica aí cheio de raiva que quase se matou por acidente! Esta vaca está ha muito tempo com você, ela atura seu mau-humor e sua sujeira, não merece que a trate assim. Eu devia proibí-lo de reclamar tanto dela, mas você ia continuar pensando mal da pobre vaca, não adiantaria muito. Vou fazer o seguinte: de agora em diante você terá que pensar três vezes em como seria sua vida sem aquela vaca, antes de reclamar qualquer coisa!

E assim como tinha aparecido a fada-madrinha se foi, evaporando numa nuvem de fada.

Abismado o fazendeiro se endireitou na cadeira, arrumou o cabelo, botou mais uma colher de canja na boca com muito cuidado e reclamou baixinho:

– Tudo culpa daquela vaca…

E percebeu que, antes de dizer aquelas palavras, foi surpreendido por três pensamentos que entraram na sua cabeça sem pedir licença: ele imaginou, sem querer, três situações, todas sem a vaca em sua vida.

Ele continuou reclamando de tudo da vaca, mas sempre com os três pensamentos antes, de modo que mais pensava em como seria a vida sem a vaca do que reclamava. Isso fez alguma coisa com ele, pois logo o fazendeiro estava reclamando menos.

E foi assim que começou a passar os dias pensando na vida sem aquela vaca, até que um dia ele parou de reclamar; nesse dia ele levou-a para passear bem cedinho – foram até a feira e ele a vendeu com desconto.

Afinal, tinha pensado muito no assunto.

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16 comentários sobre “Aquela vaca

  1. Qdo estudei psicologia do desenvolvimento dentro do currículo de educação da minha faculdade, aprendi sobre uma fase da criança em q ela só consegue ver o mundo a partir de sua perspectiva nunca a dos outros, ela é incapaz de fazer essa relação… Ajuda a reconhecer o limite do entendimento da criança. :)) Muito bom de analisar, favoritei pra mostrar pras pessoas.

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  2. Essa fada que era uma vaca… claro, uma vaca da Índia, santa e sagrada.

    Me imaginei pensando em três possibilidades que excluíssem as coisas das quais eu às vezes reclamo. A desfecho não poderia ser outro mesmo, apesar que me conhecendo bem eu trocaria a vaca por feijões mágicos… mas isso é uma outra história…

    Got Milk?

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  3. Adoro estes contos ambivalentes; quando há uma mensagem subentendida à patente. E acho, sinceramente, que é uma grande lição, esta de imaginarmos três situações da nossa vida sem o objeto da nossa reclamação. Leva-nos a uma certa reconsideração e quem sabe nos traga um pouco de juízo. 🙂
    E olhem que nem sempre é preciso três situações…
    Parabéns Amigo Pablo Ramos.

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  4. As vezes me dá vontade de pegar a minha vaca e fazer um churrasco.
    Mas o foda mesmo são os bezerros gritando. Meus sais!!!
    Gostei da matéria. Divertida. Parabéns Calígula. 😉

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  5. Vaca nenhuma merecia esse tratamento do fazendeiro, exceto a vaca da mulher dele e olhe lá, deixa esse fazendeiro UMA SEMANA, com um dos meus macacos ou o meu macaco alfa, pra ele ver o que é bom pra engasgo de osso de galinha… aliás, nós tratadores de macacos, não temos Fada Madrinha, temos Vaca Magrinha…

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