BALAS PERDIDAS

por Carlos Lenilton

Vou logo avisando que Balas Perdidas (Stray Bullets no original) é uma das melhores séries criminais de todos os tempos. E é também mais uma prova do quanto o mercado é injusto. Este estupendo trabalho do talentoso David Lapham é desconhecido pela maioria esmagadora dos leitores tanto lá quanto aqui.

Já há muito tempo a violência virou “apenas” mais um produto de mídia e explorá-la de forma abusiva e deixou de causar choque na maioria dos lares ( aqui não interessa os debates herméticos sobre o fenômeno que tanto entretém os intelectuais). Somos levados a crer que talvez o motor do mundo ,enfim, não seja dinheiro, mas ódio e violência. A consciência coletiva humana simplesmente parece não acompanhar os avanços tecnológicos nas mais diversas áreas do saber. E quanto mais perdida, solitária e desesperada mais violência e ódio eclodem de tudo isso. Parecemos não ter salvação. E medo sufocante nos toma de assalto. Medo de ir, de vir, de estar… Medo do outro… Medo de tudo.

Artistas como Lapham, que possuem olhos atentos para a verdade que os cercam, possuem a sensibilidade de captar e de transformar tal realidade em algo que nos faça discuti-la, abomina-la, aceita-la e/ou meramente exorciza-la. O que se debate em tais obras não é a beleza de suas páginas, mas o que suas páginas nos fazem pensar e sentir.

Balas Perdidas nos mostra um retrato frio e cru da sociedade americana ( mas que muito bem poderia ser transposta para nossa própria realidade). O tal “ estilo de vida americano” é virado do avesso em suas páginas, nos mostrando sua faceta obscura: uma sociedade psicótica e uma extravagante facilidade em se adquirir armas.

Não há espaço para finais felizes aqui.  Não há heróis, mascarados ou não. Não há “super-homens” como Marvin e Dwight McCarthy (de Sin City). A pegada de Balas Perdidas é realista.

Quatro estórias compõem o álbum. Duas são terrivelmente retratos dos tempos. Na primeira “O Olhar do Amor” acompanhamos dois capangas, o maduro Frank e o jovem Joey do truculento Harry, que são os encarregados de dar fim aos corpos sem vida de suas vítimas de assassinato.  Uma noite especialmente negra para ambos acontece enfim. É  certo que neste tipo de atividade sempre se caminha sobre o fio da navalha e Lapham brinca justamente com essa possibilidade. Tudo começa a dar errado quando Joey surta e começa a matar indiscriminadamente noite adentro.  Azar dos que cruzam o caminho de sua loucura. Ele literalmente alopra dentro de uma lanchonete matando todos as pessoas que infelizmente estavam por ali naquela noite de verão em 1997. As expressões de horror do parceiro Frank são detalhadas como poucos desenhistas conseguem fazer. Não vou entregar a surpresa, mas o motivo do surto de Joey demonstra que ele sempre foi um louco e bastava apenas um “clic” para que pirasse e fizesse tudo o que acabou fazendo. Há loucos andando entre nós o tempo todo. A estória é impactante quanto a isso.

Na segunda história: “Vitimologia”,  acompanhamos a jovenzinha Ginny que após uma seção de Star Wars (sim, estamos no mítico ano de 1977) testemunha um assassinato.  Como devem imaginar isso transtorna a garotinha e a torna muito fechada. Assim como na vida, infelizmente, isso a torna vítima de bullyng.  Não demora pras coisas na escola chegarem há um ponto crítico, digam o que quiserem, mas crianças sabem ser créeis… O desfecho da história dá um nó na garganta. E pra piorar temos dezenas de exemplos reais de como ser vítima de bullyng pode causar sequelas.

A terceira: “A Festa”, tem um olhar diferente sobre o submundo, segue a vida de dois ladrões  azarados e que antes de verdadeiramente maus são dois jovens perdidos e sem rumo. Sonny é um completo inconsequente, enquanto Led tem uma visão extremamente pessimista  e  apenas espera que algo de ruim aconteça e acabe com tudo. Quantos nesse mundão de Deus não pensam mais ou menos igual? O desfecho para um deles não será nada agradável.

Na última história do álbum: “Bonnye & Clyde” Ginny, a jovem personagem da segundo segundo conto, retorna e vemos sua transformação de ingênua garotinha em uma revoltada… Mas quem pode culpa-la? Em sua fuga de casa ela pega carona após carona até encontrar um pedófilo. E seguimos juntos na nojenta companhia deste grotesco e revoltante personagem da vida real.

O álbum segue até o fim sendo uma triste, amarga e sufocante radiografia da condição humana.

SERVIÇO:

BALAS PERDIDAS # 1 (Via Lettera) – Edição Especial

Autores: David Lapham (texto e arte).

Preço: R$ 29,00

Número de Páginas: 120

Data de lançamento: Março de 1998

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13 comentários sobre “BALAS PERDIDAS

  1. Conheço a série de nome apenas. Nunca me pareceu suficientemente interessante para eu importar… de qualquer modo pelo teu texto deve ter as suas virtudes. Vou ver se consigo ler online.
    😉

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