BATMAN # 10 – Os segredos da família Wayne

Resenha de Batman # 10, de Scott Snyder (roteiros), Greg Capullo (desenhos) e Jonathan Glapion (Arte-Final).

A história secundária teve roteiro de Snyder com James Tynion IV, e arte de Rafael Albuquerque.

Por Rodrigo Garrit

Contém spoilers revelações sobre a história

Bruce está cada vez mais perto das mentes por trás da Corte das Corujas, com as conexões montando-se em sua mente de modo a reconstruir uma trilha que o leva de volta ao seu próprio passado. São pequenos detalhes que vêm surgindo desde o começo do caso e que foram aos poucos sendo plantados de modo a confundir até mesmo o maior detetive do mundo. Mas desta vez, ele não está investigando um crime aleatório, não se trata mais de sua busca irrefreável por justiça.

Desta vez, é um assunto de família.

Scott Snyder tem dado alguns “sustos” nos leitores, primeiro introduzindo uma nova e improvável Ordem secular que vem roubando vidas há mais tempo do que se pudesse imaginar ser possível, tudo isso debaixo do nariz do Batman, que só recentemente teria parado para prestar atenção na Corte das Corujas… exceto pela vez em que, ainda criança, investigou a morte de seus pais e acreditou realmente que a corte tivesse sido a responsável… mas quando o fruto dessas investigações se mostrou improdutivo, ele simplesmente teve uma nova decepção e apagou o assunto de sua mente, excluindo a ameaça que a seita pudesse representar e decretando para si mesmo que a Corte das Corujas não era real.

Mas, afinal, não é disso que o Batman é feito, essencialmente? Traumas de infância?

Depois, Snyder colocou o personagem em um labirinto e o fez sufocar em seu próprio sangue, figurativamente falando, mas nem tanto. Fazia tempo que não víamos o morcego ser tão castigado e encontrar-se tão indefeso. Ele foi torturado física e mentalmente, mas pior que isso (para uma pessoa como ele, eu quero dizer) é ter seus conceitos abalados e ser obrigado a rever suas crenças. Admitir que estava errado.

E por fim, o escritor mostrou uma invasão implacável a residência de Bruce, onde sua caverna sagrada foi violada e seus segredos expostos. Mal havia se recuperado do labirinto e já estava de novo lutando contra um inimigo que conseguiu o feito de quase mutilar seu espírito… mas além de traumas, o Batman também é feito de uma obstinação inabalável. É um homem capaz de abstrair-se de si mesmo e se entregar de corpo e alma para a sua causa. É quando a máscara de Bruce Wayne despenca definitivamente, dando lugar ao seu verdadeiro rosto. Sob a pele do morcego, o homem se torna incontrolável.

Por fim, ou melhor, quase por fim, uma vez que a conclusão da saga das corujas se dará no número seguinte, Snyder coloca sua carta mais arriscada na mesa. Uma jogada que pode vencer a partida ou fazê-lo perder de modo tão vergonhoso que o deixará desmoralizado para sempre. Bruce remonta as peças, admite seus erros e encontra uma verdade disfarçada de mentira dentro do jogo. O maior blefe é aquela mentira que nos é vendida como a pior verdade. Algo tão estapafúrdio que soa como uma piada ruim. A paródia de uma piada ruim. E por ser tão esdrúxula, ninguém jamais iria cogitar a possibilidade de levar a sério.

Mas e se for essa a grande jogada?

Bruce esteve esse tempo todo jogando com seu até então ignorado irmão? O homem se fazendo passar por Lincoln March, seria na verdade Thomas Wayne Junior…?

Greg Capullo mantém a mesma qualidade da arte, desde o seu número de estreia. Não é um desenhista interessado em retratar uma versão super realista dos fatos, embora seu traço me traga (boas) lembranças do desenho animado do Batman elaborado por Paul Dini e Bruce Timm, ele também consegue ótimas sacadas na interação dos personagens e excelentes enquadramentos. Mas as cenas de ação… são perfeitas.

Na história secundária co-escrita por James Tynion IV e Snyder, com desenhos de seu parceiro no título “Vampiro Americano” da Vertigo, Rafael Albuquerque, temos a continuação do flashback envolvendo Martha Wayne e Jarvis Pennyworth, o pai de Alfred, no que supostamente confirma toda a teoria da conspiração da Corte das Corujas, e culmina em um acidente automobilístico sofrido por Martha, grávida de seu segundo filho, um acidente ocorrido na esquina da rua Lincoln com a March…

Todo o painel foi muito bem amarrado por Snyder, que teve a ousadia de alterar fatos importantes da história dos Wayne, mas não levianamente. O escritor teve o cuidado de inserir os elementos de forma ponderada e de modo a não causar exagerada estranheza nos fãs mais antigos do personagem. A sutileza com a qual ele permeia os acontecimentos na história vai nos envolvendo lentamente, tentando ganhar nossa confiança aos poucos e nos fazendo acreditar no que ele estabeleceu como sendo os novos parâmetros da linhagem dos Wayne. Alguns vão ser seduzidos logo de cara. Outros devem resistir um pouco mais.

Mas no fim ele vai convencer todo mundo.

Resenha anterior? AQUI!

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30 comentários sobre “BATMAN # 10 – Os segredos da família Wayne

  1. Duas desconstruções me chamam muito a atenção neste novo universo. A primeira é a da família de Billy Batson e de todos os personagens secundários (que está em curso nas páginas da Liga da Justiça) e outra é o aparecimento desta Corte das Corujas em Batman, que desbancou Bane, a Liga dos Assassinos, Espantalho, Cara – De – Barro e outros vilões tradicionais para instaurar uma nova ordem e desafios mais instigantes na vida do morcego. A velocidade que as coisas acontecem admito está muito frenética (acredito que pelo fato de ser mai velho, estou acostumado com acontecimentos mais lentos e que repercurte por anos e anos. Acredito que essa sequência pode fazer isso na cabeça dos novos leitores (e até com os mais xiitas também daqui um tempo!!!)). Além de tudo o texto inspirado do Rodrigo deixando exalar toda a sua admiração ao personagem e a equipe criativa deixa a resenha totalmente completa. Espero no futuro poder ver outros trabalhos do Snyder com mais vertentes e desafios que possam mostrar a sua versatilidade e não deixá-lo lembrado apenas na trama que entrelaça a família Wayne, Pennyworth e outras de Gotham.

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    1. Você citou duas grandes desconstruções que, curiosamente estão me agradando muito pelo fato de eu ser fã dos dois personagens citados. Fazia muito tempo que não lia boas histórias com o Capitão Marvel (agora Shazam), e sua substituição anterior por Freddy Freeman não me agradou em nada… agora sim as coisas estão entrando no eixo do que devem ser seguindo caminhos totalmente inesperados!

      O mesmo posso dizer do Batman, eu gosto quando os autores têm a coragem de acreditar nas suas ideias… o filho do Batman com Tália foi descontinuado da cronologia por anos… mas Grant Morrison o resgatou e hoje é um dos personagens mais interessantes do universo do morcego. E se for mesmo verdade que Thomas Wayne Jr. é quem diz ser, (e aparentemente é) eu aplaudo a coragem de um autor que luta pela sua história, e faz com que aconteça na linha habitual do personagem… nada de “Túnel do Tempo” nem Terra Paralela… é encarar o desafio e fazer o seu melhor!

      Grande abraço, Nilson!!

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  2. Curto bastante os textos do Snyder em Batman. Espero que sua fase no título seja longa e boa assim como foi a de Grant Morrison. Porque os outros roteiristas das séries do Morcego tão devendo muito. Paul Jenkis tá uma decepção enorme.. Poxa, o Sacerdote Garrit acaba comigo. Não leio as edições gringas pois compro os nacionais…mas não consigo deixar de ler as resenhas dele e aí perder a surpresa quando compro o gibi nacional. Consigo fugir dos spoilers mas não das resenhas do Santuário.

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    1. Infelizmente os outros títulos do Batman estão deixando a desejar, mas até gosto de “Batman e Robn” e essa interação de Bruce com Damien. Jenkis é realmente um decepção enorme…. esperava muito mais dele. Te agradeço colega sacerdote… os spoilers são polêmicos, eu mesmo evito, mas de vez em quando caio em tentação….

      Abraços!

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    1. Obrigado amigo… depois de Grant Morrison (que também mexeu nas raizes dos Wayne e ainda resgatou o filho de Bruce para a cronologia) achei que seria difícil alguém manter a qualidade das histórias, mas Snyder até mesmo supera seu antecessor.

      Abs!

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  3. Pobres antigos fãs do Morcego! Decididamente estão querendo acabar com minha vontade de ler as HQ’s. Ou eu me adapto às histórias e invenções “criativas” desse novo Universo da DC (provavelmente criado num ambiente esfumaçado de ópio, maconha ou outro alucinógenoa bem “doidão”) ou fico com a lenda que me cativou desde criança, coerente e eficaz. Não me parece uma escolha difícil.
    Boa sorte aos novos leitores, a quem esse REBOOT decididamente é direcionado.

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  4. Puts… Adorei isso! Algo realmente estava precisando nas histórias de Batman!
    Pena, eu já não ser tão assíduo aos quadrinhos, mas curti isso! Um novo elemento na vida de Bruce Wayne sem apagar o que ele já foi.

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  5. Belo texto como sempre Rodrigo. Agora, acho que o maior mérito do Snyder foi introduzir a Corte das Corujas tão bem, pois depois disso, a Corte vai ser um dos principais inimigos do Batman pro resto da vida junto com o Coringa e Ra`s Al Ghul. Vale a pena lembrar que essa grande fase do Snyder a frente do Batman começou antes do reboot, na ótima mini Portões de Gotham junto com Kyle Higgins, aonde já tinha vários indícios do que Snyder iria fazer.
    Abçs.

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  6. EDITORIAL SANTUÁRIO:

    Segunda: Resenha de Wolverine e os X-men

    Terça: Resenha de Disque H para herói

    Quarta: Arrow

    Quinta: A Jornada de um herói

    Sexta: Batman

    Sábado: Novos Deuses de Jack Kirby

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