EU, O VAMPIRO # 10 – “Nós não somos nem bons nem maus. Apenas Somos”.

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580504_441581535894951_1921847961_nResenha de “Eu, o Vampiro” # 10 de Joshua Hale Fiakov (roteiro) e Andrea Sorrentino (arte).

“I, Vampire” criado por J.M. DeMatteis e Tom Sutton.

Por Rodrigo Garrit

AVISO:  Artigo autopsiado de um cadáver em decomposição. Contém spoilers altamente infecciosos.

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No acampamento vampírico mais ensolarado do mundo, Andrew e Mary travam a batalha do século pela liderança do exército de desmortos.  O que a principio é uma luta perdida para Mary, acaba por se tornar algo realmente instigante… afinal, Andrew é o “Vampiro Supremo”, entupido de poderes mágicos até não poder mais… ele até mesmo recita alguns encantos de trás pra frente no melhor estilo Zatanna (tirou onda) enfim, é praticamente invencível… mas Mary tem algo de Andrew que lhe concede a total vantagem dessa luta: seu coração.

Ao mesmo tempo, a seita ancestral dos Van Helsings – destemidos, obstinados e neuróticos caçadores de vampiros – está a caminho do acampamento, na companhia da jovem e lunática amiga  de Andrew, Tig, e do consternado John. Os caçadores aceitaram o convite de Andrew, que planejava firmar um tratado de paz, mas os aviões carregados de napalm e outros fogos de artifícios não estão destinados a comemorações de paz…

Escrever uma história sobre vampiros pode ser uma tarefa muito recompensadora ou muito inglória. O que há mais para se dizer sobre as criaturas sugadoras de sangue? Agora imagine escrever sobre Andrew Bennett… um vampiro super-herói?

Essas são as perguntas que permeiam minha mente a cada vez que leio uma nova edição de “Eu, o Vampiro”. Torcendo para que o autor as responda, e me convença a seguir a diante.

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“Eu quero ver você correndo atrás de mim… eu quero ver você correndo atrás de mim… quando eu te procurei você nem ligou pra mim… agora eu quero ver você correndo atrás de mim…”.

Primeiramente, é preciso deixar de lado o peso heroico de Andrew. Embora ele seja essencialmente bom e deseje a paz entre pessoas e vampiros, não mede esforços ou consequências para conseguir seus objetivos. Ele mata aqueles que são de sua espécie sem hesitação, e mergulha sua alma nos confins sombrios da magia para sedimentar sua vontade sobre os monstros assassinos. Ele não é um herói, e nem de longe exemplo positivo de coisa alguma… é uma criatura torturada (mas não torturante) e busca a redenção pelos pecados dos vampiros. Mas sem intermináveis e entediantes lamurias… apenas sangue e carne sendo rasgada. Andrew tem, é verdade,  um dilema em relação a sua maior inimiga… a vampira que quer escravizar toda a humanidade e torná-la nada mais do que gado. Com todo o poder que ele recebeu, poderia vaporizá-la com um estalar de dedos… poderia colocar um fim sobre séculos de infrutíferas discussões de relacionamento… mas não vai fazer isso, ele ainda a ama, embora saiba que ela é seu perfeito oposto, ou talvez por causa disso. O que não o impede de dar uma surra nela diante de centenas de vampiros, apenas para tentar provar seu ponto de vista.

Vampiros apaixonados são algo do que de pior se gerou na cultura dessas criaturas através dos anos, mas apenas quando utilizados de forma equivocada… esse amor conflituoso vem desde Drácula, de Bram Stoker, onde o Conde é condenado a viver para sempre com a angústia causada pelo amor que sente por sua adorada Mina. A questão principal é que isso não é um romance, é uma tragédia. Não é pra ser uma fantasia adolescente, e sim um pesadelo. E essa é a fórmula para a coisa fluir: Mais Drácula e menos Crepúsculo.

Mas, ainda assim, depois de alcançar o patamar de clássico e ganhar o respeito literário e cinematográfico dos mais exigentes críticos, ainda existe algo a se dizer sobre essas criaturas? Algo novo… estimulante… divertido? E dentro de uma história em quadrinhos?

A resposta a isso vem na forma de como os velhos arquétipos são tratados como paródias no gibi escrito por Joshua Hale Fiakov, que habilmente desenvolve uma sub-mitologia para o clã dos Van Helsings, fazendo deles protetores da humanidade em seu próprio ponto de vista, mas também monstruosos em suas ações. Como juízes auto impostos sobre o bem e o mal, eles decidem quem merece viver ou morrer… e quem é digno de continuar habitando o planeta. Numa das muitas tiradas interessantes entre o líder do bando e o professor John, ele diz que, após exterminar a raça dos vampiros, o próximo alvo dos Van Helsings serão os assim chamados “super-heróis”… que eles consideram uma nova ameaça para a humanidade. Eu fico imaginando como seria esse mundo, em que eles obteriam êxito e levariam todos os que consideram indignos à extinção… quando não sobrasse mais nenhuma “aberração”, eles se voltariam contra a própria raça, numa tentativa de “purificar” o planeta? E quem seriam os próximos alvos?  Os deficientes, os gays, os judeus… os resenhistas de gibis?

O quanto de Adolf Hitler existe nesses fictícios personagens?

Mas chega de tantas perguntas. Por toda essa reflexão implícita, revestida sob uma camada de “gibi do vampiro super-heroico”, esse é um dos títulos que venho acompanhando atenciosamente e com uma certa “sede de sangue”…

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Isso que dá contrariar sua ex…

A arte da revista conta uma história paralela… agradável de se olhar. Andrea Sorrentino mantém seu estilo sóbrio, realista, crível… em um contexto onde o sobrenatural espreita cada quadrinho, aguardando o momento certo pra pular na garganta do leitor. Se outra pessoa desenhasse, é possível que desse certo, mas perderia algumas sutilezas que roteirista e desenhista já desenvolveram ao longo do trajeto.

Existem muitas coisas sendo feitas no cinema, na televisão e em outras mídias, fazendo-se valer do mito dos vampiros. Algumas são interessantes, outras medianas e existem ainda aquelas que o desvirtuam totalmente. Mas eu, como fã daquilo que considero ser o verdadeiro mito, estou satisfeito com o que tenho lido nas páginas de “Eu, o Vampiro“.

Cabe a Joshua Hale Fiakov e Andrea Sorrentino me convencerem de novo na próxima edição.

Curtam a bela capa de Clayton Crain!
Curtam a bela capa de Clayton Crain!

Chegou agora e não entendeu nada? Calma! Basta ler as resenhas anteriores de “Eu, o Vampiro” clicando AQUI

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8 comentários sobre “EU, O VAMPIRO # 10 – “Nós não somos nem bons nem maus. Apenas Somos”.

  1. ALERTA SPOILER: Um pequeno detalhe sobre essa resenha, é que a frase que usei para dar título a ela: “Nós não somos nem bons nem maus. Apenas Somos” não foi dita por um vampiro ou por nenhum outro monstro… mas por um ser humano.

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