O PLEBEU QUE SONHOU

por Gabriel Velasco

Img-de-CapaapenasumplebeuE assim falaria eu para a assembleia de ouvintes:
“Eis que admiti meu sentimento por Vossa Majestade, e hei de tê-lo com meu coração por toda eternidade, conforme os gostos de Nosso Senhor. Por favor, meu senhor, seja meu ao menos uma vez, por uma noite que nunca tenha fim…”

Peguei-me pensando nisso, antes de dormir, como eu queria ter em meus braços essa figura mítica?! E os pensamentos se repetiram tantos dias, que ao final de uma semana já me sentia a própria Excalibur, amada e companheira legítima do rei. Como eu gostaria que fosse real. Todo esse reino de magia e guerras, onde se pode amar alguém por olhares e trocas de confidências telepáticas, para que pudesses sentir o que eu sinto através das minhas palavras, meus gestos e minha intenção. Como eu queria não ter essa necessidade de ter nos meus braços aquilo que deveria ser sagrado e proibido, não existir essa necessidade do corpo, mas há, mas meus movimentos desse aspecto foram, por fim, insuficientes e acredito que vem escapando por entre meus dedos toda possibilidade de concretizar minha jornada imaginária e de tornar real esse apego.

Sou um plebeu.

Não tenho nada demais a oferecer a um rei. Como eu poderia exigir que o sentimento de alguém tão distante de minha realidade pertença a mim? Não, não posso. No fim das contas, vivo de um sonho. De ser uma espada. Por mais inconcebível que venha a ser tal ideia, tenho firme meus propósitos de estar sempre ao seu lado, atrelado a sua cintura, disponível para suas mãos sempre que desejar. Ser seu instrumento de luta e de batalha, defender-te dos inimigos e transpassar tudo que se interponha entre tu e tuas conquistas; ser seu símbolo de glória que ergueria no alto para ser saudado; ser seu estandarte; ser seu instrumento de juramentos, através do qual tudo que por mim passasse fosse de eterna e total confiança; ser puro aço que nada destrói; ser uma joia de valor inestimável; ser de equilíbrio para ti moldado; e, por fim, ser insubstituível. Alma e corpo. Em forma de instrumento. Como eu queria ser Excalibur.

Essa noite, majestade, peço-te que sonhes comigo, e que da próxima vez que abrir seus olhos lembre-se de mim, um cavaleiro dentre tantos que lhe prestam juramentos. Um servo. Porém, lembra-te pois estarei sentado em tua távola, sincero em olhares e sorrisos e consternações, em conselhos e ajudas; e do teu lado não sairei. Ainda que não o toque, que não o tenha em meus braços. Sempre estarei lá. Em pensamentos. Fiel e presente, como tua espada Excalibur.

excalibur_by_vinanti-d4g1o4b
==============================================================================================

Um dia alguém escreveu assim para o Rei Arthur, mas ninguém nunca soube o nome deste cavaleiro. Porque ele nunca foi importante, senão em seus sonhos.

S_Final

Anúncios

8 comentários sobre “O PLEBEU QUE SONHOU

  1. Em toda mitologia Arthuriana é inegável o quanto o conteúdo homo erótico é presente. E o amor em nenhum momento estando preso nas limitações do sexo, é assim como a lealdade e bravura a trindade sagrada desse mito!!! Parabéns, amigo!!!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s