OS CAMPEÕES – We are (not) The Champions! PARTE 1

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por Pedro Bouça

Img-de-CapachampionsOutro dia tive uma discussão com um amigo. Falávamos sobre a antiga série da Marvel dos anos 70 Os Campeões (The Champions), que é lembrada basicamente apenas por ter sido desenhada (por um curto período) por um jovem John Byrne. Eu recordava dela como uma série medíocre, típica da Marvel do período, enquanto ele dizia que ela tinha suas qualidades. Resolvi tirar a prova e ler os dois TPBs da série (compilando todas as edições e mais uns extras), que eu comprei há um tempo mas ainda não tinha lido.

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Tony Isabella, Bill Mantlo, George Tuska e Vince Coletta

Vamos examiná-las número a número.

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Como já dá para ver pela capa, é uma equipe bastante atípica. Dois antigos X-Men (um deles, o Anjo, com um uniforme particularmente horroroso), o semideus Hércules (bem antes de sua recente – e magnífica – série solo pela Marvel), a Viúva Negra e o Motoqueiro Fantasma. Nenhum deles um ídolo de multidões.

A trama inicial, de três edições, que motiva a formação da equipe, é tão absurda quanto as seguintes. O deus dos mortos Plutão pressiona Zeus a obrigar Hércules a casar-se com a amazona Hipólita e a deusa Vênus (que aparece na história) com Ares (a mistura inconsistente de nomes gregos e romanos vem da própria HQ). Seu plano maléfico é que, devido às retrógradas leis do Olimpo de que marido e mulher não podem lutar entre si, Hércules e Vênus seriam então impedidos de ajudar Zeus quando Plutão se revoltasse contra este.

Ora, a inconsistência é óbvia. Ares e Hipólita são os ÚNICOS aliados de Plutão no Olimpo e, pela mesma lei, não poderiam o ajudar contra Zeus. O casamento então não seria desvantajoso para o próprio Plutão? Isso não é explicado.

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Aos curiosos, Tony Isabella é o argumentista das três edições, com Bill Mantlo contribuindo diálogos para a terceira.

O editor-chefe da Marvel na altura era Marv Wolfman. Marvin, reconhecidamente incompetente para a função, não apenas não corrige esse problema como também parece ter efetuado uma “correção” no primeiro número (um dos balões de diálogo tem letreiramento diferente do resto) que é inconsistente com o resto da HQ! Esse era o nível de profissionalismo da Marvel na época.

(Nota: Eu odeio a Marvel dos anos 70!)

Durante o processo, Hércules, em Los Angeles para dar uma palestra sobre mitologia na UCLA (sério!) encontra-se com os outros futuros integrantes da equipe, que o ajudam a enfrentar amazonas, o cão Cerberus e outros servos de Plutão. Depois de derrotarem essa turma, Zeus manda um poderoso (embora afeminado) servo chamado The Huntsman para arrastar Hércules e Vênus à força para o altar. Ele consegue, mas os Campeões vão atrás deles até o Olimpo, interrompem o casamento e lá o Motoqueiro Fantasma manda o papo reto para Zeus e o convence a desistir da ideia e punir Plutão. Problema resolvido! Fácil, não?

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A arte é um problema à parte. As duas primeiras edições são desenhadas por um Don Heck em plena decadência e são de tal forma ruins que a terceira, com arte de George Tuska e Vince Coletta (sim, VINCE COLETTA! Ele até funciona bem com o Tuska…) é uma GRANDE melhoria.

Momento mais patético: Quando Vênus usa seus poderes para transformar a espada de Hipólita em uma “ferramenta de paz”, um enorme ARADO (!) que imobiliza a amazona. Ainda bem que não foi uma “ferramenta de amor”, ou então teria sido um vibrador gigante…

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Bem, chegamos à quarta edição e a equipe nem sequer decidiu ainda permanecer junta. O escritor convidado Chris Claremont tem de fazer o trabalho sujo de juntar oficialmente a equipe e o faz usando a trama batida de colocar o grupo contra um diretor de hospital maluco que recriou uma variante do soro do super-soldado e o utilizou para criar uma série de soldados fisicamente poderosos mas mentalmente limitados que pretende utilizar, supõe-se, para… DOMINAR O MUNDO! Hércules e Viúva Negra, passeando na praia (embora na arte de Tuska e Coletta pareçam estar avançando contra um inimigo em vez de curtindo uma tarde romântica), dão de cara com um desses pacientes foragidos e acabam sendo capturados e controlados pelo diretor de hospital maluco para enfrentar o resto da equipe-que-ainda-não-é-equipe. Resumo da ópera, o vilão acaba perdendo o controle dos seus subordinados e morto por eles, enquanto Os Campeões, depois de enfrentar essa terrível (!) ameaça decidem permanecer juntos, afinal não é como se os Vingadores, o Quarteto, os X-Men ou mesmo os Defensores fossem o suficiente para esse tipo de ameaça, não é?

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Enfim, no número 5 Isabella e Heck estão de volta e introduzem o primeiro inimigo recorrente do grupo, Rampage. Orgulhosamente indicado na página de abertura da história como “o primeiro vilão criado pela recessão”.

É isso mesmo. o hábil cientista e industrial Stuart Clarke, uma espécie de Tony Stark paraguaio, criou uma poderosa armadura (“comparável à do Homem de Ferro”), mas sua empresa foi à falência antes de poder comercializá-la. Em vez de vender o protótipo para, sei lá, os russos ou algum supervilão rico, Clarke decide utilizá-lo para roubar bancos. E, claro, dá de cara com os Campeões.

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Rampage tem um visual terrivelmente ridículo (nenhuma surpresa, já que ele foi criado por Don Heck, que nunca foi um bom designer de personagens) e sua “armadura” (colante!) não protege o queixo e parte do rosto, de modo que é surpreendente que não seja derrotado em 3 segundos pelos Campeões. Quer dizer, não é tão surpreendente, levando em conta o gabarito da equipe.

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Na edição seguinte Tuska e Coletta estão de volta (com a consequente melhora na arte) e Rampage escapa dos Campeões, mas é denunciado por seu antigo advogado, que ele demitira no número anterior, que vê nisso a chance de se vingar do ex-patrão (eu compreendo seus sentimentos!). Cercado, Clarke prefere autodestruir seu jato portátil a ser capturado vivo. O que resulta nele ficar todo arrebentado E ser capturado. Algo que se repetiria em TODAS as suas aparições! Cada superequipe tem o arqui-inimigo que merece, eu acho.

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Final “feliz”: O “adevogado” de Clarke aproveita que sua demissão não tinha sido formalizada, assume a empresa, vende tudo e ainda sai com um lucro. Não teria sido mais simples para Clarke fazer isso em vez de tentar roubar bancos e explodir um tanque de combustível na cara?

PARTE 2 Semana que vem !!!

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54 comentários sobre “OS CAMPEÕES – We are (not) The Champions! PARTE 1

  1. Adorei o texto bem humorado, para variar, né? A lembrança do arado em cima de Hipólita foi ótima. No chapadão de cores que a Ed Abril usava, não entendi direito que palhaçada foi aquela. Gostava dos desenhos do Tuska. Adorava os Campeões, acho que foi por causa da primeira história que li deles foi com o Byrne, quando eles enfrentam o Enxame (comenta esta história, por favor, Venerável!). O uniforme do tal Rampage (que a Abril chamou de Fúria) ganhou vida nesta mesma HQ. Por fim, Venerável, você não gostaria de me vender estes TPs dos Campeões? É sério, eu compro.

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  2. Viúva Negra é das minhas, safadinha! Hércules é um gato alto astral, que experimenta de tudo (amo ele!), o Motoqueiro Fantasma é muito careta e não é bom de cama, o Homem de Gelo é brochante, mas Anjo, me liga, cara! Vou te fazer virar homem!!!

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  3. Sou um dos malucos que é fã dos Campeões! Talvez por uma questão de saudosismo bobo, de tentativa de se conectar ainda com a infância, talvez nunca pela qualidade, óbvio, parabéns pela matéria, no aguardo ansioso pela segunda parte dessa matéria!

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  4. Embora essas histórias sejam muito más, há vários motivos para eu poder apreciá-las. A primeira é que, ao juntar ex-membros dos X-Men e dos Vingadores na mesma equipa, ajuda a fortalecer o conceito de Universo Marvel.

    A presença do Motoqueiro Fantasma ainda é melhor, já que, antes da fase Midnight Sons, a maior parte dos heróis com poderes mágicos, místicos ou ocultos tinha a tendência para trabalhar isoladamente.

    A história da Rampage tem ainda mais contornos ridículos do que os referidos no texto, pela maneira como o advogado é retratado, por exemplo.Mesmo que se demitisse, ou melhor, deixasse de representar o seu cliente, o advogado não poderia revelar nada que estivesse sujeito à relação confidencial entre os dois, nem mesmo depois de terminada a relação. Aliás, como ele próprio refere, como a demissão não foi oficializada, ele não pode usar a sua posição como advogado para assumir o controlo da empresa em nome próprio, pois isso é abuso de confiança. Portanto, o advogado cometeu aqui dois ofensas que o poderiam levar a perder a licença.

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  5. Nos anos 60 criaram quase tudo. Nos anos 70 não sabiam o que fazer com esse quase tudo, então criaram os Campeões.
    Se a década de 60 foi a fase criativa da Marvel, a de 70 foi a fase experimental da Marvel. Certeza que pra criar os Campeões alguns editores se reuniram numa sala e, após horas de trocas de ideias e ferozes agressões verbais, algum deles subiu na mesa e gritou “já sei! E se reunirmos personagens que não tem nada a ver num grupo sem sentido e sem destino?!” e foi aplaudido.
    Talvez até tenham ousado pensar que tinham um novo Quarteto Fantástico em mãos ou um híbrido de Quarteto com X-Men. Mas era só uma ideia ruim.

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  6. Tem gibis que me dão vergonha de dizer que sou leitor de quadrinhos…
    hahahaha
    Mas adorei o texto. Nunca na vida eu leria uma hq dessas, mas o humor do texto me fez dar boas risadas. Acho que os anos 70 tiveram farta distribuição de substâncias ilícitas dentro das editoras, só assim pra explicar certas coisas.

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  7. Nunca li esta série, mas gostei do texto (o teu)!
    Gosto particularmente da imagem:
    “…em uma “ferramenta de paz”, um enorme ARADO (!) que imobiliza a amazona. Ainda bem que não foi uma “ferramenta de amor”, ou então teria sido um vibrador gigante…”
    ahahahhaha
    Desculpa mas isto foi muito bom…!
    😀

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  8. Faz muuuuuuuuuuuuuuito tempo que li Campeões e confesso que não lembro de quase nada. E para ser bem sincero nem faço questão de lembrar.

    Texto bom de um gibi ruim,

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  9. Excelente matéria, confesso que eu não conhecia essa bizarrice haha! Mas olha, ainda bem que li sua resenha, assim não me arriscarei a ler esta maravilha. Não sou tão corajoso quanto você!

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  10. Bá, esta série com certeza era bizarra 😀 Mas não entendi uma coisa, se tu não curte os anos 70 da marvel, pq comprou estes encadernados? hehehehe Mas na moral tb não gosto muito das fases dos anos 70, tinha algumas coisas que escapavam, mas no geral… heheh
    Abs meu

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  11. Bem, se o Byrne está envolvido, isso significa que a obra já é 50% boa/aturável. Subestimar os trabalhos da Marvel é uma coisa natural, todo mundo já fez a mesma coisa. Liga não, cara! Humm!, as capas são bem legais, realmente senti uma vibração interessante. Bagunça e mais bagunça! Penso que isso tudo permite que um certo valor seja empregado à obra. Essas pequenas coisinhas são aquelas típicas coisas que causam uma certa distinção, ou que dirvertem quando pontos incoerentes comuns são lançados em uma discussão informal em um barzinho. Os fatos são tipicamente Trash (o que era típico naquela época), o que é bom, pois gosto dessa perspectiva atrapalhada e simples. Ótimo texto, Pedro! Dei muita risada! SÉRIO!

    Champions!!!

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  12. Eu sou suspeito para falar, porque adoro esse texto e o autor, mas ri deveras lendo, me diverti de verdade o melhor ainda está por vir. Entre tudo de absurdo que essa década teve (na DC também, vamos combinar), os Campeões realmente são a cereja do bolo na Marvel. E gente, realmente, que uniforme escroto/horroroso do Anjo. É inspirado no John Travolta e no personagem Tony Manero, do filme: Embalos de Sábado a noite??? O cara já era um bucha que voava e ainda usa uma merda dessas??? Vai lutar com roupa de ensaio de ballet e jazz ????

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  13. Olha parabéns para quem gostou ou achou no minimo interessante. Sempre devemos respeitar a opinião do próximo. E respeito muitos aqui. Da mesma forma que sou muito questionado ou criticado pelo meu ódio sobre o personagem sem graça que é o ciclope. Acredito que poderia ser sim, uma equipe uma uma mini serie que poderia ter rendido e vendido muito mais, mas eles conseguem, eles se esforçam para construir tais coisas sem sentido e horrorosas. Homem de gelo, Hércules e motoqueiro fantasma, puts tinham tudo pra ser uma equipe temporária bombástica, Todos com gênio forte, com dificuldades de se relacionarem com outros, caraca seria algo bem bacana e se não estiver enganado ou até inovador, mas que infelizmente foi transformado nisso, que durante uma edição seus próprios criadores se perdiam no que eles queriam para o grupo, não sabiam sobre o que escreviam.

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    1. Concordo com você, Leonam, mas quanto ao fato de uma equipe com personagens nada a ver, de personalidades fortes… Já existia Os Defensores… E sim, mesmo assim, o pior de tudo era o roteiro, afinal , qualquer grupo e qualquer personagem pode ficar legal sob um bom roteirista.

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  14. Sem preconceito nenhum, os anos 70. prá vários títulos, trouxeram um grade alento. Uma prova disso são as histórias do Namor (pode fazer a pesquisa e mandar a matéria aê tratador!). Na minha opinião também o Motoqueiro Fantasma e é claro, os X-Men que pela primeira vez foram agraciados com o trabalho de Neal Adams e também nesta época foram reformulados. No meio de tanta coisa bacana, algo de ruim também aparece. Uma dessas tosqueiras são as primeiras histórias dos Campeões (confesso que devo ser o maior fã deles), mas que depois melhoram e muito. O que mais chama a atenção é a heterogeneidade da equipe. Todos não tem nada a ver (e a Viúva no início da sua fase mais safadeenha pega tudo e todos) mas estão ali. Histórias deles que saíram no Brasil, só da próxima parte que vai deixar o povo babando (afinal, foram no início dos anos 80). Mas deixa eu calar a matraca se não estraga a surpresa.

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    1. Huuuummmm…. vá dizer que você não achou pelo menos interessante o flerte do Kiss com a na época dominante disco music…..

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