MUNDO CÃO

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por Carlos “desiludido com tudo isso” Lenilton

Img-de-Capamundo-cãoMundo Cão foi publicado no longínquo ano de 1991 e, mesmo não sendo uma obra- prima, é uma dessas publicações que não envelhecem com o tempo. Os temas abordados em seus dez pequenos contos são, ao menos aqui no nosso Brasil, intensamente atuais, pois tratam, por exemplo, do excesso de burocracia que, por vezes, “travam” nossas instituições públicas.

A falta de educação e civilidade das pessoas, a falsa moralidade, a incapacidade quase crônica de respeitar o espaço público (em nosso país, tem-se a falsa ideia de que “público” significa que “não tem dono” quando, na verdade, significa que é “coisa de todos”), a indelicadeza das autoridades que se comportam como se estivessem acima dos outros, a intolerância, a apelação dos programas populares de TV e outras coisas do gênero permeiam o trabalho de seu autor, Miguelanxo Prado. Algumas das mais emblemáticas histórias são:

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Hot-Dogs”: um conto onde o autor eleva, a níveis absurdos – embora críveis -, o desrespeito que alguns donos de cachorros cometem, diariamente, com o espaço público e os habitantes das grandes cidades, levando seus animais para evacuarem por toda a cidade, sem terem o mínimo de bom senso, ou a educação, de limparem seus dejetos, evitando, assim, o emporcalhamento das vias.

Um cara desligado”: lembra-nos do excesso de burocracia em atividades simples que, nas mãos de alguns maus funcionários públicos, tornam-se uma verdadeira via crúcis, quando uma equipe de desligamento de energia elétrica se recusa a religar a eletricidade recém-cortada de uma casa, com a justificativa de que ela não é a equipe de “ligação” de energia. Ao dono da casa, ainda sobra sopapos desferidos pelos imbecis após sofrer um ataque de irritação como qualquer pessoa normal teria.

Dura lex, sed lex”: trata de um espinhoso assunto que aflige nosso tempo: o egoísmo. Neste mundo, onde a maioria das pessoas só se preocupa com suas próprias vidas, Prado nos lembra que, às vezes, quem ajuda os outros pode se dar muito mal. Uma pena, mas que, muitas vezes, acaba sendo verdade.

M. Prado parece ter alguma mágoa especial contra burocracia, pois, em “O burocrata”, um inspetor insiste em cobrar impostos e taxas de três bruxas que tentam fazer um despacho encomendado. É uma das mais engraçadas.

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Telejornal das oito”: critica o excesso de sensacionalismo dos jornais e programas ao estilo dos apresentadores Datena e Ratinho. Aqui, o resultado obtido em suas três páginas é fantástico.

Já em “Ratoeiras”, um rapaz tem a casa infestada por ratos, procura ajuda das autoridades sanitárias e tudo o que consegue é ser jogado de uma repartição pública para outra. Os ratos tomam conta de sua casa. O número de suas reclamações aumenta até que chama a atenção das autoridades sanitárias que – Pasmem! – ele procurou beemmm antes. E, sabem o que acontece? O pobre rapaz é multado em algumas centenas de reais por “incitação e propagação” de epidemias e entre outras coisas. É o cúmulo do desmantê-lo do (des)serviço público.

O autor
O autor

Chega a ser triste verificar que pouca coisa mudou, se é que não piorou, depois de mais de vinte anos do seu lançamento.

Título: Mundo Cão (Abril Jovem) – Edição especial

Autor: Miguelanxo Prado (roteiro e desenhos).

Preço: Cr$ 400,00 (preço da época)

Número de páginas: 64

Data de lançamento: Março de 1991

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11 comentários sobre “MUNDO CÃO

  1. Gostei do texto, sua forma de escrever flui muito bem, parabéns.

    Quanto a temática apresentada, de fato a injustiça corre solte por causa de atravancos legais, ou seja, a corda arrebenta do lado mais fraco.

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  2. Onde se lê:
    “Em português tem o título…” deve ler-se “Em Portugal tem o título…”
    😉

    Já agora é com agrado que vejo que algo europeu é falado por aqui!
    😛

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  3. Uma verdadeira descoberta arqueológica… cara, você não sabe como eu adoro isso… conhecer agora HQs que certamente passaram por mim, mas por alguma razão desconhecida não encontrei na época… é um verdadeiro tesouro, e sou fascinado por essas relíquias… eu realmente estou sempre em busca de achados como esse, e quando encontro algo assim não caibo em mim de tanta satisfação… A HQ, como você diz pode não ser uma obra prima, mas esse sabor nostálgico apurado pelo tempo poucas têm hoje em dia… será que isso pode se encaixar como uma possível definição do verso da música índios de Renato Russo: “E é só você que tem a cura do meu vício de insistir nessa saudade que eu sinto de tudo o que ainda não vi”…

    Obrigado por trazer à tona, e por compartilhar conosco!

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  4. Ah, ótimo texto, cara! Parabéns! Sim, realmente é possível identificar um grande “desabafo” por todos os pontos chavões da obra. São inúmeros exemplos/situações bastante comuns, que são ótimos e, ao mesmo tempo, simples que podem gerar típicas e frutíferas reflexões. Me identifiquei bastante com algumas coisinhas: Ratoeiras, por ter aquilo que todo típico bom moço tem; Telejornal das oito, por ter que aturar, praticamente todos os dias, esse sensacionalismo bobo; O burocrata, por ser um situação deveras improvável e cômica; e por último Hot-Dogs, por me fazer lembrar da minha namorada, que é extremamente consciente nesse ponto, chego até a ficar com peninha dela.

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  5. EDITORIAL SANTUÁRIO:

    Segunda – Revista Punk – “Faça você mesmo!”

    Terça – Fabulosos X-men #2

    Quarta – Mundo Cão

    Quinta – O Que aconteceria se o Homem Aranha mantivesse seus poderes cósmicos

    Sexta – Resenha: Liga da Justiça #11

    Sábado – Umas Tirinhas da Pesada

    Domingo – O Quarto Mundo de Jack Kirby!
    o

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