O QUESTÃO: STEVE DITKO E O OBJETIVISMO.

Terceiro Reich

por Carlos Lenilton

Img-de-CapasdAgora que o Questão se transformou em um personagem místico no universo reformulado da DC Comics conhecido como Novos 52 que tal repassarmos um pouco de sua trajetória editorial?

O Questão – criado por Steve Ditko

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Cria do lendário Steve Ditko para ser o personagem secundário da revista do Besouro Azul da falecida editora de quadrinhos Charlton Comics em 1967 o personagem Questão é reflexo das opções filosóficas de seu criador.

Nesta altura todos devem conhecer Steve Ditko como o co-criador do Homem-Aranha para a Marvel Comics. Mas este americano de Johnstown fez muito mais que isso. Além de ter criado  praticamernte todo o conceito de designe original do universo do Aranha, a maioria válido até hoje, criou também na Marvel o maior ocultista da editora: Doutor Estranho. Ele foi também criador de vários personagens da DC Comics tais como: Shade – o Homem Mutável, O Rastejante, Rapina e Columba e o Starman (o cósmico Principe Gavin). Mas foi após sua saída da Casa das Ideias, na editora Charlton, onde criou ou reinventou personagens para a recém criada linha de heróis da editora – a Action Heroes Line – sendo estes: Besouro Azul (reinventou totalmente o personagem, “aracnideozando-o”), recriou o Capitão Átomo (diminuindo a intensidade de seus poderes, conceito que décadas mais tarde seria reutilizado por John Byrne em Superman) e criando o Questão, muito em parte para difundir entre os leitores sua filosofia pessoal: o Objetivismo.

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Steve Ditko era, e ainda é tendo acabado de completar 85 anos, orientado pelo pensamento filosófico conhecido por Objetivismo e viu no personagem Questão uma válida maneira de apresentar seus conceitos, mesmo que de forma experimental, ao grande público.

Como dissertar sobre o objetivismo não é a pauta destas linhas, devemos tentar entender ao menos as linhas mestras que serviram para conduzir as histórias de Vic Sage naquela época.

“A grande questão no que diz respeito ao homem é que quando você aceita algo tão importante quanto a criação do universo com base na fé, você está destruindo a confiança e a validez de sua mente.”  Ayn Rand, criadora e principal pensadora do Objetivismo.

– A lei que rege o mundo natural é a lei causal. As coisas na realidade operam por causa e efeito – cada uma atuando de acordo com a sua natureza.

– Tudo, inclusive os seres humanos, são sujeitos à causa e efeito. O homem tem o poder de escolha, o poder de pensar ou não nas consequências de seus atos.

– Pensar logicamente é colocar os dados em um modo não-contraditório. O uso da razão faz você confiar nas conclusões que chega.

– Você só pode obter verdades usando da observação, da formação de conceitos, da lógica – ou seja, da razão.

Abaixo, estão as seis principais virtudes derivativas reconhecidas pelo Objetivismo:

– Independência: a aceitação da responsabilidade e da necessidade de formar seus próprios julgamentos e viver do seu próprio trabalho.

– Integridade: a lealdade aos princípios, a prática do que um acredita ser certo. Como é possível chegar a princípios certos com a razão, a prática de coisas boas irá beneficiar a sua vida.

– Produtividade: a virtude de atingir valores. Embora o uso de produtividade tipicamente se refere à produção de riquezas, aqui a palavra também inclui o ganho de outros valores, como relações com amigos ou amantes.

– Honestidade: a rejeição de falsificar a realidade de sua existência de qualquer maneira, seja para si mesmo ou para outros.

– Justiça: a virtude de tratar pessoas de acordo com as suas ações – a aplicação da lei da identidade às pessoas. A justiça é em seu interesse pois encoraja bom comportamento na parte de outros e evita que você tenha que lidar com pessoas más ou perigosas.

– Orgulho: o respeito a si mesmo. Sem ele, você não teria razão para confiar em sua habilidade para viver. Você não teria razão para aceitar que vale a pena viver.

Vivendo de acordo com a racionalidade e estas outras virtudes, o homem é capaz de atingir uma vida próspera e feliz, que é o seu propósito moral.

O nome da teoria ética Objetivista exposta acima é egoísmo racional.

Politicamente um individuo objetivista se parecerá com um direitista.

Sócio-economicamente ele será capitalista.

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Embora difícil de se conseguir o material para leitura, é certo que Ditko utilizou essas idéias em O Questão, tornando-o o repórter investigativo que sempre procurava respostas buscando intensamente a verdade através de observação, investigação e lógica. Possuidor de uma ética firme e moral inabalável era por vezes implacável com os criminosos a quem não desculpava por fazerem mau uso do livre-arbítrio. Era um combatente incansável da corrupção. Claro que estamos falando de histórias escritas numa época mais inocente dos quadrinhos mas o Questão ainda assim era um personagem deveras duro e por demais monocromático… Suas atitudes e motivações não tinham nada de dúbias. Com Vic Sage era branco ou preto, não existia tons de cinza.

O Questão poderia ter sido muito maior do que foi naqueles tempos, mas sabe-se lá o motivo. Alguma coisa levou Steve Ditko a criar o Mister A, uma espécie de Questão inteiramente voltado a execução de sua tentativa de disseminar o Objetivismo. Isso esvaziou sua personagem Questão que só viria a ser novamente importante após a compra dos personagens da Action Heroes Line pela DC Comics.

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No próximo artigo: O Questão vai para a DC Comics. A reformulação e novos conceitos filosóficos.

S_Final

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29 comentários sobre “O QUESTÃO: STEVE DITKO E O OBJETIVISMO.

    1. Acho que o Ditko radicalizou demais e meio que enterrou a carreira. Culpo muito o objetivismo pelo seu ostracismo. Acho que isso dá pauta para algum texto.

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  1. Ótima resenha, acompanho o questão desde a série os caçadores (quem lembra???), puta personagem, até na animação da dc liga sem limites ele ficou bem, e esse cosplay???perfeito pena que ja tenho a minha de black adam senão roubava mesmo a idéia…

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    1. De fato a versão de O’Neil é a mais bem lembrado por todos os fãs do Questão. Tbm a adoro. Brevemente vou escrever sobre esta fase e tbm sobre a sofrível fase posterior a de O’Neil.

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    1. Obrigado! Quem sabe essa série de textos que preparo sobre o Questão não pague minha “dívida” com vcs que leem meus textos… este ano está difícil manter o ritmo e a regularidade.

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    1. Obrigado Guy! Gosto muito do Questão ( na verdade sou fã). Mas sou fã apenas do Vic. nunca gostei da Montoya trajando o manto. Falarei disto futuramente.

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  2. É uma pena que o reboot desvirtuou a origem deste personagem (que era tinha uma temática mais voltada aos heróis da década de 30, 40, mesmo sendo criado nos anos 60). O fato dele ter ar sombrio e de mistério, sempre fez o povo imaginar que ele tivesse mais a ver com o universo Vertigo. pois, Wesley Doods, o Sandman original tem um universo muito parecido com o do Questão, e se encaixou perfeitamente lá. Esse personagem teve muito destaque aqui no Brasil naquela série da Abril “Os Caçadores” (http://3.bp.blogspot.com/-w0BXo43-z0A/UGmtqcBPXXI/AAAAAAAAAOs/tXSw11ErEKE/s1600/001.jpg) e com certeza o Carlos vai falar sobre isso nas próximas intervenções. Se ele não perder a essência com certeza será mais uma opção interessante com os outros personagens místicos.
    Esse lance do Objetivismo, eu sinceramente não conhecia. Acredito que muitos dos que incluíram os conceitos de Administrção devem ser adeptos também (por exemplo, os conceitos de Fayol, tem muito do pensamento Objetivista).
    Estou totalmente preparado prá rever essa fase dos anos 90, um pouquinho do que apareceu depois da Crise e poder conhecer a sua atuação em 52 (que foi a época em que parei de ler).
    Valeu demais Carlos.

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    1. Oi, Nilson! Rapaz confesso que o rebooth do Questão me deixou desconsertado e sem posição fixa quanto ao que fizeram… bem, ao menos o trouxeram de volta. Torço para que esta versão vingue. Mas estarei a postos para desancar o negócio se não prestar. Hahahaha!

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    1. Obrigado por ler e gostar do texto. Venho trabalhando nesta série há tempos e espero que fique a altura do bom gosto dos leitores. Abraço!

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  3. Cara, curti muito a matéria e o tema.
    Eu sou de certa forma um Objetivista e não sabia…
    Vic Sage é um dos meus personagens preferidos, sou um dos que defende os Novos 52 (secretamente tenho minha própria agenda em relação a isso, mas não vem ao caso), no entanto o fato do Questão ser agora um herói místico, matou e desrespeitou muito a memória de Steve Ditko, um cara que pra mim só é precedido por Kirby.

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    1. Sim, é verdade. Jogaram todo o background do personagem fora. Pusta calhordagem da DC… mas sei lá: “vai que cola”?!

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    1. Não fiz uma crítica ao objetivismo e não acho que vem ao caso, mas foi devido aos seus preceitos que o Ditko caio neste ostracismo e isso definitivamente não foi legal nem pra ele , nem pra nós. Me parece que ele é meio “xiita” demais ( todo xiita é demais).

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    1. Questão é um personagem riquissimo se bem usado. A DC errou em escantea-lo. Ele deveria ter migrado pra selos mais adultos como Vertigo e lá tenho certeza teria feito muito sucesso.

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  4. EDITORIAL SANTUÁRIO :

    Segunda – Os Campeões Parte IV

    Terça – Novíssimos X-men #9

    Quarta – O Questão – Steve Ditko e o Objetivismo

    Quinta – Os personagens Marvel mais esquisitos

    Sexta – Liga da Justiça Dark # 11

    Sábado – Umas Tirinhas da Pesada!

    Domingo – O Quarto Mundo de Jack Kirby!
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