Miracleman / Marvelman de Alan Moore: Livro I – Um sonho de Voar!

_0010_Setimo Ceu

Img de CapaUma análise reversa de Miracleman – Livro I: Um sonho de Voar, de Alan Moore (roteiro), Garry Leach e Alan Davis (arte). (Incluindo história adicional de Mick Anglo)

Por Rodrigo Garrit

Contém spoilers revelações essenciais sobre a história. Leia por sua conta e risco.

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Quando deuses declaram guerra…

Havia o Capitão Marvel e o trovão de Shazam. E vendas fenomenais de gibis. Quando a publicação do Capitão foi suspensa na Inglaterra, foi preciso que surgisse um novo herói que atendesse a demanda. Assim nasceu Marvelman. Quando o sucesso do personagem fez com que ele precisasse ser publicado também nos EUA, foi preciso que seu nome fosse alterado para Miracleman, pois a Marvel Comics reivindicou direitos sobre a palavra mágica, que é “MARVEL”. Disputas jurídicas. Batalhas nos tribunais. Anos de contenda, até que se chegasse ao atual estágio: a Marvel Comics detém os direitos do personagem. Para saber mais detalhes sobre a trajetória dele até esse ponto, grite SHAZAM e clique AQUI. (Gritar Shazam não é realmente necessário… mas seria legal).

Embora atualmente ele tenha recuperado sua alcunha de Marvelman, este artigo e os próximos se referirão a ele como Miracleman, conforme lançado pela Eclipse, distinguindo assim os momentos em que o personagem é publicado.

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Da escuridão, ele está chegando. Alan Moore. Para desconstruir mais um personagem e torná-lo magnífico. Não que sua versão anterior não pudesse ser apreciada, dentro do contexto na qual fora produzida, mas Moore o levou para outro nível. Tendo sido um dos seus primeiros trabalhos, vemos ali um ensaio do que ele faria em grande escala com o Monstro do Pântano, Watchmen e até mesmo com o próprio Superman e sua paródia, o Supremo de Rob Liefeld. Mas isso são outras histórias.

Miracleman – Livro I: Um sonho de Voar  trata-se de uma HQ de altíssima qualidade, fascinante do começo ao fim, feita por alguns dos melhores profissionais do ramo… uma pérola perdida em meio a batalhas por direitos autorais, que deveria ser apreciada por todos os fãs da nona arte.

Sem mais delongas… relembrem ou conheçam Miracleman!

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Apenas um personagem de quadrinhos.

O super humano experimental conhecido como Big Ben é colocado numa camisa de força e levado pelos cientistas que o criaram, embora sua mente avariada não lhe dê a oportunidade de oferecer resistência. BIG BEN, o herói que não dá chance ao crime, vive numa realidade à parte, implantada pelos cientistas do projeto Zarathustra depois de anos de estudo com suas cobaias originais. Big Ben foi apenas um arremedo imperfeito, nada parecido com o sucesso de quinze anos antes quando os três espécimes do sexo masculino sem vínculos familiares foram selecionados para ser usados na experiência de assimilação com o “visitante” recolhido pelo governo britânico. Mike Moran, Dicky Dauntles e Johnny Bates foram submetidos ao processo de replicação celular, algo semelhante a clonagem, que consiste em recriar seu corpo de forma aprimorada e reserva-lo no Infra-Espaço enquanto sua versão humana e desprovida de poderes pode usufruir do disfarce perfeito, bastando usar um comando hipnótico, uma palavra-gatilho que aciona uma programação mental que lhes permite trocar de lugar com o corpo aprimorado, ao mesmo tempo que sua consciência é transferida para ele, mas ao estar nele receber também uma dose de sua divindade industrializada… uma tecnologia extraída do mesmo visitante anteriormente mencionado.

Imagine a frustração de Miracleman ao despertar um mundo em que o mal já venceu… muito embora as tonalidades estejam ficando borradas como tinta fresca numa tempestade, de modo que ele mesmo já não é capaz de distinguir o quanto dele mesmo é escuridão…

Imagine sua frustração ao descobrir o motivo de ninguém se lembrar do seu passado heroico… o que seria impossível uma vez que nada daquilo aconteceu de verdade, foram memórias implantadas, programações e testes mentais dos cientistas, preparando suas cobaias para ser as armas de destruição em massa do governo britânico. O que a “Família Miraclemen” acreditava terem sido dias pueris de aventuras, nada mais foram do que “simulações de voo” projetadas diretamente nos seus cérebros… uma realidade onde o bem sempre vencia o mal, onde tudo era branco no preto, sem contrastes, sem meios termos ou distorções de caráter… havia os heróis… e havia os vilões… entre eles, e talvez o pior deles, o cientista louco conhecido Emil Gargunza…

Mas existia um Gargunza de fato. Ele é o responsável pelo Projeto Zarathustra. Não o vilão ridículo que sempre era derrotado. Na verdade, ele sempre esteve no controle.

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Pouco antes de Miracleman ter espancado o Big Ben – que por sinal acreditava com cada fibra de seu ser que o herói se tratava de um espião russo – ele ainda tinha as lembranças vívidas das revelações feitas pelo agente Evelyn Cream, assassino de dentes de safira que foi contratado para matá-lo após seu recente retorno depois de anos de inatividade. O agente Cream sequestrou Mike Moran em sua forma humana, mas em vez de matá-lo lhe ofereceu uma barganha. Ele trairia seus empregadores, mas eles investigariam juntos os segredos do Projeto Zarathustra. E a verdadeira origem do Miracleman seria revelada.

Fazia pouquíssimo tempo que ele relembrara sua “palavra mágica”, e menos ainda em que estava duelando pelos céus com seu antigo parceiro, Kid Miracleman… o jovem Johnny Bates, que era apenas um garoto, mas ao dizer o nome de seu ídolo recebia todos os poderes do herói. Anos atrás, após o detonação da bomba atômica que matou Young Miracleman e deixou o próprio Miracleman amnésico, Bates sobreviveu realizando um verdadeiro milagre, tendo conseguido forças para voar longe o bastante do maior impacto da explosão. Mas ele se viu sozinho, uma criança com os poderes de um deus. E ninguém que pudesse lhe dizer o que fazer. Ele não reverteu mais à forma humana, e usou seus talentos e inteligência ampliada para fundar uma empresa multimilionária, optando por esconder seus poderes do mundo, usufruindo em segredo de todas as vantagens de ser invencível. Claro que sua mente não saiu ilesa, e o retorno do herói acendeu nele a motivação necessária para finalmente vir a público e colocar o mundo a seus pés… segundo sua própria visão, ele governaria de forma justa e traria prosperidade… teria êxito onde Adolf Hitler falhara… só era preciso corrigir um detalhe: matar Miracleman.

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Depois de anos fazendo uso do poder, Bates tornou-se habilidoso e deixou claro para o recém chegado que depois de anos de amnésia e vida mundana, ele não teria nenhuma chance de derrotá-lo.  O que se mostrou correto, porém em um momento de extrema arrogância e megalomania, Bates referiu-se a si mesmo como “Kid Miracleman”… e ao pronunciar essa última palavra voltou a ter treze anos de idade. E nenhum superpoder.

O fato é que a transformação transmite a consciência do corpo original para o aprimorado, mas após anos sendo apenas a versão obscura de Kid Miracleman, era como se este tivesse adquirido consciência própria, sendo uma persona maligna dele. O próprio Mike Moran admitiu que ao se “transformar”, continua sendo ele mesmo… porém muito mais esperto,  inteligente, com raciocínio centenas de vezes mais ágil e capaz de conceber ideias que nunca teria em sua forma humana.

O jovem Johnny Bates não compartilha da mentalidade diabólica de sua contraparte, e está assustado demais para dizer a palavra novamente…

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Não mais assustado do que o próprio Mike Moran… um repórter freelancer quarentão, casado e vivendo uma desgastante e monótona existência… atormentado por pesadelos onde, apesar de ser capaz de voar, enfrenta uma terrível criatura junto de dois outros que não reconhece, e no sonho todos morrem queimados. Um sonho recorrente que só faz atrapalhar ainda mais a difícil rotina de Moran, sem dinheiro e implorando por qualquer trabalho que apareça. Um desses trabalhos foi cobrir uma passeata contra o uso de energia nuclear que acaba sendo palco de um atentado terrorista no qual Mike e diversas outras pessoas são feitas reféns… ainda com as imagens do sonho assombrando sua mente e acometido de uma forte dor de cabeça, ele sabe que existe uma palavra que ao ser pronunciada pode mudar tudo… mas ele não lembra, faz anos que ele tenta, mas ela simplesmente desapareceu de suas lembranças… até que ele vê o reflexo da palavra “atomic” ao contrário em meio ao caos do sequestro… e então, ele simplesmente se lembra.

“KIMOTA”

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O clarão de um relâmpago surge, trazendo de volta as lembranças, a esperança…e o poder. Ele dá cabo dos terroristas. E volta para sua esposa, para quem precisa contar o incrível acontecimento. Ela obviamente acha que ele enlouqueceu, mas as provas diante de seus olhos são indiscutíveis. Então ele conta… como foi abordado por um astrofísico extremamente evoluído chamado Guntag Burghelm, que o escolheu para ser o divisor de águas para uma nova era, lhe oferecendo o que ele chamou de “Chave Harmônica do Universo”… uma simples palavra, capaz de realizar maravilhas. Ou milagres.

Ele conta como viveu grandes aventuras ao lado da “Família Miracleman”, e sobre como juntos eles enfrentaram vilões e salvaram o mundo de ameaças alienígenas e viajantes do tempo… sem falar no terrível cientista Emil Gargunza, um verdadeiro gênio do mal… embora concordasse com ela sobre o fato de que ninguém se lembra desses fatos… e que não existe nenhum registro de que tenha existido  um super herói chamado “Miracleman”… embora ele acreditasse ferrenhamente no que dizia, eram histórias ninguém nunca havia tido notícias…

…pois eram simulações projetas em sua mente, uma realidade lúdica, onde ele era retratado não mais como um altivo… personagem de quadrinhos. Nunca existiu Guntag Burghelm ou uma “Chave Harmônica do Universo”, apenas experimentos científicos envolvendo visitantes de fora da Terra… um mistério que seria desfeito somente depois de sua verdadeira origem ser descoberta no laboratório secreto do Projeto Zarathustra.

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É o fim definitivo da inocência. Sua vida foi toda moldada em mentiras e agora ele está à solta em um mundo que não está preparado para um deus que caminha entre os homens. O que o futuro reserva para ele, sua esposa e para a criança que ela carrega em seu ventre?

Uma criança cujo pai não é Mike Moran.

Uma criança cujo pai é o Miracleman.

“Vede;

Eu anuncio-vos o super-homem:

É ele esse raio!

É ele esse delírio!”

Friedrich Wilhelm Nietzche. Assim falou Zarathustra”.

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Na próxima semana, a análise do Livro II de Miracleman de Alan Moore.

Não percam!

MIRACLEMAN PRIMER I
Arte de Joe Quesada.

E NESSA SEMANA COMEÇAM… AS INVASÕES ALIENÍGENAS !!!

Aliens-02

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21 comentários sobre “Miracleman / Marvelman de Alan Moore: Livro I – Um sonho de Voar!

  1. Nunca é demais falar, olhar, comentar, dissecar esse clássico (ESSE SIM!!!!) dos novos tempos!!!! Olha só essa primeira imagem. Aque ela nos remte??? É claro à Batcaverna! E essa é apenas uma das centenas de homenagens e referências que a gente encontra em toda a obra do Moore com esse personagem (será que algum dia ele volta aqui???? Contar e mostrar as histórias que a gente quer ouvir (e ler também!!!)!!!!.
    Tenho certeza que esta será a melhor sequência de homenagens a este personagem que sinceramente, eu não gostaria que voltasse, pois nunca mais será escrito ou desenhado com tanto amor e afinco.
    Certeza que a sua volta é só mais um caça níquel sem vergonha da indústria de quadrinhos que só pensa em faturar 1 milhão por dia com as cabeças pensantes mais toscas da história e que não fazem jus aos criadores e patriarcas que estabeleceram um modelo que tanto nos fascinou durante anos.

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  2. Esse é um dos maiores clássicos. Pena que ele foi uma fraude jurídica. Pois a editora que lançou esse material, enganou os artistas pois ela nunca teve os direitos. Literalmente é um fanfic de luxo. Miracleman pra mim é um divisor de águas. É sem dúvidas o proto-watchmen.
    Só não gostei do que o Gaiman fez depois.
    Aguardando a resenha do livro II.

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    1. Você está correto em tudo que disse… a única coisa boa foi a produção da história em si, que realmente foi um divisor de águas…

      A fase de Gaiman teve o infortúnio de ficar inacabada, então é mais dificil de julgar, mas quem sabe ainda não seja concluída agora que ele está amiguinho da Marvel?

      Semana que vem teremos a resenha do livro II, ainda por Alan Moore!

      Abs!

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      1. É nisso tem razão Don Garret. Talvez a reação do Young Miracleman, com um mundo completamente mudado pelo Miracleman pudesse melhorar aquela fase, mas vai saber. Acho que o Miracleman na marvel, é uma coisa arriscada demais.
        o IVDM nas alturas

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        1. De qualquer forma fica difícil pensar em alguém além do próprio Alan Moore para dar continuidade a essas histórias… Neil Gaiman é a escolha mais lógica, mas ele não costuma ficar preso a um titulo mensal há anos… quem poderia ocupar essa vaga?

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  3. O velho mago Alan Moore e suas desconstruções magníficas…. obras que vão além do simples entretenimento ou de mensagens superficiais pautadas em um mundo bicolor, onde existe o bem, representado por equipes superpoderosas (LJA e Vingadores) com a missão de levar a “paz mundial”, “UMA verdade”, “UMA justiça” e o estilo de vida americano ao mundo todo (e a toda a galáxia);
    e o mal, geralmente uma versão do “inimigo da vez” dos EUA e seus aliados no Ocidente (nazistas, comunistas russos ou chineses, e agora terroristas/ SEMPRE com turbantes) – que o diga o pobre Mandarim/Bin Laden em uma recente produção da sétima arte (tsc).

    Alan Moore desconstrói esta dualidade superficial, pseudo-ideológica e burra. Ele mostra outras tonalidades. Caminha pelo Existencialismo, a Fenomenologia e tantos outros lugares conceituais filosóficos e históricos.

    Quando li Marvelman/Miracleman pela primeira vez confesso que me emocionei. Em minha juventude, descobri (na época) que eu ainda estava “presa na caverna”, mesmo achando o contrário. Era preciso buscar mais conhecimento, ler mais, compreender….
    Ainda estou (não estamos todos???) buscando a saída da tal caverna, mas posso dizer que o “louco” Alan Moore contribuiu (mesmo que um pouco) para que eu avançasse alguns passos para longe daquele mundo de sombras…..

    Pois é, Rodrigo… suas resenhas nos inspiram… dá nisso…. mais loucos…

    ótimo texto sobre um incrível personagem (meu cofrinho aguarda ansioso o dia em que teremos um encadernado de luxo lançado por aqui. É compra na certa…)
    valeu!!!

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    1. Lucy, o próprio Moore já declarou que não importa o quanto uma história pareça absurda; ela deve ser escrita como se tivesse acontecido de verdade. E é isso que ele coloca em prática em suas obras, talvez uma pequena parte do segredo do seu sucesso seja esse… o talento que ele tem em nos fazer acreditar, mas não só isso, também nos levar a lugares que sempre estiveram lá, mas não víamos… a luz do lado de fora da caverna!
      Não existe lugar mais terrível e mais belo para se viver do que no mundo real, e é usando esse espelho que Moore escreve suas histórias. É triste ver alguns autores que já escrevem uma história em quadrinhos como se fosse uma história em quadrinhos… se algum deles estiver lendo isso, por favor, escute o meu pedido: não faça isso.

      Te agradeço pelo comentário, concordo contigo em tudo… e também estou esperando por esse encadernado de luxo! 😉

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