Miracleman / Marvelman de Alan Moore: Livro III – OLYMPUS

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22Uma análise de Miracleman – Livro III: Olympus, de Alan Moore (roteiro), e John Totleben (arte).

Por Rodrigo Garrit

Contém spoilers revelações sobre a história.

Leia também a análise do LIVRO I e o do LIVRO II.

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Essa é a história de um herói que mudou o mundo.

Uma mudança que foi além de tirar gatos de cima de árvores…  ou prender assaltantes de banco. Trata-se de uma mudança radical nos conceitos da sociedade, sua economia, tecnologia, política … e suas crenças.

O Miracleman de Alan Moore é o Ubermensch de Nietzsche encarnado… o ideal de perfeição física e espiritual, não moldado do barro divino, mas sendo ele mesmo um deus inspirando e elevando a humanidade a um patamar superior nunca antes sonhado nem mesmo pelo mais ousado transgressor.

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Miracleman em seu Santuário…

E o personagem poderia ter ficado lá, com seu sucesso e seus fãs, e talvez algumas reimpressões do material clássico, e até mesmo uma nova interpretação por outros autores. Mas Alan Moore veio, e foi além. Ele veio ousar. Ele veio transgredir.

O primeiro livro é usado para transpor o personagem pueril criado por Mick Anglo, Marvelman, o sócia do Capitão Marvel da Era de Ouro para um mundo quase tão real quanto o nosso, onde em nenhum momento o passado de aventuras infantis é negado, apenas realocado em um novo contexto ao ser criado o conceito das memórias artificiais do Projeto Zarathustra, muito embora Alan Moore saiba e deixe claro que nada é irredutível ou imutável, tampouco a realidade. É possível que a continuidade criada por ele seja a fantasia, e as histórias simples e ingênuas de Anglo sejam a realidade. Quem pode dizer?

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No segundo livro, temos o despertar do herói que reside dentro do homem, e Moore deixa bem clara a distinção entre eles ao propor a ideia da troca de corpos no momento da transformação. Mike Moran é falho, às vezes pessimista, outras otimista… humano. Alguém que leva sua vida da melhor forma que pode, trabalha para ganhar seu sustento, não se importa muito com o plano geral à sua volta, tem problemas de baixa alto estima, tenta se manter longe de conflitos e procura apenas seguir com sua vida. Mike Moran somos todos nós, acordando cedo para trabalhar ou estudar, preocupados com as contas, com os relacionamentos, sempre em busca de afeto, em busca de aceitação. Miracleman, por outro lado, está acima desses conceitos mundanos, ele sabe que é perfeito e tudo o que lhe resta é tentar consertar esse mundo torto e falho em que existimos. Mas isso não quer dizer que ele seja o bom samaritano disposto a dar a outra face. Se no livro anterior, ainda reconhecíamos nele um herói com valores antiquados com pequenos dilemas morais, nesse livro vemos que ele não mede esforços para tornar o mundo um lugar melhor. Isso é o que lhe diferencia dos personagens habituais da Marvel e DC. Miracleman mata seus opositores sem remorso. E às vezes, alguns inocentes morrem acidentalmente no processo. Afinal, são apenas humanos. Em sua mente, o bem maior vale muito mais do que algumas maçãs podres no cesto.

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Super sexo nos céus…

O terceiro livro é aquele que muda tudo. É quando a mente de Miracleman está completamente definida. O tempo das transições ficou para trás. Sua humanidade ficou para trás. Mas isso não faz dele um ser frio, cruel ou insensível. Ele é simplesmente algo além da humanidade e ao contrário da forma como isso é quase sempre retratado, não quer dizer necessariamente que seja uma coisa ruim. Ele é superior, um deus entre os homens. E ainda assim, é benevolente. Ele tem seu próprio panteão de deuses, seu próprio Olimpo… está tão distante dos humanos quanto os humanos estão das vacas… Mas ainda assim, ele se importa. Ainda assim, ele quer fazer um mundo melhor.

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Ei-la: Miraclewoman!

Em determinado momento, Miracleman entra em contato com a raça alienígena dos Warpsmith, que são a origem do experimento que proporcionou sua transformação. Ele embarca com eles numa viagem psicodélica por mundos distantes onde aprende mais sobre a sua verdadeira natureza e sobre sua influencia e seu dever para com o mundo, acompanhado da recém descoberta Miraclewoman, com quem unirá forças contra seu pior pesadelo, Johnny Bates, cuja versão adulta e maligna assombrava a mente de seu alter ego mais jovem que se recusava a dizer a palavra mágica e libertá-lo. Mas através de constante manipulação, o garoto foi colocado em contato com outros meninos que frequentemente o espancavam, e Johnny suportou o quanto pôde até o dia em que foi estuprado por um grupo de garotos mais velhos… sem outra alternativa, ele permitiu que o gênio ruim saísse da garrafa… e as consequências não poderiam ser mais devastadoras. Cerca de quarenta mil mortos em Londres, das formas mais cruéis e sádicas já imaginadas pelo homem, criando um cenário digno da “Divina Comédia” de Dante Alighieri.  Tudo ocorreu nas poucas horas em que Miracleman e Miraclewoman estavam fora do planeta, e entraram em desespero ao encontrar a devastação criada por Bates. A batalha deles foi uma das mais sangrentas e épicas já presenciadas por este resenhista, e muito dura para os protagonistas, mesmo com o auxilio dos Warpsmiths. Seu desfecho foi surpreendente em vários níveis, mas reafirmou o caminho traçado por Moore para o personagem.

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O pano de fundo usado na última história do livro é algo de cunho tão inspirador que me faz pensar no quão certo ele cumpriu seu papel como escritor. Não são as ideias geniais em si, apesar de serem engrenagens essenciais nesse grande e complexo relógio montado por Moore, mas o fato dele não ter medo de expor suas ideias. E ousar, e levar essa ousadia até as últimas consequências. Todos deveriam ler algo assim na vida. Se não for pelas palavras de Alan Moore, que sejam pelas de outro autor, não importa. Mas todos deveriam passar por essa experiência de saber que é possível avançar muito mais do que imaginamos. A mente humana não pode ser contida por fronteiras de nenhuma espécie.

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“Olympus”, o terceiro livro de Alan Moore para o Miracleman é uma obra literária, embora não seja reconhecida como tal. É uma história em quadrinhos de super herói, mas diferente de praticamente tudo que é feito nesse segmento. É uma expressão clara do pensamento de Moore, sua visão de um futuro moldado pelo Ubermensch citado no livro “Assim falou Zarathustra” de Nietzsche e o impacto que esse fato teria ao redor do mundo. O mais importante na história de Moore não é a discussão sobre a obra ser considerada um clássico da literatura ou um folhetim marginal. Ou um roteiro de cinema, ou peça de teatro, ou poesia, ou música, ou pintura numa caverna. O importante sobre esse livro, é que ele é uma obra de arte, e embora os catedráticos mais tradicionalistas tenham todos os argumentos consistentes para afirmar o contrário, é preciso pensar que em certos momentos extraordinários, a arte se manifesta das formas mais diversas, ainda que não imediatamente reconhecida, ou reconhecida apenas por um determinado grupo. As vezes é na publicação de um volume com capa de couro, outras na pichação de um muro. A arte reside no sentimento daqueles que se deparam com ela, cada um com sua própria experiência de vida, seus medos e anseios, seus prazeres e suas dores.

A mente humana não pode ser contida por fronteiras de nenhuma espécie.

Chris Weston
Arte de Chris Weston.

S_Final

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EDITORIAL SANTUÁRIO:

Segunda – Afinal, quem criou o Homem Aranha ???

Terça – Fabulosos X-men #6

Quarta – GODZILLA!!!

Quinta – As 10 ruivas mais maravilhosas dos Quadrinhos!

Sexta  –  Liga da Justiça Dark # 12

Sábado – Umas tiras da pesada!

Domingo –  Doctor Who?

TARDIS

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25 comentários sobre “Miracleman / Marvelman de Alan Moore: Livro III – OLYMPUS

  1. Uma coisa só espero de coração. Que a continuidade das histórias de Miracleman e todo seu universo não fique com o Bendis. Ele não é digno nem de ler um material desses quem dirá rascunhar alguma coisa.

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    1. O grande detalhe é que a continuidade do Miracleman de Alan Moore não pode ser usada no universo Marvel tradicional, uma vez que ele alterou profundamente as estruturas do planeta em nível humano e subatômico… ele teria que ser um visitante de outra Terra, outra realidade, ou algum assim, mas pessoalmente acho que seria um tiro no pé. O mais provável que o novo roteirista reinicie o personagem dentro dos parâmetros deixados por Moore mas em um contexto onde ele possa coexistir com o resto dos heróis Marvel, como foi feito com a personagem Ângela, criada originalmente por Neil Gaiman para o universo de histórias do Spawn de Todd McFarlane.

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  2. Belíssimo texto Rodrigo. Para mim foi um prazer descobrir este espaço onde podemos encontrar textos produzidos por pessoas maduras e com argumentos bem fundamentados.
    Há muitos sites voltados à nona arte, mas são raros os que não se resumem a delírios de fanboys.
    O mesmo posso dizer dos comentários. Leio todos com prazer. Percebo que mesmo os mais jovens contribuem para o bom debate.

    Sobre a obra resenhada…. bem… Apesar de o Dr. Manhattan ser mais conhecido (afinal, Watchmen é considerada a grande obra de Moore), Miracleman, a meu ver, nos possibilita ampliar nossa mente a níveis mais complexos, desconstruindo e reconstruindo aquilo que imaginávamos ser ou existir….
    Vida, morte… certo, errado… existir, não existir….
    Putz… bateu vontade de reler Miracleman….
    Culpa sua!!!

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  3. ótima resenha!

    E essa frase fez meu dia:

    “A mente humana não pode ser contida por fronteiras de nenhuma espécie.”

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    1. Embora eu tenha pirado com a arte de Gary Leach e achado o traço “primitivo” de Alan Davis satisfatório, não tem como negar que John Totleben está em perfeita sintonia com o mundo utópico imaginado por Moore… seus desenhos são um espetáculo a parte.

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  4. Moore sempre seduz com suas propostas e idéias, diferenciadas no meu ponto de vista ele é um dos grandes gênios conteporâneos, junto com J.J. Abrans, Lovecraft, Gaiman, e alguns outros poucos, sempre aparece com algo que revoluciona nosso modo de ver os quadrinhos, ótima matéria amigo, certeza que vou adquirir ela…

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  5. CARA, ESSE ARTIGO FICOU FODA. A GENTE SEMPRE ACHA QUE SE TIVER ALGUM PODER VAI SAIR POR AÍ ALOPRANDO… QUEM VAI SER SER SUPER HEROI DE VERDADE, FALA SÉRIO! MAS O ALAM MOORE JÁ MOSTROU ISSO NO WATCHMEN, COM O DOUTOR MANHATTAN QUE ERA TODO PODEROSO A APESAR DE QUE ERA UM FROUXO NÃO FAZIA MAL PRA NINGUEM. JÁ COM MARVELMAN ELE FEZ ISSO DE OUTRO JEITO, O CARA PODIA TER SURTADO IGUAL AO PARCEIRO DELE, MAS TENTOU AJUDAR… DO JEITO DELE, MAS ENFIM, ACHEI MUITA FODA MESMO ESSA HISTÓRIA QUERO PEGAR PRA LER COM CALMA!!

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    1. Essa história ficou circulando de forma irregular durante muitos anos devido aos problemas jurídicos e as pendências sobre a questão dos direitos autorais e as acusações de plágio, enfim, é uma longa história, mas desde 2009 a Marvel Comics adquiriu os direitos do personagem e é provável que eles republiquem a fase clássica de Mick Anglo, e também o material produzido por Alan Moore e Neil Gaiman pela editora Eclipse. Depois disso, só podemos esperar que que eles publiquem uma nova série com histórias inéditas do personagem… mas quem estaria a altura de continuar e manter a qualidade? Alan Moore é praticamente uma escolha impossível… já Neil Gaiman tem tudo para fazer isso, inclusive terminando seu arco de histórias que acabou ficando inacabado, porém, eu não acho que ele possa ficar muito tempo no título, uma vez que se dedica a muitos outros projetos autorais ao mesmo tempo…. então, fica a dúvida: Quem poderia escrever as novas histórias do Marvelman? Alguém tem um palpite?

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