RESENHA: “Mistérios Divinos”.

bloodResenha de “Mistérios Divinos”, adaptação em quadrinhos de um conto de Neil Gaiman, pelo artista P. Craig Russel.

Por Rodrigo Garrit

Contém spoilers revelações sobre a história.

S_Final

DarkHorse

Um inglês relembra de forma alquebrada sua passagem pela cidade de Los Angeles durante sua juventude, onde reencontrou uma antiga namorada. E escondido dentro de suas lembranças, o casual encontro com um senhor que lhe contou uma história surpreendente sobre um curioso assassinato , o primeiro da existência, e como o desfecho dele definiu em um efeito dominó os parâmetros do que viria a ser um dia, toda a Criação. Crime, punição e absolvição engendrados em uma rede de eventos interligados que começaram antes da vida humana na Terra, e cujo padrão se repete até hoje.

O quanto achamos que entendemos de justiça divina?

Mesmo tratando-se de uma visão bem pessoal dos conceitos bíblicos a respeito de anjos e a criação do universo, o texto de Neil Gaiman é extremamente humano e busca o tempo todo criar vínculos com o leitor, o que torna a leitura ainda mais interessante. Ele usa algumas técnicas no decorrer da história, que sabe que funcionam para prender nossa atenção, mas independente de sua perícia com as palavras, ele já tinha conseguido o que queria antes de pensar usá-las, porque o conto é muito bom, muito bem construído, com pequenos momentos simplesmente arrebatadores. O tema “Céu e inferno” sempre rende debates instigantes, e Gaiman tem certa experiência com eles. Sua versão de “Lúcifer” para a série “Sandman” da Vertigo, é prova disso. Não bastasse o quanto o anjo caído já é icônico, ele nos apresentou uma personagem tão cativante que acabou por ganhar uma série própria dentro da linha adulta da DC. Lúcifer é mostrado no conto “Mistérios Divinos”, e embora essa história tenha sido publicada pela Dark Horse, poderia perfeitamente encaixar-se no passado do Lúcifer que conhecemos nas páginas de Sandman. Na verdade, eu gosto de imaginar que sim. Creio que Gaiman também.

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A trama nos mostra a investigação do anjo da vingança recém-desperto, (já que nunca antes houve motivo para vinganças) em busca do responsável pelo assassinato de um anjo, algo inédito até então para os moradores da “Cidade de Prata”. O universo ainda não existe, mas está sendo construído, e os anjos seguem um grande esquema para fabricar tudo o que virá. Incluindo as emoções e alguns conceitos como arrependimento, amor e morte.

– Carasel não se suicidou.

– Como sabe disso?

– Eu sou a vingança. Se Carasel tivesse morrido pelas próprias mãos, não teriam me convocado… não é mesmo?

Nada existe além da Cidade de Prata… apenas as trevas por onde um magnífico anjo chamado Lúcifer, costuma caminhar para vislumbrar ao longe a beleza majestosa da cidade, em sua completude. Mas ultimamente ele tem passado tempo demais nas trevas, onde vozes desconhecidas sussurram palavras vorazes em seus ouvidos…

A investigação do assassinato dá um toque detetivesco à história, onde junto com o anjo da vingança, tentamos juntar as peças do quebra-cabeças e descobrir o assassino. Mas mais importante que isso: seu verdadeiro motivo.

“Talvez Saraquael tenha sido o primeiro a amar, mas Lúcifer foi o primeiro a verter lágrimas. Nunca me esquecerei disso”.

Os fatos são narrados nos dias atuais por um senhor desconhecido ao homem inglês em pleno banco de praça numa noite iluminada de Los Angeles, e correm em paralelo aos eventos acontecendo com esse homem, dando-nos algo com o que pensar ao final da última página.

P. Craig Russel, que não por acaso já havia trabalhado com Gaiman em Sandman, retorna a essa parceria bem sucedida. Ele teve a difícil missão de traduzir em imagens a narrativa do conto de Gaiman e eu diria que foi muito feliz em sua interpretação. Existem algumas sutilezas que não seriam fáceis de reproduzir por outra pessoa que já não estivesse tão imersa na mente onírica de Neil Gaiman, e que compartilha de suas viagens através do reino dos sonhos e além.

Mistérios Divinos foi publicado no Brasil pela Devir, em um encadernado de capa dura com 64 páginas. Uma ótima HQ, para ler em uma noite fria, deitado na cama antes de dormir… talvez seja possível visitar esse mundo em sonhos… e com alguma sorte, esquecer de tudo no dia seguinte.

S_Final

EDITORIAL SANTUÁRIO:

Segunda – Astro City #1

Terça – Novíssimos X-men #12

Quarta – O Questão

Quinta – Heróis & Casamentos

Sexta – Eu, o Vampiro #12

Sábado – Umas tiras da pesada

Domingo – O Reino dos Malditos!

TARDIS

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28 comentários sobre “RESENHA: “Mistérios Divinos”.

  1. Oii pessoa. Este post foi minha salvação…rs
    Faz tempo que conheço Sandman, Mas só agora decidi ler mais trabalhos do
    Gaiman nos quadrinhos. Só que… Em mistérios divinos algumas coisas não ficaram tão claras para mim, como o assassinato da namorada e filha do inglês. Você saberia me dizer qual é ligação do anjo e do rapaz? Ele matou a mulher e a filha e o anjo estava lá para puni-lo e desistiu?
    Você tem canal?
    Abraços!

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    1. Wagner, Sandman é quase uma unanimidade mesmo… Neil Gaiman ganhou na loteria quando recebeu esse personagem para escrever, embora, é claro o mérito seja todo do talento dele; o que o acompanha em todos os seus trabalhos. Também sempre tenho vontade de reler Sandman… hehe..
      Abraços!

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    1. Caio, eu confesso que só descobri a literatura de Gaiman através de seu trabalho em quadrinhos, mas desde então tenho me tornado um fã dele também nesta outra linguagem artística. Eu particularmente não sou fã da celebrada obra “Coraline” (que até se tornou um filme de animação), mas outros trabalhos dele como “Deuses Americanos” e “Belas Maldições” (co-escrito pelo maravilhoso Terry Pratchett autor da série “Discworld) são leituras agradabilíssimas na minha opinião. Mais recentemente me surpreendi positivamente com o seu “O Livro do Cemitério”, cuja resenha escrevi para o Santuário:https://osantuario.com/2012/09/23/o-livro-do-cemiterio/
      Vale a pena dar uma conferida!

      Abraços!

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  2. Muito bom Garrit.
    Li o conto original do Gaiman lançado por aqui no livro Fumaça e Espelhos – Contos e Ilusões, da Via Lettera ( Que recomendo muito hehe) Não li esta versão em quadrinhos, deixei ela passar na época por causa do preço, mas ela continua na minha lista de desejos hehe
    Bom, mas a história é muito boa mesmo.
    Vale a pena ir atrás.
    Abraço cara.

    http://palitosnerds.blogspot.com.br/2009/12/contos-no-palitos.html

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  3. O aspecto místico que contêm as hqs servem de orientação e nos trazem muitos conflitos sobre o divino, é bom que se trate o assunto, e o legal é que as hqs têm liberdade criativa pra isso. Gostei muito do post.

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  4. bom,depois de Misterios Divinos,fui ler o q era de ‘fora’ do universo Sandman,,,,,,inclusive os infantis…..Coraline,Sinal e Ruido,Cabelo Doido,Mr. Punch,Violent Cases,Lobos atras das paredes,Orquidea Negra,,,,,cara,tem muita coisa legal e diferente,,,,,Sandman é unico e doido,mas essas outras historias sempre agradam,mesmo se vc ler dez vezes….

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  5. Eu tenho uma certa “bronca” com Neil Gaiman, acho que, tematicamente, ele é muito repetitivo. Como você mesmo menciona no texto, essa história parece fazer parte do mesmo universo de Sandman.
    Mas apesar disso, sempre que leio algo dele, acabo achando bom. hahaha
    Ainda não li essa história, mas já me falaram que é boa.

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    1. Eu concordo; se a gente pensar bem, dá pra incluir praticamente tudo que o Gaiman fez em outras séries dentro do universo de Sandman, de 1602 (na Marvel) até a HQ “O que aconteceu com o cruzado de capa”? que ele fez pro Batman… isso porque as histórias de Sandman tem uma abrangência praticamente infinita, elas podem existir em qualquer contexto onde as pessoas sonhem… realmente soa como reprise, mas como as histórias são boas acabam funcionando. Gaiman tem algumas ideias muito boas, e sabe todos os “truques” pra fazer uma história funcionar… o que não quer dizer que ele acerte sempre (essa história do Batman que citei por exemplo, apesar de ter algumas ótimas sacadas, achei que deixou a desejar no contexto geral e o final não me agradou… )

      Abraços!

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    1. Weber, eu tenho uma noção pessoal (que pode estar totalmente equivocada) de que existem três grandes autores que ajudaram a definir a linha Vertigo como ela é hoje: Alan Moore, que é pura magia, Grant Morrison que é a ficção científica e Neil Gaiman que é… hm… como definir a ciência dos sonhos?

      Obviamente eu digo isso sem desmerecer o talento de outros grandes autores da linha, como Jamie Delano, Garth Ennis, Scott Snyder, Brian K. Vaughan, Brian Azzarello, Jeff Lemire, Mike Carey, etc, etc, etc…

      Obrigado amigo! Abraços!

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