Sandman apresenta: DESTINO – Crônica de Mortes Anunciadas.

 

5Uma resenha do encadernado “Destino: Crônica de mortes anunciadas”, com roteiro de Alisa Kwitney e arte de Kent Williams, Michael Zulli, Scott Hampton, Rebecca Guay e Sherilun Van Valkenburgh.

Por Rodrigo Garrit

Contém spoilers revelações sobre a sina da humanidade.

sandman

“Ele chegará na temporada das mortes, no sétimo ano após a Peste. E para Ele nenhuma porta será fechada; seu rosto não será reconhecido.” – Pergaminho do Destino

O ano é 2009. E a peste já varreu a maior parte da população humana da Terra, deixando apenas alguns poucos privilegiados vivos, mas também amaldiçoados por viverem em uma terra estéril, desprovida de esperança, onde sobreviver tornou-se um ato quase egoísta quando cada um teve que enterrar a maior parte de seus parentes e amigos. Viver para enterrar aqueles que ama: essa é a maldição da peste negra.

Ruth Knight, moradora de uma pequena cidade dos EUA atravessa os dias sozinha, exceto pela presença de alguns inconstantes vizinhos também amaldiçoados pela sobrevivência. A nova face desse mundo devastado aflora o que de pior as pessoas já possuíam. Mais medo, mais desconfiança, mais mesquinharia, mais fanatismo religioso… os dias cinzas se arrastam para esses habitantes que aguardam o doce da beijo da Morte que os conduzirá para junto de seus entes perdidos. Um beijo que nunca vem…

… até que um estranho chamado John Ryder chega até o local, pedindo abrigo na casa de Ruth, e oferecendo conhecimento, poder… e talvez uma forma de burlar o destino. Ele promete alivio e talvez algumas respostas… respostas estas contidas no pesado tomo que ele carrega consigo: O Livro do Destino. Apesar de toda a estranheza ao redor do misterioso homem, Ruth se deixa envolver por ele, fascinada pela possibilidade de, como ela mesma diz: “Voltar a descobrir ecos de nós mesmos nas histórias de outros”.

Ela é proprietária de um cavalo, o Paladino, sendo que a montaria tornou-e um dos melhores meios de transporte depois da praga. Ryder se revela um excelente cavaleiro e ele a convence a leva-lo até a cidade, onde reúnem os moradores do local numa igreja abandonada. Lá ele folheia as páginas do tomo, revelando certas passagens que os fazem conhecer a fundo a origem da praga que devastou o planeta, e uma reflexão sobre os rumos que o destino traçou para eles. E claro, como é inerente ao Ser Humano, eles nutrem esperanças de mudar aquilo que está escrito.

O que poucos perceberão, é que esses relatos são partes da própria biografia de Ryder.

As páginas do Livro do Destino permeiam camadas de histórias, sobrepondo-se, criando intersecções que mostram que não importa o quanto os caminhos sejam distintos não importa o quanto possamos nos perder em encruzilhadas monumentais… ao final do labirinto, sempre estará ele, aguardando paciente, imóvel, imutável, definitivo. O Destino.

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Inicialmente a história passa a falsa impressão de ser confusa, desconexa… mas na verdade possui um dos roteiros mais bem amarrados que já li. É uma trama apocalíptica, sem zumbis! Bem, as vítimas da peste são o mais próximo que você terá disso, mas existem outros seres demoníacos bem piores que zumbis. O fato é que a história conta com uma estrutura coesa e muito bem articulada, que me fez querer reler várias vezes alguns trechos só para ver se realmente tudo estava batendo… e estava. A autora Alisa Kwitney surpreende com um texto maduro e instigante, perfeito para os fãs do selo Vertigo já acostumados com esse nível qualidade.

Para a arte da história foram convocados verdadeiros mestres do lápis e do pincel. Eles utilizaram várias técnicas de pintura, o que a torna ainda mais lúdica e nos emerge mais facilmente no clima sobrenatural apresentado. É belíssima.

Para os afoitos que certamente passarão logo para as últimas páginas do Livro do Destino, saibam logo de antemão que no final, ele prediz o anúncio do irrevogável fim da humanidade, seu apocalipse, bem como a participação de seus quatro cavaleiros.

Por que temer o desconhecido mais que o conhecido? No primeiro caso, existe esperança”.  – Destino dos Perpétuos.

Mas afinal, quem é Destino?

Ele é o mais velho dos sete Perpétuos. Destino, Desejo, Delírio, Destruição, Desespero, Desencarnação e Devaneio. Esses dois últimos, também conhecidos como Morte e Sonho… embora o mestre do Sonhar seja conhecido por várias outras denominações, como  Kai ´ckul, Morfeus e Sandman. Imortalizados no selo Vertigo pela série escrita por Neil Gaiman, esses personagens se tornaram um fenômeno e até hoje, anos depois de seu cancelamento, ainda reconhecida como uma das maiores obras das Histórias em Quadrinhos de todos os tempos. Destino não foi criado por Neil Gaiman, ele já existia no Universo DC, e aparecia em velhos folhetins de terror, sempre acorrentado ao livro. Gaiman usou do personagem e expandiu sua importância, da mesma forma que fez com o próprio Sandman, que nada mais é do que uma releitura do personagem que já existia, embora totalmente diferente, e Caim e Abel, respectivamente os proprietários da Casa dos Mistérios e da Casa dos Segredos, ambas já exploradas anteriormente pelo lado sombrio da DC.

Destino, diferente se seus irmãos, não age por vontade própria, não manipula os acontecimentos de acordo com seus interesses, e ao contrário do que se possa imaginar, não define o que será do futuro. Ele apenas segue a trilha da sina já estabelecida ao universo, registrada em seu livro, o qual ele, sente-se compelido a ler constantemente, servindo assim como mantenedor do equilíbrio e da linha do destino, assim como seus irmãos, cada um em suas distintas tarefas.

Kev Harper
Desejo, Destino, Desespero, Destruição, Devaneio, Delírio e Desencarnação.  Os Perpétuos, por Kev Harper.

“Destino: Crônica de mortes anunciadas” foi publicado nos EUA como parte das minisséries “Sandman apresenta”, onde algum personagem ou elemento ligado ao universo onírico da série de Gaiman tinha a chance de estrelar uma história solo.  Saiu aqui no Brasil pela Panini reunindo os três números da minissérie em um encadernado.

DO LIVRO DO DESTINO, Editora Grimoire, Grã-Bretanha, 1899:

A peste é relativamente frágil. Sofre com o calor do verão e amiúde se esconde do frio mais inclemente do inverno. Mas, em condições favoráveis, como no início do outono, pode segar povoações inteiras como uma foice. A peste ostenta diferentes rostos em diferentes estações. Na primavera e no verão, manifesta-se por escuros inchaços hemorrágicos nas axilas e virilhas. São as marcas da peste bubônica. A vítima, então, sangra por dentro e o cheiro fétido de carne em decomposição acompanha a vinda da loucura e da morte. Em meses mais frios, a peste muda de aspecto. Penetra nos pulmões, provoca expectoração sanguinolenta e pode facilmente se alastrar para pessoas nas imediações. Tal forma pneumônica da praga é a menos frequente e mais mortífera: erupções cutâneas surgem no prazo de horas após a infecção, e o doente expira em menos de um dia.

Quando as modalidades incidem juntas, como ocorreu com a Peste Negra , corpos jazem onde caem, pois não sobra ninguém para enterrar os mortos. 

(1997) Destiny - A Chronicle of Deaths Foretold 2

 

 

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22 comentários sobre “Sandman apresenta: DESTINO – Crônica de Mortes Anunciadas.

  1. Cara, eu li essa HQ mas não entendi o final…
    Não sou leitor de HQ e não conhecia “Sandman”.
    Só li esse prq um amigo me deu de presente de aniversário também sem conhecer a trama.

    Agora estou curioso pra entender o que li… o que devo fazer?

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  2. Pra variar, eu e meus receios com certas hq’s: desde que li Lucifer, e achei ruinzinho, tive receio de outros “Sandman Apresenta” serem como o L, e apresentar só um ahistória sem graça pra tirar o dinheiro dos fãs. Mas seu texto me fez ficar com vontade de ler. Valeu!

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  3. ADORO Sandman e tudo relacionado a ele. Destino é menos carismático, mas ainda assim fascinante. Estou ansiosa pelo lançamento da nova minissérie escrita por Neil Gaiman que conta onde Morfeus estava antes de ser capturado em Sandman #1, e o motivo dele ter sido capturado, pois só sabemos que ele estava enfraquecido após lutar uma batalha de proporções inimagináveis… isso vai ser épico!

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