O Inescrito: Tommy Taylor e a identidade falsa!

 

 

O-inescrito

Resenha do primeiro volume do encadernado “The Unwritten” (O Inescrito), do selo Vertigo, publicado no Brasil pela Panini Comics. De Mike Carey (roteiro) e Peter Gross (desenhos).

Por Henry Garrit

Contém inespoilers ausência de revelações sobre a história.

A série de livros sobre as aventuras do garoto bruxo Tommy Taylor é um sucesso mundial. Mas os frutos desse sucesso quase não foram usufruídos pelo seu criador, Wilson Taylor, que sumiu misteriosamente. Por causa disso, quem tem que lidar com toda a glória e os dissabores desse sucesso é seu filho, Tom Taylor, não por acaso, a inspiração do personagem criado por seu pai e alvo de uma legião de fãs exageradamente fanáticos que quase o idolatram como se ele fosse a própria encarnação do personagem. Mas quando alguns eventos muito estranhos começam a misturar ficção com realidade, será mesmo impensável que Tom realmente tenha alguma ligação com seu homônimo literário?

Fato e ficção nunca poderão se misturar, e nada imaginado poderá ser real. A fantasia não pode existir, pois desafia as leis da física, do bom senso e da racionalidade.

Assim nos foi dito.

Mas… existe um “mas”? Ou é assim mesmo que a vida deve ser encarada? Sem fantasia, sem sonhos… não, não estou falando que unicórnios existem… até porque se existissem já teriam sido extintos, tendo seus chifres usados como itens de luxo ou alvo de ambiciosos caçadores… enfim, o que eu estou tentando dizer é que unicórnios existem, em outro nível, longe do alcance da ganância humana, e de lá desse patamar elevado, eles cumprem sua função de conceder leveza a nossa existência mundana, rotineira, trivial. Os unicórnios, os dragões, manticores, sereias, texugos, fadas, sacis, centauros e todas as outras fantásticas criaturas da ficção já criadas e também as que ainda serão, alimentadas pela imaginação de pessoas reais.

Mas espera… Texugos existem! 😀

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A série autoral de Mike Carey e Peter Gross “O Inescrito” trata exatamente disso, (os limites da fantasia na realidade, não de texugos) e nos traz essa questão na forma da metalinguagem, utilizando propositalmente como referência, principalmente a figura do Harry Potter e sua bem sucedida franquia de livros, retrabalhados em uma nova ou novas camadas de subtexto que tenta delimitar onde termina a realidade e a ficção se torna verdadeira.

A série realiza a façanha de ser uma história adulta de fantasia infantil que soma o melhor dos dois mundos, o que a faz ser agradável para os dois tipos de público. (Embora a orientação é de que seja lida por leitores maduros). Ela conta com belas ilustrações de capa produzidas Yuko Shimizu, que são uma profunda e surreal imersão no clima da história. Os desenhos de Peter Gross para a arte interna da revista não são super realistas, mas conseguem expressar sinceridade nas cenas da vida real, alternando um traço levemente mais caricato ao ilustrar as aventuras de Tommy Taylor na assim chamada Terra de Laf (Fantasia Literária, Fantasia Animal e Contos de Fadas, uma sigla criada por Bill Willingham, autor da série “Fábulas”, também da Vertigo, que assina o texto introdutório do encadernado e é fã confesso de “O Inescrito”, tanto que já foi anunciado um crossover entre as duas séries).

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Mike Carey é um autor habilidosíssimo, já famoso por suas várias contribuições no selo Vertigo, como Hellblazer, Livros da Magia e Lúcifer. Mas atuando em uma série de sua própria criação, ele eleva sua habilidade e nos presenteia com uma visão pessoal e concentrada do poder das histórias em nosso dia a dia. Esse mesmo conceito já nos foi apresentado por muitos outros autores, dentre os quais eu cito Neil Gaiman e Alan Moore, mais explicitamente em suas histórias de Sandman e Promethea respectivamente, embora, verdade seja dita, isso pode ser observado em maior ou menor grau em praticamente tudo o que eles fazem.  Além disso, quem lê a subestimada série “Casa dos Mistérios”, também da Vertigo, sabe que a protagonista, Fig, também serviu de inspiração para que seu pai escrevesse uma série de livros de aventura juvenil detetivesca, e quando adulta, ela se vê meio que aprisionada na infame Casa de propriedade de Cain, onde descobre que sua porção ficcional não era tão ficcional quanto ela pensava. Também posso citar outros exemplos conspiratórios, como o caso de Tim Hunter, menino bruxo criado por Neil Gaiman para o título “Os Livros da Magia” (Ei, Mike Carey fez história como roteirista dessa série) e sua semelhança com o garoto bruxo mais famoso da literatura, do cinema e das lancheiras: Harry Potter! (O qual Gaiman, apesar das semelhanças, defende não ser um plágio de Tim Hunter, que surgiu antes de Potter). Até mesmo o mago supremo Alan Moore já usou Potter como referência em sua aclamada série “A Liga Extraordinária”, colocando o bruxinho como um suposto anti-cristo. Nenhum dos exemplos anteriores deixou de nos brindar com histórias fabulosas nem gerou processos por plágio ou uso indevido da imagem, nem mesmo pelo anti-cristo, que provavelmente não se sentiu ofendido pela homenagem.

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Tudo isso foi dito apenas para ilustrar o fato de que Mike Carey teve a felicidade de enveredar por esse conhecido caminho, porém nos mostrando que existem bifurcações distintas que podem levar ao mesmo destino… atalhos que se mostram inovadores ainda que encapados com rótulos de ideias erroneamente consideradas desgastadas. Seu texto é muito bom, cativante do começo ao fim, altamente inspirado, apaixonado. Ele tem uma força motriz que impulsiona a história de modo a nos fazer acreditar no que ele tenta dizer. Isso considerando que estamos falando de um gibi, voltado para adultos, que mostra cenas alternadas das aventuras juvenis de Tommy Taylor com a vida nada lúdica de sua versão adulta entrando gradualmente em conflito com essa realidade… espera, eu disse, “realidade”? Tommy Taylor é a fantasia. Ou isso depende apenas do ponto de vista?

Quantas vezes alguém já te disse que uma coisa era impossível… até que alguém resolvesse desafiar as leis da física, do bom senso e da realidade… e trazer um pouco mais de fantasia para nossas vidas?

Vale a pena conferir essa história, e tentar determinar o quanto de nós ainda permitimos adentrar o irreal…

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“‘Um gato é um péssimo espírito familiar’, disse o Mago-Substituto com um olhar indeciso. ‘Muito volúvel e pouco confiável’.

‘Essa é a Mingus’, disse Tommy. ‘E eu quero que o nome dela seja registrado no Livro das Associações ao lado do meu. Ela é o meu espírito familiar, minha ajudante e minha amiga.’

‘ E você jura lealdade a ela?’, perguntou o Mago-Substituto, adotando as palavras do ritual. ‘Neste mundo e em todos os anexos?’

‘Para sempre’, respondeu Tommy.

‘Que assim seja registrado’.”

Tommy Taylor e o Trompete de Ouro, de Wilson Taylor.

1

S_Final

 

 

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21 comentários sobre “O Inescrito: Tommy Taylor e a identidade falsa!

    1. O Carey estranhamente não tem um status de escritor superstar, mas ele não deixa nada a dever a outros grandes nomes e já está nessa faz muito tempo, tem muita Vertigo no currículo dele…

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  1. Putz, cara sério… Parabéns mesmo! Acho que vc é um dos melhores em resenhas que ja vi. Eu nunca li nada do Neil Gaiman, mas sou fã dele kkk como pode né? Li muitas matérias sobre suas histórias e acho que o jeito que descreveram e pequenos trechos foram fodásticos. Mas espero ler pelo menos o “Sandman” pra tentar descobrir se essa admiração é mesmo real (caramba, entrei no mundo do real e irreal sem querer kk).

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    1. Lucas, muito obrigado mesmo cara… a gente faz isso com muita dedicação, por amor aos quadrinhos e como forma de compartilhar as coisas que a gente gosta com outros fãs. Esse seu comentário já pagou meu salário do ano inteiro! 😉 rsrs

      O Sandman de Neil Gaiman é um personagem muito especial, tenho certeza que quando você conhecer o material vai se tornar fã de imediato. Mas recomendo também outros trabalhos do cara, como por Marvel 1602, Mistérios Divinos, Mr. Punch e etc.

      Abraços!

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  2. Ótimo texto, Rodrigo!
    Eu, particularmente, nunca gostei do Carey, os trabalhos dele me decepcionam bastante. O pouco que li de Lucifer parecia não ir pra lugar nenhum, e Hellblazer, ele apenas requentou várias histórias clássicas. Não gostei.
    Mas O Inescrito, realmente, é um ótimo trabalho, o melhor dele. Eu não pretendo colecionar, mas li o 1º volume, e gostei. Pra quem curte fábulas pra adultos, é uma ótima pedida.

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    1. Acho que um pouco da mágica da coisa é fazer um trabalho pegando elementos clássicos do universo infantil e trazê-los para uma publicação adulta… esse contraste, essa contradição, dá um tempero interessante… mal comparando, acho que Alan Moore fez isso em Miracleman, fora o exemplo mais óbvio são as Fábulas de Bill Willingham.. valeu amigo! (a partir de agora vou te poupar dos super-herois, ok? Mas é possível que te sobrecarregue de Vertigo… rsrssr) Abraços!

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    1. Wagner eu é que te agradeço pela atenção e por estar sempre participando com seus comentários! Embora não tenha uma ligação direta com a série The Dreaming (O Sonhar), na verdade tem, se pensar que todas as histórias nascem dos sonhos… mas espera, eu to devaneando… rsrsrs…

      Abraços!

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