O NEONOMICON de Alan Moore – Uma orgia para Cthulhu!

AVISO: Desaconselhável para menores de 18 anos. Contém cenas de violência, mutilações, linguajar inapropriado, nu frontal e sexo explícito.

Resenha de Neonomicon, encadernado especial publicado no Brasil pela Panini, reunindo as edições 1 e 2 da minissérie “The Courtyard” adaptação do conto “O Pátio” de Alan Moore, feita por Antony Johnston e os quatro números da minissérie “Neonomicon”, da Avatar Press, com roteiros de Moore com arte de Jacen Burrows.

NO Spoilers!

Por Rodrigo  Garrit

ANTES DE NEONOMICON:

Direto da literatura sombria do cultuado H.P. Lovecraft, criaturas repletas de tentáculos se levantam do mar e ajudam Alan Moore a quitar suas dívidas.

Espera…

Vamos começar de novo.

É importante dizer que eu não li Neonomicon… ainda. Estou me preparando para começar a fazer isso daqui a alguns instantes, mas faço questão de deixar registrada a minha expectativa antes mesmo de virar a primeira página. Afinal, é Alan Moore, o mago, o escritor de quadrinhos mais brilhante de que já se teve notícias. O mesmo que hoje renega a indústria de quadrinhos com todas as suas forças. Mas suas razões, sejam elas justas ou não, não serão motivo de debate neste artigo, que pretende simplesmente resenhar a citada obra.

Repito: até este exato momento ainda não li Neonomicon. Mas já li muitos outros trabalhos anteriores de Moore, o bastante para conhecer a proporção de onde ele pode nos levar, fazendo a leitura ficar maior do que nós mesmos.

E também li H.P. Lovecraft, autor de O Chamado de Cthulhu  e tantas outras obras que nos presentearam (ou amaldiçoaram?) com elementos sinistros e desconcertantes, principalmente o “Necronomicon”, que é a referência óbvia usado por Moore para nomear sua história.

Não existem medidas concebíveis pela mente humana capazes de descrever o universo Lovecraftiano. Então, Alan Moore (e não consigo imaginar ninguém melhor do que ele) aparentemente vai escrever sobre a mitologia deixada por H.P. Lovecraft… e eu me pergunto… aonde isso pode nos levar.

Estou prestes a virar a primeira página.

DEPOIS DE NEONOMICON:

Yh´nghai tsathogua, dho-na h´rith y´golonac.

Nnh´gtep chaugnar faugn, e´hucunechh ygg ygg yr wza-y´ei, ep yh´nghai hrr rhan tegoth.

Na história “O Pátio”, o agente do FBI Aldo Sax se encarrega de investigar uma série de assassinatos rituais e envolve-se profundamente com uma suposta seita que aguarda o surgimento de uma nova ordem mundial. Mas a própria realidade se distorce ao redor do agente, fazendo-o ganhar uma nova percepção sobre o assunto.

Em “Neonomicon”, os também agentes do FBI Gordon Lamper e Merril Brears retomam a investigação de Aldo, infiltrando-se no que aparentemente é o covil da seita, e fazendo-se passar por simpatizantes dela, aceitam participar de um estranho ritual. A partir desse momento, uma série de eventos insanos conduzem os agentes a um desfecho inesperado e irremediavelmente traumático.

E o que esperar de Neonomicon de Alan Moore? É sabido que ele aceitou esse trabalho para pagar suas dívidas com imposto de renda. Então, isso diminui a obra? Faz dela algo meramente comercial, sem nenhum valor artístico, coisa tão criticada pelo autor?

Não.

Quem nunca leu nada relacionado a obra de H.P. Lovecraft vai perder muitas referências deliciosas, inseridas magistralmente por Alan Moore, mas ainda assim, terá em mãos uma HQ de terror de primeira, com uma boa dose de suspense e investigação. Algumas pessoas podem se impacientar com o ritmo e a forma como a história é conduzida, pois Alan Moore não é apenas um escritor excelente, mas também um autoproclamado bruxo, e não perde a oportunidade de discorrer sobre seus próprios conhecimentos e possivelmente experiências pessoais com a magia, relacionando tudo à mitologia Lovecraftiana, de modo a costurar velhos ritos ao universo ficcional (?) criado pelo cultuado autor. E isso é muito bom para a história, enriquece o roteiro,  mas não está preocupado em seguir a cartilha do mocinho e bandido, tampouco a “jornada do herói”. Os caminhos tortuosos e perturbadores escolhidos por ele certamente não agradarão a um público habituado com os corriqueiros e previsíveis métodos narrativos que se proliferam em abundância pelo cinema, literatura e histórias em quadrinhos, salvo raras exceções.

H.P. Lovecraft tinha uma escrita rebuscada, e suas histórias eram dotadas de uma profundidade tão verdadeira que era quase palpável… não é a toa que o mito se mistura frequentemente com a realidade, e muitas pessoas afirmam convictas que ele teve de fato contato com os seres ancestrais e seus livros seriam relatos de seus estudos e experiências. Moore brinca com isso, transporta Lovecraft para a história e faz dele uma espécie de “profeta” para a grande revolução que virá.

O sexo é usado indiscriminadamente, mas não gratuitamente. Moore continua provando que a sexualidade pode e deve ser utilizada em toda forma de arte, como expressão de força, rebeldia, amor ou destruição… não importa, desde que a venda autoimposta pelas pessoas seja substituída pela naturalidade com que o sexo deve ser encarado.

A arte de Jacen Burrows convence o leitor sobre o sofrimento dos personagens. Dito isto, ele junto com o colorista Juanmar, criou algumas texturas impressionantes, belíssimas e outras simplesmente asquerosas e repugnantes. Do que jeito que devia ser.

Não é a primeira vez que me envolvo com a obra de Howard Phillips Lovecraft. Da última vez que isso aconteceu, escrevi um livro chamado “O Nome do Livro ou o Livro do Nome”. E ficção se misturou com a realidade. Há algo de assustadoramente crível na obra dele. Desesperadamente envolvente.

A Avatar Press já utilizou o universo Lovecraftiano em suas HQs. Warren Ellis já havia dado sua versão do tema com a série “Estranho Beijo”, cuja resenha você pode ler clicando AQUI!

PALAVRAS DO MAGO , retiradas do documentário “The mindscape of Alan Moore”:

“O trabalho do artista não é dar ao público o que ele quer. Se o público soubesse o que quer, não seria o público, seria o artista. O trabalho do artista é dar ao público o que ele precisa”.

“É importante que uma história soe real a nível humano, mesmo que ela nunca tenha acontecido”.

“Quando nós cumprimos a vontade do nosso verdadeiro ‘eu’ estamos inevitavelmente cumprindo com a vontade do universo. Na magia, ambas as coisas são indistinguíveis. Cada alma humana é, de fato, UMA alma humana. É a alma do universo inteiro. E enquanto você cumprir a vontade do universo é impossível fazer qualquer coisa errada”.

“O único lugar onde os deuses e demônios existem indiscutivelmente, é na mente humana, onde são reais em toda a sua grandiosidade e monstruosidade”.

“Tudo o que vemos são as nossas percepções, e as confundimos com a realidade”.

“Houve um tempo em que os bardos eram mais temidos do que os magos. Um mago poderia lhe amaldiçoar, é verdade, mas se um bardo fizesse uma sátira sobre a sua vida, poderia desacreditar você perante seus amigos, sua família e até você mesmo. E se fosse uma sátira brilhante, muitos anos após a sua morte, as pessoas ainda zombariam de você…”

 

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33 comentários sobre “O NEONOMICON de Alan Moore – Uma orgia para Cthulhu!

  1. HP Lovecraft , L. Sprague de Camp são autores clássicos do terror que merecem sempre ser revistos! Lovecraft é mais conhecido e Alan Moore o profeta da destruição sabe muito bem passear por entre esses monstros! Bela matéria Rodrigo Garrit!

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    1. Obrigado meu caro… já li outras adaptações em quadrinhos da obra de Lovecraft (o título da Vertigo com mesmo nome co-escrito por Keith Giffen por exemplo é muito bom), mas Moore sempre supera as expectativas… não agrada a todos, é claro, mas faz o seu dever de forma a beirar a genialidade.

      Abraços!

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  2. Alan Moore despensa comentários! O cara escreve como poucos! É brilhante! Cheio de referências! Mas infelizmente muita gente não entende ou não tem paciência com a narrativa dele… E há também os que tem medo do que ele escreve… gente mais doida, né…

    Ow, e seu livro Garrit???
    Tá a venda ainda (no seu blog o Leonardo Santana diz que tá esgotado) ou há possibilidade de adquirir uma versão digital da obra?

    Olha, espero não te olhar torto, meio que com “medo” de você depois de ler o livro “O Nome do Livro ou o Livro do Nome.” (copiei descaradamente do seu texto… é… sou desses folgados mesmo! rsrsrs)

    Grande Abraço Amigo!

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  3. ótimo texto Rodrigo ! eu li ate a segunda edição essa hq ( a parte da orgia parecia mais uma cena de hentai ) mais não achei para importar as outras edições mais to juntando minhas moedinhas para comprar a hq ( afinal quem escreve é o PAI )

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  4. Apesar de nunca ter gostado do estilo rebuscado do Levecraft, tô bem ansioso pra ler essa hq.
    Ela saiu nas bancas, ou está sendo vendida apenas em livrarias? Na minha cidade, não vi ainda.
    Sobre o Moore, acho uma pena que ele não tenha visto que dá pra publicar muitas e muitas hq’s por outras editoras fora as grandes. Todos nós fãs agradeceríamos.
    E quando eu ler Neonomicon, volto aqui pra comentar.

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    1. Lexy, no meu caso comprei pela internet no site da Comix, que eu sempre menciono aqui mas nunca ganho nada pela propaganda.. rsrsrs… peguei a pré-venda, mas acredito que seja um lançamento de bancas e não livrarias, até porque não é capa dura.

      Abraços!

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  5. Neonomicon rodeia minha vida… tenho a oportunidade de ler e lerei até o fim do ano, sua matéria só serviu de sinal do invisível para que eu faça isso. Se cada vez que tivesse que pagar uma dívida eu possuísse a capacidade criativa de produzir obras como esse barbudo escreve, eu seria um Alan Moore!!! Eu cagaria pra DC, eu não trabalharia pra Marvel e eu nunca faria uma participação especial na novela das nove da Globo Parabéns pela matéria e a escolha do tema, mais uma coisa:

    Um bardo é mais perigoso que um mago, mas um macaco bardo é a coisa mais terrível da existência!!! 🙂 😉 😉 😉 🙂

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