A HISTÓRIA DE BUDA EM MANGÁ

1Resenha de “A História de Buda em Mangá”, originalmente publicado no Japão pela editora Ichimannendo onde foi chamada de “Budda no ikikata”, com autoria de Hisashi Ohta e supervisão Kentaro Ito, que juntamente com Kentetsu Takamori e Daiji Akehashi escreveu o livro “Uma Razão para viver”, o qual serviu de base para essa biografia gráfica de Buda.

A história de Buda em Mangá foi publicada no Brasil pela Editora Satry em um volume único de 243 páginas.

Por Rodrigo Garrit

“O ódio não destrói o ódio, só o Amor destrói o ódio. Sê-de como o sândalo, que perfuma o machado que o corta.” (Buda Sakyamuni)

Todos temos muita escuridão dentro nós. Será que é possível iluminar tantas sombras?

Há cerca de 2600 anos, no antigo reino de Kapilavasco,  próximo de onde hoje encontra-se a fronteira entre o Nepal e a índia, o príncipe Sidarta Gautama foi criado dentro do palácio, onde tinha todos os desejos atendidos… exceto aquilo que ele mais queria. O Imperador, seu pai, não compreendia a incessante busca do jovem pelo sentido da vida, busca essa que o angustiava e deprimia. Na tentativa de aliviar a tristeza do príncipe, o Imperador providenciou que ele se casasse com a jovem mais bela do reino, que viria a se tornar a princesa Yasodhara, que lhe deu um filho, o qual Sidarta amou imediatamente, mas viu nele a possibilidade de um empecilho em sua busca pela verdadeira iluminação. O murmúrio do príncipe foi ouvido e a criança foi batizada de Rahula (empecilho).

Sua busca pelo verdadeiro sentido da vida tomava todo o tempo do príncipe e ele atravessou os quatro portões do imenso palácio, cada um direcionado a um dos pontos cardeais. E fosse no portão norte, sul, leste ou oeste, ele descobriu novas facetas da realidade humana, uma realidade amarga e cruel, muito diferente daquela em que ele havia sido criado. Ele caminhou por entre o povo e presenciou a dor, a miséria, a doença e a tristeza inconsolável daqueles que perdiam seus entes queridos. E viu que não era diferente. Apesar de ser um príncipe, não estava livre dessas condições. E a pergunta voltou com mais força a sua mente: por que viver?

Era claro para o príncipe que ele precisava entender a raiz de todo o sofrimento humano para então libertar-se dele e encontrar a verdadeira paz.

Aos 29 anos de idade, o príncipe abandonou todos os luxos do palácio e se tornou um asceta, alguém que deixa de lado todos os bens materiais e se isola nas montanhas em busca de crescimento espiritual, numa árdua tarefa nem sempre atingida pelos seus praticantes. Juntando-se a outros que como ele buscavam descobrir o segredo da verdadeira felicidade e a iluminação suprema, Sidarta trilhou o caminho do ascetismo a risca, padecendo de fome e frio, abandonando todos os prazeres da carne… até enfim atingir a iluminação. Até tornar-se… Buda.

Conforme é explicado no livro, existem 52 níveis de iluminação, e o mais alto é conhecido como “A Iluminação de Buda”. O termo “Buda” pode ser utilizado a qualquer pessoa que consiga alcançar o mais alto grau de iluminação. Segundo as crenças orientais, existem incontáveis “Budas” espalhados pelo universo, mas apenas um no planeta Terra. “Buda Amida”, o Buda da vida e da luz infinita é considerado o maior de todos os Budas do universo, tendo feito uma promessa solene de salvar com certeza toda a humanidade para felicidade absoluta.

Alcançar esse grau de iluminação (Satori), consiste na compreensão absoluta da verdade do universo, através da qual é possível obter a felicidade verdadeira. A doutrina deixada pelo príncipe Sidarta (também conhecido como Buda Sakyamuni) é o que conhecemos hoje como budismo, cujos ensinamentos são passados através de gerações por meio dos “sutras”, que são os sermões transcritos pelos discípulos de Buda Sakyamuni. Existem mais de sete mil sutras.

Como biografia, em um primeiro momento o livro peca pela falta de detalhes mais minuciosos do contexto histórico, embora isso seja perdoável pelo próprio formato em que a obra é apresentada… mas a verdade é que o fato de conduzir a história de forma objetiva sem se perder em explicações mais detalhadas acaba se tornando um ponto positivo, pois torna a leitura mais dinâmica e abre caminho para que questões mais importantes sejam mostradas. Na verdade, trata-se de uma obra introdutória de fácil acesso aos mais jovens e a qualquer um que queira aprender mais sobre essa figura que viveu há milênios e até hoje influencia milhões de pessoas pelo mundo. Embora seja baseada em fatos que acredita-se serem verídicos, a história traça um rumo característico desse tipo de narrativa japonesa, mas tudo é feito com cuidado para não extrapolar os limites do crível e inviabilizar os fatos. Embora seus atos sejam extraordinários, estão dentro dos limites aceitáveis para os padrões humanos, mas isso não muda o fato de que o príncipe Sidarta seja visto como o messias escolhido para receber o mais alto grau de iluminação através de seus esforços e compartilhar seus conhecimentos com a humanidade.

Algo fantástico nesse livro é que ele não prega o budismo, não tenta em momento algum convencer o leitor a abandonar tudo e buscar a iluminação… não impõe nenhuma verdade e nem se compara com nenhuma outra religião. O livro é pura e simplesmente aquilo que se propõe a ser: uma biografia do príncipe Sidarta, aquele que viria a ser tornar o venerável Buda.

O traço de Hisashi Ohta é limpo e bonito, sem os exageros característicos dos mangás. Claro que o estilo por si só é uma caricatura, e não poderia ser de outra forma, ou não seria um autêntico mangá. Mas ele parece contido, e muitíssimo mais preocupado em passar a mensagem do que impressionar com desenhos extravagantes. E ele foi bem sucedido em seu intento. Não temos robôs gigantes, criaturas de outras dimensões, monstrinhos compactos, cartas mágicas e nem naves estelares, mas uma história cativante, bem construída e altamente recomendada, independente da religião ou das crenças (ou falta delas) do leitor. O livro traz algumas informações pertinentes, como o mapa do reino de Kapilavasco e os locais onde o príncipe Sidarta passou e onde realizou seus feitos. Há também várias notas explicativas para certos termos utilizados e também alguns dados adicionais que situam o leitor pouco familiarizado com a história e a geografia presentes na narrativa.

Ótima opção para fãs de mangás, quadrinhos, adeptos do budismo e curiosos a respeito do tema.

Quatro Pensamentos para a Vida Diária

Devoção Real (Roseikon)

Devotar-se completamente e sinceramente não é tão fácil como parece. No Eihei-koroku, Dogen Zenji diz que concentrar todo o ser na mente e corpo em todas as atividades é supremamente importante. Em outras palavras, dar-se de mente e corpo a qualquer coisa que faça – acordar, lavar-se, tomar o café da manhã, ir ao trabalho, encontrar com pessoas para falar de trabalho, tomar chá e assim por diante.

Nenhum Mérito (Mukudoku)

Bodhidarma, ainda venerado no Japão atual sob o nome de Daruma-daishi, introduziu o Budismo Zen na China nos princípios do sexto século, durante o reinado do Imperador Wu da dinastia Liang. Por causa do seu interesse, o Imperador orgulhosamente trabalhou para promover o Budismo e convidou Bodhidarma a permanecer com ele. Talvez contente com sua própria fé, o Imperador uma vez disse para Bodhidarma, “Construí todos estes templos Budistas, fiz com que todos os sutras fossem copiados e treinei todos estes monges. Que tipo de mérito consegui por todo este trabalho?” Bodhidarma responteu bruscamente: “Mérito algum!” Sem dúvida o Imperador, governante de toda uma nação sentiu-se desprezado. Na verdade, Bodhidarma o estava advertindo para o fato de fazer coisas com o intuito de recompensa. O Zen nos adverte estritamente contra ter recompensas pelas ações. O espírito zen é agir sempre de uma perfeita maneira natural, descontraída e despojada.

Um Acerto em Cem Erros (Hyakufuto no Itto)

Os ensinos de  Buda Sakyamuni contém a doutrina dos quatro e oito sofrimentos (Shiku-hakku). Os Quatro são nascimento, Envelhecimento, doença e Morte. Os restantes quatro que juntos resultam em Oito são a separação do amado, associação com o indesejado, falha em atingir o desejado e o sofrimento psicossomático. O termo japonês shiku-hakku é frequentemente usado para expressar extrema dificuldade. Superar estes sofrimentos inevitáveis é um dos supremos objetivos do Budismo. Sempre desejamos adquirir o que consideramos importante, desejável ou prazeroso, mas às vezes frustamo-nos na tentativa. Corredores não conseguem atingir a velocidade não importa o quanto pratiquem. Jogadores de beisebol manejam o taco cem vezes sem conseguirem o jeito que eles desejam. Às vezes, no entanto, no meio da prática, eles quebram a limitação e conseguem o perfeito movimento. Neste instante, serão liberados de todo o sofrimento causado pela falha de atingir o desejado. A felicidade que eles experimentam nestas ocasiões é o resultado, não acidental, de dezenas e centenas de tentativas. Todos os esforços resultam em sucesso. Experimentam um Acerto em Cem Erros.

Olhando das alturas (Hyakushaku Kanto Shin Ippo)

Geralmente quando conseguimos atingir uma certa meta, queremos uma pausa nas alturas para desfrutar a nossa satisfação. Mas devemos nos lembrar que, enquanto paramos, o rio do tempo flui sem parar. O Zen nos encoraja a prestarmos atenção ao constante fluir do tempo na forma da frase Hyakushaku Kanto Shin ippo, que significa literalmente dar um passo do topo de uma plataforma de bambu de cem pés. O Shobo-genzo Zuimonki nos diz:”Estudante do Caminho, vamos ir de corpo e mente e entremos completamente no budha-darma. Como um antigo ditado diz, “No topo de uma plataforma de cem pés, como se avança um passo para a frente?” Em certa situação, pensamos que iremos morrer se sairmos da plataforma e por isso nos agarramos firmemente nela. Dizer “avançar um passo a frente” significa o mesmo que decidir que não poderia ser tão mal abandonar a vida corporal. Deveríamos parar de nos preocuparmos com tudo, desde a arte de viver até a nossa própria vida. A não ser que abandonemos estas coisas, será impossível atingirmos o Caminho, mesmo que pareça que estamos praticando diligentemente como se estivéssemos tentando extinguir um fogo envolvendo nossas cabeças. Deixe o corpo e a mente seguirem de uma maneira decidida.

 

Traduzido por Shohaku Okumurain: Caminho Zen, nº 1-2003 pags. 10/11 – Shotoshu Shumusho – Japão.

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21 comentários sobre “A HISTÓRIA DE BUDA EM MANGÁ

  1. Parece interessante. Adoro mangás como temática adulta, e quando são em apenas uma edição, gosto ainda mais. hehehe
    Mas legal o tema. Além do budismo ser interessante, gostei do fato de a hq ser uma biografia do príncipe, ao invés de uma história religiosa.

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  2. Não tenho religião, mas sigo o Budismo, que é uma filosofia linda e para mim perfeita há alguns anos. Adorei a matéria, se esbarrar com essa publicação, Rodrigo, compro no ato. Beijos.

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  3. Bem medido e bem pesado parabéns Mr. Garrit ótima resenha! Algo que você mencionou ali sobre o mangá não falar de religião, talvez quem sabe devido ao fato que o budismo era uma filosofia de vida e só bem mas tarde após a morte de Gautama é foi transformado em religião .

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  4. Sempre nos brindando c/ resenhas de obras únicas!

    Não vou nem mencionar suas reflexões e seu estilo de escrever… afinal, serei redundante ao (novamente) afirmar que SOU SEU FÃ!!!

    Grande Abraço Garrit!

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