MIDNIGHT NATION de J. Michael Straczynski: Caminhando pelas sombras.

1Resenha da minissérie “Midnight Nation – O Povo da Meia Noite”, criada por J. Michael Straczynski (roteiro) e Gary Frank (desenhos). O prólogo “Obras inestimáveis” foi desenhado por Michael Zulli, também com roteiro de JMS.

Este artigo contém spoilers revelações sobre a história.

Foi publicada no Brasil pela Panini, em forma de uma minissérie em seis edições compilando os seus doze números e a edição ½ feita em parceria com a Wizard Press.

Por Rodrigo Garrit

O detetive David Grey é extremamente dedicado à sua unidade de homicídios, a ponto de permitir que isso arruinasse seu casamento e afastasse todos os amigos. Ao investigar um caso peculiar de múltiplos assassinatos brutais, ele é atacado por seres inumanos e tem sua alma roubada pelo líder deles. Agora, David Grey é um pária… nem vivo nem morto, ele transita pelas ruas escuras da cidade, infestada de criaturas mortais, os errantes, invisível para todos, exceto por aqueles que também foram esquecidos.  Mas ele conhece uma mulher chamada Laurel, a quem os errantes parecem temer. Ela diz que se ele não recuperar sua alma dentro de um ano, ela nunca mais poderá ser devolvida e ele mesmo será transformado em um errante, engrossando o exército de seres sombrios que cresce exponencialmente e almeja em breve reclamar o outro lado da realidade para si. A realidade dos vivos.

Midnight Nation é uma história religiosa. Mas longe de ser catequizadora ou uma nova investida gospel, ela simplesmente nos mostra a visão do autor sobre o cristianismo, na forma de uma metáfora atual que liga alguns pontos desde a criação do universo por Deus, e nos faz  pensar sobre  os seus motivos, acertos e erros… se é que Deus é capaz de errar. Em nenhum momento achei que desrespeitasse qualquer religião sequer, e de qualquer forma, se essa acusação caísse sobre a obra, vários outros produtos envolvendo anjos e demônios já saíram na frente, e são tantos que nem vale citar. O legal dessa história é que os seres bíblicos são tratados e mostrados de forma muito diferente do que estamos acostumados, mas não deixando de lado sua imponência e superioridade sobre os reles mortais.

A metáfora de JMS é tão precisa e bem construída que não permite ao leitor qualquer comparação ao erro interpretativo da mitologia judaico-cristã.  Aqui não temos Judas (tão recorrente ultimamente na mídia), mas temos Lázaro, outro conhecido personagem bíblico, tendo sido ele o primeiro a vagar na intersecção entre o mundo dos mortos e dos vivos. Na visão de JMS, Lázaro foi ressuscitado na parábola bíblica e continua vivo até os dias de hoje, aguardando o dia em que a morte finalmente virá abraça-lo.

Lázaro

Há também a referência óbvia ao anjo caído e seu descontentamento com seu Pai, e o desejo de subverter toda a criação para algo que ele acredita que seria o correto, apagando assim os erros de Deus e reescrevendo ele mesmo as novas regras da realidade.

Essa é uma grande viagem da cabeça de JMS. Ou melhor… caminhada. Como nos conta no posfácio, ele de fato costumava praticar longas caminhadas, inclusive durante algumas madrugadas em bairros não muito amistosos de San Diego, onde morava. Certa vez ele foi atacado por assaltantes e acabou hospitalizado,  mas ao se recuperar, ao invés de se render ao medo, ele voltou a fazer suas caminhadas noturnas. E ao passar pelos mesmos lugares durante o dia e na madrugada, teve a ideia para essa historia. Ele notou que sob o sol, as ruas abriam passagem para executivos, estudantes e donas de casa. Mas quando escurecia, o mesmo local abrigava viciados, traficantes e prostitutas. Então ele entendeu que havia o povo do dia. E o povo da meia noite.

Não admira que anos depois ele voltaria a utilizar um pouco desse conceito ao fazer o Superman caminhar por grande parte dos EUA. Mas isso é outra história.

A arte de Gary Frank dispensa maiores comentários. É um dos maiores desenhistas da indústria e se mantém até hoje em plena forma, tendo desenhado alguns dos melhores quadrinhos que já li na vida, como por exemplo Hulk e Supergirl (ambos em parceria com o roteirista Peter David), Superman com Geoff Johns e a nova versão de Shazam, também com Johns, cujas histórias são de deixar qualquer um maravilhado.

Midnight Nation foi publicada originalmente nos EUA pela Top Cow em 2001, e estava em andamento durante os ataques de 11 de setembro. Embora isso não seja mencionado na história, temos algumas capas e várias artes internas onde as Torres Gêmeas são mostradas em evidência, no que entendo ser uma homenagem respeitosa ao ocorrido. Curiosamente, o ataque reforça a metáfora usada por JMS sobre um mundo imperfeito regido por pessoas e religiões imperfeitas matando-se indiscriminadamente. O discurso do anjo caído bate nessa tecla com força, e embora não mencione as torres, ele cita outros fatos da vida real, como o ator Christopher Reeve ter morrido numa cadeira de rodas, numa tentativa de minar de uma vez toda a esperança para esse mundo perdido… como se Reeve não fosse de fato até hoje um símbolo de coragem e luta, cuja fundação que leva seu nome ainda batalhe em prol dos avanços das pesquisas com células tronco.

Assim como David Grey, eu também me vi numa jornada, e embora no meu caso não fosse uma caminhada, foi uma espécie de percurso, onde toda noite eu lia um capítulo da série, passeando por seus becos obscuros e conhecendo um pouco mais sobre cada um de seus personagens.  JMS é um escritor habilidoso, e sabia muito bem o que queria dizer com essa história.

Midnight Nation deixa várias questões, e cabe ao leitor fazer suas escolhas. Em vez de ficarmos constantemente nos perguntando se “falta muito para chegar”?  porque não fincar a bandeira no exato ponto onde estamos e fazermos ali nosso acampamento? Por que nos mantermos sempre salvos e seguros, porém com medo de abraçar a vida? E se todos os grupos de pessoas salvas, seguras e amedrontadas tivessem a coragem de olhar para o lado de fora e descobrir uns aos outros… em vez de viver sozinhos e com medo, temendo a própria sombra?

E por que J. Michael Straczynski continua fazendo suas caminhadas noturnas pelas ruas perigosas de San Diego mesmo depois de quase ter sido morto?

É disso que Midnight Nation se trata. Uma reflexão válida sobre os valores humanos, disfarçada de HQ de super-heróis.

São páginas que pretendo percorrer novamente em breve.

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15 comentários sobre “MIDNIGHT NATION de J. Michael Straczynski: Caminhando pelas sombras.

  1. Ainda não tive a oportunidade de ler “Midnight Nation”, mas esse excelente texto despertou minha curiosidade. Deve ser mais uma boa indicação aqui do Santuário!
    Straczynski é um escritor de muitos altos e baixos. Entre os “baixos” eu citaria o arco “Solo” (originalmente chamado “Grounded”), cujo próprio nome indica o quão ruim foi. Foi uma decepção, porque a saga começou com uma premissa interessante e depois só decaiu, culminando com um final capaz de estragar o que a premissa tinha de bom. Me pergunto se não foi a proximidade do reboot que impediu Straczynski de desenvolver bem suas ideias para o Superman.

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    1. Concordo sobre “Solo”, embora eu tenha gostado de como tudo começou… já o final, foi uma versão recauchutada da uma história do Supremo (de Rob Liefeld) escrita por Alan Moore, que por sua vez recauchutou a mitologia do Superman… mas no caso do Supremo, deu muito mais certo.
      Apesar disso, eu gostei da forma como JMS finalizou seu arco com a Mulher Maravilha, deixando-a consciente da grande mudança que viria, e fazendo aceitar com serenidade e em paz. Mas “O Povo da Meia Noite” foi um bom exemplo do que se pode fazer sem grandes intervenções editoriais abusivas.

      Abraços!

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  2. J Michael Straczynski é habilidoso mesmo, muito bem observado e Gary Frank…o que é Gary Frank? Nossa, muito bom o conceito e uma opção dentro das comics de super heróis, que não fica presa ao marasmo das produções atuais. Fora da Marvel e DC, esse roteirista brilha de verdade, sempre achei. Boa matéria!

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    1. JMS me conquistou de verdade quando assumiu o título “The Brave and the bold”, e apesar de sua polêmica passagem pelo Superman, sempre achei que o cara tinha o que eu precisava pra ser um grande escritor. Já Gary Frank sempre será o desenhista do Hulk que eu mais gosto. Esse “casamento” deles me fez pirar… rsrs

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  3. Interessante e instigante essa história! O desenho dispensa comentários! O legal do traço dele é que muitos desenhistas acostumados a desenhar super heróis as vezes não conseguem desenhar pessoas normais e esse não é o caso do Gary Frank.

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