O Mito dos Vampiros: Tudo começou com poesia!

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VAMP

Arte Sacra: Os contos do Santuário apresentam a sanguinolenta origem do mito dos vampiros, segundo rezam as nossa próprias lendas.

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Por Rodrigo “Byron” Garrit

the-eye-watching-cainHouve um lavrador chamado Caim. Ele foi muito bem utilizado por Neil Gaiman na série “Sandman”, mas a primeira aparição dele foi no Antigo Testamento. Caim significa “lança”. Mas acredita-se que matou seu irmão  à pedradas. O primeiro homicídio da linda história da humanidade.

A situação deles já não era muito boa, porque seus pais tinham acabado de ser despejados do Jardim do Éden, e foram morar nas regiões áridas da Criação.

Especula-se ainda que Caim tivesse sido concebido fora do casamento, e que sua mãe, Eva, teria tido um caso com uma certa serpente, mas o marido dela, Adão, assumiu a criança, até por que não tinha muitas outras opções de esposas disponíveis. Mas isso é o que dizem as más línguas tá? Eu pessoalmente não sei se quero imaginar Eva e a serpente… droga! Já imaginei! Poluição mental!!!

O fato é que Deus castigou Caim marcando-o para que todos soubessem de seu crime. Alguns dizem que essa marca seria o fato da pele dele ter ficado negra, o que não faz sentido, pois não seria um castigo, mas sim um bronzeamento instantâneo grátis. Alguns outros tantos dizem que ele simplesmente foi transformado no primeiro vampiro da história.

Pessoalmente eu acho que ele se tornou um imponente e arrogante vampiro negro, lindo, sedutor e assassino. Do jeito que tem que ser. Mas, pessoalmente, eu acho coisas demais.

Quem curte RPG já sacou a referência: em “Vampiro: A Máscara”, Caim é de fato o primeiro vampiro, pai de todo o mito.

Os mitos por sua vez são como vírus, sofrendo constante mutação. E por falar em vírus, umas variações mais verossímeis do mito, vem justamente de uma doença chamada Porfiria.

A Porfiria é um distúrbio hereditário, mas que também pode ser adquirido. Ela causa rigorosos problemas de pele acompanhados de complicações neurológicas. Existem diversas variações da doença, dependendo do nível de deficiência enzimática especifica no processo de sintese do heme blá, blá, blá.

A palavra Porfiria vem do grego e significa “Aquilo Pigmento Roxo”.

Foi o bioquímico David Dolphin (o nome dele é “golfinho” mesmo! Hahahaha…) que em 1985 reparou que já que a condição do porfirico é tratada com “hemo” intravenoso, o doente adquire uma franja que cobre a testa e escreve poeminhas depressivos o consumo de grandes quantidades de sangue por parte dos porfíricos poderia resultar de alguma maneira no transporte do hemo através da parede do estômago e para a corrente sanguínea, amenizando consideravelmente os sintomas da doença a concedendo uma nova vitalidade ao paciente. Junte a isso o estado de demência causado pela doença e a alta sensibilidade que ela causa à luz do sol devido aos problemas de pele, para entender como surgiu mais esse mito vampírico na cultura pop.

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O poeta e lorde, Byron, também conhecido como George Gordon Byron, mas vamos chamá-lo só de Lorde Byron, foi um grande expoente britânico e uma das figuras mais influentes do Romantismo. Autor de algumas obras primas entre as quais você deve conhecer “Don Juan”que ficou inacabada devido à sua morte repentina. Mas tudo bem, veja o filme com  Johnny Depp.

Lorde Byron era coxo. Por causa disso sofreu bullying quando garoto e passou por tratamento médico exaustivo. Mas o pequeno nerd britânico não se deixava abater. Era apaixonado por literatura e fascinado pela história de Caim e Abel. (Percebe conexões?).

Além disso ele era um nerd fiel. Quando um amigo dele estava apanhando de um marmanjo na escola, o jovem Byron interveio, e com a voz trêmula e os olhos cheios de lágrimas, perguntou para o agressor, quantos socos pretendia dar em seu amigo. Surpreendido, o valentão quis saber o motivo dessa pergunta cretina. Byron, disse: “Se não se importar, gostaria de receber a metade”.

Toda a obra literária de Lorde Byron contém o pessimismo romântico, com a tendência a se voltar contra os outros e contra a sociedade, e pode ser vista como um grande painel autobiográfico.  Era o tom declarado de rebeldia ante as convenções morais e religiosas e o charme cínico de que seu herói demoníaco sempre se revestiu.

Certa vez Lorde Byron decidiu partir para uma viagem incógnita, na qual ele pretendia descobrir as belezas dos países vizinhos à Inglaterra. Visitou vários deles e despencou seu gosto à beleza contrastante entre as obras góticas e as produzidas pela guerra. Lorde Byron achava lindas as paisagens de uma cidade destruída pelos corpos moribundos jogados pelos cantos. Obteve diversas experiências e voltou renovado para casa.

Nesse período produziu desvairadamente sua poesia gótica, tida por muitos como “vampírica”… era o nascimento de um novo gênero.

Não, não te assustes: não fugiu o meu espírito
Vê em mim um crânio, o único que existe
Do qual, muito ao contrário de uma fronte viva,
Tudo aquilo que flui jamais é triste.

Vivi, amei, bebi, tal como tu; morri;
Que renuncie a terra aos ossos meus
Enche! Não podes injuriar-me; tem o verme
Lábios mais repugnantes do que os teus olhos.

Onde outrora brilhou, talvez, minha razão,
Para ajudar os outros brilhe agora eu;
Substituto haverá mais nobre que o vinho
Se o nosso cérebro já se perdeu?

Bebe enquanto puderes; quando tu e os teus
Já tiverdes partido, uma outra gente
Possa te redimir da terra que abraçar-te,
E festeje com o morto e a própria rima tente.

E por que não? Se as frontes geram tal tristeza
Através da existência -curto dia-,
Redimidas dos vermes e da argila
Ao menos possam ter alguma serventia.

 “Versos Inscritos numa Taça Feita de um Crânio”

Mas Lorde Byron não escaparia do peso maior que carregaria por toda sua vida: Augusta, sua irmã. Seu casamento não ia bem, e se refugiou na casa do irmão. Entretanto, algo bombástico alimentava sua ânsia. Começou a enxergar a irmã com outros olhos: via-a como uma semelhança, um espelho raro petrificado por idêntica sina, e como uma possibilidade de encontrar o Lorde Byron escondido pelo ser antissocial e cético. Não pensou lucidamente, quando esqueceu seus laços de sangue em nome desse ato incomum e estonteante. Torturado, angustiado e inspirado. Seguiu escrevendo seus versos vampíricos repletos desses conflitos e angústias por um sentimento tão inadequado e irresistível. Controlou-se, é claro. Pelo máximo de tempo que pôde. No entanto, as asas de uma vida errante produzem névoas bruscas e não fornecem apoio para a negação.  Não obstante, Augusta voltou para casa grávida.

Sim, e os loucos versos de um lorde ensanguentado de amor deram à luz ao mito da criatura das trevas… ou ele já existia, estava à solta, sempre à espreita?

Seria esse reflexo torto e amargurado de Lorde Byron o molde do mito dos vampiros?

 

O mito continuou vagando sem rumo pelos confins sombrios da Terra. Mas ele ainda não tinha nome, identidade. Era apenas nosso pesadelo encarnado, faminto de nós.  Essa relação de dependência brutal e erótica que se estendeu pelos séculos, ganhou glamour e requintes de realeza na forma de um Conde, o qual cravaria seu nome para sempre nas histórias e tornaria-se imortal senão pelo sangue humano, mas pelo seu mito.

O irlandês Abraham “Bram” Stoker foi um escritor bastante conhecido por ter publicado diversas obras de ficção e outros gêneros, mas vamos falar apenas de Drácula.

O livro que tinha como protagonista o vampiro Conde Drácula, sem dúvida trata-se do mais famoso conto de vampiros da literatura. E foi então a principal obra no desenvolvimento do mito literário moderno do vampiro. Agora ele tinha rosto. Um castelo. E o título de conde.

Antes de escrever Drácula, Stoker passou vários anos pesquisando folclore europeu e as histórias mitológicas dos vampiros. Ele sabia sobre as vítimas de Porfiria. E certamente leu o livro que narra as aventuras de Caim.

Drácula tem sido designado como vários gêneros literários, incluindo “literatura de vampiros”, “ficção de horror” e “romance gótico”. Embora Stoker não tenha inventado o vampiro, a influência do romance na popularidade dos mesmos foi singularmente responsável por muitas peças de teatro, cinema, histórias em quadrinhos, séries de televisão e diversas outras interpretações ao longo dos séculos XX e XXI.

E os vampiros sobreviveram, ganharam novas formas e tons, novos conceitos, novos poderes, foram humanizados, aceitos, se tornaram heróis, defensores da humanidade, românticos, amantes e até mesmo… monstros.

Um mito que se transforma e se reinventa constantemente, sempre voltando de seu esconderijo nas sombras para atacar o pescoço indefeso de suas vítimas.

Muitos são rejeitados pelo grande público devido a mudanças muito radicais, enquanto outra parcela das pessoas cultua a mesma versão. Muita discussão e debates enérgicos surgem entre os fãs, cada um defendendo sua própria visão do mito.

Seria inviável citar aqui, tudo o que foi produzido pela Cultura Pop com base no mito dos vampiros. Dos clássicos do cinema como “Nosferatu”, à obras mais modernas como “Deixe ela entrar”, “Entrevista com o Vampiro” (inspirado no excelente livro de Anne Rice, a qual não poderia deixar de citar), “Os Garotos Perdidos”, “A Hora do Espanto”, passando por interpretações e paródias menos densas mas também muito divertidas como “Buffy” e “Angel” de Joss Whedon,  “Tru Blood”, “Supernatural”, “Don Drácula” e claro os quadrinhos onde destaco desde as clássicas histórias de “A Tumba de Drácula”, até as mais modernas “Eu, o Vampiro”, “Preacher” (quem tem no seu elenco o carismático vampiro Cassidy), e “Vampiro Americano” de Scott Snyder e Rafael Albuquerque (um abraço pra você, Rafael!).

Obviamente existem milhares de outros exemplos de como o mito foi e é usado pela mídia, então me desculpem os fãs das obras que certamente deixei de mencionar aqui.

Mas não importa a forma como ele venha, o mito é poético. Nasceu do caldeirão das histórias de amor, ódio, ciúmes e traição. O fato é que Vampiros e poesia estão ligados, e há um pacto secreto de sangue que os levará até os limites da imaginação humana e seus medos primordiais.

Que sejam eternos enquanto durem, então…

 

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37 comentários sobre “O Mito dos Vampiros: Tudo começou com poesia!

  1. Bom texto, Rodrigo! Digno da qualidade d’O Santuário. 🙂
    Muita informação bacana para quem quer se aprofundar no tema e não parar em Lestat, no Drácula dos filmes etc. E mesmo desbravar a literatura romântica, que é muito atraente!

    Algo que seria bacana frisar é a vasta tradição de criaturas “vampíricas”, como a lâmia grega, o vampyr do Leste europeu e outros mitos do tipo, que acabaram se condensando no nosso Drácula (e que aparecem a torto e a direito na série Castlevania).

    Há uma anedota curiosa que assume não Byron como quem forjou a visão atual que temos do vampiro, mas seu médico, John Polidori, com o conto The Vampyre — iniciado na mesma noite em que Frankenstein foi rascunhado por Mary Shelley.

    Posso deixar duas recomendações bem legais? Lá vão:

    O vampiro antes de Drácula:
    http://www.editoraaleph.com.br/site/o-vampiro-antes-de-dracula.html

    Contos clássicos de vampiro:
    http://www.hedra.com.br/livros/contos-classicos-de-vampiro

    Parabéns novamente pelo texto.

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    1. Obrigado pelas suas considerações e elogio, adorei as suas recomendações! O Mito dos vampiro é extenso e repleto de curiosidades históricas, fictícias, e algo intermediário entre elas…

      Abraço!

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  2. olha só!os vampiros sempre estiveram em histórias de caçadas e tal ñ é de admirar que agora vivam escondidos.os humanos(religiosos)jamais aceitariam um ser imortal,super forte e com todos os sentidos aguçados.pode ser lenda?sim,mais como diz aquele ditado”tudo que tem nome existe”é oq eu acho!!!

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  3. ótima matéria, sou fã da mitologia dos vampiros acompanhei uns amigos em vampiro a máscara gostei da idéia do caim mas meu vicio agora é vampiro americano que é muito bom e gostei muito de 30 dias de noite. Humanos caçados como gado muito foda, steve niles escreve muito bela matéria parabénsssssss…….

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  4. Ótimo texto e ótimos versos(os do Byron também são bons)!Aprendi muito sobre a lenda(?!)dos Vampiros.Existe também a lenda de que Caim foi mordido por Lilith(a primeira esposa de Adão,que se mostrou muito independente e foi substituida por Eva),aí ele teria se tornado o primeiro vampiro(já que Lilith só queria lhe passar a maldição).Lendas sobre esse tema fascinante…

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  5. Ótimo texto, boa leitura, e linda homenagem aos nossos queridos amigos vampiros, estou terminando de ler a enciclopédia dos vampiros, boa leitura vaga em algumas coisas mas muito interressante, fica a dica para quem gosta…

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  6. Mais um texto interessante e bem escrito, como todos aqui do Santuário!
    Embora eu bem saiba que não seria possível citar todas as obras inspiradas no tema, eu acho que os livros do nosso compatriota André Vianco mereciam uma menção. Para que não os conhece, eu recomendo!

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  7. /eva e a serpente??!! quer dizer que Adão foi o primeiro corno?? …
    Bela homenagem aos sanguessugas Mr. Garrit! E ainda bem que senhor não mencionou aquela obra porque ali não são vampiros e sim, m… deixa pra lá! Gostei da capa da Tumba de Drácula o que foi uma ótima citação de uma revista de minha pre-adolescência! inclusive eu tinha esse numero da foto! Parabéns!

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  8. Texto muito bom!!!!

    Está de parabéns, o universo Vampírico é bem amplo…
    Mas tenho que admitir que minha preferencia é a mitologia de Vampiro a Máscara e o Mundo das Trevas do RPG!

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  9. Hoje é um dia de folga pra mim do Templo de todos os personagens, mas tive que vir para deixar registrado o quanto fiquei orgulhoso com sua matéria, sacerdote Garrit, muito nos honra, sejamos nós vampiros malditos, um Lost Boy ou só blogueiros vampirescos mesmo.

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  10. “Aguardo tranquilo a estaca, uma certeira estacada neste meu mortal coração, para enfim, no fundo de minha cova, ser recebido pelos que ditaram este livro, O Livro Inominável Dos Vampiros. Tudo que perdi em versos e letras foi restituído neste livro para todos os Imortais e Mortais da Criação. Desencarnarei daqui há muitos anos, ainda há muito que realizarei neste mundo, Eles, os que ditaram este livro, agora dizem-me… Viverei ainda esta morte que tanto me assombra e que entorpece a todos os iludidos com as vestes materiais… Viverei morto ainda alguns muitos anos além, a linha da vida em minhas mãos revela-me que tenho que viver esta morte ainda muito tempo a mais… Viverei morto ainda mais, bebendo do sangue poeticamente vertido em meus sentidos imortais… Viverei morto ainda mais, poeticamente sendo sugador de todas as Verdades Universais que puder sorver… Viverei morto ainda mais, vampiricamente bebendo do Kosmos a minha imortalização através da poesia e da escrita que inominavelmente são estacas perfurantes de todos os olhos mortais!”

    Inominável Ser
    in: O Livro Inominável Dos Vampiros – Epílogo

    O trecho foi postado em agradecimento ao belo texto acima divulgado. Ele dá um pouco da dimensão do que é possuir um sede que não pode ser nomeada nem mesmo com o humano termo “Vampirismo”; é uma sede que se encontra muito além de qualquer convencionalidade humanamente conhecida e concebida. O que foi dito acima sobre a origem poética do Vampiro é uma imensa verdade e mergulhar nesse imenso mundo, poeticamente falando, é uma conduta bastante saudável.

    Este Coveiro, este cadáver, saúda-te, Garrit!

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  11. Gostei muito Garrit! curti muito a forma como vc “viajou” através da trajetória da ideia de vampiro, em meio a autores, suas obras e a cronologia real… muito bom:)

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    1. Obrigado Thais… Sobre Lorde Byron, quando pesquisei a vida dele, vi que tinha muito mais ali do que eu pensava, e sua vida e suas obras transcendem apenas os versos góticos. Ao mesmo tempo, quanto mais me aprofundava na biografia dele, mas via como ele era indispensável para esse texto. Ele merecia um um artigo exclusivamente dele, a história da vida dele é muitíssimo interessante.
      Bjs!

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  12. Brilhante! Mas não da maneira errada 😉

    Esse Rodrigo merece parabéns pelos versos. =)

    Sou apaixonada pelo mito do vampiro, tenho em minha lista de lugares a visitar alguns cemitérios e castelos na Europa… Além de colocar minhas lindas patinhas em tudo que posso referente ao assunto.

    =D

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    1. Entendi, entendi… e note que não falei mal nem bem de Crepúsculo, Vampire Diaries etc… respeito a opinião das pessoas, mesmo quando não concordo… Muito obrigado e por favor, quando fizer essas viagens me manda um cartão postal, ok?
      Bjs!

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