AZUL PROFUNDO de Warren Ellis: “O mundo não deveria ser assim”.

BLUEResenha da minissérie “Azul Profundo” (Dark Blue) de Warren Ellis (roteiro) e Jacen Burrows (arte).

Contém spoiles revelações que podem ser reais ou apenas delírios sobre a história.

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Por Rodrigo Garrit

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O policial Frank Christchurch está obcecado em prender um serial killer que vem cometendo assassinatos bárbaros com requintes de crueldade. Mas toda a cidade vive tempos de violência extrema, e as drogas contaminam tudo o que existe. Os métodos de Frank estão ficando cada vez mais brutais, e ele se aproxima do limite entre o cumprimento da lei e a total banalização dos conceitos de civilidade. Em sua busca frenética, a solução desse caso parece ser o que dá seu sentido ao seu mundo, e quando o assassino começa a exibir habilidades inexplicáveis, a própria realidade desaba sobre ele, fazendo-o questionar o sentido de sua cruzada e o quanto será preciso sacrificar para obter êxito em seu propósito.

Essa história foi escrita por Warren Ellis para a editora Avatar Press e publicada em meados do ano 2000, depois do lançamento do filme “Matrix” que estreou em 1999, mas Ellis conta no posfácio da edição que teve a ideia cerca de dez anos antes, lendo um artigo sobre certas substâncias alucinógenas shamânicas utilizadas em alguns círculos hippies, e que curiosamente, “transportavam” o usuário da droga para o mesmo delírio… é como se a tal substância tivesse uma codificação em sua estrutura que levasse indivíduos diferentes em suas mentes anestesiadas para a mesma viagem… no mesmo lugar! Ellis admitiu ter usado drogas nesse período, mas para quem acha que isso o ajudou a ser um escritor melhor, ele explica: “Na Inglaterra, no final dos anos oitenta e início dos noventa, todos nós usávamos drogas mesmo quando não estávamos dançando…” “… (Leia acima sobre querer apenas ingerir um monte de Ecstasy e dançar a noite inteira num campo ao lado de uma rodovia. E depois ficar estropiado numa cama por três dias resmungando que não tem mais fluído em sua espinha dorsal). (Eu tenho saudades do final dos anos oitenta e início dos noventa da mesma forma que outras pessoas têm saudades do câncer)”.

O tal artigo sobre a experiência  de uma “realidade narcótica compartilhada”, chamada por Ellis de “Narcoespaço”, foi então a semente do que viria a se tornar “Azul profundo”, dez anos depois. O Narcoespaço é o equivalente da realidade virtual apresentada no filme Matrix, embora as semelhanças terminem por aí. Mesmo que tenha havido alguma influência de uma obra sobre a outra, vale dizer que ambas têm suas características próprias e não invalidam sua qualidade mútua. Claro, existe a polêmica envolvendo o filme Matrix com a HQ “Os Invisíveis” da Vertigo, criada por Grant Morrison… há quem diga que o filme usa descaradamente os conceitos apresentados na HQ… mas isso é uma outra história…

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Warren Ellis, mesmo há dez anos (ou talvez por causa disso) já era habilidoso e vanguardista. (“Vanguardista” é uma palavra que remete a modernidade, mas me soa como algo antigo, algo que meu bisavô diria… enfim…).

A Avatar Press tem sua reputação de conceder liberdade criativa total e nenhum pudor aos seus autores. Essa história não foge à regra e embora não traga cenas tão bizarras e repulsivas com as da HQ “Estranho Beijo”, também de Ellis, tem lá a sua cota de momentos “Ok, isso foi nojento”.

A minissérie foi publicada no Brasil na íntegra em um especial pela Pandora Books, e trata-se de uma história acima da média em comparação a maioria das coisas que são feitas atualmente, porém nada tão impactante como “Planetary”, que na minha opinião é o melhor trabalho da carreira de Ellis e uma das melhores HQs de todos os tempos. É possível que na época, “Azul Profundo” tenha causado muito mais alarde, mas hoje em dia o conceito “Matrix” de realidade secundária não impressiona tanto. Dito isto, é uma boa história de ação, com o selo Warren Ellis de qualidade. E isso já vale muito!

Infelizmente ela foi desenhada por Jacen Burrows… e eu gostaria de explicar isso com muita cautela: ele não é um desenhista ruim. O problema dele é simplesmente a falta de personalidade. Ele não está imitando o estilo de nenhum outro artista… simplesmente não há estilo. Sua arte é composta por um traço padrão, muito bem feito, com técnica e ótimas noções de perspectiva e anatomia humana. Só que suas histórias parecem manuais de como desenhar quadrinhos, sem nenhuma faísca de ousadia. É uma pena que com o tempo, isso não tenha mudado… cerca de dez anos depois ele desenharia a minissérie “Neonomicon” de Alan Moore, também para a Avatar…  com a mesma técnica precisa, porém ainda com ausência de uma alma nos olhos de seus personagens.

Mesmo sendo Warren Ellis, tinha minhas reservas quanto a essa história, mas por fim, o saldo acabou sendo positivo.

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TARDIS

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15 comentários sobre “AZUL PROFUNDO de Warren Ellis: “O mundo não deveria ser assim”.

  1. Lembro quando Azul Profundo saiu. Foi no início da Pandora Books. Para ser sincero, e sei que despertarei a ira de alguns, Warren Ellis sempre foi um escritor decepcionante na minha modesta opinião.
    Explico: ele tem ótimas ideias e conceitos de tramas absolutamente fantásticas e as desenvolve muito bem, sendo também um dos melhores redatores de diálogos da indústria (nesse quesito ele se iguala a Garth Ennis, J. M. DeMatteis e Peter Milligan), MAS ele não sabe terminar suas histórias. Posso dar alguns exemplos disso:
    = Fell (com Ben Templesmith) ficou emperrada na #09;
    = A tão incensada (com méritos!) Planetary tem um encerramento que mais parece um cancelamento abrupto de revista por baixa vendagem;
    = Transmetropolitan tem um final ridículo (não vou contar, mas se alguém tiver curiosidade é só pesquisar);
    = A sequência “Strange Kiss/Kisses/Killings…” ele começou muito bem mas foi se perdendo no próprio conceito e chegou ao cúmulo de lançar um título ongoing (Gravel) derivado do protagonista dessas minisséries onde Warren Ellis só está mesmo na capa, mas quem responde por tudo na revista é o Mike Wolfer;
    = Stormwatch foi muito bem desenvolvida, mas quando Ellis saiu ficou um samba do crioulo doido que ninguém conseguiu dar jeito por algum tempo.
    Acredito que Ellis seja um dos melhores escritores de minisséries da atualidade, mas ele não consegue manter o foco em algo com mais de seis edições. Talvez a exceção seja Frequência Global, uma maxissérie em 12 edições, onde ele quase conseguiu fazer um encerramento legal.
    Quanto ao desenhista, acredito que as críticas em relação à arte dele sejam válidas… mas isso é uma questão de gosto pessoal. Eu por exemplo acho a arte dele muito competente e bem acima da média do que é produzido hoje. Talvez se ele permitisse que um arte finalista decente (John Stokes, Terry Austin ou o veterano John Beatty, quem sabe) desse uma “ajeitada” na arte dele a coisa fluísse com mais emoção.

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  2. Não tinha ouvido falar desse revista.
    Ellis pra mim está no mesmo patamar de Garth Ennis: mesmo sendo fraco / razoável ainda sim é interessante e vale o $$ para se ter na estante.
    Procurarei.
    E pessoal, melhorem o sistema de comentários.
    Esse do WP é muito ruim.

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  3. Já vi essa hq bem baratinha em um sebo, e na Fest Comix. Acabei nunca comprando porque sempre acabo levando algo que considero “mais importante”. Culpa do desenhista ruim. É o mesmo que fez Estranho Beijo? Se for, ele estragou o prazer de ler aquela história. hahaha
    Mas, fora isso, afinal, eu compro hq’s pela história, e não pra ver os desenhos, tenho curiosidade em ler essa hq, como tenho pra ver tudo do Ellis. Mas eu não sabia como eram os detalhes da trama. Agora, na próxima Fest Comix, se ainda tiver algum exemplar a ver, ai ser meu.

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    1. Lexy, na verdade não é mesmo de Estranho Beijo, lá o desenhista foi Mike Wolfer, mas é do mesmo naipe. Jacen Burrows fez “Neonomicon” de Alan Moore também para a Avatar… enfim, Azul Profundo teria sido muito melhor nas mãos de um desenhista mais ousado, mas a história vale a pena.

      Abraços!

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  4. Warrem Ellis é um grande escritor,a origem que ele criou pro Thor e os Asgardianos,pra mim é definitiva(a de que eles são alienigenas com uma tecnologia tão avançada que se confunde com magia,e que não se sabe se eles influenciaram os Vikings ou foram influenciados por eles).Essa história “Azul Profundo” é mais uma de suas brilhantes criações.Ótimo texto,Rodrigo

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    1. Ellis é dos grandes autores de HQs , tendo feito muitas coisas dignas de nota, incluindo Planetary que é Tudo Na Vida Das Pessoas… a gente brinca dizendo “o que esse cara fumou”?, mas a verdade é que tudo vem de um talento nato e as drogas só atrasaram a vida do cara, como ele conta no posfácio de Azul Profundo.

      Valeu meu amigo! Abraços!

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  5. Não poderia ter sido mesmo escrito por Warren Ellis se não tivesse na história um ou outro momento: eca!!! Ainda mais sendo publicada na Avatar. Mas eu gosticho, fora que “Planetary”, uma das melhores HQs de todas as Terras paralelas, lhe concede plenos poderes de viajar na nojeira, como “Watchmen” concede a Moore ou “Preacher” do Garth Ennis. Muito boa a matéria! E antes que alguém reclame que Ellis chupinhou Azul Profundo de Matriz (não foi o caso, lógico), Matriz chupinhou seus conceitos da filosofia budista na minha humilde opinião, pasmem…

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  6. Enredo interessante apesar de Matrix! O desenho é bom mas as expressões deixam a desejar, fazendo lembrar certos “atores” globais e alguns hollyoodianos que não conseguem mover um músculo do rosto enquanto interpretam cenas ou personagens diferentes.

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    1. Eliel, depois de ler o seu comentário, eu parei pra reparar as quatro imagens que usei para ilustrar a resenha, escolhidas aleatoriamente… em cada uma delas, o personagem está numa situação diferente, mas a expressão do seu rosto é praticamente igual… a técnica é muitíssimo importante, mas às vezes apenas técnica por si só e sem nenhum sentimento, resulta em trabalhos frios… não desmereço a qualidade do trabalho de Burrows, mas fica registrada a minha constatação…

      Abraços!

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