HELL ETERNAL de Jamie Delano – “A revolução interna é a primeira guerra que se deve vencer'”.

hell eternalUma análise da obra “Hell Eternal: Inferno em vida” da Vertigo. Escrita por Jamie Delano, desenhada por Sean Phillips e colorido por Matt Hollingsworth, que também fizeram a capa. Publicada no Brasil em 1999 pela Brain Store Editora, em uma edição de 64 páginas com a história completa.

Trata-se de uma obra de ficção, e qualquer coincidência com fatos reais ocorrendo atualmente pelas ruas do Brasil é mera semelhança.

Este artigo contém spoilers revelações ultrassecretas e em código.

S_Final

Por Rodrigo Garrit

Jamie Delano já é consagrado por seus diversos trabalhos dentro do selo Vertigo, com destaque para sua passagem espetacular pelo título Hellblazer, estrelado pelo mago John Constantine. Em Hell Eternal, ele foge do tema sobrenatural e nos mostra uma realidade crua e intensa, repleta de situações que se passam em um mundo bem real, mas prova que não é preciso invocações de magia negra para mergulhar algumas vidas em trevas…

O texto é dinâmico e a história é estonteante do começo ao fim. A protagonista tem muito carisma, e vivemos junto com ela cada pedaço de seus dramas e prazeres, compartilhando de forma muito próxima de seus problemas e sua intimidade.

Os desenhos de Sean Phillips nos retratam com fidelidade a trama imaginada por Delano, e fazem uma caracterização magistral de todos os personagens. Seu traço contém uma interpretação fiel dos sentimentos deles… é o tipo de desenhista que consegue traduzir sentimentos sem a necessidade de intermináveis legendas explicativas.

Na trama, somos apresentados a jovem inglesa Anne, que nunca fez questão de se enquadrar em nenhum padrão estabelecido pela sociedade. Ao conhecer e se encantar por Sarah, sentiu que deveria seguir os passos dessa paixão, mas Sarah por sua vez se envolveu com David, que tinha outros planos revolucionários para o mundo…

A revolução interna é a primeira guerra que se deve vencer. Todo o resto é ilusório, toda causa é efêmera se ela não nos move o coração. Mas coração demais pode mover engrenagens que nunca deveriam ser tocadas e nos levar a atravessar atalhos sombrios na estrada.

É tudo uma questão de contexto? É tudo uma questão da natureza que nos define? O que é viver, senão viver intensamente, forçar todos os limites e morrer jovem e no auge, antes que tenhamos tempo de nos arrepender… tempo de desfrutar os detalhes importantes que a constante busca por satisfação não nos permite enxergar… intensa e auto –destrutivamente, e aproveitar ao máximo a vida…

Caso contrário é melhor nem viver?

Os jovens são imortais, é claro. À prova de balas e de regras. Cada um sendo o próprio centro do universo, aquele que trará a revolução ao mundo, desmontará o sistema opressor que escraviza o planeta e nos trará anarquia, liberdade e utopia. Sim, mesmo que todos esses ideais sejam enterrados com eles em seus túmulos antes dos 30. Para algumas pessoas não basta viver, é preciso subverter os conceitos inerentes ao ato de estar vivo. Por amor ou por aprovação. Para se sentirem menos insignificantes. Para não passarem despercebidos. Para deixarem sua marca no mundo. Jovens revolucionários, aprendendo a fazer bombas caseiras pela internet, formando grupos de camaradas que compartilham os mesmos ideais, os quais são exaustivamente discutidos em pomposas reuniões regadas a álcool e algumas pílulas da alegria. E nada menos do que a solução de todos os problemas do mundo é encontrada nesses núcleos de questionadores inconformados.  Então eles fazem planos, armam seus esquemas… um pequeno atentado sem vítimas inocentes, alguns roubos estratégicos e espionagem em grandes corporações a fim de mostrar a verdade hipócrita e esfrega-la na cara do mundo. Quem poderia recusar uma oportunidade dessas? Poder para o povo! E a chance de entrar para a história! Destituir os poderosos e fazer com que cada cidadão seja livre para conduzir sua vida da forma que desejar sem precisar prestar contas a ninguém, sem mais cobranças, sem mais regras sem sentido, repressoras, castradoras. E então, o que fazer quando o mundo for consertado? Anarquia e livre arbítrio.

Viva a revolução!

Então, o que parecia tão bom sendo discutido naquelas longas reuniões iluminadas por cerveja e drogas, na prática começa a parecer um tanto mais complicada do que se imaginou… mas mesmo assim eles não desistem, são visionários, sonhadores… são especiais, eles nasceram para mudar o mundo. Eles não vão desistir. O plano é perfeito e eles já fizeram muitos contatos influentes, com muitos outros que pensam como eles. Existe um verdadeiro exército de internautas apoiando sua causa. Grupos neonazistas espalhados pelo mundo, prontos para atacar, aguardando apenas alguém que os guie rumo a purificação global e a ascensão da raça ariana.

Acreditar firmemente em um ideal, não significa necessariamente que o mesmo seja justo. Sim, é preciso, lutar, mas essencialmente, é preciso saber pelo quê lutamos, a fim de que não nos tornemos monstros piores do aqueles que nos propomos a enfrentar. A verdadeira revolução deve vir de modo pacífico, com ideias coerentes e a mudança positiva da consciência e dos valores humanos.

Algumas pessoas, entretanto, optam por “mudar o mundo” através da violência e vandalismo insensatos. Mas então as bombas explodem. A voz falha,  as mãos tremem. Armas são disparadas, pessoas são mortas, outras são presas. Gente demais se machuca. O grande exército virtual inexplicavelmente fica off line. Contatos “quentes” se tornam inacessíveis.  E o mundo perfeito idealizado se afasta de órbita, em colisão direta com o sol.  Alguns caminhos não têm mais volta. Não depois de todo aquele sangue e gritos. Depois da adrenalina da fuga, e certamente depois de ser pega, espancada e violada. Então o que lhe resta é se submeter a seus carcereiros, trabalhar para o inimigo, trair seus antigos “companheiros”. Mas o mundo, a essa altura, já virou do avesso. Nunca houve inimigo além daquele criado por suas teorias sem fundamento, seus preconceitos débeis.

Anne só queria ser parte de alguma coisa, queria ser notada por aquela que tanto ama. Porque no final de tudo, essa é uma história de amor.

Mas alguns caminhos não têm mais volta.

Um conselho: Quando chegar ao ponto em que seu melhor amigo for uma arma de calibre curto que atende por “Ruger”, pode chutar o balde. A perda da sanidade é o menor dos seus problemas. Havia um futuro antes, sabe? Havia uma chance… viver dentro do sistema, um emprego chato, um marido com ejaculação precoce e um salário medíocre… alugar filmes em noites de sexta, talvez até mesmo passar no cinema algumas vezes. Arrumar uma amante, fumar um baseado para relaxar. Comprar um liquidificador. Pagar as contas e não esquecer o suco de laranja light. Mas esse caminho ficou perdido em alguma curva, em algum ponto obscuro, quando uma escolha foi feita de forma inconsciente. Seria uma tendência suicida? Isso tudo foi apenas para chamar a atenção? De quem? E quem se importa a essa altura? Esse é o fim e ela sabe. Uma última canção então, pelos velhos tempos. Para lembrar o quanto foi divertido flertar com o perigo. Ela diz que tudo valeu a pena. E faria tudo de novo. É durona demais para admitir para “Ruger” que está arrependida. Menina gótica e estranha do colégio. Por um mero segundo ela imaginou como seria usar uma maquiagem que não enegrecesse seus lábios… usar um vestido azul piscina na baile de formatura, onde ela dançaria com Sarah ou David ou quem sabe até mesmo com alguma moça proeminente que viria a ser tornar médica ou webdesigner.  Porque o delírio de imaginar um mundo livre de preconceitos e que a aceitasse como ela é, nem mesmo lhe ocorre. Mas nada disso a machuca mais do que o fato de que nesse momento decisivo, ela realmente se arrepende. Afinal, por que ela teria deixado recado na secretária eletrônica dos pais se não sentisse nada? Mas o que eles poderiam fazer a um continente de distância?

Ela nunca esmoreceu, nem por um segundo. Mas a grande e cruel verdade, é que no fundo, não foi nada disso o que ela havia planejado. Anne apenas agiu de acordo com a sua natureza. Quem poderia culpa-la?

Mas sim, ela teria feito tudo diferente.

Agora é tarde, paciência. Eles que venham então. Ela e Ruger estão prontos. Como nunca estiveram antes. Eles que venham. Malditos fudidos do caralho.

Inferno de vida.

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17 comentários sobre “HELL ETERNAL de Jamie Delano – “A revolução interna é a primeira guerra que se deve vencer'”.

  1. Delano é foda! Só de ler o nome dele eu já me lembro de dois momentos geniais da fse dele em Hellblazer: os demônios comemorando a reeleição de Margaret Thatcher e a conclusão do arco “Máquina do Medo”, quando Constantine faz um ménage a trois pra salvar o mundo!!!
    E o texto, por sinal, está excelente! Esse tom intenso de escrita, apaixonado até, mostra quão profundamente o resenhista imergiu na estória.

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  2. “Um conselho: Quando chegar ao ponto em que seu melhor amigo for uma arma de calibre curto que atende por “Ruger”, pode chutar o balde. A perda da sanidade é o menor dos seus problemas.” Poxa Garrit, pelo menos é uma arma, não um dos 40 macacos de brinquedo da coleção de algum bastardo psicótico… Ótima resenha , mais uma vez e sempre! E o melhor??? JAMIE DELANO vem ao Brasil esse mês, numa Comiccon em São Paulo!

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    1. Lembrando que macacos também podem ser mortais… AHHH, o Jaime vem ao Brasil, eu sei… ele vai ler minha resenha (com ajuda de um intérprete, evidentemente) e com certeza discutiremos mais profundamente algumas dessas questões tomando uma cervas ali pela praia de Ipanema… vai ser tão bom………….! =)

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  3. porra cara sempre passava batido dessa hq.Peguei nela várias vezes mas sempre comprava outra coisa vlw por mais uma dica felizmente ela ainda é fácil de achar……

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    1. Eu sei que as vezes é complicado comprar uma revista da qual a gente não sabe quase nada, apesar de ter o selo Vertigo (que nem sempre é garantia de uma boa história) e ter sido escrita por Jamie Delano (que quase sempre é garantia de uma boa história. Mas da próxima vez que se deparar, consider com carinho… é uma leitura muito boa.

      Abraços!

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    1. Essa história meio que passou batida mesmo, não lembro de ter lido muito sobre ela, mas ao me deparar com a obra, vi que tinha a grandeza de outros trabalhos de Jamie Delano. Fico feliz que tenha curtido!

      Abraços!

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