Os mutantes e suas máscaras: conheçam (ou relembrem) os X-Men de Joss Whedon e John Cassaday!

Uma resenha de “Surpreendentes X-Men: Superdotados”, de Joss Whedon (roteiro) e John Cassaday (desenhos).

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Por Rodrigo Garrit

É muito difícil para mim escrever uma resenha sobre essa fase específica dos X-Men sem parecer um fã deslumbrado. Mas vou tentar.

Os mutantes acabavam de sair das garras de Grant Morrison, que como de costume em seus trabalhos, virou personagens e conceitos do avesso. A fase Morrison mostrou novas e boas formas de contar histórias sobre os filhos do átomo. Houve uma confluência com os filmes do cinema, o que na época – meio que – alinhou essas mídias, pelo menos esteticamente.

Com a saída de Morrison, coube ao novo roteirista dar prosseguimento ao bom trabalho deixado por seu antecessor e manter o alto nível das histórias. Isso é o que provavelmente a maioria dos roteiristas buscaria fazer. Mas, na contramão da obviedade, eis que a Marvel contratou Joss Whedon para assumir o posto.  E ele manteve o alto nível das histórias, mas sem continuar o trabalho de Morrison.

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Hoje em dia Whedon é figurinha fácil nas notícias sobre nerdices e afins. É a uma das mentes responsáveis pelo bem sucedido filme dos Vingadores, que gerou uma série derivada, Agentes da Shield, também sob a batuta de Whedon. Mas também não deve ser difícil lembrar que ele já transita nesse mundo há tempos, sendo o criador de séries hoje tidas como grandes divisores de águas na televisão mundial, como Buffy, a caça-vampiros e seu spinoff Angel, além das séries Firefly  (ou “Serenity” se preferir), e Dollhouse, além dos quadrinhos baseados nas séries. Se tiverem a oportunidade, não deixem de assistir as incríveis aventuras do Dr. Horrible!

É muito importante que um autor saiba expressar o tom de suas histórias, ao mesmo tempo respeitando toda a longa bagagem anterior deixada por seus colegas, mas acrescentando algo que faça de sua narrativa algo único. Um bom exemplo para ilustrar o que estou querendo dizer , é a Mulher Maravilha. Ele foi espetacularmente reformulada por George Pérez nos anos 80, que fez a amazona recuperar seu alto grau de importância, sendo parte da trindade máxima da DC, junto com Superman e Batman. Anos depois, Phil Jimenez, outro artista altamente elogiável, assumiu o cargo de roteirista/desenhista da princesa Diana, trabalho que executou com maestria. Eu sou fã de Jimenez, mas se existe uma crítica a ser feita, é a de que ele prosseguiu o trabalho de Pérez, quase que ao pé da letra. Jimenez é notadamente um “discípulo” do veterano George Pérez, e seu trabalho merece toda a reverência dos fãs. Eu nunca poderei dizer que o que ele fez foi ruim. Ao contrário, sou capaz de reler toda a fase da princesa produzida por ele com o maior prazer. Mas o que posso dizer, é que Jimenez diluiu seu próprio ego, tornando-se a continuidade quase perfeita de Pérez. Para nós, leitores, isso é ótimo. Para ele, como autor, sinto que faltou falar usando a sua própria voz. Emulando o mestre, ele não correu riscos, não se expôs. Tempos depois, Greg Rucka e atualmente Brian Azzarello, escreveriam algumas das melhores histórias da amazona, não estando à sombra de ninguém.

Alan Moore, em seu documentário “The Mindscape of Alan Moore” de 2003 disse que o artista não deve dar ao público que ele quer, mas sim o que ele precisa.

Voltando a Joss Whedon e os X-Men, é visível como ele Imprimiu sua personalidade,  e não teve medo de mudar aquilo que teoricamente, já estava funcionando. Ele fez os personagens voltarem a usar colantes coloridos depois de tanto tempo vestindo couro preto. E ressuscitou seus X-Men preferidos para integrar essa nova fase, ainda que nem todos estivessem necessariamente mortos. Foi o caso de Kitty Pryde, personagem resgatada de um passado brilhante e trazido de volta aos holofotes. Whedon confessou que sua maior criação – Buffy, a caça vampiros – foi inspirada em Kitty, assim sendo, usar a personagem em sua empreitada pareceu algo irresistível demais para ele. De forma mais literal, ele ressuscitou de fato o Colossus, que havia se sacrificado para proteger os mutantes do vírus legado. Geralmente sou pouco entusiasta das frequentes ressurreições de personagens de quadrinhos, mas nesse caso específico, dou graças a Deus por Whedon ter feito isso. Por outro lado, também agradeço por ele ter aproveitado certos aspectos da fase Morrison, tendo mantido a revitalizada Emma Frost em seu bando, e principalmente o alto nível de sarcasmo e genialidade sendo proferidos pelo Doutor Henry McCoy.

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Voltar ao começo. Respeitar os clássicos. Não negar o presente. Estar preparado para o futuro. Costurar tudo de modo a fluir sem impactar profundamente nada que tenha sido dito antes. Essa parece ter sido a fórmula certeira usada por Joss Whedon para triunfar em sua aclamada passagem pelos mutantes mais incompreendidos do planeta.

Acredito que já fazem alguns anos; os quadrinhos atingiram um novo status, onde não é mais possível fazer as pessoas acreditarem na ingenuidade de valores abordados nos anos 70 ou antes, mas ao mesmo tempo, é preciso que habilidosamente, possamos ser ludibriados a acreditar em seres com poderes especiais usando trajes extravagantes para salvar o mundo. Uma linha muito tênue separa o épico do ridículo.

Feliz do autor que souber caminhar por essa linha sem tropeçar.

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10 comentários sobre “Os mutantes e suas máscaras: conheçam (ou relembrem) os X-Men de Joss Whedon e John Cassaday!

  1. Cara, sempre passo por aqui,e aprecio a qualidade dos textos e dos comentários. Apesar das individualidades, divergências entre as preferências,vemos que existe muito em comum entre nós, admiradores desta arte!

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  2. Na época eu torci o nariz. Depois de anos chapando com o Morrison ter que aguentar a volta dos uniformes coloridos e ainda mais com um cara que escreveu Buffy e Angel. Caça Níquel na certa. A vampirização dos Xmen (já que o Kirkman tava zumbilizando todo mundo na Max). Acompanhei só o primeiro ano (depois disso larguei de vez dos quadrinhos) mais pela arte do Cassaday que barbarizava no Authority, veio de vento em popa no Capitão América e estava sendo chamado de o novo queridinho da Marvel.
    Ddivertiu é verdade. Mas prá mim ficou só nisso.

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  3. Parabéns Rodrigo,
    essa resenha resume bem o trabalho feito por Whedon nos x-men, pena que foram poucos arcos com ele como escritor.

    e o que falar da arte de Cassaday ?
    deslumbrante, para mim ele estava no auge de seus desenhos nessa época, mesmo tendo uma boa fase no Planetary.

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  4. Morrison é polêmico e genial,mas também gosto das histórias de Whedon,que sabe como escrever um roteiro empolgante!

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