As estranhas metáforas do destino: Triunfo e Tormento de Roger Stern e Mike Mignola!

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Resenha de “Doutor Estranho & Doutor Destino – Triunfo e Tormento”, de Roger Stern (roteiro), Mike Mignola (desenhos) e Mark Badger (Arte-Final).

Contém spoilers visões proféticas sobre a história.

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Por Rodrigo Garrit

Imagine dois elementos químicos opostos. Enxofre e mercúrio. Junte-os em alquimia. Destile-os em magia. E depois responda onde começa a escuridão e onde termina a luminosidade. A resposta é…

Em algum ponto desconhecido do Himalaia, um antigo e poderoso mago conhecido como Genghis, recebe uma inspiração divina que o faz convocar todos os maiores magos do planeta para um torneiro cujo vencedor se sagrará como o mago supremo da Terra. Entre os escolhidos, está o Dr Stephen Strange… vulgo Dr. Estranho e também Victor Von Doom… vulgo Dr. Destino. O Dr Estranho vence, ao trocar a força bruta pela leveza de um toque. Mas o ritual exige muito mais do que receber o título de mago supremo, é preciso que uma dádiva seja concedida, mas não ao vencedor. O novo detentor do manto de Mago Supremo precisa conceder uma dádiva ao último mago derrotado, aquele que dentre todos tenha resistido até o fim do torneio de pé. O mago em questão não é outro senão o maligno Dr. Destino. Embora tenha trapaceado ao utilizar secretamente sua tecnologia somada à magia, Von Doom atinge a proeza. E o Dr. Estranho é obrigado, muito a contragosto, a lhe conceder uma dádiva.

Mas ao contrário do que se poderia imaginar, Destino faz um pedido altruísta, mas nem por isso fácil de ser realizado: ele quer que Strange o ajude a libertar a alma de sua mãe, presa no inferno após um pacto profano firmado com Mefisto.

“Triunfo e Tormento” trata-se de uma versão super-heróica do clássico da mitologia grega “Orfeu” levado ao extremo, guardadas as devidas proporções épicas. O resgate de uma pura donzela das profundezas nefastas do inferno é algo recorrente na literatura, de forma literal ou nas mais diversas metáforas, porém geralmente quem empreende tal jornada é um homem puro, um campeão de valores inabaláveis. E não um dos piores vilões do universo.

Diante do pedido considerado razoável, Strange aceita ajuda-lo, mas além das óbvias dificuldades de se invadir o inferno de Mefisto e resgatar uma alma debaixo de suas barbas, há ainda o agravante de ter como seu parceiro nessa empreitada alguém traiçoeiro e manipulador como o Dr. Destino. E embora lutem lado a lado contra um inimigo comum, fica sempre a dúvida sobre quais as reais intenções do soberano da Lativéria, e a pergunta principal não é “se” ele poderá apunhalar o Dr. Estranho pelas costas a qualquer momento, mas “quando” fará isso.

Claro que apesar de altruísta, o pedido de Von Doom não foi isento de certas vantagens para ele. Antes de iniciarem a jornada, Strange precisou treiná-lo em várias artes místicas, aperfeiçoando ainda mais seu conhecimento arcano sobre a magia negra. E ele se mostrou um aluno extremamente aplicado, que certamente saberá fazer bom uso desse aprimoramento em ocasiões futuras, considerando que saíra ileso do Hades.

No decorrer da história somos apresentados de forma muito agradável às origens de ambos, que revela um pedaço importante do passado da infância de Victor, e como as ações de sua mãe influenciariam o homem que ele viria a se tornar. No caso de Stephen, o que vemos é o médico de sucesso, arrogante e egoísta passando por um forte trauma que o faz reavaliar todo o sentido de sua existência, abandonando o apego material e dedicando-se exclusivamente para a espiritualidade, levando-o a percorrer o caminho que faria dele o Mago Supremo da Terra.

Mefisto é o vilão clássico que rouba a cena e a alma de todos que pode. Por mais que isso soe contraditório, ele é carismático em sua maldade, o verdadeiro arquétipo da encarnação do mal… ele é o diabo, e suas diabruras são o que esperamos dele. Nisso Mefisto não decepciona. Suas maquinações no passado, quase dão a entender que o pacto que fez com Cynthia Von Doom já tinha como objetivo “fabricar” o grande déspota que seu filho Victor se tornaria.

Desenhada por qualquer outra pessoa, essa história seria uma passagem memorável na trajetória dos personagens. Mas feita por Mike Mignola, essa edição se tornou um clássico eterno, que consagraria a artista, vinculando para sempre seu traço a HQs de cunho sobrenatural, numa perfeita alquimia, que seria elevada ao seu mais alto grau de pureza quando tempos depois ele trouxesse o Hellboy para o mundo dos quadrinhos…

Um épico místico, “Triunfo e Tormento” não se dá ao trabalho de aprofundar-se seriamente no tema da magia, mas remonta belamente o clássico resgate dantesco de uma alma perdida no inferno.

E nos mostra o quanto a complexidade humana pode levar o bondoso Stephen Strange a atos de cruel insensibilidade, ao mesmo tempo que nos revela uma rara lágrima de emoção escorrer pelo rosto do perverso Victor Von Doom. Mercúrio e enxofre.

Elementos químicos unidos por magia e destinados a nunca serem totalmente compreendidos.

S_Final

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Na semana anterior, aqui no Santuário…

semana#3

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17 comentários sobre “As estranhas metáforas do destino: Triunfo e Tormento de Roger Stern e Mike Mignola!

  1. História sensacional… e pra complementar deixo aqui uma sugestão… leiam essa maravilhosa odisséia ouvindo como trilha sonora, a música do barão vermelho “o poeta está vivo”. Aí sim vocês vão perceber o quanto é profunda a experiência de acompanhar esses doutores até mais remotas regiões do inferno em busca da alma da mãe do Von Doom.

    Cara até hoje quanto ouço essa música, penso nessa HQ, pois pra mim essa combinação foi uma experiência única em minha pré-adolescencia 🙂

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  2. Cara, pra mim esta graphic junto com A Era Metalzóica esta entre as melhores que tenho na coleção.
    A história é muito boa e junto com os desenhos do Mignola, que aqui esta muito inspirado, tornam esta obra essencial:D
    Muito bom mesmo.
    Baita texto cara:D
    Estou pra fazer uma resenha dela lá no Palitos deste a fundação do blog e nunca me cocei, ams depois desta tua nem preciso mais, já falou tudo:)
    Abs cara.

    http://www.palitosnerds.blogspot.com

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  3. Um dos melhores trabalhos de Roger Stern e concordo com você quanto ao fato de ter o Mignola na arte faz com que ela seja imortal. O que dizer dessa revista? No meu TOP 5 das edições especiais que mais amo, ela é a número #1 !!!
    Salve mestre Von Doom!!!! Salve TRIUNFO & TORMENTO !!!

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  4. História sensacional,reunindo dois dos mais poderosos magos da Marvel:Os Doutores Destino e Estranho!Claro que o Dr Destino sempre tem um motivo oculto:Se não conseguir trazer a alma da mãe de volta,pelo menos aprimorou sua magia com o Dr Estranho(carinha esperto!).Os desenhos de Mignola estão ótimos,a edição é mesmo um clássico!Valeu por lembrá-la,Rodrigo!

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  5. Eu “estranhamente” conheci esta HQ num livro de português (ainda em minha tenra infância) que fazia alusão ao título da mesma para apresentar um exemplo do que se discutia no capítulo (que me foge à memória). Lembro que sempre tinha muita curiosidade de ler esta HQ. Muuuuitas translações terrestres depois, encontrei esta HQ num sebo… não pensei duas vezes e abracei a mesma e fui correndo em direção ao caixa de modo a assegurar sua garantia. E como é magnífica esta revistinha. Muito bem escrita… arte primorosa… o modo como se trabalha as personagens e suas motivações…

    Uma pena que hoje coisas assim são raras… interesses mercadológicos se sobrepuseram ao interesse de se fazer grandes histórias. Dias atrás Greg Rucka salientava isso numa entrevista.

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  6. Uma das melhores hq’s da Marvel que já li. Tenho guardada essa edição. Adorei a forma como o autor conseguiu dar personalidade e drama ao Dr. Destino. ele consegue ser mais humano que muito super herói. O lado filosófico, apesar de sutil, também é muito bem explorado. Cada ação, seja dos vários magos no templo no começo da história, seja as maquinações de Mefisto, ou o plano secreto de Von Doom no final, é tudo tão bem amarrado que me deixou de boca aberta. É como o Dr. Estranho fala no final, será que eles realmente falharam, ou tudo não fazia parte do plano de Destino?
    E quanto à arte? Apesar da arte final não estar apurada como em Hellboy, Mignola faz muito bem pros olhos. Gostei também do recurso das páginas terem bordas quando os personagens estão no mundo, e vazadas quando eles vão pro inferno. Hoje em dia, isso é meio gratuito, mas na época, isso foi inovador, não? E ainda assim, surte um ótimo efeito.
    Essa hq é mesmo um clássico, e não envelheceu nada.

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  7. Lembro que comprei essa HQ A muitos anos atrás, quando eu fazia o ensino medio, sai da escola e entrei em uma banca de jornal que ficava na praça em frente, tava jogada no meio das outras, tabelada com o preço de R$ 2,00 míseros reais, o dinheiro do lanche, comprei na hora e voltei caminhando e lendo para casa, nunca me arrependi de ter comprado. Um puta roteiro e uma puta arte, nunca tinha visto o Dr. destino ta foda e nem o Dr. estranho, essa é uma das Hqs que guardo com orgulho na prateleiro.

    Ah sim, quem não tem ela, compre que vai valer a pena, pode crer.

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    1. Essa HQ tem um valor inestimável pela sua qualidade e pelo fato de que dificilmente Mike Mignola desenhará novamente algo para a editora (mas nunca se sabe…)

      Quem tem deve mesmo guardar com carinho na prateleira…

      Abraços!

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