HELLBOY – A MÃO DIREITA DA PERDIÇÃO E UM MACACO COM UMA ARMA NA MÃO, DARK HORSE comics

Por Venerável Victor “nunca deixe uma arma com um macaco” Vaughan

HELLBOY expressionismo alemão misturado com Jack Kirby”

                                                                                                                        Alan Moore

Img-de-CapaHBNascido nas profundezas do Inferno, Hellboy cujo nome verdadeiro é “Anung un Rama” é um enorme ser de aspecto diabólico, filho de um demônio com uma feiticeira. Foi descoberto pelo Professor Trevor Bruttenholm e soldados Aliados nas ruínas de uma capela nas Ilhas Britânicas em 23 de dezembro de 1944, após ter sido invocado do Inferno por uma ação conjunta de Rasputin, o monge louco e da Alemanha Nazista, que havia criado o projeto Ragnarok, com o intuito de trazer o Apocalipse à terra. Hellboy, todavia, mostrar-se-ia de boa índole. Assim Bruttenholm criou o pequeno demônio, ensinando-lhe a importância de ser humano, e treinou-o para combater as forças das trevas. Hellboy inclusive ganhou “status honorário de humano” das Noções Unidas em 1952.

Hellboy – criado por Mike Mignola

Ao atingir a maioridade, Hellboy passou a integrar a B.P.R.D. (Bureau of Paranormal Research and Defense) ao lado de figuras como Abe Sapien – um Icthyo sapiens, similar ao Tritão –  e Liz Shermam – uma mutante pirocinética –  aliada e grande amor do herói.

Suas aventuras combatendo o mal levam-no a viajar por todo o mundo enquanto enfrenta ameaças tão diversas como vampiros, lobisomens, fantasmas, monstros, antigos deuses da noite, ladrões de túmulos, golens, e finalmente, os mais importantes dos seus inimigos: um grupo de Nazistas – que sobreviveu até hoje numa câmara criogênica – e o espírito imortal de Rasputin, que assombra Hellboy com revelações sobre o seu verdadeiro propósito e o seu destino de destruir o mundo que tanto ama

Foto original do Professor Trevor Bruttenholm e soldados Aliados com o Jovem Hellboy

Esqueça o Hellboy fodão, imortalizado na cultura pop graças as ótimas adaptações do vermelhão, feitas por Guillermo Del Toro para o cinema. Hellboy é muito mais do que a gente conhece pelos filmes. É um personagem de tramas mais densas e sombrias.

O protagonista é um detetive para casos envolvendo o mundo paranormal. Um menino vindo do inferno que acaba se tornando um dos maiores heróis da humanidade na luta contra o mal. Sim, porque Hellboy não é exatamente um anti-herói. Se tirarmos os chifres, a cauda e a pele vermelha ele é apenas mais um detetive durão, solucionando casos misteriosos.

Aliás é aí que está a grande sacada do seu criador Mike Mignola – artista americano ganhador do Eisner, o Oscar dos quadrinhos -, nas histórias o aspecto demoníaco de Hellboy não importa, não causa estranhamento, os personagens já vêem o herói como um humano qualquer. E após algumas histórias o efeito em nós, leitores, é o mesmo.

A mão direita da perdição

Essa edição originalmente publicada em 2000. Além da história título, apresenta vários contos curtos, ideal para quem quer adentrar o universo demoníaco de Mignola. A edição é dividida em três momentos. O primeiro arco de histórias é chamado de “Anos Dourados” e é composto de três histórias e se passam entre as décadas de 40 e 50.

Panquecas é a primeira história e se passa no México, em 1947, trazendo um Hellboy menino, teimoso e curioso, recusando-se a experimentar panquecas no café da manhã. A mensagem dessa história é clara: o personagem poderia ser qualquer um de nós.

O grande barato dessa história é a divertidíssima repercussão dos demônios, na cidade de Pandemonium, a capital do inferno, ao constatarem que Hellboy experimentou panquecas.

Reza a lenda de que quando a Dark Horse pediu uma história sobre Hellboy jovem, Mignola não estava com a menor vontade de escrever e sugeriu uma publicação de duas páginas apenas com Hellboy comendo panquecas, uma história feita “nas coxas” por assim dizer. Mas o pequeno conto tornou-se uma das histórias mais populares, responsável direta pela publicação futura de Hellboy Jr.

O conto A natureza da fera serve pra ressaltar novamente o lado humano de Hellboy, e como o herói é falível também. Como eu disse anteriormente, esqueça o herói fodão do cinema. Nos quadrinhos Hellboy erra e apanha muitas vezes. No primeiro conto ao enfrentar um dragão, Hellboy se salva por pura sorte. A história é baseada em uma lenda inglesa que conta a luta entre São Leonardo e um dragão. Diz a lenda que durante a batalha no local onde o santo lutou, o sangue que caiu ao chão fez brotarem lírios, que até hoje crescem numa região pertencente a West Sussex, na Inglaterra.

Em Rei Vold, Hellboy vai até a Noruega a pedido de seu pai adotivo, ajudar um velho amigo dele. Chegando lá encontra Edmond Aickman, que está investigando o caso de um fantasma chamado King Vold que tem aterrorizado a região com seus cães fantasmas. Hellboy acaba constatando que Aickman não está interessado apenas em desvendar o mistério e acaba levando uma surra de um dos cães fantasmas de Vold. Aqui é importante destacar o conhecimento de Mignola de diversas mitologias e culturas, resultado de pesquisas para compor o universo de Hellboy.

A segunda parte desta graphic novel é chamada de Anos da Maturidade se passa entre as décadas de 60 e 80, e aqui vemos um Hellboy um pouco mais cínico e bruto, depois de anos de investigações e pesquisas paranormais. Este arco, também divido em três histórias, nos leva inicialmente ao Japão, onde vemos o vermelho em mais uma história solo, enfrentando cabeças sem corpo em uma antiga casa mal-assombrada.

A segunda história apresenta um médium que, ao tentar acessar o mundo espiritual através do uso de ectoplasma, acaba sendo consumido por uma criatura abissal. Hellboy é chamado pela assistente do médium e tenta salvá-lo. A criatura convocada é claramente inspirada nos monstros “tentaculosos” de H. P. Lovecraft, umas das grandes inspirações de Mignola.

A última história do arco chama-se de “Vârcolac”,  que é um vampiro romeno, considerado o mestre de todos os vampiros, capaz de causar eclipses. Hellboy encontra a criatura ao caçar a condessa Ilona Kakosky, que também é um vampiro. A história nos dá mais uma pista sobre a identidade de Hellboy quando a condessa diz:

“Ele vai destruí-lo completamente, não pelo que você é, mas pelo que poderia ser e não é.”

Aqui começa o terceiro arco onde temos as duas histórias mais importantes nessa edição: A mão direita da perdição e A Caixa do mal ou no original “Box full of evil”. São histórias não  datadas, o que nos faz crer que se passam nos dias atuais. Na primeira história Mignola faz uma retrospectiva da origem de Hellboy, na qual o próprio demônio conta sua história para um padre chamado Adrian Frost, filho de um grande inimigo de Hellboy o Professor Malcolm Frost. Ao final da história o padre entrega a Hellboy uma pista intrigante que faz referência a sua mão de pedra e o perigo dela cair em mãos erradas.

A última história, “A caixa do Mal”, nos traz a dupla Hellboy e Abe Sapien em uma investigação sobre um misterioso assalto, no qual foi usada inclusive uma “mão da glória”, um artefato de magia negra capaz de abrir todas as portas e paralisar pessoas. A mão da glória é feita a partir da mão decepada de um enforcado. Com o decorrer das investigações descobrimos que um homem chamado Igor Bromhead, roubou uma caixa na qual um demônio foi aprisionado.

Mais adiante o demônio é libertado e sob o controle de Igor conta que Hellboy carrega a Coroa do Apocalipse e que sua mão carrega um valioso poder. Para se apossar dos dois itens Igor terá que acabar com Hellboy, mas as coisas não saem como planejado. Esta história é interessante pois mostra um Abe Sapien muito mais durão do que o visto no filme e novamente explica muita coisa sobre a origem de Hellboy.

Acompanhando o personagem nessas histórias fica clara a evolução de suas características, tanto no nível do próprio personagem em sua linha do tempo como no do roteirista. Mas uma coisa não mudou: Ele é um herói E TAMBÉM um demônio, uma força do mal que pratica o bem pelo uso de seu livre-arbítrio; uma criatura que tem todo o potencial para a destruição e iniquidade, mas que também tem a capacidade de escolher seguir outro caminho; um pária renegado e assustador que vive o conflito entre sua natureza sombria e suas virtudes latentes. O que me faz lembrar de uns sete bilhões de vizinhos que moram aqui perto…

Na semana anterior, aqui no Santuário

semana#4

Anúncios

28 comentários sobre “HELLBOY – A MÃO DIREITA DA PERDIÇÃO E UM MACACO COM UMA ARMA NA MÃO, DARK HORSE comics

  1. O Pessoal do Santuário não poderia deixar de publicar um post a respeito de um dos personagens mais legais dos 90.

    Além da profusão de bagagem mental, social e psicológica do Hellboy, tão bem abordada aqui, vale mencionar tambem o quanto o estilo da arte de Mignola, com traços angulosos e boa utilização de preto, se tornam presença e marca nas histórias do personagem.

    Curtir

  2. Cara, o autor dessa matéria está de parabéns. Completa sem ser cansativa, abordando as diferenças do filme para os quadrinhos e nos apresentando a maravilhosa criaçao de Mignolia.
    Adorei mesmo, estão de parabéns.

    Curtir

  3. Caraaaaaca…. finalmente aquilo que faltava nesse Santuário foi feito… Victor, esse é você elevado ao cubo! Desculpa roubar sua expressão, mas HELLBOY É TUDO NA VIDA DAS PESSOAS!!! Eu sou suspeito pra falar, porque sou fã fanático do Mike Mignola, acho o traço dele nada menos do que genial e inimitável (tanto que muitos que começaram imitando ele, acabaram achando seu próprio caminho, mantendo seu estilo próprio, mas jamais emulando a arte dele). Não vou comparar Mignola com Jack Kirby, Moebius nem com Alan Moore… até porque, as novas gerações devem procurar inspiração também nele, que está no mesmo patamar dos outros mestres. Victor, parabéns pelo artigo arrasador! Tinha que ser você…!
    =)

    Curtir

  4. Se tem um cara interessante do qual falar é esse, são muitas histórias misturando culturas e mitologias antigas formando uma trama muitas vezes surpreendente, e também não deixa falhar na pancadaria, por vezes ele é muito louco.

    Curtir

  5. Grande personagem, grande artista e grande texto. Se quem não conhecia Hellboy não ficou com vontade de ler as histórias do rapazinho do Inferno, é… bem, só vou dizer que não sabe o que está perdendo.

    Curtir

  6. Verdade!!! Esses artigos instigam mesmo a você ir atrás daquela HQ que você viu na sebo e não comprou. A da Mulher-Maravilha foi o caso na matéria passada… e agora este, A Mão Direita da Perdição esteve em minhas mãos e estava barato demais… não comprei, na época eu era só do eixo Marvel/DC, mas agora nem tanto.
    Nem lembrava mais do HellBoy de Mignola(herege…eu sei) vou atrás, nunca é tarde!

    Ah, tem Desenhista que ficam eternamente associados a um personagem, e Mignola = Hellboy.

    Curtir

  7. Hellboy é muito bom. Tenho quase tudo que saiu no Brasil, mas ainda nõa atingi minha meta de ter tuod que saiu por aqui com o personagem. E no momento isso vai ter de esperar, pois ando meio sem tempo (R$) hehehe

    Curtir

  8. Nunca li nada do Hellboy, confesso que só conheço o personagem dos dois filmes do Guilhermo Del Toro, que me parecem no geral bem fiéis ao conceito do criador, não? Realmente neles o Hellboy é mais Clint Eastwoodzado, mas mesmo assim temos diversas cenas onde o chifrudinho se dana pra valer na mão dos antagonistas. Também adoro o Abe Sapien e a Liz, realmento todo o elenco de suporte do personagem é muito interessante.

    Curtir

  9. Gosto bastante de Hellboy, mas não conhecia isso das Panquecas e adorei!

    Alias, o texto tá muito bom, fazendo referencias que explicam bastante coisas pra pessoas como eu que pegam partes de historias e tal .XD

    Curtir

  10. Hellboy é uma das grandes séries de BD que eu conheço e sigo. Mignola tem um traço muito estilizado e próprio cheio de expressividade, e não é possível dissociar o grafismo apresentado das estórias ricas de pormenor. É impossível pensar, ou imaginar, Hellboy em qualquer outro registo gráfico! Mignola conseguiu impôr os seu estilo em que imperam o negro e as sombras, acompanhadas pela mancha vermelha do chifrudo, e com muitos amarelos/laranjas que dão o toque de magia colorida. Sem este equilibrio Hellboy não seria a mesma coisa…
    As estórias são óptimos contos de detective no plano paranormal. Muito bem construidos, tenebrosos e espalhados por locais de todo o planeta. Até Portugal teve direito a uma estória passada em Tavira (Algarve).
    Bom post Venerável Victor!
    Já agora… para quem quiser ver Hellboy em todo o seu esplendor tem que gastar um pouco mais de dinheiro. A arte de Hellboy respira e explode nas edições de Luxo “Library Editions” da Dark Horse. Vale a pena! Formato gigante, papel brilhante de qualidade e a capa é coberta a linho. O único senão é que temos de aspirar o pó da capa de vez em quando…
    😉

    Abraço

    Curtir

  11. Sobre o personagem meu conhecimento não é muito profundo, embora pelo fato de ter que comentar o filme para meu extinto fanzine, o Cine HQ, eu tivesse que pesquisar um pouco (e até gostei). Não curto muito o estilo artístico do Mike Mignola, embora eu ache que ele trabalha sombras como poucos. O que me chamou a atenção mesmo foi a forma como você encerrou seu texto, comparando o comportamento humano com o do Hellboy. É isso mesmo, embora no nosso caso, a aparência de demônio não seja a externa. Bem e mal habitam dentro de nós. Nosso livre arbítrio é que nos faz optar. Outro dia, elogiei um amigo, o qual já ofendi e ele revidou. Mas passados anos, descobrimos o lado bom um do outro, a ponto dele me responder que tem receio de me decepcionar, já que ficou feliz com meu reconhecimento pelo lado bom dele. Enfim, como ele mesmo me disse, é a vida. Estamos nela para aprender.

    Ah, VVV, não resisti e reli a mini da Mulher-Maravilha Um Por Todos, graças ao seu texto! Que delícia (nada que lembre sucesso musical brega…)! Abraços!

    Curtir

  12. Olha, a Dark Horse tem excelentes títulos e personagens famosos no cinema e na literatura (o Predador & Alien; o universo Star Wars, entre outros mais) que eles possuem os direitos de publicação mas o Hellboy é sem dúvida o maior tesouro que essa editora teve em mãos até hoje! E a minissérie da DC: Odisséia Cósmica, com roteiros do Jim Starlin (putz, o cara criou o Thanos!!!), mais a arte do mestre Mike Mignola, putz, é algo que guardo no coração e em casa no armário, assim como todos os álbuns do meu macaco vermelho dos infernos preferido, que o autor se inspirou na minha personalidade para criar! 🙂

    Vai aqui o link do site oficial do cara; http://www.artofmikemignola.com/

    Merece a visita, devotos!

    Curtir

  13. Essa definição do Alam Moore sobre a obra do M. Mignola é sensacional !!! Concordo plenamente com o britânico, muita gente detesta o traço do Mignola mas é perfeito para o universo do Hellboy, fora que os roteiros desse personagem vieram para tirar a indústria de um marasmo criativo nos anos noventa (somente a Vertigo se salvava na DC). Me agrada muito a liberdade que esses caras tem em editoras independentes como a Dark Horse e morro de rir (já que os autores é que são donos dos direitos autorais de suas criações lá) quando o cara fala que uma hora vai matar o Vermelhão !!!! rsrsrsrsrs É ,ele pode fazer isso mesmo, mas seria burrice agora que ele ainda tem muito gas pra gastar e nos brindar com esse psicodelismo art déco ….

    Curtir

  14. Se é uma questão de preferência, eu PREFIRO o traçado estilizado! Na verdade o nome certo seria o traçado AUTORAL ! Se combinar isso com um belo roteiro, como também nas edições do Animal Man das novas 52 da DC, aí estamos mais perto de ter uma obra de arte.

    E já que estamos falando de Hellboy, pro inferno com a mesmice !

    Curtir

  15. Muito bom! ACho que independente da questão “spoilers” esses artigos instigam as pessoas a buscar os quadrinhos do Hellboy e do Mignola que tem vários outros trabalhos também fantásticos!
    Tem gente que não curte o traço estilizado, mas aí é questão de preferencia. Ainda assim o cara é um tremendo contador de histórias!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s