A Morte do Batman!

Img de CapaRelembrando “Os grandes álbuns em quadrinhos 3 – A Morte de Batman”,  na espetacular Terra 2 original!

Roteiro de Paul Levitz, desenhos de Joe Staton e arte final de Dick Giordano e Dave Hunt.

Publicado originalmente em 1979 nos Eua nas revistas Adventure Comics de 461 a 463 e no Brasil em um álbum reunindo todas as edições pela Ebal Editora em 1980.

Por Rodrigo Garrit

Embora não seja um roteiro genial e também até certo ponto ingênuo, essa história marcou época e foi um divisor de águas para a Sociedade da Justiça, que antes da Crise nas Infinitas Terras, tinha uma identidade própria, e caso alguns não saibam, veio a existir muito antes da Terra 1, tendo sido por anos a fio a Terra “oficial”. Mas se o roteiro é ingênuo e carece de genialidade, ao mesmo tempo não está nem um pouco preocupado com isso. A história pontua muito bem como os quadrinhos eram feitos no início dos anos 80, e de diversas formas, consegue convencer e até mesmo emocionar, uma proeza que a maioria dos roteiros contemporâneos parece ser incapaz de reproduzir.

Antes de falar sobre a história, é bom lembrar que ela se passa na Terra 2 original, o berço da Era de Ouro dos heróis. Então esqueça a reformulação pós-crise, onde as Terras foram unificadas e a Sociedade passou a existir no passado e inspirado os heróis da Liga da Justiça. Esqueça também a atual versão da Terra 2 publicada após o reboot da DC; são versões quase tão distintas dos personagens quanto foram Hal Jordan e Barry Allen na época que substituíram o Lanterna Verde Alan Scott e o Flash Jay Garrick.

Tendo em mente essas diferenças, e também que, em algum lugar, as boas histórias nunca morrem, nunca deixam de existir, apenas ficam um tempo em pausa aguardando o momento de voltar a ativa de novo, vamos fazer uma análise da história e descobrir tudo o que ela viria a inspirar, anos depois.

Imagine duas Terras gêmeas, cada uma igual ao globo esverdeado em que vivemos.

No início havia a Terra 2 . Bom,  no começo ela não era chamada de “Terra 2”, mas foi onde surgiram os primeiros heróis da Era de Ouro dos quadrinhos. Nessa Terra, um foguete trazendo o pequeno Kal-l de Krypton presentou a Terra com o primeiro e o maior de seus super-heróis. Kal-l nunca foi Superboy e começou a atuar como Superman no início da Segunda Guerra. Logo, outros homens e mulheres se inspiraram em seu exemplo e se juntaram a ele, formando assim a primeira equipe de super-heróis da história: a Sociedade da Justiça da América. Ela era formada por Flash (Jay Garrick), Pantera, Átomo, Sandman (Wesley Doods), Gavião Negro, Senhor Destino, Lanterna Verde (Alan Scott), Homem Hora, Mulher Maravilha, Espectro, Canário Negro, Doutor Meia Noite e outros.

A Sociedade da Justiça da América

Algumas teorias envolvendo a existência de universos paralelos se mostraram verdadeiras, quando descobriu-se a existência de outra Terra, a que veio a ser conhecida como Terra 1, e onde a Era heroica foi iniciada vinte depois em comparação a Terra 2.

As similaridades entre as Terras eram enormes, mas havia sutis diferenças. Além do foguete kryptoniano que trouxe o jovem Kal-el ter chegado anos depois do de Kal-l, algumas contrapartes se mantiveram fieis até certo ponto entre as Terras, com dois Supermen, dois Batman, e dois Flashs e Lanternas Verdes, embora esses dois últimos fossem títulos usados por pessoas diferentes que na Terra 2, Barry Allen e Hal Jordan, respectivamente, enquanto que ao mesmo tempo, houvessem casos de heróis únicos, como o Senhor Destino que só existia na Terra 2 e o Aquaman que só podia ser encontrado na Terra 1, por exemplo.

A situação da Terra 2 durante os eventos que levaram à morte do Batman era a seguinte: Bruce Wayne é o comissário de policia de Gotham City, e abandonou a carreira de vigilante quando sua esposa, Selina Kyle Wayne – a Mulher Gato – Foi morta. Helena Wayne, a filha do casal adotou secretamente a identidade de Caçadora e ingressou na Sociedade da Justiça, onde o Robin também atua. Ele revelou saber a identidade verdadeira dela, e embora não tenha se manifestado a respeito, é muito provável que Bruce  – o melhor detetive do mundo –  soubesse também. Seu silêncio poderia ser entendido como um ato de aprovação.

As capas originais de Adventure Comics de 461, 462 e 463 onde a história foi publicada nos EUA.

Nessa ocasião, os membros ativos da Sociedade são o Lanterna Verde, Flash, Pantera (recuperando-se de um ferimento, e impossibilitado de atuar em campo), Robin, Caçadora e Poderosa. É interessante ver que a personalidade da Poderosa apresentada aqui foi mantida intacta e incrivelmente fiel quando ela foi escrita por Keith Giffen e J.M. De Matteis no título da Liga da Justiça Internacional, anos depois. Ela é a mesma pessoa mal humorada e sem papas na língua nas duas situações. Numa das cenas dessa edição, onde ela passa furiosa pelo quarto do Pantera, que está de pernas para cima comendo salgadinhos e vendo tevê, ele pergunta: “Ei, Poderosa, veio me salvar da tevê”? No que ela responde: “Numa só palavra, Pantera: NÃO”! E entra no seu quanto batendo a porta na cara dele, que sempre machista, diz: “Puxa! Mulheres! Não consigo mesmo entende-las! Meu velho mestre é quem tinha razão… faça-as ficarem na cozinha que é o lugar delas”.

Essa cena em especial ilustra muito bem a fonte da qual Giffen e De Matteis beberiam e criariam centenas de outras nesse estilo, o que imprimiria o tom cômico da Liga da Justiça.

Mas esta história não foi escrita para ter um final feliz.

Em Gotham City, um homem aparentemente comum escala um prédio chamando a atenção da policia. Ele exige a presença do comissário Wayne, ou destruirá a cidade prédio por prédio. A ameaça que a principio parece esdrúxula, se mostra real. O homem, que se identificou como Bill Jensen, exibe poderes impressionantes e é capaz de materializar qualquer coisa que imagine além de sacudir as torres gêmeas de Gotham apenas com um gesto de mão. Sem poder fazer muita coisa contra alguém assim, os policiais pedem reforços à Central… interessante que quem faz o chamado é o policial O´Hara… quem se lembra do seriado dos anos sessenta do Batman sabe que o chefe O´Hara era o “fiel escudeiro” do comissário Gordon…

O misterioso Bill Jensen

A Sociedade da Justiça é convocada, e por incrível que pareça, é derrotada pelo maníaco desconhecido… seus poderes parecem não ter limites e nem mesmo o Senhor Destino é páreo para ele. Cada vez mais irritado com a ausência de Wayne, Jensen emana uma aura poderosa de energia e descontrolado começa a causar distúrbios em toda a cidade, abalando carros e prédios pelas ruas. Antes que o pior aconteça, o comissário Bruce Wayne se apresenta.

Curioso esse modelito do Comissário Wayne… me lembra… o Coringa!!

Fica claro que Jensen, assim como todo o grande público, desconhece o passado de Wayne como Batman. Mas seu ódio é de fato por Bruce. Ele alega que fora incriminado injustamente quando o mesmo era promotor, e que após sua prisão, Wayne conseguiu tornar-se comissário.

Jensen não está para brincadeira e desencadeia uma torrente de energia destrutiva contra Wayne, que desaparece. Mas ele percebe que o homem não foi desintegrado, ele pulou na marquise do prédio e desapareceu. Transtornado, Jensen ameaça lançar os membros da Sociedade da Justiça que continuam desacordados do alto do prédio, até que Wayne retorne.

Quebrando uma antiga promessa, Bruce veste o traje de morcego mais uma vez a fim de salvar seus colegas e toda a cidade. Ele retorna e fica frente a frente com Jensen, enfrentando sem medo apesar dos enormes poderes do enlouquecido homem. No meio da luta, uma rajada de energia queima parte do traje de Batman e sua máscara, e então ele vê que Bruce e Batman são a mesma pessoa. Num ato de fúria extrema, Jensen libera toda a energia de seu corpo, mas Batman se joga contra ele, e como resultado, ambos morrem diante dos olhos da Caçadora que acabara de acordar.

Bruce é enterrado ao lado de Selina, e seus túmulos ficam em frente aos de Thomas e Matha Wayne. Interessante que nessa Terra, Dick também pretendia assumir o manto de Batman e continuar seu trabalho – lembrando que aqui não houve Novos Titãs e ele nunca chegou a se tornar Asa Noturna – mas Helena o convence do contrário, afirmando que eles podem continuar o trabalho de Batman como Robin e Caçadora, mas que ninguém jamais será capaz de substituir a lenda. E assim foi feito. Mas o detalhe é que todos viram a batalha e com isso a identidade de Bruce foi revelada. Sendo assim, Dick e Helena abrem mão de suas máscaras e identidades secretas, agindo abertamente como vigilantes.

Mas algumas perguntas ficaram no ar. Quem era Jensen? Como ele conseguiu aquele nível tão alto de poder? A Sociedade da Justiça não poderia deixar de tentar encontrar essas respostas…

E com a ajuda do Senhor Destino, chegaram ao verdadeiro responsável pela tragédia: Fredric Vaux, um agente dos Lordes do Caos enviado para destruir para sempre os heróis e suas lendas. Ele usou Jensen como peão, que durante a luta com a Sociedade, absorveu parte de suas energias e agora pretende usá-las para não apenas matar todos os super-herois do mundo, como fazer todas as pessoas esquecerem que eles existiram!

Fredric Vaux, o verdadeiro responsável

Ele consegue lançar um encantamento que varre todo o planeta, dobrando a realidade, apagando todas as memórias e provas da existência dos heróis. Mas, de forma inversamente proporcional ao que Vaux havia feito, o Senhor Destino absorve parte das energias de todas as pessoas de Gotham que se lembravam de Batman como seu campeão e protetor. E de posse desse poder, reverte uma parte do encanto, alterando apenas a revelação pública da identidade do Batman. Ele derruba Vaux, e nesse momento, é como se Batman estivesse ali desferindo o golpe da vitória. Como resultado do feitiço de Destino, todos se lembrarão daquele dia como se Batman e o comissário Wayne tivessem morrido ao mesmo tempo. Essa foi a última homenagem ao legado Wayne concedido pelo Destino, que possibilitou também que Dick e Helena restituíssem suas identidades secretas.

E assim, mesmo em luto, a Sociedade da Justiça venceu novamente!

Eu recebi essa edição de presente do amigo e colecionador Maurício dos Santos Silva, há vários anos atrás. Um presentão! Obrigado Maurício!!!

Saiba mais sobre a nova versão da Terra 2 dos Novos 52 no ótimo artigo do Venerável Victor Vaughan, clicando aqui!

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16 comentários sobre “A Morte do Batman!

  1. Você teve o prazer de receber essa publicação do seu amigo e eu de receber de você ano passado. 🙂 Obrigado por trazer esse trabalho obscuro (agora) de volta para todos poderem curtir. Paul Levitz em raras vezes foi genial (curto dele a “Saga das Trevas Eternas”, que por si só já possibilita a imortalidade dele), mas essa história, apesar de um pouco infantil é para mim fecha com chave de ouro a continuidade da Terra-2 antes da saga Crise nas Infinitas Terras e porque não dizer, de forma orgulhosa.(o Senhor Destino é o CARA)

    Vale lembrar que a Canário Negro (a única que existia no multiverso, assim como o Aquaman que era o único da Terra 1, como você disse)) da Terra-2 se apaixona pelo Arqueiro Verde e vem viver na realidade da Terra-1 com ele e a Liga da Justiça, anos antes dessa memorável história.

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  2. Tenho muitas raridades na casa dos meus pais, mas essa infelizmente não!!!! Ela traz com certeza toda a essência da JSA (não a Era de Ouro em si, já que estamos falando dos anos 80) e o espírito de família, herança que já se via naquela época. Foi citado que o Robin não havia se tornado Asa Noturna, mas nem tinha como, pois essa mudança do Dick Grayson na Terra 1, viria alguns anos depois pelas mãos de Perez e Wolfman (um pouquinho antes da Crise nas Infinitas Terras). Sinceramente a JSA e a Corporação Infinito sempre me fascinaram muito mais que a própria Liga da Justiça. Espero que o trabalho feito em Earth-2 traga todo esse clima e abocanhe muitos novos fãs!!!

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  3. Quando eu colecionava Batman, eu pensava nessa hq como “Ah, já que a Crise apagou a existência dela, nem vou perder tempo procurando pra comprar”. Hoje, eu adoraria ler, só por curiosidade.

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    1. Eu também tive uma época em que pensava assim Lexy, mas eu descobri que histórias bem contadas nunca deixam de existir, e nunca devem ser desconsideradas, não importa o que aconteça.

      Abraços!

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