Crise Final: A história que não foi contada!

 

Uma das mais celebradas, incompreendidas e polêmicas sagas da DC Comics, virou tudo de cabeça para baixo, e muita gente ainda ficou perdida no meio desse vendaval que foi a última das Crises. Mas não pense que a culpa é dos leitores, a saga foi realmente confusa, seja pela narrativa não linear de Grant Morrison, ou pela interferência editorial e a falta de comunicação entre os autores envolvidos na mesma. Isso de fato não vem ao caso, porque apesar dos pesares é uma grande história e merece ser revisitada. Mas o fato é que a verdadeira história da Crise Final não foi contada.

Por Rodrigo Garrit

Vou tentar descrever de forma sucinta os fatos mais importantes e na ordem correta dos acontecimentos para delimitar uma linha cronológica dos eventos. O mal venceu. E com essa premissa, iniciou-se a última das grandes Crises… para quem quisesse acreditar nessa afirmação.

Apesar das contagens regressivas e prelúdios, apesar da série principal e de seus spin-offs, apesar de todas as pistas em histórias anteriores, toda a expectativa gerada pela série “Os Sete Soldados da Vitória”,  os eventos que culminaram na Crise Final, além de não terem sido contados, foram deturpados por versões diferentes de autores distintos. O grande problema de comunicação ocorreu porque enquanto Grant Morrison bolava sua mirabolante Crise Final, muitos outros autores utilizaram o tema em outras publicações, mas isso gerou muitos erros de continuidade, o que confundiu ainda mais a cabeça dos leitores. Pessoalmente, eu prefiro acreditar que alguns fatos aconteceram em outras Terras, já que desde a Crise Infinita ficou estabelecido o retorno não de infinitas, mas de pelo menos 52 Terras paralelas. Isso descomplica um pouco a bagunça.

A série principal, conduzida por Grant Morrison segue todo o estilo “surrefantástico” dele. Desculpe ter inventado essa palavra agora, mas definir o trabalho do escritor escocês é uma tarefa meio complicada. Então, digo que gostei muito da série, li (e reli) algumas vezes, juntei peças dos quebra cabeças, voltei a edições antigas, perdi meu tempo tentando encontrar algum sentido em “Contagem Regressiva” e “Prelúdio para Crise Final”… e é sério, se quiserem ler essas duas últimas, fiquem à vontade, mas elas não tem nada a ver com a Crise Final.

Por outro lado, “Sete Soldados da Vitória” faz muito sentido e ajuda bastante a entender a saga. Agora, voltemos a premissa da Crise Final: O mal venceu.  Houve uma guerra entre Nova Gênesis e Apokolips, e Darkseid levou a melhor. Matou seu filho Órion com uma bala de Rádion, que voltou no tempo e o atingiu em cheio. Mas Darkseid e os outros Novos Deuses não saíram dessa guerra ilesos… seus corpos foram destruídos, e sua essência renasceu na Terra em avatares humanos, porém incapazes de conter sua essência divina e por isso começaram a definhar lentamente. Ao vencer a guerra, um debilitado Darkseid obteve o tão sonhado segredo da Equação Antivida, e com ela espalhou sua mensagem de terror pelo planeta, dominando as mentes de praticamente todos os habitantes da Terra.

Uma versão futura de Metron dos Novos Deuses, já plenamente restaurada, volta ao passado e entrega a Anthro, o primeiro menino da Terra, o segredo do fogo e também o código genesiano que protege a mente humana da antivida. Em determinado momento, também vindo do futuro, vemos Kamandi, o ultimo menino da Terra, que vem até Anthro pedir que lhe estregue essa arma contra os deuses.

Concomitamente, os monitores do multiverso viram-se enfrentando crises particulares em suas próprias Terras, e tendo que lidar com Mandrakk, o monitor renegado, vampiro da existência que se alimenta da Sangria, (quem acompanhou a série “The Authority” da Wildstorm sabe do que se trata).  A Sangria é a “cola” que une os universos, delimitados pela Muralha da Fonte, dependendo de que realidade você esteja olhando. Coube então ao Superman salvar todas as Terras do Multiverso, derrotar Mandrakk, e usar o elixir da vida retirado da Sangria para recuperar a saúde de Lois Lane, que estava à beira da morte. E isso logo depois de ter voltado do século 31 onde ajudou a Legião dos Super Heróis de 3 mundos a vencer o Superboy Primordial e sua legião de supervilões. Mas ele não fez isso sozinho… bom, hipoteticamente, o conceito do Superman existe em todas as Terras, sendo ele representado por versões do Capitão Átomo, Dr. Manhattan, Capitão Marvel, Apollo, Mr. Majestic, Supremo, os Supermen nazista, soviético, e afro-americano presidente dos EUA, entre outros. Voltando a sua própria Terra, Superman encontra o planeta em frangalhos, dominado pelos “Justificadores” de Darkseid e à beira do colapso, com a antivida se espalhando rapidamente.

Pouco antes da antivida dominar o mundo, Batman havia  sofrido o Diabo nas mãos do Dr. Hurt durante a saga “Descanse em Paz”, ele sobrevive a queda de um helicóptero, volta para a caverna e mal tem tempo de se recompor quando é chamado para o caso de “deicídio” – a morte de Órion. Batman entra em ação ao investigar a morte do Novo deus; ele recolhe a bala de Rádion, (uma substância “deotóxica”, capaz de matar os deuses do Quarto Mundo), mas é capturado e usado como cobaia pelos cientistas de Apokolips, e colocado numa máquina da Fábrica do Mal a fim de quebrar seu espírito e torna-lo o modelo de um exército de fieis seguidores de Darkseid. Alguns clones dele são gerados em laboratório, mas os cientistas de Apokolips são sabiam onde estavam se metendo ao brincar com a mente do homem morcego… ele não apenas se liberta da lavagem cerebral como enfrenta Darkseid no mano a mano, e apesar de sua repugnância em relação a armas, ele dispara contra o deus do mal, atingindo-o em cheio. Porém essa bala volta no tempo e mata Órion na edição 1 da série… Mas antes de morrer, Darkseid lhe aplica a Sanção Ômega, “a morte que é vida”, cujo único que conseguiu sobreviver foi o Sr. Milagre, justamente na saga dos Sete Soldados da Vitória. Quase todos os clones de Batman gerados em laboratório são destruídos, mas Superman encontra um deles e acredita que seja o verdadeiro Bruce Wayne morto. Mas Batman é na verdade lançado ao passado, onde é condenado a viver diversas encarnações de dor e sofrimento. Sua primeira parada é na pré-história, onde encontra Anthro já idoso com os símbolos de proteção à antivida pintados no rosto. Como último estratagema de Darkseid, caso Batman consiga retornar, trará com ele uma terrível ameaça de destruição de nível universal… Antes de voltar do Século 31, Brainiac 5 mostra ao Superman a “Máquina dos Milagres”, um aparelho criado pelos “controladores”, uma espécie de “primos” dos Guardiões do Universo, que mil anos no futuro conseguirão construir esse aparelho numa tentativa de emular o poder dos anéis energéticos de realizar a vontade de seus usuários, mas em nível infinitamente superior. A máquina foi confiscada pela Legião e deixada sob os cuidados de Brainiac 5, mas ele permite que Superman tenha um vislumbre da mesma a fim de tentar reproduzi-la no século 21.

Com o prévio conhecimento de como construir a tal máquina, e com o conhecimento adquirido com os monitores do Multiverso, Superman entoa uma determinada nota musical que seria a grande geradora da vida, e com isso ativa a Máquina dos Milagres, que realiza seu “desejo”, fazendo tudo voltar ao que era antes, e concretizando um final feliz. Vemos então os Novos deuses de Nova Gênesis ressuscitados em seus corpos originais, (embora seus avatares na Terra continuem em ação, por isso temos ainda dois Senhores Milagre, Scott Free e Shilo Norman –  Vale lembrar que Shilo é um homem negro, porém, nas páginas de Crise Final, ele aparece sem máscara e vemos que além de branco ele tem traços orientais, e “concidentemente” ele está na companhia do “Time Super Jovem”, heróis japoneses que são os avatares do Povo da Eternidade na Terra. Grande escorregada do desenhista, arte finalista e colorista da história, que confundiram totalmente a etnia do personagem.

Com a aparente derrocada de Darkseid, os Novos Deuses recuperam sua supremacia, Metron que estava usando como avatar um homem paraplégico recupera sua centelha divina e inicia a retomada do seu poder. Esses novos deuses se erguem em um Quinto Mundo onde, contrariando a premissa inicial da Crise, o bem venceu. E é esse novo e restaurado Metron do Quinto Mundo que volta no tempo e entrega a proteção da equação antivida a Anthro, o primeiro menino da Terra, na pré-história, e isso acontece na primeira página do primeiro número da Crise Final.

E a Crise Final que NÃO foi contada, foi justamente a guerra dos deuses, onde Darkseid em um primeiro momento de fato venceu. Só tivemos relances e relatos dessa batalha, já pegando do ponto onde os deuses já estavam na Terra debilitados e usando seus avatares humanos. Será que tal guerra não era para ser presenciada por olhos humanos e mortais? Será que Grant Morrison confiou que ela seria contada de forma decente nos Spin-offs da saga, o que acabou sendo um amontado de histórias confusas e desconexas? Teoricamente isso foi mostrado nos Spin-offs, mas nada daquilo bate… principalmente porque ali, Órion morre numa batalha corpo a corpo com seu pai e não pela bala de Rádion… fora o fato do Sr. Milagre (Scott Free) de posse da equação antivida lutando com um ser que seria a encarnação da “Fonte”… ah não…. só pode ser brincadeira. Isso foi em outra Terra. Uma bem longe. E ponto Final.

As informações que surgiram na internet constam que esse recente reboot/relauch da editora aconteceria logo após a Crise Final, porém os editores voltaram atrás e decidiram manter o universo DC como estava por um tempo… o que teria obrigado Morrison a mudar o final da saga as pressas, o que deixou seu contexto ainda mais confuso. No novo universo DC, vemos que a Liga da Justiça tem como inimigos justamente as forças de Apokolips. Isso significa que o ”Quinto Mundo” foi desconsiderado? A Crise Final não aconteceu? Bom, isso só saberemos com o desenrolar das histórias. Recentemente Morrison revisitou a Crise Final nas histórias do Batman, explicando alguns pontos obscuros, principalmente dessa transição entre as sagas “Descanse em Paz” e “Crise Final”. E como a cronologia do Batman foi uma das menos afetadas na nova DC, creio que haverá uma ponte de ligação entre as duas realidades. Meu balanço final é de que a ultima das Crises foi uma boa história, cheia de momentos climáticos, mas que infelizmente não alcançou o potencial a qual havia se proposto, prejudicando principalmente o seu desfecho.

O que eu gostaria mesmo era finalmente ler os fatos que antecederam a derrocada dos deuses e então ler o verdadeiro final dessa história.

Clique para ler nossa matéria especial que explica em detalhes O Retorno de Bruce Wayne!

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31 comentários sobre “Crise Final: A história que não foi contada!

  1. Eu li a saga duas vezes e desisti de tentar entender, mas agora tudo faz sentido ‘-‘ esses negocios ai de bala voltando no tempo é realmente muito estranho e ficou confuso. Mas com voce explicando haha tudo fez sentido. Parabens pela resenha man, se cuide

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  2. Ótima resenha. Graças a ela consegui entender vários pontos que, admito sinceramente, me deixaram confuso durante a leitura da saga. Não sou grande fã do Morrison, pois acredito que às vezes ele prega a peça da “roupa nova do imperador” nos leitores. Obrigado pelos excelente artigo. Grande abraço!

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  3. Parabéns pelo texto. Muito bom. Fico imaginando como seria um encadernado dessa saga, quais histórias deveriam estar nele. O encadernado americano colocou algumas histórias além da minissérie em seu encadernado para ajudar na elucidação, mas acho que não foi o suficiente.

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  4. A Crise Final foi uma grande homenagem ao Jack Kirby, seus grandes personagens criados na DC estão ali… Um detalhe importante é que o Kamandi (também de Kirby), vem de um futuro apocalíptico (notaram a estátua da liberdade tombada, não?) e pede a arma contra os deuses ao Anthro. Ou seja, ou a antivida voltará a afligir o Terra no futuro, ou aquela pode ser uma realidade alternativa de outra Terra… ou nenhuma das anteriores com o reboot da DC….

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    1. Um arco que pode ser dito como continuação “direta” da Crise Final é a minissérie O Retorno de Bruce Wayne, a qual é muito boa por sinal, contando com diversas referencias de toda história do homem-morcego. Alias, bem que poderia ser feita resenha dela também, ia ser muito bem vinda! ^^

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  5. Parabéns. Curti muito mais a resenha do que a própria série em si. Eu já li duas vezes a crise final e também já li os Sete soldados da Vitória. (tentei ler uma terceira vez e desisti). Sinceramente, não consigo entender nada. Talvez, agora, com esse norte dado pela excelente resenha, quem sabe eu venha a me arriscar novamente. O Problema é essa forma de contar história do Grant Morrisson de maneira “não linear”, isso às vezes (sempre) me dá nos nervos. Das crises, sinceramente, essa foi a pior pra mim, preferindo muito mais a Crise Infinita de Johns à essa de Morrisson. Mas é só uma opinião.

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    1. Você está certíssimo, embora eu não negue que é divertido buscar as informações e juntar as peças, é uma tarefa trabalhosa e nem sempre as pessoas estão dispostas a isso. No caso do Morrison, devido ao histórico dele, achei que valia a pena me dedicar a uma análise mais profunda, e embora não tenha ficado 100% satisfeito (até porque acho que nem ele ficou), achou que consegui pegar um fio da meada e entender o sentido da proposta da série, que não é ruim, mas infelizmente não foi devidamente finalizada. Obrigado pela sua opinião e fique à vontade sempre que quiser! Abs!

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  6. Muito boa a matéria, Crise Final foi de longe, após a Crise original a melhor super/mega saga da DC. Merecia ser revisitada aqui e em todos os outros sites temáticos do gênero.

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  7. Essa historia sobre o fim alterado é bem plausível, pois é exatamente esse o problema do “arco”, o fim não tem coerência com o que é apresentado durante as primeiras edições, as quais por sinal são ótimas. Crise Final é uma baita historia, mas realmente chega a ter certos momentos ridiculamente complicados, principalmente em sua 7 edição, em minha opinião.

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    1. Com certeza, esse final final realizado pela Máquna dos Milagres foi bem fraco, apesar do esforço dele em explicar os “comos” e os “porques”. Enfin, um final decepcionante para uma história que tinha tudo pra ser um marco. Lamentável….

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  8. Bem, deixei de ler quadrinhos um pouco antes da publicação deste material. Sinceramente gostaria de ter lido pelos 7 Soldados da Vitória que eu acredito que com o Morrison tenha ficado bem bacana!!! mas o melhor mesmo é ver a verdadeira história que pelo que eu li, infelizmente não foi bpublicada. Uma pena que nem tudo que um escritor almeja (mesmo sendo o Morrison) não vai literalmente pro papel, ou de fato oficializado!!

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