Legado heroico: Uma última lição antes de partir!

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monteArte Sacra: Os Contos do Santuário! 

Mais alguns distintos devaneios trazidos até vocês pela Nau Santuário, capitaneando os mares da vastidão improvável da qual são feitos os sonhos…

S_Final

Por Rodrigo Garrit

“Seu coração será devorado pelas minhas flechas…”

… disse o guerreiro da tribo de Nhanga. E agora, vejam só, suas armas viraram peças de museu. Não parecem tão ameaçadoras agora. Mas estou divagando. Claro que prefiro essa flecha envenenada pendurada numa parede para apreciação pública do que fincada no meu peito.

– Lembra-se das larvas cintilantes da realidade ficcional que criamos sem querer?  Foi sorte elas terem evoluído para borboletas metafóricas e se converterem em centenas de letras de punk rock alternativo. – diz uma voz metálica que surge de repente, ao dobrar o corredor de acesso do museu vazio e me encarar fixamente. É incrível que ele tenha conseguido me surpreender, mesmo numa cadeira de rodas, continua o mesmo furtivo de sempre.

– Ou seja, perderam-se para sempre. – respondo, com um enorme sorriso no rosto. Há tempos não encontrava pessoalmente o meu amigo.

– Veio para uma revanche, Diego?

– Você deu sorte da última vez… mas não vai me vencer de novo no xadrez holográfico, Chris!

– Vou sim, e você sabe. Mas não foi por isso que o chamei. Ando meio nostálgico. Quis lembrar um pouco o passado.

– Não me leve a mal… mas pra quem costumava se arriscar entre uma brecha e outra na realidade, “lembrar os velhos tempos” não parece muito…

– Grande parte do acervo desse museu está aqui por doação de um “benfeitor desconhecido”, sabe?

– É. Ouvi dizer.

– Alguns itens têm valor inestimável… valeriam milhões no mercado negro… mas nos foram todos doados.

– Generoso seu benfeitor. Alguma ideia de quem seja?

– Ele é rico e altruísta. Esperto ou sortudo o bastante pra sobreviver aos riscos necessários pra adquirir esses itens. Conhece alguém assim?

– Chris… não preciso de mais publicidade. Se foi por isso que me chamou…

– Já fui como você, Diego. Nem sempre fui um inválido dirigindo um museu. Tive meus tempos de aventura… droga, nós tivemos algumas aventuras juntos… antes do… acidente. Foram bons tempos.

– Eu sempre me espelhei no meu pai, Chris… mas foram as suas aventuras que me inspiraram a ser o que sou hoje! Eu devo tudo a voc…

– Tenho acompanhado seus feitos de longe. Nunca pensei que alguém seria louco o bastante pra tentar… os perigos e medos que enfrentou…. mas não foi só por isso escolhi você.

– Me escolheu…?

– Para levar meu trabalho adiante quando eu me for.

– Mas você…

– As pessoas precisam ser inspiradas, Diego. É preciso que haja exemplos positivos de altruísmo, dignidade, justiça… e principalmente… esperança!

– Você ainda tem muito…

– Tempo? Eu não me iludo. Acha mesmo que sou tão forte quanto pareço? A minha vida… depois do acidente, tornou-se um fardo… acha que nunca pensei em desistir?

– Você é e sempre será o meu herói, Chris. E, um dia você vai sair dessa cadeira!

– He, he, he… isso é verdade… de uma maneira ou de outra… bem, obrigado Diego… mas eu estou cansado.

– Eu não sei o que dizer… não sei o que quer…

– Quero lhe fazer um pedido.

– Estou ouvindo.

– Muitas vezes, será mais pesado do que você pode aguentar. A dor vai te estraçalhar por dentro. Você vai desejar desistir. Nunca ter começado. Prometa que quando essa hora chegar… você não vai deixar de acreditar.

– Isso parece uma desped…

– Obrigado por ter vindo, Diego. Agora eu preciso passar por alguns… procedimentos médicos… nos falamos outra hora, ok?

– …despedida…?

– Quem sabe, meu jovem amigo? Quem sabe quando tudo o que temos pode desaparecer de uma hora para outra? Quem sabe quando vamos nos dar conta da dádiva maravilhosa que é viver… mas a grande questão… não é a morte. Ela é inevitável, uma amiga que nos espera para embalar nosso sono final. A grande questão, meu caríssimo amigo… é se o mundo vai estar melhor ou pior depois que formos. Sem falar na terrível hipótese, de nossa passagem não ter mudado nada. Nós somos o que fazemos, Diego. Somos o que deixamos.

Eu queria abraça-lo. Queria falar sobre a diferença que ele fez no MEU mundo. E no quanto eu gostaria de ser ao menos infimamente parecido com ele… significar pra outras pessoas o que ele significou pra mim. Mas em vez disso eu apenas contenho as lágrimas. Forço um sorriso. E falo, tentando disfarçar o embargo na voz: – Hmn… A propósito… algo me diz que além do museu, a fundação também receberá uma nova doação… em breve. Eu acredito muito nos resultados obtidos com a pesquisa das células-tronco…

E ele sorri, me encarando com seus profundos olhos azuis. Então dá meia volta com a cadeira e parte…

– Que bom saber disso, Diego… fico contente. Adeus…  Monte Castelo.

– Até breve, Christiano.

No começo, muitos de nossos sonhos parecem impossíveis, para logo tornarem-se apenas improváveis e, no final – quando usamos plenamente nossa vontade – os tornamos inevitáveis. (Christopher Reeve)

Esse texto foi uma homenagem ao ator que imortalizou nos cinemas aquele que pode ser considerado o maior herói de todos os tempos: Superman!  

Acesse www.christopherreeve.org e saiba como contribuir com a Christopher & Dana Reeve Paralysys Foundation, entidade criada pelo ator em prol do avanço das pesquisas com células-tronco para novos tratamentos e a eventual cura da paralisia resultante de lesões na medula e outras doenças que atacam o sistema nervoso central.

QUEM É DIEGO MONTE CASTELO? DESCUBRA AQUI! 

S_Final

Apenas um cidadão indignado!

Um conto de Diego Monte Castelo.

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Por Rodrigo Garrit

O que estou fazendo nessa fila de banco? Eu poderia ter mandado alguém… mas sei lá, fiquei com vontade de resolver esse inconveniente com o meu cartão pessoalmente. Olhar nos olhos de quem o bloqueou por engano, quem sabe. Eu só não sabia que o lugar estaria tão lotado.

Droga.

Tudo bem. Provavelmente já passei por situações piores em minhas expedições pelo mundo.

(Eu acho).

As horas se arrastam. Sinto como se perdesse um tempo precioso da minha vida. Um tempo que não voltará nunca mais. Eu poderia estar fazendo milhares de outras coisas agora. Bem, acho melhor não pensar tanto nisso. Até que a fila já diminuiu. Depois de cerca de duas horas aqui parado, faltam apenas cinco pessoas. Às vezes sou contemplativo demais. Como agora. Estou tão distraído que levo alguns momentos para perceber a agitação ao meu redor. Então vem a gritaria. O pânico. E o choro desconsolado dos marmanjos. (As mulheres são mais controladas). Cara, eu preciso me benzer. É sério.

Os assaltantes mandam que nós nos deitemos no chão. Como esses mascarados conseguiram entrar no banco com essas armas?

Assalto a banco? Pois é. Com o aumento da vigilância da polícia nos pontos de venda de drogas, os bandidos começaram a procurar outras opções de conseguir dinheiro fácil. Ouvi dizer que havia aumentado e muito a incidência de roubos a caminhões de carga, e esta, por sua vez passou a se proteger com sistemas de rastreamento via satélite e reforço das escoltas. Sendo assim, o próximo alvo foram os bancos. Estão sendo. E comigo dentro.

Droga.

Por que a minha vida é cheia de situações bizarras e perigosas, como se eu fosse um personagem de histórias em quadrinhos? Por que eu não fiquei na minha casa olhando para o teto até anoitecer?

Droga.

Estava quase na minha vez de ser atendido!!!

Droga, droga, droga.

Dez minutos no chão frio. Demora muito até os bandidos de organizarem. Só podem ser amadores. Nós, pobres reféns, ficamos presos no segundo andar do banco. Como estou próximo da janela, vejo que há um deles na porta do banco, disfarçado como um funcionário, e não deixa ninguém entrar. Qual será a desculpa que ele inventou? “Desculpe o transtorno. Estamos em reformas”. Reformas financeiras, com certeza. O pior é que as pessoas parecem estar engolindo. Eu poderia tentar mandar algum tipo de sinal… mas é arriscado. Sabe-se lá o quanto eles estão dispostos a ferir os reféns.

Dois deles entram numa sala reservada com quem eu acredito, seja o gerente carregando as sacolas de malote do próprio banco. Peraí, esses malandros sabiam o horário de abertura do cofre. Hmn… talvez não sejam tão amadores assim…

São quatro ladrões ao todo, mais o cara disfarçado na entrada. O que mais me irrita nesses cretinos é a demora em roubar essa droga de banco. Será que eles não sabem que cedo ou tarde a polícia vai chegar? (É, creio que em algum momento eles consigam chegar.)

Eu já havia decidido não interferir nessa droga toda. Da última vez, quase causei uma tragédia. Não, desta vez, não. Não tenho a menor responsabilidade sobre nada disso. Sou apenas mais uma vítima indefesa deste sistema injusto e violento que assola o nosso…

Droga.

Um dos bandidos acaba de agarrar uma loirinha de seios fartos. Ele a puxa pelos cabelos, aponta uma pistola para sua cabeça e lambe o seu rosto. Agora ele sussurra obscenidades nos seus ouvidos. Ela está chorando. Não acredito no que vou fazer.

Droga.

Juro que se sair dessa com vida, eu procuro um psiquiatra.

Tá, deixa eu me descrever agora. Estou todo rasgado, cheio de cortes e hematomas. Agi por impulso e cai na porrada com os caras. Quase fui baleado. Pus em risco a vida dos outros reféns.

Mas desarmei os bandidos. Agora eu entrego suas armas para um segurança do banco. Sabe, ninguém pode me acusar de ser genial. Admito que tenho até um raciocínio não muito veloz. A arma já está na mão do segurança quando me dou conta de que ele nem tentou me ajudar. Eu tento retê-la comigo, mas é tarde.

Ele aproveita minha guarda baixa e me aplica uma coronhada, fazendo tudo girar ao meu redor. O segurança… os seguranças… todos eles… cúmplices. Foi assim que os caras conseguiram entrar com as armas.

Droga.

Acordo desorientado. Estou surpreso de estar ainda vivo. Não sei se fui muito mal amarrado, mas sei que rapidamente consegui me soltar da corda com que me prenderam.

Eu fecho meus olhos, respiro fundo e algo estranho e inesperado acontece.

Eu me vejo espancando os desgraçados com uma fúria que eu nem sabia ser capaz de expressar. Essa raiva me possui… me consome… eles acordaram um ódio que nunca senti antes por outro ser humano… algo que já estava aqui dentro, reprimido… algo com que terei que viver daqui pra frente. Estou prestes a cometer meu primeiro assassinato…

…mas o gerente agarra meu braço, tentando me conter. Quase quebro seu nariz por reflexo. “Já chega, amigo. Se você matá-lo terá sérios problemas”, ele diz. Eu respiro fundo. A adrenalina cede. Meus músculos tremem. A moça loira vem até mim, chorando.

– Moço… obrigada. Se tivéssemos mais alguns heróis como você…

– Herói? Eu? Não viaja! Meu nome é Diego. Eu sou apenas um… cidadão indignado.

Eu deveria ficar e prestar esclarecimentos à polícia, mas vou ficar devendo essa. Além disso, ninguém parece preocupado em impedir minha saída. Só quero chegar em casa, trocar de roupa e descansar. Este dia está sendo péssimo.

E meu cartão de crédito continua bloqueado.

Droga.

Monte Castelo
Monte Castelo e personagens relacionados são marca registrada de Rodrigo Garrit. Todos os direitos reservados. As imagens usadas para ilustrar esse post foram feitas por Milton Estevam.

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